Estou no trem, voltando do serviço. Mas isto não
é a minha rotina, pois meu trabalho é 100% remoto. Então, de vez em quando, vou
para a empresa, porque ficar sempre trabalhando de casa, sem nenhum contato
presencial, parece que fica meio estranho. Assim sendo, mais ou menos uma vez a
cada dois meses, lá vou eu, de São Caetano do Sul até Alphaville, na cidade de
Barueri. Uma longa jornada.
O vagão está relativamente vazio, com muito
poucas pessoas em pé. Eu sigo sentado, ao lado da janela, vendo as coisas se
afastarem de mim, enquanto vou, cada vez mais, me aproximando de casa. Decido
então, com o celular na mão, pesquisar os concursos literários que estão em
andamento. É um hobby muito gostoso esse meu, de escrever e participar destes
certames. Uma vez ou outra acaba dando certo, e sou contemplado com mais um
prêmio para "engordar" o meu currículo literário. E assim vou,
olhando os regulamentos e avaliando, para poder selecionar aqueles concursos nos
quais pretendo participar.
Encontro dois bem interessantes. Em um deles
vejo que posso mandar meu livro “Contos Sem Escritor”. Vamos ver se desta vez
este meu trabalho obtém reconhecimento. Sabe aquelas obras que você bota fé, insiste
em mandá-las para concursos, mas nada acontece? Essa é uma delas... Outra obra em
que acredito bastante é o conto “Carreta, Encaixotado, Acidente”, também sem
premiação alguma. Mas agora estes textos têm uma nova chance, cada qual com o
seu concurso.
Após esta tarefa de direcionar os próximos
passos do meu hobby, parto para outra vertente do mesmo, pois lembro que
preciso colocar o meu blog em dia, cumprindo a meta de postar um texto por mês.
Então fico buscando alguma ideia e inspiração. Mas é duro. Nada aparece. Olho
pela janela do trem, vejo as luzes e a movimentação lá fora, enquanto a
composição segue o seu curso e nada, nada aparece. Dentro do vagão, também nada
desperta a minha criatividade. E em meio a esta busca por alguma ideia, desço
na estação Barra Funda, para fazer baldeação. Desloco-me pela estação como mais
uma formiguinha no meio de um formigueiro, situação esta que é perfeitamente
normal.
-.-.-
Até agora, leitor, só coloquei
contextualizações: o trem, a volta do serviço, a procura dos concursos
literários, a busca de alguma ideia... Nada disso tem importância. O que
importa é a próxima cena que lhe narrarei. Se esta próxima cena não tivesse
ocorrido, nada teria a escrever. Eu estava caçando alguma ideia do que
escrever, e eis que aconteceu algo, algo para escrever, o que motivou este
texto. Mas voltemos para aquelas cenas.
-.-.-
Desço a escada e, na plataforma, oriento-me pela
sinalização para saber em qual dos dois lados devo pegar o próximo trem.
Sentido Rio Grande da Serra, é deste lado que tenho que ficar. O trem chega,
abre as portas, e quando eu estou a um passo de entrar na composição, uma moça
surge ao meu lado e pergunta:
– Moço, esse trem vai pra estação da Luz?
No instante imediatamente posterior a esta
indagação, não consigo me situar geograficamente e nada respondo. Mas há
urgência e certa afobação por parte dela, que logo em seguida repete a pergunta
de outra maneira:
– Ou é do outro lado?
Esta interrogação soa em meus ouvidos como uma
afirmação: sim, é do outro lado. E, ato contínuo, digo um “sim” e concordo
rapidamente com a cabeça.
Tudo acontece muito rápido. Quando ainda estou
entrando no vagão, uns dois passos para dentro, mais ou menos equidistante das
laterais do mesmo, é exatamente neste instante que percebo o erro. “Não, é este
trem que vai para a estação da Luz!”, é a frase exclamativa que surge em minha
mente, tão logo resgato a orientação geográfica. Mas esta constatação acontece
justamente quando as portas do trem estão se fechando. Agora não há mais nada a
fazer.
Em pé, com as costas na lateral da composição, fecho
os olhos e levanto a cabeça. Só me resta ver passar, em minha mente, as
consequências do meu ato:
“Caramba!
Que besteira eu fiz! A coitada agora vai pegar o trem errado, contratempo,
atraso, problema, tudo por minha causa! Mais uma vez a minha precipitação leva
ao erro! O que custa esperar mais um segundo e procurar, na cabeça, alguma
orientação para responder com certeza, fundamento, sem correria e sem querer se
livrar logo da situação? O que custa?”.
Muitos outros pensamentos e sentimentos surgem
como consequência deste incidente. Não vale a pena colocá-los todos aqui.
Apenas quero colocar um deles, para fechar este meu relato:
“Queria uma ideia para um texto e agora já tenho algo para escrever! Mas não precisava ser desse jeito! Coitada da moça!”.