Não sei porque ainda insisto no perfeccionismo. Acho
que esta atitude é contrária à ordem natural das coisas. Penso que a teoria da
evolução de Darwin tem como princípio o erro da Natureza. Explico: aquele ser
que nasce diferente dos demais pode ser considerado um erro. Porém esta
diferença, quando for favorável à sobrevivência da espécie, seguirá avante no
processo evolutivo. Se não for favorável, será uma mudança descartada. Se não
houvesse o erro de nascer um ser diferente, não teria evolução. Ou, pensando de
outra maneira, a Natureza vai errando e acertando na geração dos seres. Os
acertos são as mudanças que os ajudam a viver mais e melhor. Os erros vão no
sentido contrário. No entanto, o erro é a base. Base inteira se considerarmos
erro todo ser que nascer diferente. Metade da base se considerarmos erro
somente aqueles seres cujas diferenças não são favoráveis à evolução da espécie.
Por um raciocínio ou por outro, há o erro como princípio básico. E fatalmente
temos que admitir que a Natureza se permite errar para evoluir.
Então eu, um ser natural, como posso querer
nunca errar? Fazer tudo certo, sempre? Não estaria assim, sendo contrário à
evolução que faz parte da Natureza?
E aqui surge o paradoxo: buscar o
perfeccionismo, sem admitir erros, acaba sendo o maior dos erros, pois estaremos
nos distanciando da perfeição da Natureza, que admite os erros para evoluir.
Quando comecei a escrever este texto, tinha em
mente relatar duas situações marcantes em minha vida, nas quais o
perfeccionismo exacerbado comprovou ser o caminho mais rápido para o fracasso
total. Não sei de vale a pena colocá-las aqui... Mas só para não deixar você no
vazio de não contar estes fatos, vamos a eles, rapidamente.
O primeiro deles foi quando, ainda criança,
estava fazendo uma pipa tipo raia. Lembro-me do extremo detalhismo ao cortar a
folha de seda... Tudo milimetricamente elaborado... Para no fim culminar, no
primeiro puxão da linha ao empiná-la, em uma vareta quebrada! Tanto esmero na
confecção da pipa e a vareta estava “bichada”!
A segunda situação ocorreu nos meus tempos de
jovem, quando tinha o hobby de montar circuitos eletrônicos. Decidi montar
aquele rádio de quatro transístores em uma placa de circuito impresso, feita com
todo o cuidado, na qual soldei todos os componentes buscando o máximo de
perfeição. Finalizada a montagem, ao ligar o aparelho, funcionou por apenas
alguns segundos, porque, logo em seguida, o som da estação foi substituído por
um apito irritante, causado por algum componente que, aqui também “bichado”, provocou
este triste resultado. Mais infeliz eu fiquei quando fui ver um amigo que
também havia montado este mesmo circuito. Porém ele optou por, ao invés usar uma
placa de circuito impresso, soldar os componentes usando uma ponte de terminais,
com fios passando pra lá e pra cá, com os terminais dos componentes dobrados e
tortos, passando uns sobre os outros, aquele emaranhado que mais parecia uma
teia de aranha tridimensional... Esteticamente deplorável. Mas funcionava
perfeitamente bem!
Acho que estes dois incidentes falam por si a respeito dos efeitos colaterais do perfeccionismo... E a Natureza nos fala como devemos agir: admitindo os erros para evoluir!



