quarta-feira, 23 de maio de 2018

AÇÃO

Enquanto não se fizer nada, nada será feito. É justamente com estas frases óbvias, que concluem coisas tão evidentes, que conseguimos pensar um pouco mais. Pois, se por um lado parece tão incontestável que nada será feito enquanto não se fizer nada, por outro lado parece que há pessoas que acreditam no contrário. Faltam-lhes as ações. Esperam que as coisas aconteçam e que tudo fique pronto e terminado sem tomar ação alguma. Mas, acredite, enquanto não se fizer nada, nada será feito. Este é o primeiro princípio da ação, criado por mim, neste exato momento. Taí, gostei desse negócio de princípio. Acho que é coisa de matemático. Princípios, teoremas, classificações e outras ferramentas teóricas. Então vou continuar nesse esquema.
As ações classificam-se em dois grandes grupos: ações conscientes e ações inconscientes ou automáticas. As primeiras, as conscientes, por sua vez, subdividem-se em dois conjuntos: as ações que queremos fazer e aquelas que não queremos. Quanto às inconscientes, a gente nem sabe se quer fazê-las ou não. Simplesmente fazemos, automaticamente. Se tem alguém que afirma que todas as ações que realiza são conscientes e voluntárias, esse alguém está enganado. Talvez ele não consiga perceber que boa parte daquilo que faz durante o dia é delegar para o piloto automático. E boa parte daquilo que não delega, faz sem querer fazer. Aqui estão incluídas aquelas coisas que ele pensa que quer fazer, mas que, no fundo, se pensar bem, vai ver que não quer. Não vou me aprofundar nestas classificações, tampouco esmiuçá-las ou justificá-las com argumentos teóricos e filosóficos. Minha função é só cutucar você, leitor. Daí pra frente é contigo. E assim vou partindo para um teorema.
Teorema da ausência de ação: “A ausência total de ação é igual a zero”. Agora é necessário um mínimo de explicação, senão você vai achar que eu estou louco. Então vamos lá. Primeiramente, para sustentar este meu teorema, eu digo que, no Universo, tudo é movimento. Até aquilo que está parado encontra-se em movimento: basta olhar para os seus átomos e verificar o grande e interminável movimento que aí ocorre. A ação é uma constante dentro do mundo atômico. E também conosco, mesmo quando não estamos fazendo nada, no interior de nosso corpo ocorrem ações, independentes de nossa vontade. O nosso pensamento também é formado por ações. Sinapses e impulsos elétricos que não cessam, enquanto houver vida. E mesmo depois do corpo morto o movimento não cessa. Agora é a vez do movimento da decomposição, com sua química, contando com o apoio solidário dos vermes, que se satisfazem ao comer nossas entranhas. O movimento não para, nunca. A ação não cessa, jamais! Tudo se transforma, nada acaba ou desaparece de vez. Como já dizia Lavoisier.
Assim já está bom. Um princípio, algumas classificações, um teorema e uma ou mais cutucadas. Não vou lhe incomodar mais, caro leitor. Vou parando por aqui. Mas agora você já sabe que é impossível parar. A ação nunca acaba...

segunda-feira, 30 de abril de 2018

PENSAMENTO

Ultimamente ando pensando sobre o pensamento. Talvez seja um desafio entender e explicar o pensamento utilizando recursos do próprio pensamento. Mas vamos lá!
Pensamento é tudo. Parece ser tudo. Como disse o filósofo e matemático René Descartes, “Penso, logo existo”. Na verdade, o pensamento não proporciona a existência, mas traz a consciência de que existimos. Afinal, uma cadeira existe, mas não pensa. Elas não têm consciência de que existem. Nós temos. Ou deveríamos ter.
Dentro desta linha de pensamento, podemos nos perguntar quanto de vida estamos tendo sem termos consciência de que vivemos. Qual a parcela de nossas vidas que delegamos para o piloto automático? Quando estamos sob o comando deste programa, seguimos entorpecidos. É como existir sem ter consciência de que existe.
Mas a proposta de vida que quero adotar contrapõem-se totalmente a este automatismo. Quero me ligar no presente, no instante, sempre. Perceber tudo que acontece ao meu redor, usando os cinco sentidos ou quaisquer outros mais que houver. Pensamento no presente. Sentimento no presente. Aliás, quem consegue determinar onde acaba o pensamento e começa o sentimento? Ou vice-versa? Faz sentido dizer que existe um “pensamento sentido”? Ou um “sentimento pensado”?
Tenho uma teoria. Não é nada formal, não foi comprovada, tampouco conta com base estatística. É simplesmente uma suspeita. Eu acho que a percepção do tempo tem a ver com o modo como pensamos. Até aqui não há nada de extraordinário, é o que você, leitor, deve estar julgando. Mas avanço um pouco mais. Acredito que o próprio tempo dilata ou encolhe, de acordo com o nosso pensamento. Pensamento focado, tranquilo e equilibrado nos conduz para o tempo dilatado, mais lento, mais e melhor vivido, no qual conseguimos realizar muito mais coisas. Pensamento desfocado e agitado nos leva para o tempo encolhido, acelerado, não percebido, no qual seguimos automaticamente, ao sabor de infinitos estímulos, correndo atrás das coisas, que não conseguimos realizar. Assim sendo, duas pessoas, uma ao lado da outra, em iguais circunstâncias e sujeitas ao mesmo tempo, creio que elas podem viver tempos completamente distintos, de acordo com seus mundos mentais.
Depois de dizer que o pensamento influencia no tempo ao nosso redor, darei agora mais um passo em minha análise metafísica. Acredito também que o pensamento muda a realidade que nos cerca. A física quântica não só explica esta “mágica” como também comprova que não se trata de fantasia de uma mente mística. É pura realidade. Imagine então o que faremos com o nosso pensamento quando passarmos a usar os 90% do nosso cérebro que permanecem adormecidos? Somos possuidores de um equipamento mental com uma capacidade ociosa incrível! É como se tivéssemos ganhado uma máquina muito avançada, que ainda não sabemos operar. Mas não foi à toa. Um dia usaremos todas as nossas potencialidades. Nosso futuro é glorioso!
Finalmente, só posso dizer que quanto mais penso sobre o pensamento, mais acredito naquela sublime afirmação que há muito tempo foi dita e que consta nas escrituras:
“Vós sois deuses”.

sexta-feira, 30 de março de 2018

PALAVRA

Palavra. Falada. Escrita. Pensada. Verdadeira ou vazia. Comprometida ou inconsequente. Dizemos: “São só palavras”. Mas palavras são tudo.
Com a palavra se decreta voz de prisão. Cerceia a liberdade. Mas também liberta, na voz de um juiz. É faca de dois gumes. Pode dar conselhos positivos ou provocar intriga. É faca de múltiplos gumes. Pode ser interpretada de muitas maneiras, gerando consequências que vão do céu ao inferno. A lei está cheia de palavras. Com elas os advogados dos poderosos encontram caminhos para defender os interesses de seus clientes. Porém, para quem não tem condições, a palavra só tem a oferecer a sua mais fria interpretação.
Palavras que travam, que não saem. Mas nem por isto menos palavras. Valem pelo que deveriam dizer. Porque muitas vezes a palavra pensada tem mais força que a palavra falada.
Palavras precipitadas, a causa de muitos males.
Palavras esquecidas, que fogem da mente. Deixam-nos no vazio. Sentimento e raciocínio sem expressão.
Palavras que mentem, manipulam, distorcem a realidade. Habilmente veiculadas por quem quer dominar. Os seus alvos são pessoas simples, que se deixam enganar.
Palavras que rimam. Dizem que na prosa elas não podem rimar. Então já não sei como este texto classificar.
Para tudo há palavra. Nossa mente racional não admite que nada exista sem nome, rótulo ou explicação. E, para explicar, amontoa palavras. Como se não bastasse as que já existem, de vez em quando surge alguma nova. É a gíria inventando novas palavras.
Elas não acabam. Mesmo em silêncio elas são pronunciadas em nossa mente. O nosso próprio pensamento, parece que ele não vive sem elas. Mas será que Helen Keller, enquanto estava mergulhada em seu isolamento, sem nada ouvir ou ver, criança ainda, será que ela não pensava por não conhecer palavra alguma? E depois, quando Anne Sullivan conseguiu fazê-la entender o que é palavra e para que serve, após dominar maestralmente uma infinidade de palavras, conseguindo entendê-las e expressá-las em maravilhosos discursos, será que só aí ela passou a pensar? As palavras são o pensamento ou elas atrapalham o pensamento? Você já pensou sem palavras? Ou isto não seria pensamento, mas sim sentimento? São só perguntas. Mas perguntas também são feitas com palavras.
Não dá para escapar delas. Cercam e inundam o nosso ser. Mas, mesmo assim, muitas vezes parecem insuficientes, quando nenhuma delas diz o que queremos dizer. Por outro lado, há momentos em que encontramos a palavra exata, quando elas fluem de uma maneira impressionante, encaixando-se perfeitamente umas às outras. É quando elas contornam perfeitamente o pensamento, como uma fina máscara que cobre um ser etéreo. É quando as palavras não atrapalham.
Enfim, o que posso dizer com certeza é que lidar com as palavras é uma arte... Na qual me sinto um eterno aprendiz!

domingo, 18 de fevereiro de 2018

AMIGA E COMPANHEIRA SERINGUEIRA




A força da natureza é impressionante. De um imenso tronco cortado rente ao chão, antiga base de gigantesca seringueira, surgem folhas verdes. É a vida resistindo à brutalidade de um corte assassino. Não há dúvida. São folhas de seringueira, pujantes, viçosas, provavelmente saindo de algo que pretende ser um futuro galho, talvez um novo tronco, se deixarem a natureza em paz... Umas dez ou quinze folhas, tentativa heroica e corajosa para dar continuidade ao mesmo material genético que se pensava estar extinto.
Não resisti. Tirei uma foto. Saquei o celular do bolso e registrei a cena, que certamente passava despercebida pela imensa maioria de todos aqueles que circulavam apressados ao saírem ou entrarem na estação de trem de São Caetano do Sul. Era o final do dia e os últimos raios de sol incidiam quase que paralelamente, tornando o quadro ainda mais bonito.
E agora, ao ver a foto, não me canso de admirá-la. Vejo muitos significados nesta imagem... Penso que daqui para frente, ao entrar ou sair da estação, em minha rotina diária de ir e voltar do serviço, sempre procurarei este aglomerado de folhas. Torcerei por elas. Para que continuem com a sua valentia. Para que ninguém interfira em sua luta. Para que passem desapercebidas por aqueles que mandaram cortar as gigantes árvores.
Até entendo que deve ter havido uma motivação “justa” para a supressão tão radical daqueles majestosos espécimes vegetais (ressalto as aspas colocadas na palavra justa, como indicativo de ironia e por não acreditar na justiça da atitude tomada). Isto porque talvez as grossas e potentes raízes estivessem afetando a estabilidade dos trilhos do trem, afinal sabemos que este tipo de raiz facilmente levanta calçadas e abala as estruturas das construções que se encontram nas redondezas. Porém não posso deixar de questionar se acabar com as seringueiras foi a saída mais justa. Será que não poderia ser feita algum tipo de barreira, por meio de estudos especializados de engenheiros civis e agrônomos trabalhando em conjunto, quem sabe com a utilização de grandes chapas metálicas enterradas verticalmente no solo?
Mas agora então, após o massacre vegetal, as poderosas raízes não mais empurrarão os trilhos, deixando-os em paz. Então que deixem em paz também este milagroso renascimento, pois que ele decerto não causará prejuízo algum às estruturas do local (pelo menos por enquanto e por um bom tempo, acredito eu...).
Neste embate de forças entre a civilização e a vida, torcerei pela vida. Não significa que eu seja contrário ao progresso. Isto porque acredito ser sempre possível civilizar e progredir sem agredir o meio ambiente.
Então que este renascimento possa continuar... Pois ele representa muitas coisas... Que eu possa ver o seu progresso no meu dia-a-dia. A vida lutando para viver, enquanto nós também vamos lutando... Com todos os cortes que também levamos... Alguns nos galhos mais grossos, ou mesmo até no tronco, rente ao chão, como este... Mas vamos lá, amiga e companheira seringueira! Vamos vencer esta batalha!

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

“UBERIZAÇÃO” DA ECONOMIA

Quatro meses desempregado. Pensava que me recolocaria em no máximo um mês.
A ideia surgiu no jantar. Não estava disposto a uma mudança assim tão radical em minha vida profissional. Mas minha esposa e minha filha incentivaram. E eu, sentindo o peso da necessidade de sustentar a casa, acabei aceitando.
Trabalhar no ramo de transporte compartilhado, como Uber, parecia ser a única saída naquele momento. Com a cabeça meio quente, mergulhado em mil pensamentos, apreensivo com relação ao meu futuro ganha-pão, fui dormir.
Acordei disposto a providenciar, o mais rápido possível, toda a documentação necessária para a nova atividade. Fiz o cadastramento pela internet e aguardei a aprovação. Na verdade eu não queria que desse certo. Torcia mesmo para que encontrasse um emprego em minha área, mas, por mais que procurasse, nada.
As noites eram agitadas e eu dormia com dificuldade. Acordava cansado e preocupado...
Então, de repente, lá estava eu como motorista de Uber... Na primeira viagem peguei um passageiro que não parava de falar. Falou tanta coisa sobre o que disse ser uma nova tendência da economia, o compartilhamento. Foi dizendo sobre todos os bens e serviços que poderiam ser compartilhados... Falou, falou e falou...
Neste primeiro dia, depois de muitas viagens, cheguei exausto em casa. Tudo que eu queria era me largar na cama...
No café da manhã, minha esposa me disse que entraria em um novo tipo de negócio que estava surgindo. “Bolúber, é o Uber do bolo! O usuário entra no aplicativo e pede um bolo. A solicitação é repassada para todos os fornecedores que estiveram por perto. Aí aquele que quiser pegar o pedido é só confirmar e começar a preparar o bolo... Você pode deixar um ou dois bolos prontos de estoque... Mas tem que tomar cuidado com...”. Desliguei-me um pouco das explicações dela. Achava meio estranho tudo aquilo... Então chega minha filha e diz que vai ganhar um dinheirinho com um tal de Reforçúber, reforço escolar compartilhado... “Pai, vou dar reforço de Matemática, porque eu tenho facilidade...”.
Estava ficando um tanto atordoado com aquelas estranhas novidades. Mas não tive tempo sequer de me acostumar a este novo estado de coisas, isto porque o meu primeiro passageiro daquele dia logo me foi informando a respeito de outra novidade que, segundo ele, revolucionaria completamente o mercado de trabalho. Era o “Job-Uber”, uma plataforma que conectava o trabalhador ao trabalho, a qualquer hora, por qualquer tempo, pela cotação do valor de cada trabalho específico no momento da contratação, feita por meio de um simples click, sem interferências nocivas de retrógradas leis trabalhistas. Disse-me ainda o meu bem informado passageiro: “Muitas grandes empresas já estão aderindo a este novo modelo...”.
Enquanto ouvia, o meu estado de aflição com tudo isto foi aumentando mais e mais... Mas as palavras foram ficando distantes... Até que acordei!
Desculpe, leitor. Em algum ponto da narrativa acima, eu acabei dormindo e tendo este atormentador sonho... Ainda bem que foi sonho! Ufa!

sábado, 23 de dezembro de 2017

TEMPOS MODERNOS

Um grupo de jovens, que viviam no futuro, ouviam um velho senhor, que já havia vivido muito no passado. Estavam todos debaixo de uma frondosa árvore artificial. E assim o velho continuava, com tranquilidade, a contar-lhes sobre o mundo profissional de antigamente...
– No meu tempo, as coisas eram diferentes... A gente trabalhava menos e ganhava mais... Eu trabalhava oito horas por dia...
– Nossa! Só oito horas? – um dos jovens não conseguiu conter o espanto.
– Isso mesmo meu caro. E digo mais, havia categorias profissionais que cumpriam seis horas diárias!
Foi como se o velho tivesse dito algo impossível, inacreditável para aqueles jovens, afinal todo mundo trabalhava, em média, de 14 a 16 horas diárias. E o velho prosseguiu:
– E, após 35 anos de trabalho, podíamos nos aposentar...
Esta última frase causou uma estranheza na pequena plateia que o ouvia. Não sabiam o que significava a palavra “aposentar”. Ao perceber que não estava sendo compreendido, completou:
– Parávamos de trabalhar e passávamos a receber a aposentadoria... Não era muito dinheiro, na verdade era um tanto “curto”, mas, para quem tivesse feito um “pé de meia” para complementar a aposentadoria, a situação ficava melhor... –  e, depois de alguns minutos explicando como funcionava a desconhecida aposentadoria, teve a impressão de que ninguém havia entendido, mesmo assim concluiu – Enfim, de uma maneira ou de outra, nesta fase da vida a gente procurava se dedicar a um hobby, passear, viajar, enfim, fazer o que quiser, ou não fazer nada...
Oooohhh!!! Um assombro tomou conta dos jovens ouvintes. Jamais pensaram ser possível parar de trabalhar e continuar a ganhar dinheiro. Quem parava era porque não podia mais, estava doente ou fraco demais, mas ninguém deixava de trabalhar fora destas condições, porque não havia como se sustentar.
Finalmente, o velho arrematou a sua explanação dizendo outra coisa que parecia ainda mais impossível para aqueles jovens ouvintes:
– E havia os benefícios também... Geralmente as grandes empresas ofereciam um atraente pacote de benefícios para os seus colaboradores. Convênio médico, odontológico, participação nos lucros, plano de previdência privada, etc.
Neste momento, o grupo de jovens começou a se dispersar, afastando-se da árvore e buscando qualquer outra atração. Ao saírem daquele grande recinto, conversavam entre si:
– Esse velho deve estar louco, diz coisas absurdas...
– Se essas coisas que ele disse realmente forem verdades, então o mundo em que ele vivia era muito atrasado, não é?
– Isso mesmo! Ainda bem que hoje vivemos em um mundo moderno, bem diferente...
E assim continuavam com suas críticas, enquanto entravam em outras instalações da grande construção que visitavam...
Menos de meia hora depois, já estavam todos do lado de fora, descendo a grande escadaria em direção à calçada.
Na fachada portentosa, lia-se com grandes letras sobre as altas colunas: MUSEU DO TRABALHO.

sábado, 18 de novembro de 2017

CONEXÕES

O tempo não existe. É uma ilusão, uma necessidade para nossa evolução.
Evolução tem a ver com revolução. É preciso revolver e remexer a falsa estabilidade do antigo para que surja a mudança.
Mudança é a única coisa estável no Universo. Quem espera acomodar-se eternamente em sua imutabilidade, será arrastado pelas transformações, não terá sossego.
Sossego é aquela coisa que a gente vive querendo, mas nunca alcança, porque sempre coloca outras coisas na frente. Muito daquilo que queremos não é necessário.
Necessário é algo que pensamos que precisamos, mas que, realmente, não precisamos coisa nenhuma. Nossa sociedade consumista nos implanta ilusões.
Ilusões servem para enganar. São as más ilusões. Mas há também as boas, que servem de combustível para os visionários que realizam os seus sonhos.
Sonhos são aquelas coisas que a gente deixa para trás, em busca de atalhos ou caminhos mais imediatos para ganhar dinheiro.
Dinheiro tem o poder de dissolver preconceitos. O brilho da riqueza ofusca e faz desaparecer a origem humilde ou a cor da pele.
Pele é o maior órgão do corpo humano. Busca, em outro corpo humano, o calor.
Calor é energia. É emanado da luz, do fogo, da química, do amor.
Amor é tudo. É força que vibra em todo o Cosmos. Hálito Divino.
Divino é o que transcende, o que está em outra dimensão mas que aqui atua, constantemente, sobre tudo e todos. Na dimensão do Divino não há tempo.
O tempo não existe. É uma ilusão, uma necessidade para nossa evolução.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

PESSOAS

Olhos rápidos, saltando de um lado para outro. Olhos baixos, com vergonha de se levantarem. Olhos que sorriem, junto com a boca, e até mais do que ela. Bocas que mascam chiclete, que falam ao celular ou que são curvadas para baixo. Orelhas com brinco, com piercing, com lóbulo colado ou não.
Para cada ponto que se olha, a variedade é enorme, infinita! E o que está dentro do corpo, não as entranhas, mas a própria alma, aí é mais que infinito! Os sentimentos, as vibrações... Ódio, rancor, medo, amor, solidão, tristeza, alegria, euforia, insegurança, orgulho, egoísmo...
Quando olho para aquela massa humana, compacta, caminhando, em sentido contrário ao meu, pelo túnel que liga as estações Paulista e Consolação do metrô, tento captar a energia resultante... O "indivíduo multidão", resultado da composição de todas as pessoas, como será que ele está? Triste, agitado, apressado, alienado, conformado?
Eu acho que estamos mais interconectados do imaginamos. Não falo das inúmeras conexões que surgiram por meio de toda esta avalanche tecnológica que nos invadiu. Refiro-me às conexões que sempre existiram, as de "mente-a-mente". Os mais sensíveis percebem. Dizem que estamos entrando em uma nova era na qual estas "ligações" ficarão mais intensas. Mas não quero entrar nestes assuntos. Apenas comentei sobre estas conexões porque quando vejo muitas pessoas juntas tenho duas percepções. Ao mesmo tempo em que vejo uma variedade infinita de características físicas, psicológicas, emocionais, comportamentais, energéticas, ou o que quer que seja, também vejo como se todas as pessoas fossem uma coisa só, formando um "indivíduo coletivo”.
Pode parecer contraditório. E realmente é. Nas grandes aglomerações, nas ruas ou transportes públicos apinhados de gente, as pessoas fazem questão de permanecerem estranhas umas às outras. Mal sabem elas que não adianta este esforço individualista, pois o "ser coletivo" sempre estará presente. As conexões entre as pessoas acontecem, quer queiramos ou não.
Então, quando fico olhando para as pessoas, observando detalhes e particularidades de cada indivíduo, ou quando procuro captar as emanações ou energias do "indivíduo multidão", acho que esta minha atitude é realmente bastante estranha... No entanto acredito que não desperta a atenção dos outros, visto que estão preocupados em ignorar o que é externo a eles mesmos e ao que fazem (boa parte deles atentos ao celular que manipulam, concentrados).
E assim vou levando minhas viagens pelos transportes públicos... Se, por um lado, muitos veem uma mesma coisa, uma monotonia de pessoas, de muitas pessoas, enxergando apenas rotinas e seres robotizados que se igualam uns aos outros, eu, por outro lado, vejo diferenças e riquezas entre as pessoas. Acho que isto é fruto dos olhos de escritor, ávidos por encontrar material e assunto para mais uma crônica. E a crônica acabou saindo... É isso aí!

sábado, 23 de setembro de 2017

BRASÍLIA SECA

Cheguei aqui em Brasília no pico da seca. Nas últimas três semanas a natureza vem testando a capacidade dos seres desta região viverem sem uma gota de umidade sequer. Mas eu estou participando desta experiência como uma espécie de intruso, afinal este teste deveria recair somente sobre esta espécie mais resistente que parece estar se formando sobre o planalto central... Mas falando a verdade, boa parte daqueles com os quais aqui conversei, mesmo sendo desta região ou aqui morando faz tempo, mesmo estes estão sofrendo.
Enquanto boa parte do Brasil se encontra seca, vítima de queimadas que destroem nossas matas, mais ao norte a natureza vai ao outro extremo, com furacões categoria cinco trazendo mortes, destruição e inundações para as ilhas do Caribe e sul dos Estados Unidos. Primeiro Irma, depois Maria. E, para completar o quadro que se abate sobre as três Américas, o México treme e sofre um de seus piores terremotos.
Mas o complemento final parece estar a cargo de dois loucos governantes. Se a natureza não cobrar de uma vez só a fatura de agressões sofridas pelo desprezível “ser humano”, em sua ganância cega por exploração e lucros infinitos, se a natureza der uma trégua e decidir nos poupar (pelo menos por enquanto...), então estes dois seres, com suas arrogâncias inconsequentes, poderão completar o serviço e levarem o mundo ao tão temido confronto nuclear. Quer saber de uma coisa? Essa guerra não é minha! Não vou me deixar contaminar. Ninguém deveria se contaminar. É só deixar esses dois sujeitos um em frente ao outro, em um ringue de box, dar um par de luvas para cada um, e deixar que resolvam a situação sozinhos...
Mas deixe eu voltar para a secura de Brasília. Ninguém tem nada contra dias bonitos. Aqueles dias em que não se vê um fiapinho sequer de nuvem. Perfeito! Perfeito para passar um dia, um fim de semana, um feriado prolongado, no máximo. Mas daí a termos uma sequência interminável de climas clones, exatamente iguais entre si, aí a coisa começa a apertar. Assoar sangue, congestionamento nasal, corpo dolorido, garganta pegando, pequenos calafrios, um pouco de febre e muita, mas muita tosse mesmo. Passei por vários sintomas. Fui ao médico duas vezes e tomei vários medicamentos. Agora estou bem melhor!
Ontem, após 123 dias sem chuva, vimos um chuvisco tímido na hora do almoço. Talvez até tenha sido tão pouco que não foi suficiente para interromper a contagem dos dias sem chuva. Mas foi uma experiência marcante! Até filmei o raro momento! Pode parecer exagero fazer tanta festa por poucas gotas d’água que conseguiram vencer a barreira seca que aqui nos rodeia. O pessoal daqui já está acostumado. Dizem que a chuva só costuma vir em outubro. Mas, para este paulista da Grande São Paulo, ver um pequeno chuvisco e, principalmente, sentir a umidade nas narinas e perceber que o ar voltou a sustentar... Ah, isso não tem preço!

sábado, 9 de setembro de 2017

IDIOSSINCRASIA

Faz algumas semanas que fiquei sabendo o significado de uma palavra que chega a meter medo, pelo seu tamanho, por parecer um palavrão ou um xingamento, enfim, sua sonoridade remete a coisas feias... Ei-la: idiossincrasia.
De certa maneira, fiquei envergonhado por descobrir o seu significado tão tardiamente. Principalmente porque chego a dizer que sou escritor... Mas que escritor é esse que não sabe o que é idiossincrasia? Onde já se viu?
É preciso dar uma dimensão para o “tão tardiamente”. Pois bem, estou com 52 anos. Mês que vem, 53. Escrevo desde os 19. Nesta longa e rarefeita carreira – pois preciso ganhar dinheiro (coisa que a literatura não proporciona) e também tenho que cuidar da vida – foram poucas as vezes que esta palavra surgiu diante de meus olhos ou meus ouvidos. E quando surge uma palavra deste tipo, a gente até se assusta e não quer saber de perguntar ou procurar o significado. Deixa pra depois, ignora, vê que conseguiu entender a coisa no geral, finge que sabe, atribui um significado qualquer que parece ser o mais adequado, e bola pra frente!
Mas, como disse, há algumas semanas foi inevitável. Estava eu lendo a consagrada obra do mundialmente famoso escritor de ficção científica, Isaac Asimov, obra esta intitulada “Eu, robô”, quando de repente ela surgiu. Desta vez não havia como escapar. O contexto não tornava claro o entendimento deste estranho vocábulo. Aliás, me parece que esta palavra não combina e fica descolada de qualquer contexto. Parece uma espécie de coringa, uma incógnita permanente. Mas eu tinha tempo. Voltava de uma longuíssima viagem de ônibus de Brasília a São Paulo. E tinha também, ao meu dispor, a tecnologia que nos invadiu nos últimos anos. Atualmente, com um celular na mão, estamos conectados com o mundo todo e podemos saber de quase tudo. Antigamente, quando esta palavra aparecia, o dicionário estava longe, e a vergonha de perguntar também era um fator que impedia o conhecimento. Mas agora não. Tinha a curiosidade de enfim desvendar o tão misterioso significado, tinha como fazer, facilmente, apenas teclando em meu celular, e também tinha tempo para fazer... E foi preciso mesmo certo tempo para entender os seus múltiplos significados, de acordo com o contexto na qual a mesma é usada.
Foram dias de descoberta, de superar limites. Descobri o significado de idiossincrasia, descobri Brasília, com sua arquitetura e construções que empolgam os olhos. Superei meu limite geográfico. Nunca antes havia atingido um lugar tão ao norte do planeta...
E agora estou novamente em Brasília, em um de seus shoppings, dentro de uma livraria, usando a mesa reservada para leitura, usando-a para escrever em um caderno, à moda antiga... Brincando de ser escritor... Mas vim aqui para trabalhar e ganhar dinheiro. A literatura, com suas palavras, assustadoras ou não, é apenas uma brincadeira... E por falar em brincadeira, você quer saber o significado de idiossincrasia? Ora essa, vá procurar!

domingo, 23 de julho de 2017

SILÊNCIO

Quando temos muitas coisas para dizer e nem sabemos por onde começar, é melhor optar pelo silêncio. Se eu fosse seguir este mandamento, então nem prosseguiria com esta crônica. Mas como tenho que escrevê-la, ou melhor, como ela quer que alguém a escreva, preciso continuar, cumprindo assim o meu papel...
O silêncio pode representar muitas coisas.
Pode aquietar, quando vem acompanhado por vibrações inaudíveis de paz.
Um monge meditando defronte a um belíssimo jardim.
Pode agitar, quando desmascara a ansiedade.
Um jovem ansioso se depara com gigantescos segundos em que somem as palavras da conversa que queria manter com a moça.
Expressa uma explosão de sentimentos. Raiva, indignação, revolta e dor presas no silêncio. Porque nenhuma palavra será capaz de transmitir mais que o silêncio.
Um trabalhador, mais um trabalhador sendo demitido. Assina sua demissão sem dizer uma palavra sequer. Ouve palavras que tentam justificar o corte. Rebate esta inútil tentativa com o seu cortante silêncio.
A preparação do ataque, predador com foco total na presa. O atleta, nos instantes que antecedem a corrida, o salto, o saque. O silêncio concentra, dá forças.
Sob tortura, o silêncio grita mais que qualquer palavra. Esconde o esconderijo, protege o aliado do inimigo.
Há momentos em que o silêncio manifesta o cansaço. Cansaço do povo perante os açoites que toma. O governo bate no povo. As elites batem no povo. O povo bate no povo. E o povo batido só consegue expressar o silêncio. Silêncio desiludido porque sabe que nada pode, só apanha.
Em outras ocasiões, é o medo que provoca o silêncio. O crime aconteceu, todos viram, mas ninguém tem coragem de dizer quem é o autor.
A opressão espalha o silêncio pesado ao seu redor. Não há quem ouse enfrentar o jugo do cruel dominador.
O silêncio também acompanha aqueles que não compreendem, pois nem sabem o que dizer, o que fazer, o que pensar.
O silêncio do monge, do jovem ansioso que não encontra as palavras, do trabalhador demitido. Da concentração do predador ou do atleta, do esforço sobre-humano do torturado, ou do povo gasto de tanto açoite. O silêncio do medo, da opressão ou da ignorância...

O silêncio é um só. Mas quer dizer uma infinidade de coisas. E sempre, mesmo que subjugado, tem a sua força e o seu poder. Porque a opressão e a ignorância não são para sempre. E o silêncio, um dia, deixará de silenciar.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A DOSE CERTA

Outro dia fui comprar um remédio pra enxaqueca e não achei em nenhuma farmácia. Bem que o médico, ao receitar, desconfiou que não mais estivesse disponível. “É um remédio antigo”, disse ele. Também não encontrei nenhum equivalente. A substância não é mais fabricada, foi o que sentenciou o rapaz da drogaria, após consultar aquele livro cheio de nomes de remédios, que lembra as listas telefônicas de antigamente, só que mais fina.
Este insucesso me fez pensar uma série de coisas...
As listas telefônicas, tudo bem, não há problema algum que não sejam mais fabricadas, mas este remédio, a minha esposa fez uma pesquisa na internet, encontrou vários comentários de pessoas se queixando que este era o único remédio que funcionava, que os outros que vieram depois não resolvem como o antigo medicamento.
Tem um remédio que funciona? Então vamos tirá-lo de circulação. Não pode ser cem por cento. É preciso manter uma dose, um índice de doença latente na população. Porque assim o sujeito vai consumir mais drogas, outros medicamentos, vai trocar as substâncias, as mais novas sempre mais caras.
Este novo produto não pode durar muito. Temos que dar um jeito de fazê-lo quebrar logo após o término da garantia. Porque assim o consumidor vai comprar outro, gerando mais lucro para a empresa.
Já ouviu dizer que o câncer tem cura? Já viu notícia de carro movido a água? Será que são mentiras? Por que estas coisas surgem e logo desaparecem, sem ganharem a repercussão e atenção que merecem?
Até que ponto o dinheiro e o interesse lucrativo de certos mercados vão dar as cartas no jogo da vida? Quais são os valores que movem as pessoas, as empresas, a sociedade?
Vamos cortar funcionários. Quem? Corte aqueles que ganham mais. E assim é feito, sem a mínima preocupação em saber se este é o critério mais justo.
Já temos tecnologia para fabricar um aparelho com esta lista completa de recursos, mas não vamos lançar tudo de uma vez. Criaremos várias versões, uma depois da outra. Os consumidores vão querer e comprarão todas elas, sedentos pelos aumentos progressivos de recursos e facilidades.
Os transgênicos e agrotóxicos na agricultura não são saudáveis? Os antibióticos e o estresse a que são sujeitos os animais na pecuária e na avicultura prejudicam a nossa saúde? Que importa, se dão mais lucros?
Acordo de Paris, para que os países reduzam a produção e uso de energia fóssil e a troquem por energia limpa? Não! Isso vai prejudicar minhas indústrias!
Nicola Tesla foi um cientista e inventor incompreendido no seu tempo. Queria inventar uma fonte de energia gratuita, disponível para qualquer pessoa, obtida por uma espécie de indução. Não precisa nem dizer que esta ideia humanitária lhe ocasionou a perda do investimento.
Dizem que isto tudo faz parte da Lógica Capitalista. Mas eu acho que dá para ser capitalista sem cometer estes excessos. Sou otimista, acredito que um dia acertaremos a dose do capitalismo, mas até lá perderemos nossas doses de remédios. E outras coisas mais...