Na minha frente a Laguna Cejar. Estou no
Atacama, norte do Chile. Esta lagoa faz todo mundo boiar. Espero que eu faça
parte de todo mundo, pois assim farei algo que nunca consegui antes.
Preciso aqui explicar que o ato de boiar foi
insistentemente por mim perseguido, durante os quase 62 anos de vida, sem que
tivesse obtido sucesso algum. Relaxo, solto o corpo e as pernas... E justamente
estas, as pernas, logo vão afundando. Por mais que eu relaxe, não adianta, nem
que alguém as sustente com as mãos, é só soltá-las que elas afundam,
invariavelmente. Projeto a barriga para fora d'água, buscando alinhar o corpo
com a superfície, mas nada! Lá se vão elas, as pernas, para o fundo, como se fossem
a âncora do meu corpo. E, para finalizar esta minha explicação de como é este
meu "não boiar", creio que devo mencionar que sim, sei nadar. Nado,
mas não boio.
E enfim estou frente a frente com a lagoa que
promete realizar este meu sonho. A profundidade é grande, de 16 a 20 metros. A
temperatura, fria, muito fria, de 10 a 15 graus. O grupo de turistas no qual
estava já sabia da minha incapacidade, pois eu mesmo tratei de informá-los.
Assim sendo a minha entrada na água era esperada com certa expectativa. Boiaria
ou não? Até brincaram comigo: "Vamos fazer uma bolsa de apostas!".
Não apostaram de verdade, apenas mãos levantadas, que indicaram uma maioria que
acreditava no meu sucesso.
A vontade de boiar pela primeira vez na vida me
faz ignorar a água gelada! E nem entrar aos poucos é possível, pois há uma
pedra plana na borda da lagoa, submersa poucos centímetros, só os pés se
molham, daí para frente a pedra acaba e já chega a profundidade de muitos
metros. Vou até a beirada e alguém diz: "Não pode entrar com a cabeça na
água!". Dou um jeito de mergulhar o corpo sem molhar a cabeça, seguindo a
recomendação.
Meus primeiros movimentos na lagoa são para me
manter com a cabeça fora da água e, logo em seguida, procuro colocar-me de
costas, na posição para boiar. Agito os braços dentro da água para impulsionar
as pernas para cima. E assim vou testando a flutuação... Aos poucos percebo que
as pernas estão leves, impressionantemente leves!
Vou suavizando os movimentos dos braços, porque
percebo que as pernas estão cumprindo o seu papel, ou seja, estão flutuando,
deixando-me ver as pontas dos pés para fora d'água. Cena inédita!
"Estou boiando!!!", grito.
"iu-huuuu!!!", vibro como uma criança, ou como alguém que acaba de
realizar algo impossível... O pessoal ao meu lado comemora também. Sou filmado,
fotografado.
Para coroar meu feito, procuro alinhar o corpo
com a superfície da água, endireitando a coluna e projetando a barriga para
cima, mantendo assim os pés praticamente inteiramente fora da água.
Pronto! O milagre está acontecendo! O problema
não está nas minhas pernas, mas sim na água. É só entrar na água certa! O
problema é que esta está muito longe, a mais de 6 horas de avião, envolvendo
dois voos, isso sem contar o tempo da conexão... e também porque é fria, muito
fria!
Saio da água, quase congelado... mas realizado!
