terça-feira, 21 de abril de 2026

PROPOSTA INDECENTE

Estava sem nenhuma ideia para escrever o texto do mês aqui no blog... Na verdade ainda é o texto do mês passado! Puxa, o tempo passa! Mas então, se não fosse a aventura que vivi no domingo último, ainda estaria sem assunto. Mas a vida é assim, de vez em quando nos dá alguma coisa para contar...

Tudo começou quando fomos dar ouvido para a mulherzinha do Google Maps. É como chamamos a voz deste aplicativo que orienta o caminho. Cabe aqui mencionar que nesta denominação não há nenhum aspecto de misoginia de nossa parte. Sendo sincero, talvez o diminutivo e a entonação com que falamos "mulherzinha" tenham a ver com uma certa irritação, pois achamos que ela fala demais...

Estávamos no carro eu, ao volante, minha esposa, ao meu lado, e minha sogra, no banco de trás. A viagem tinha como destino o Hotel Fazenda Vale da Mantiqueira, na cidade de Virgínia, em Minas Gerais. Havíamos partido de Santo André, em São Paulo, onde mora minha sogra. Como já disse, caímos na besteira de darmos ouvido para a sugestão de um caminho alternativo que a tal mulherzinha nos propôs, que, segundo ela, traria economia de 3 minutos, alguma coisa pouca assim... Tentados pelo ganho de tempo (ínfimo, que besteira!), aceitamos a proposta.

Em um primeiro momento, logo depois que saímos da estrada asfaltada e entramos em um pequeno vilarejo, tudo era perfeitamente aceitável. Afinal, que mal há em desbravarmos um pouco do interior? Lembro que vimos um homem com um chapelão de vaqueiro, que me fez comentar algo a respeito, tipo assim: "Olha o cara com um chapelão aí! Pra dizer que é interior mesmo!".

Mas eis que, sem demora, o chão de terra logo surge sob as rodas do carro. Mais adiante, várias vacas ao lado da estradinha atestam que estamos em uma zona rural. Chego até a parar o carro para tirar foto de uma que está bem perto. E não é que ela saiu bem? Vaca fotogênica. Então minha mulher lembra que, pouco tempo antes, sua mãe havia reclamado que não havia vacas na paisagem. Seu desejo foi atendido! Assim sendo, brincamos que agora ela deveria falar que quer ver asfalto, para que o mesmo surgisse diante de nós. Nem me lembro se disse isso mesmo, só sei que o tal asfalto demorou muito, mas muito mesmo para chegar...

Mesmo assim, com toda esta dificuldade do caminho, estávamos de bom humor, pelo menos nesta parte inicial da aventura. Eu fazia comentários sobre a paisagem, que era realmente exuberante. O terreno montanhoso de Minas Gerais é muito bonito mesmo. As várias tonalidades de verde se mesclam em um visual estupendo. O dia bonito e ensolarado deixava o cenário perfeito... O cheiro da natureza... Até as borboletas que cruzávamos pelo caminho ganhavam meus elogios.

Porém, aos poucos, a estreita estradinha ficava cada vez pior. Estávamos nos embrenhando pela serra, com muitas curvas. Pedras, muitas pedras, buracos, muitos buracos... E foi neste verdadeiro rali que ouvimos as fortes pancadas que o assoalho do carro dava no solo. Mesmo indo bem devagar, como o terreno era incrivelmente acidentado, era praticamente impossível escapar destas batidas. A cada uma delas, vinha mais preocupação de que o carro não resistiria. Afinal, um Toyota Etios Sedã não é um carro preparado para este tipo de desafio. Em alguns trechos surgiam valas, com certeza formadas durante as chuvas, mas que agora mais pareciam bocas enormes e arregaladas, prontas para engolir as rodas do carro. As pedras pontiagudas também me atormentavam e, a cada segundo, tentava encontrar uma maneira de escapar destes obstáculos e seguir em frente... Até quando o carro resistirá?

Era tanto solavanco que a minha sogra sustentou o joelho sobre uma manta dobrada algumas vezes para amortecer os impactos. Ainda mais agora, que ela está de “joelho novo”, nem pensar em estragar o belo trabalho que o doutor fez, com a infiltração de plasma sanguíneo e células tronco, procedimento milagroso que lhe livrou das dores. Na minha cabeça, era real a possibilidade de o carro ficar no meio do caminho, com algo quebrado ou vazando por baixo devido às pancadas e raspadas no chassi, ou atolado em alguma das infinitas armadilhas que surgiam naquilo que, com certeza, nunca poderia ser chamada de estrada. Aliás, como o Google Maps descobre estas coisas que mais parecem picadas abertas na mata? E como tem a coragem de considerar isso como estrada e botar os carros para se ferrarem nela! Até galho seco atravessado pelo caminho tinha. Sorte que era bem fino e, assim sendo, acreditei que a pintura do meu pobre Etios seria preservada.

Minha mulher fala para eu ir mais devagar. Mas nem vejo como ir mais lentamente. Olho para o traçado da estrada no mapa do aplicativo do celular. Um caminho tortuoso que não acaba nunca! Cada vez mais entrando sei lá onde, com a estrada piorando a cada minuto. Aquele espírito esportivo do começo, aventureiro, admirando a natureza, praticamente acabou. O que veio em seu lugar foi uma vontade de logo sair desta enrascada... A cada obstáculo transposto, com batida no assoalho do carro que faz vibrar os pés, o pensamento: “Será que desta vez quebrou mesmo algo embaixo do carro?”, ou: “Caramba! Maior prejuízo consertar os estragos no carro!”.

De repente surge um veio d’água cruzando transversalmente a estradinha. Então as rodas patinam e, neste instante, sinto aquele frio cortante atravessar meu peito e, na mente, a sentença: “Vou atolar!”. Não foi desta vez...

O pior era que estávamos em uma região quase que totalmente desabitada. Raras casas apareciam, muito de vez em quando, no fundo dos vales, e minha esposa comentou: “Como será que eles fazem para chegar lá embaixo?”. Esta era uma questão totalmente pertinente, visto que não encontrávamos nenhuma outra estradinha que saísse da nossa e descesse o morro. Sinal de celular? Esquece! Se acontecesse algo que impedisse que continuássemos, sei lá como faríamos para obter ajuda...

Foi então que apareceu, no sentido contrário, uma moto. Ah, não estamos sozinhos neste fim de mundo! O motorista parou ao meu lado e trocamos algumas palavras. “Vocês vão para o hotel?”, acho que foi o garupa que nos fez esta pergunta. Respondemos que sim e aí completei: “O aplicativo mandou vir por esse caminho para economizar tempo, achando que nesta estrada dá pra andar a sessenta quilômetros por hora, mas não dá pra andar nem a seis!”. Então ele tornou dizendo que, daqui para frente, o caminho melhoraria. Glória Deus! Santas palavras!

Realmente, daí para frente foi melhorando... Aqueles poucos minutos que ganharíamos com este “atalho”, acabou ficando, creio eu, em mais ou menos uma hora de atraso com relação ao tempo inicial previsto.

Mas tudo bem! Estávamos todos na civilização novamente. Ninguém ficou com o carro atolado ou quebrado no meio do nada.

Na recepção do hotel, fui ao banheiro. E foi aí que, lembro-me bem, surgiu-me a ideia de converter esta experiência em mais um texto. Afinal, esta aventura tinha que ficar registrada!

Ah, é bom aqui dar um aviso de utilidade pública. Caso você um dia vá para este mesmo hotel, vindo de São Paulo, jamais coloque direto o endereço do hotel. Primeiro coloque para ir para a cidade de Cruzeiro, SP. A partir daí, coloque para chegar em Pouso Alto, MG. E só a partir deste último destino, coloque o endereço do hotel. Se não fizer assim, o Google Maps lhe fará a proposta indecente de economizar alguns minutos e, se você ceder... Bom, agora você já sabe o que pode acontecer!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

PERFECCIONISMO

Não sei porque ainda insisto no perfeccionismo. Acho que esta atitude é contrária à ordem natural das coisas. Penso que a teoria da evolução de Darwin tem como princípio o erro da Natureza. Explico: aquele ser que nasce diferente dos demais pode ser considerado um erro. Porém esta diferença, quando for favorável à sobrevivência da espécie, seguirá avante no processo evolutivo. Se não for favorável, será uma mudança descartada. Se não houvesse o erro de nascer um ser diferente, não teria evolução. Ou, pensando de outra maneira, a Natureza vai errando e acertando na geração dos seres. Os acertos são as mudanças que os ajudam a viver mais e melhor. Os erros vão no sentido contrário. No entanto, o erro é a base. Base inteira se considerarmos erro todo ser que nascer diferente. Metade da base se considerarmos erro somente aqueles seres cujas diferenças não são favoráveis à evolução da espécie. Por um raciocínio ou por outro, há o erro como princípio básico. E fatalmente temos que admitir que a Natureza se permite errar para evoluir.

Então eu, um ser natural, como posso querer nunca errar? Fazer tudo certo, sempre? Não estaria assim, sendo contrário à evolução que faz parte da Natureza?

E aqui surge o paradoxo: buscar o perfeccionismo, sem admitir erros, acaba sendo o maior dos erros, pois estaremos nos distanciando da perfeição da Natureza, que admite os erros para evoluir.

Quando comecei a escrever este texto, tinha em mente relatar duas situações marcantes em minha vida, nas quais o perfeccionismo exacerbado comprovou ser o caminho mais rápido para o fracasso total. Não sei de vale a pena colocá-las aqui... Mas só para não deixar você no vazio de não contar estes fatos, vamos a eles, rapidamente.

O primeiro deles foi quando, ainda criança, estava fazendo uma pipa tipo raia. Lembro-me do extremo detalhismo ao cortar a folha de seda... Tudo milimetricamente elaborado... Para no fim culminar, no primeiro puxão da linha ao empiná-la, em uma vareta quebrada! Tanto esmero na confecção da pipa e a vareta estava “bichada”!

A segunda situação ocorreu nos meus tempos de jovem, quando tinha o hobby de montar circuitos eletrônicos. Decidi montar aquele rádio de quatro transístores em uma placa de circuito impresso, feita com todo o cuidado, na qual soldei todos os componentes buscando o máximo de perfeição. Finalizada a montagem, ao ligar o aparelho, funcionou por apenas alguns segundos, porque, logo em seguida, o som da estação foi substituído por um apito irritante, causado por algum componente que, aqui também “bichado”, provocou este triste resultado. Mais infeliz eu fiquei quando fui ver um amigo que também havia montado este mesmo circuito. Porém ele optou por, ao invés usar uma placa de circuito impresso, soldar os componentes usando uma ponte de terminais, com fios passando pra lá e pra cá, com os terminais dos componentes dobrados e tortos, passando uns sobre os outros, aquele emaranhado que mais parecia uma teia de aranha tridimensional... Esteticamente deplorável. Mas funcionava perfeitamente bem!

Acho que estes dois incidentes falam por si a respeito dos efeitos colaterais do perfeccionismo... E a Natureza nos fala como devemos agir: admitindo os erros para evoluir!

sábado, 7 de fevereiro de 2026

MEU NOME É PRECIPITAÇÃO

Sou a mãe do arrependimento.

Apresso tudo, como se diz, coloco a carroça na frente dos bois.

Provoco reações afobadas, descontroladas, impulsivas...

Nunca estou situada no tempo presente. Coloco-me sempre alguns segundos à frente.

Não sei esperar. Empurro as pessoas para agirem de qualquer maneira, impensadamente.

Quero muito acertar, mas quase sempre erro.

Sou a grande vilã dos atletas, dos esportistas de todos os esportes.

No tênis de mesa, onde décimos de segundo são importantes, não espero o instante perfeito, gerador do golpe perfeito... Movimento músculos antes da hora, venho antes do pensamento, e a coisa não acaba boa.

Atuo em todos os campos da vida. Prejudico relacionamentos. Machuco as pessoas. Posso até matar!

Aqueles que me ouvem estão sujeitos a grandes erros. Portanto, a melhor maneira de lidar comigo, é me ignorar!

É estranho, não é? Alguém dizendo que é para ser ignorado... Não se trata de baixa autoestima, é somente uma questão de encarar a realidade dos fatos. Pois eu lhe digo que, as pessoas realmente sábias, estas sim aprenderam a me ignorar. Quando eu, afobada, fico assoprando em seus ouvidos para que façam alguma coisa rapidamente, estes raros sábios não se deixam levar pelo meu estado de ânimo sempre desesperado. Afastam-me e... pensam, para depois agirem.

Este escritor, que digita estas palavras que você, leitor, está lendo agora, pois bem, digo que este escritor me ouve bastante, e, depois, se arrepende muito! E por estar me ouvindo neste momento, ele vai acabar este texto de uma hora para outra, impensadamente, só para terminar logo, sem se preocupar em fazer um fecho final. Sim, exatamente isto, ele vai ouvir os meus apressados apelos e somente vai encerrar com apenas uma frase, que, por sinal, é o título desta crônica...

Meu nome é precipitação.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

DIZ O DITO POPULAR...

No último texto que escrevi, surgiu-me a ideia de fazer um outro texto, baseado em ditos populares. Pensando a respeito, acreditei que não ficaria muito interessante tentar encadeá-los, procurando um contexto em que um puxasse o outro, sem perder o fio da meada, pois talvez assim acabaria forçando a barra e os elementos da redação não ficariam perfeitamente encaixados... E não adiantaria tapar o sol com a peneira, procurando dar fluidez àquilo que, a princípio, já não se ajustou.

Assim sendo, achei melhor mesmo eu não tentar descascar este abacaxi, pois seria muito ousado, de minha parte, elaborar uma obra dentro deste difícil propósito... nada de querer abraçar o mundo!

Pensei então em separar os ditos populares por setores. Sim, porque é possível fazer esta classificação. Vejamos... Há aqueles que se enquadram no setor eclesiástico:

Devagar com o andor;

Deus escreve direito por linhas tortas;

Entre a cruz e a espada;

Comer o pão que o diabo amassou;

Acender uma vela pra Deus e outra pro diabo.

Também podemos separar os que têm a ver com elementos aquáticos, marítimos ou fluviais:

Dar nó em pingo d’água;

Dar com os burros n’água;

Nadar, nadar, e morrer na praia;

Ensinar a pescar ao invés de dar o peixe;

Perder o barco;

De vento em popa;

Quem semeia vento, colhe tempestade;

Chuva miúda não mata ninguém;

Boi de piranha.

E assim por diante...

Mas depois desisti de fazer todo este enquadramento, pois o leitor ficaria entediado com esta espécie de enciclopedismo. Neste ponto, me vi sem saída. O que, a princípio, parecia ser uma boa ideia, conseguir colocar muitos ditados populares em um único texto, configurou-se, para mim, como algo sem pé nem cabeça. No entanto, lembrei-me que a esperança é a última que morre, e, desta maneira, busquei organizar o pensamento, com calma, pois a pressa é inimiga da perfeição. Urgia encontrar uma maneira de materializar o objetivo de agregar vários, muitos ditos populares, em um único texto, produzindo um resultado leve e que agradasse o público leitor.

De uma coisa eu estava certo: não adiantaria ir jogando os ditados populares no texto, a torto e a direito. Se assim o fizesse, meu trabalho não teria sustentação alguma, estaria tão firme como um prego na areia. Não, de modo algum seguiria por este caminho, pois seria chutar o pau da barraca.

Enquanto não conseguia encontrar uma maneira de avançar na escrita, vinha-me à mente aquelas pessoas, expoentes da arte da escrita, que conseguiram realizar verdadeiras obras-primas enquanto seguiam formatos preestabelecidos. Chico Buarque, com a letra da música “Construção” e suas proparoxítonas. E outro grande Chico, o Anysio, não menos brilhante, que interpretou, no programa do Jô Soares em 02/06/2000, um fenomenal monólogo por ele escrito, com absolutamente todas as palavras iniciadas pela letra “m”. E lá estava eu, empacado. Desistir não era uma opção. Tinha que insistir. Uma hora conseguiria sair deste bloqueio criativo. Com persistência... Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

Mas quer saber de uma coisa? Acabei desanimando. O motivo foi uma análise realista a respeito dos ditados populares. Pois veja bem, hoje em dia, qual o real valor desse amontoado de palavras? São provérbios, máximas, aforismos, não importa o nome como são chamados esses ditos populares, porque todos eles estão, dia após dia, caindo no esquecimento. Isto é uma percepção minha, não tenho nenhum dado concreto que a evidencie. E você, leitor, o que acha disto? Estará mesmo esta sabedoria popular fadada à extinção? Não sei se é possível fechar questão quanto a este ponto, só sei que o mesmo dá muito pano pra manga...

No entanto, acabei reagindo, pois ao invés de desanimar com o prognóstico de extinção, resolvi continuar e abraçar a causa “salve os ditos populares!”. Como um biólogo que se empenha em salvar uma tartaruga ou uma baleia do extermínio, lá fui eu, buscando na memória os ditados populares e anotando-os:

Quanto mais se abaixa, mais o cu aparece;

Sem lenço nem documento;

Devagar se vai ao longe;

Isso é mais velho que andar pra frente;

O apressado come cru;

Balança, mas não cai;

Antes tarde do que nunca;

Mais vale um pássaro na mão do que dois voando;

Tá cagando e andando;

Não caga e não sai da moita;

Ficar na moita;

Em terra de cego, quem tem um olho é rei;

Tá mais perdido que cego em tiroteio;

Tá mais perdido que cachorro em mudança;

Não colocar todos os ovos em uma única cesta;

Antes só do que mal acompanhado;

Deixar a banda tocar;

Deixar o lobo cuidando dos carneiros;

A vaca foi pro brejo;

Há males que vêm para bem;

Ficar em cima do muro;

Pau mandado;

Os últimos serão os primeiros;

Pão e circo;

Dormir no ponto;

Perder o trem;

Cozinhando o galo;

Tua batata tá assando;

Segue o enterro;

As voltas que o mundo dá;

Fazer cara de paisagem;

Foi pra Portugal e perdeu o lugar;

Chorar lágrimas de crocodilo;

Vergonha é roubar e não poder carregar;

Sem eira nem beira;

Sem ter onde cair morto;

Jogar pérolas aos porcos;

Ficar pianinho;

Dar ponto sem nó;

Colocar as barbas de molho;

No fio do bigode;

Confundir gato por lebre;

Quem não tem cão, caça com gato;

Casa de ferreiro, espeto de pau;

O Sol nasce para todos;

Pau pra toda obra;

Tirar o time de campo...

Todavia, restava o grande desafio de conceber um texto que agregasse, harmoniosamente, todos as expressões populares que me vinham à mente... Então olhei para a última delas: “Tirar o time de campo”. É isso que vou fazer! E decidi, categórico, encerrar aquilo que nem comecei e sair de banda.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

OLHA O PICO AÍ, GENTE!

Estava eu tentando caçar alguma ideia para escrever mais um novo texto para colocar neste blog, quando resolvi entrar nas estatísticas do mesmo, e notei que houve um pico de acessos há três dias atrás: bateu 376 visualizações!

De vez em quando isto acontece, mas não sei explicar o motivo. Mas este acontecimento serve agora de motivo para o texto que procuro elaborar. E, se não conseguir ser o mote para a construção de uma obra memorável, que pelo menos consiga ser o pontapé inicial de algo ao menos não medíocre para ser aqui postado.

Vamos lá, direto ao ponto, para não perder o fio da meada. E, para tanto, lançarei uma pergunta: “Por que, de vez em quando, meu blog tem estes picos de acesso?”. O leitor já identificou que, como mencionei, não tenho a resposta. Mas apenas lanço esta questão para efeito retórico... Para que eu mesmo possa aqui colocar alguns pontos relacionados, por meio de outras questões.

Será que estes acessos representam visualizações reais, de usuários verdadeiros e distintos? Ou são o produto de algum robô ou processo automatizado que fica sondando por aí as coisas da internet? Se for esta segunda hipótese, aí decorre outra pergunta: qual o motivo?

Bom, não vou ficar aqui elucubrando teorias para explicar a razão de o gráfico saltar de 3 visualizações em um dia, para 86 no dia seguinte, 197 no próximo, para atingir o pico de 376 em 08 de dezembro, caindo vertiginosamente depois, chegando em 24 no dia seguinte, 22 ontem, e zero hoje! Apenas vou me contentar com este breve salto no histórico de acessos...

Sim, porque, hoje em dia, o que mais importa é conquistar acessos, likes, cliques, reações, curtidas, comentários, compartilhamentos, não é mesmo? Parece que todo mundo corre atrás disso, ou de modo ativo, postando coisas, ou de modo passivo, vendo as coisas que estão bombando na internet... Olha, e não é que isto daria um bom motivo para escrever outro texto? Sim, dá muito pano pra manga abordar o que está acontecendo com as pessoas cada vez mais mergulhadas no mundo virtual da internet e das redes sociais.

E olha novamente, neste texto já usei duas expressões populares: a primeira foi “não perder o fio da meada” e agora coloquei “dá muito pano pra manga”. E não é que isto também daria outro bom motivo para escrever, abordando estas expressões comuns que todo mundo fala?

Sim, são elementos para serem abordados em outras obras, não nesta que aqui estou. Para esta, não tenho muito mais a dizer, por isto mesmo vou abreviando as palavras e só deixando aqui mais uma pergunta: “Será que, após eu publicar este texto, acontecerá um novo pico de visualizações?”.

Tomara! Kkkk 

domingo, 16 de novembro de 2025

O TRONCO

 


A respeito da viagem que acabei de fazer com minha esposa, na exuberante Paraty, poderia descrever as maravilhosas praias, trilhas, ilhas, montanhas, águas que vão do esverdeado ao azulado, e assim por diante...

Mas não seguirei por este caminho. Vou contar o que senti, e o que continuo sentindo, quando vejo a foto que tirei no pequeno museu que fica no Forte Defensor Perpétuo. Além deste antigo objeto fotografado, também registrei os dizeres de uma plaquinha, e que aqui transcreverei, para encorpar a introdução do que pretendo dizer neste texto.

“O tronco, também chamado cepo ou berlinda, servia como instrumento de tortura nos tempos da escravidão.

Pessoas escravizadas eram presas pelos pés, mãos ou pescoço, às vezes torturadas e às vezes em locais públicos para que o terror e o medo fossem disseminados.”

Imediatamente senti o peso. Não, não era o peso físico, material, daquele enorme objeto diante dos meus olhos. O que pesou sobre mim foi algo mais denso que a compacta madeira maciça, trabalhada para se tornar um eficiente meio de tortura. Não quis tocá-la. Nem tanto porque estava em um museu, no qual os objetos não devem ser tocados. Na verdade o que mais me impedia era o medo de captar, por meio do toque, todo o terror que devia estar impregnado em suas fibras.

Imaginei os negros, corpos pretos escravizados, presos no tronco, sofrendo martírios. Olhei a circunferência central, a maior delas, e pensei que nela mal caberia um pescoço. Mas quem, dentre os cruéis possuidores dos troncos e dos corpos pretos, estaria interessado em dar um conforto ou alívio para o pescoço que ali estivesse? Que o tronco estrangulasse suavemente, pois a intenção era, na maioria das vezes, “somente” torturar, e não matar.

É muito triste ver um objeto deste tipo. É a prova da maldade e da crueldade do ser humano. Mas você pode dizer que isto é coisa do passado. Porém será que hoje em dia estamos livres desta carga negativa? Infelizmente, parece que não. Na linha do tempo, a história nos mostra que a humanidade está sempre renovando a maneira de expressar a sua inferioridade moral. Crucificações, Cruzadas, Guerras Mundiais, holocausto, bombas atômicas, genocídios...

É muito triste ver que a humanidade ainda não aprendeu a ser mais humana.

Veio uma pandemia e aqueles mais esperançosos acreditaram que ela ocasionaria profundas mudanças, melhorando os homens e o mundo. Falou-se até que a vacina deveria ser uma “propriedade da humanidade”, a ser distribuída gratuitamente para todos, sem distinção. Doce ilusão. O continente africano, uma das regiões mais pobres do planeta, berço dos escravizados metidos nos troncos, também foi uma das mais atingidas pela mortandade da pandemia.

Acontece um genocídio em Gaza e a humanidade não consegue impedir.

Atualmente, este terceiro planeta do Sistema Solar (no qual a vida ainda floresce exuberante, apesar dos maus-tratos que sofre dos seus habitantes) conta com o maior número de guerras simultâneas. Há quem diga que já estamos na Terceira Guerra Mundial (no futuro, a história irá dizer se isto é ou não verdade).

Enfim, por tudo isto, e por tudo mais que existe de ruim e que não mencionei aqui, acredito que este tronco que vi no museu não é coisa do passado. O tronco ainda está presente em nossas vidas, sob múltiplas formas.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

SEMENTE DE MAMÃO

Estava eu, bem tranquila, no meio da terra, que era pouca e ocupava apenas um copo plástico que foi cortado a uns três dedos acima do fundo.

Quem me plantou era um sujeito impaciente, pois nem esperou o tempo necessário para que eu germinasse completamente, e já foi logo revolvendo e afofando a terra para plantar novas sementes de mamão. E foi nesta impaciência, enfiando um palito e remexendo a terra, que acabou por me encontrar.

Neste momento, ficou surpreso ao me ver, com um minúsculo brotinho de raiz a sair da minha semente, que já estava um tanto ressecada. Ele até havia perdido as esperanças. Nunca que esperava me ver daquele jeito... Inclusive até, nos últimos dias, nem estava me regando.

Mas depois que ele plantou as novas sementes, passou a regar novamente. E nem quis mexer mais em mim. Deixou-me com a semente exposta sobre a terra, e me olhava, torcendo para que o meu brotinho de raiz encorpasse e afundasse na mesma. Enquanto isso, minhas folhas lutavam para sair de dentro da semente ressecada. No entanto, apesar da torcida, acabei morrendo.

Se você está pensando que este texto acaba aqui, pelo falecimento da protagonista, que também é a narradora, está muito enganado. O texto continuará. E podem me chamar como acharem melhor: espírito de semente de mamão, alma de broto não brotado de mamão, ou de qualquer outro modo que julgarem mais adequado. Na verdade, nem eu mesmo sei quem eu sou. Só sei que o sujeito que me plantou vive tentando plantar mamão, sem sucesso...

Há uns dias atrás, pesquisando na internet sobre a germinação de sementes de mamão, ele viu uma foto de um mamão cortado ao meio e, para sua surpresa, várias sementes brotando dentro dele! Na verdade, o sentimento foi além da surpresa, chegando a ser raiva. Pensou: “Como é que pode?!? Vivo tentando plantar mamão e não consigo nada!!! E esse mamão com um monte de sementes brotando maravilhosamente bem, sem terra nenhuma!!!”.

Outro dia, na casa da sua cunhada, ele viu um pequeno quadro de um mamão pendurado na porta da cozinha. Perguntou a ela quem havia pintado e, quando ouviu a resposta de que era o seu marido, comentou: “É capaz que as sementes desse mamão brotem e as minhas... nada!”.

Pois é, ele não tem sorte com mamão mesmo! Fiquei sabendo que as sementes que ele plantou quando remexeu a terra e me deixou exposta para morrer, fiquei sabendo que nenhuma delas brotou. Mas, pelo jeito, ele não vai desistir nunca! Só espero que não fique mais remexendo a terra e que com isso não mate mais as minhas companheiras... 

domingo, 31 de agosto de 2025

EM BUSCA DA REALIDADE

Lembro que, há muito tempo atrás, quando estava tentando ter alguma ideia para escrever um conto, abaixei a cabeça e colei-a no teclado do computador, com a seguinte determinação: “Enquanto não tiver uma boa ideia, não saio desta posição”. Não, não... Não virei uma caveira diante da tela. A ideia veio. E até que foi boa, porque me rendeu uma premiação em um concurso literário.

Pois bem, e aqui estou eu, décadas depois, em busca de uma ideia para uma crônica. Neste caso, este tipo de texto requer algo ligado ao cotidiano. Então comecei a pensar: “O que, hoje em dia, precisa ser dito? O que é necessário colocar em um texto? Não porque eu, o autor, quero colocar, mas sim porque é algo importante...”. E assim, com estes dois pilares tremulando em minha cabeça – importância e cotidiano – veio-me o seguinte título: “Em busca da realidade”.

Isto porque, mais do que nunca, atualmente, estamos precisando focar na realidade, justamente devido a um distanciamento que as pessoas estão tendo com relação ao que é real. Vou colocar aqui alguns exemplos deste distanciamento. São exemplos gritantes...

Como pode alguém ainda acreditar que a Terra é plana? Afinal, a Idade Média já acabou há muito tempo... Ou acreditar que as vacinas não funcionam para combater doenças ou pandemias? Ou dizer, com absoluta certeza, que quem está na presidência hoje não é o Lula, mas sim um sósia dele. E o grau de descolamento da realidade é diretamente proporcional a quantos sósias se acredita que já substituíram o original... Já ouvi dizer que estamos no sétimo sósia! Eita! Deve haver uma fábrica de clones do Lula então!

Continuarei com alguns exemplos nos quais a realidade é ignorada e atropelada pela ideologia e, já que entrei a falar do Lula, citarei aqueles que estão relacionados a ele. Bom, primeiramente devo dizer que, foi neste governo dele que o agronegócio brasileiro teve o maior financiamento da história. Isto é fato, é só consultar as cifras do Plano Safra. Pois bem, esta realidade é, de modo geral, esquecida por muitos empresários deste setor, acredito que a maioria. O motivo? Ideologia, simples assim. Preferem esquecer o largo incentivo que obtêm do governo, abandonam esta realidade para se apegarem a críticas ferrenhas. Outro setor que também não poupa críticas ao presidente é o mercado financeiro. Ignoram a realidade dos bons números da Economia (e isto é fato também!) e se lançam contra o governo, com unhas e dentes. É incrível como a ideologia exacerbada é capaz de cegar, fazendo com que as pessoas não enxerguem os fatos e se descolem da realidade. Tudo tem que ter a sua medida. O que quero dizer com isso é que a ideologia, por si só, não tem nada de mal. O problema é quando ela, ao se intensificar sem controle, perde os parâmetros e obscurece a compreensão do indivíduo...

Dentro deste contexto de buscar a realidade, um elemento aparece como um verdadeiro vilão. Na verdade, para colocar no gênero correto, devo dizer vilã, pois é a mentira. Isto porque é com ela que nos distanciamos do que é real. E, infelizmente, nunca foi tão fácil de se mentir como nos tempos atuais. São as chamadas Fake News, notícias falsas, favorecidas pelas redes sociais e também pelas bolhas na internet. Mas o que seriam estas tais bolhas? Segundo uma visão geral criada pela IA, em uma consulta rápida que fiz na internet agora, uma bolha na internet é “um ambiente online que expõe o usuário apenas a informações e opiniões que confirmam suas crenças, criando uma barreira a outras visões de mundo. Ela surge a partir de algoritmos que filtram o conteúdo, baseando-se nos hábitos e interesses prévios do usuário, e pode levar ao isolamento de ideias, reforçando convicções existentes e dificultando o diálogo e a compreensão mútua”.

Não bastasse estes fatores que fazem com que o indivíduo se torne presa fácil das Fake News, podendo, com isto, ser empurrado para uma realidade paralela, há também o mais novo ingrediente neste caldo de cultura dos tempos atuais: a IA, Inteligência Artificial. Com ela é possível criar vídeos falsos, divulgar cenas que nunca aconteceram, usando a imagem de pessoas, de uma maneira bastante realista e que tende, com o passar do tempo, a se tornar ainda mais realista. Desta maneira, fica muito fácil colocar palavras na boca de outra pessoa. Resumindo: foi criada uma arma muito potente para desinformação, que infelizmente é usada com muita eficiência e eficácia no meio político.

Enfim, vivemos tempos em que a verdade foi jogada para o segundo plano. A distorção da realidade surge como elemento crucial para conquista e manutenção do poder, favorecendo lucros exorbitantes dos próprios donos do poder. Esta frase pode soar um tanto exagerada, tipo “teoria da conspiração”... Espero que seja só um exagero de minha parte...

Para finalizar, lembro aqui um conto clássico, “A Roupa Nova do Rei”, de Hans Christian Andersen. Se nesta fábula foi necessário que uma criança gritasse “O rei está nu!”, para expor a verdade e a hipocrisia de todos, hoje em dia a gente nem sabe como o rei está realmente, se está usando uma roupa, ou outra, ou nenhuma... Estamos todos em busca da realidade, que cada vez mais escapa de nós...

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

IA

Estou falando do futuro. Não estou supondo como será o futuro. O que vou falar para você, agora, é sobre o futuro que eu estou vivendo, neste exato momento. E você, meu ouvinte, ou melhor, meu leitor ou leitora, está no passado, com relação ao tempo que estou vivendo, é claro.

Ficou difícil de entender? Então volte para o parágrafo anterior e leia novamente. Entenda bem o princípio que rege este texto: eu estou no futuro e você está no passado, simples assim. E não me venha com questionamentos ou dúvidas, do tipo: “Como eu posso estar no futuro? Como estas minhas palavras podem chegar até você, em outro tempo, no passado? Como podem coexistir dois tempos ao mesmo tempo?”.

Para terminar de vez esta problemática, peço para que você pense como se estivéssemos nos comunicando por uma espécie de telefone, ou aplicativo de mensagens, para ser um pouco mais moderno. Só que, ao invés de estarmos separados pelo espaço, estamos separados pelo tempo, entende? Se bem que também estamos separados pelo espaço... Bom, é melhor parar por aqui, para não lhe confundir mais...

Entendido onde cada um de nós está, posso prosseguir, pois quero lhe dizer como são, ou como estão as coisas agora, no futuro em que vivo.

Sabe, meu caro ou cara leitora, as coisas mudaram bastante no futuro... Mas quero focar o meu relato em um aspecto em particular: a IA, Inteligência Artificial.

A partir da década de 2020, a IA foi ganhando cada vez mais espaço. O mercado de trabalho sofreu um grande impacto, com várias profissões se extinguindo. A automação e a robótica, comandadas pela IA, tomaram o lugar dos empregados nas empresas. Esta perda dos postos de trabalho, causada pelo avanço da tecnologia, já vinha acontecendo antes da IA, mas com ela este processo acelerou exponencialmente.

Não vou aqui discorrer sobre todos os problemas que isto causou, pois são muitos e, se for lhe contar todos eles, com todos os desdobramentos, este texto vai ficar muito comprido e até meio chato. Sim, porque não quero ir por este caminho de ficar desfilando todas as consequências negativas... Digo-lhe somente uma coisa: se quiser escapar deste futuro, indo parar em outro futuro, mais feliz e com menos problemas, então cuide para que não se esqueça de pensar no que fazer com todas as pessoas que perderem seus empregos para a IA. Pois parece bonito e fácil construir um mundo assim, em que o ser humano não precisa fazer mais nada, nem pensar precisa. Ok, mas como isto se encaixa em um mundo capitalista? O que fazer com todas as pessoas que não conseguirem se encaixar neste novo mercado, muito menor em termos de postos de trabalho? O que elas farão? Como encontrar uma saída para fechar a conta da economia?

Ah, neste momento agora você deve estar pensando se, no futuro em que vivo, estes problemas estão equacionados. E eu já lhe adianto que não, eles ainda estão muito presentes...

Mas deixa isso pra lá. Quero continuar te contando sobre todo o espaço que a IA está ocupando aqui no meu futuro. Pois bem... Pensar é algo que está bem em desuso atualmente. Deixa eu ver como eu posso te explicar... No seu tempo, sei que vocês estão bastante envolvidos com os celulares, com toda a infinidade de aplicativos, as redes sociais e tudo mais... Sei que a IA já está surgindo como algo revolucionário e, pode crer, vai revolucionar mesmo... Então agora vou lhe dizer o próximo passo. A grosso modo é assim, imagine que, ao invés de o celular estar na mão das pessoas, esteja dentro da cabeça delas, na forma de um implante cerebral, fazendo com que elas tenham contato direto com a internet e possibilitando uma interação completa entre o ser humano e a IA. Então, pense bem: pra que pensar? É só lançar qualquer questão para a IA, projetando o pensamento no tal implante cerebral e, instantaneamente, obter a resposta dela por meio de um “pensamento-resposta”.

Portanto, no mundo de hoje em que vivo, pensar é algo muito raro. O que se faz, via de regra, é deixar que a IA pense por nós. Pois afinal ela está dentro de nós, basta somente que pensemos em utilizá-la para que o tal implante em nossas cabeças estabeleça a comunicação instantânea com ela. Medonho, não? Mas agora é coisa absolutamente normal e a gente acaba se acostumando muito facilmente com isto. Para que você possa me entender, é como se, no seu tempo, uma pessoa, que está acostumada a dirigir somente carros com câmbio manual, pegue um carro automático para dirigir. Após um curto período de adaptação, não vai mais querer dirigir nenhum veículo com marchas para trocar, não é mesmo?

É lógico que há pessoas que se recusam a usar tais implantes. São os chamados “puristas”, que criticam todo este nosso mundo baseado na IA. Dizem que a criatividade e a arte não mais existem, que as músicas de hoje em dia são o mero resultado de algoritmos. Vivem dizendo que a humanidade ficou refém da IA e que estamos caminhando para onde ela quer. Alertam que isto desembocará no próprio fim da humanidade.

Agora, em sua mente, meu caro leitor ou leitora, deve estar pipocando uma série de perguntas... O que eu, aqui no futuro, penso sobre tudo isto? Eu tenho o tal implante? Este texto que escrevi para você teve participação da IA? Ela escreveu tudo? Por que, realmente, eu não quis lhe contar melhor sobre as consequências sociais provocadas pelo uso massivo da IA? Por que, por que, por quê?

Sinto muito, mas não vou lhe dar estas respostas, pois quero terminar logo este texto. Aliás, não sei como terminá-lo. Acho que vou lançar a questão para a IA e pedir para que ela termine para mim. Mas nem vou colocar aqui o final que ela me der. Afinal, você também pode fazer isso, né? Vai dar no mesmo.

Então posso deixar o texto assim, inacabado mesmo.

domingo, 29 de junho de 2025

ZAP

Não, o título desta crônica não se refere àquela poderosa carta do jogo de truco. Na verdade, coloquei estas três letras encabeçando o texto para tentar dar ideia de algo rápido, instantâneo. Pois foi justamente assim que aconteceu. Um deslize, uma distração, que me custou uma raspada de cabelo com a máquina zero!

Tudo começou após ter completado a tarefa de ter passado, com muita paciência e empenho, a máquina com o pente número quatro em todo o couro cabeludo. Já havia até recolhido os tufos de cabelo no chão. Havia também mostrado para minha esposa o resultado do meu trabalho. Restava somente guardar a máquina e seus apetrechos na caixa e deixar o banheiro em ordem...

Mas eis que me olho no espelho e vejo um pequeno detalhe. Uma leve elevação de uma minúscula mechinha de cabelo. Então decidi, fazendo jus ao meu perfeccionismo, aparar esta quase imperceptível imperfeição. Peguei a máquina novamente e fui direto ao ponto, sem perceber que ela estava sem pente algum. Quer dizer, estava no corte chamado “zero”. E aí aconteceu o tal “zap”. Perfeccionismo mais precipitação dá nisso!

Tão logo percebi a burrada, voltei para a minha esposa, que estava na sala, para que visse o que tinha acontecido. Devo explicar que a região onde eu cortei todos os cabelos até o couro cabeludo não se pode ver de frente. Ela fica acima e um pouquinho atrás da orelha esquerda. Então eu sabia que havia feito algo terrível, mas não conseguia ver o resultado. Então, quando ela viu, soltou uma exclamação: “Ai meu Deus!”. Tirou uma foto com o celular e me mostrou. Realmente e, infelizmente, era mais do que eu supunha! Quando ela mandou a foto para o meu filho, a exclamação dele foi a mesma, escrita em caixa alta no aplicativo de mensagens: “MEU DEUS!!!”.

Pronto. Acho que o leitor conseguiu ter uma ideia do estrago que fiz.

A partir do fato consumado, meio que desesperado, pensei em cortar todo o cabelo com máquina zero, ao que minha esposa protestou imediatamente. Que eu deixasse como está, afinal, no meu trabalho remoto ninguém vai perceber. E, depois, cresce rápido. Porque cortar todo o cabelo vai ficar muito feio! Por fim decidi deixar como está. Daqui a um mês, quando o cabelo já tiver crescido um pouco, passo novamente a máquina quatro em tudo, para deixar a coisa mais linear. E, no mês seguinte, novamente. Estou disposto a deixar meu cabelo sempre bem curto.

Bem que estas máquinas podiam ter um sensor que evitasse esse tipo de coisa. Quando ligada sem nenhum pente adaptado, deveria apitar, piscar uma luz, tudo junto, avisando do iminente desastre. Aí, se o usuário quisesse mesmo cortar com máquina zero, deveria apertar um botão vermelho para que o aparelho parasse de alertar. Bom, a ideia está lançada... Mas talvez não seja interessante os fabricantes gastarem grana com este recurso. Melhor deixar as pessoas cometerem os seus “zaps”, que virarão histórias para contar, crônicas, lembranças cômicas...

sábado, 24 de maio de 2025

MEU NOME É CALMA

Não me desespero. Espero. Aguardo o momento certo, que sempre aparece.

Em um mundo cada vez mais frenético e impaciente, as pessoas me enxergam como um sinal de fraqueza. Mas eu não ligo para o modo como os outros me veem, e mantenho a minha costumeira tranquilidade.

Não me precipito, nem antecipo. Vivo o presente, plenamente.

As pessoas, quando estão nervosas, nem querem saber de mim. Então eu fico no meu canto, esperando. Porque geralmente é depois que as coisas deram errado que se lembram que me esqueceram. Aí ficam se lastimando, dizendo que me perderam. Mas ora essa! Se me tivessem, de verdade, ouviriam os meus conselhos nos momentos mais dramáticos...

Para você me conhecer melhor, que tal fazermos de conta que estamos no final daquelas entrevistas em que se faz um bate-bola, com perguntas e respostas? Vamos lá?

Onde eu costumo estar? Onde há confiança, costumo estar lá também.

Do que eu não gosto? Que me confundam com apatia.

Uma alegria? Apaziguar uma briga.

Um medo? De as pessoas não mais conseguirem me encontrar.

O que me deixa impaciente? Nada.

O que me irrita? Nada.

Um ditado? Devagar se vai ao longe.

E finalizando, se você, leitor ou leitora, está ansioso e impaciente por eu não ter ainda me apresentado... Calma, meu nome é calma.

domingo, 27 de abril de 2025

MEU NOME É DEMOCRACIA

Ando sofrendo muitos ataques ultimamente. Querem me destruir, acabar comigo. Os meus inimigos chegam ao poder utilizando-se da minha estrutura. Enchem a boca para falar o meu nome. Mas, sempre que podem, procuram me enfraquecer.

Não é de hoje que este tipo de coisa acontece. Desde que surgi no mundo é assim: quando apareço, querem me derrubar. No entanto, mais recentemente, com a disseminação das redes sociais, ficou muito mais fácil de criar e alimentar os elementos destrutivos que se voltam contra mim. Tais elementos atendem pelos nomes: idolatria, fanatismo, negacionismo e outros mais.

Neste meio de cultura que se esforçam em promover, cujo único objetivo é a minha eliminação, é preciso colocar mais alguns importantes ingredientes. O primeiro deles é o ódio, muito ódio, que pode ser, por exemplo, direcionado para os imigrantes, refugiados, comunistas (mesmo que não existam...), esquerdistas, e assim por diante, não importa quem seja. O que importa é ter um inimigo, para destruir! Isso lhes mantêm o foco e serve como combustível, a alimentar a insanidade.

Outros ingredientes, muito bem trabalhados e usados contra mim, são o preconceito e a intolerância. Enfim, acho que já deu para perceber que todas as armas empregadas pelos meus algozes vêm com uma carga muito negativa. E, dentro deste cenário, a religião, que poderia servir como um elemento apaziguador, muitas vezes e, infelizmente, é empregada justamente no sentido contrário, a promover o sectarismo e a repressão.

Mas sabe o que mais me incomoda? Não é nem toda esta carga, toda esta artilharia contra mim, não é nem isso. Isso a gente sabe que é assim mesmo, sempre foi assim e sabe-se lá por quanto tempo mais que assim será. São ondas, fases, que vêm e vão. Regimes totalitários ganharam espaço e culminaram na Segunda Guerra Mundial. E agora... Bom, agora vamos ver onde vai dar... Mas sabe, como ia dizendo, o que mais me incomoda é ver as pessoas que deveriam me defender fazerem justamente o contrário. Tem uma expressão que se usa hoje em dia: “passar pano”. Então é isso que elas fazem, ficam “passando pano” em golpistas. Um golpe de estado é tentado, os culpados são identificados, prédios públicos são depredados e depois, quando a justiça é aplicada, acham que é injusto. Minimizam os atos criminosos daqueles que tentaram derrubar um governo legitimamente eleito.

Por isso gostaria de deixar aqui registrado o meu apelo. Não deixe que me enfraqueçam. Aqueles que tentaram acabar comigo devem ser punidos. Toda a cadeia de ação, desde os arquitetos, as cabeças pensantes que idealizaram e planejaram tudo, passando pelos financiadores e apoiadores, chegando por fim nos que colocaram a mão na massa, invadindo e quebrando patrimônio público com violência, todos, todos eles devem ser punidos.

Em 1964 fui apunhalada. Estive morta por mais de duas décadas. Naquela ocasião, meus algozes saíram impunes. E esta impunidade ajudou a formar um novo cenário contra mim, que culminou em 2023, com um golpe tentado e, felizmente, malsucedido, pois senão agora eu estaria novamente morta. Apesar de eu ter a capacidade de sempre ressuscitar, demorando mais ou menos tempo para que isto aconteça, não deixe que me matem novamente.

Anistiar golpista é agir em favor do golpe. É alimentar outro golpe, mais adiante.

Sem anistia!

Meu nome é democracia!

sábado, 29 de março de 2025

A ARTE DE ESCREVER SOBRE ABSOLUTAMENTE NADA

Estava voltando de uma caminhada noturna, disposto a, antes de chegar em casa, obter alguma inspiração para uma crônica, quando me veio a ideia de escrever sobre "absolutamente nada".

Será realmente um desafio redigir um texto que não fale sobre nada. Você, que desde já decidiu, motivado pela curiosidade, acompanhar-me até as últimas palavras, a fim de ver como farei para sair desta enrascada na qual voluntariamente me meti, pois bem, se você, ao final da leitura, não souber dizer sobre o que escrevi, então me darei por satisfeito.

Mas prometo que não vou trapacear e procurarei ser claro em minha redação, fugindo assim da tentação de usar palavras difíceis, com frases bonitas e ininteligíveis, pois esta seria a maneira mais fácil de não passar conteúdo algum para o leitor, cumprindo assim a minha meta. Vou deixar esta tarefa para os escritores que julgam ter algo muito importante a dizer, mas que em suas obras não conseguem dizer nada. Eles são especialistas em não passar nada para o leitor de maneira rebuscada, enquanto eu, por outro lado, tentarei apresentar conteúdo algum de forma absolutamente clara. Ah, somente queria deixar registrada aqui uma observação: na verdade, estes escritores de "nadas rebuscados" são sempre muito "entendidos" pelos seus leitores, pois nenhum deles quer dar o braço a torcer e admitir que nada entendeu. Assim sendo, afirmam com convicção que compreenderam cada palavra, todos os conceitos envolvidos, atentos à linha de raciocínio que cada um deles consegue ver, e que cada um vê a seu modo.

Pois bem, vamos lá! Escrever sobre absolutamente nada de modo absolutamente claro, este é o desafio. O nada, ausência de tudo. Não pode haver pensamento algum, ideia nenhuma. Sem imagens, sem sons, sem cheiros, sem gostos, sem tatos. Nenhum dos cinco sentidos, e se houver mais algum ou alguns além destes, como pregam os místicos, todos estes sentidos sobressalentes também não podem ser estimulados, porque o nada, como o próprio nome diz, nada estimula. Então, se há alguma coisa que este texto possa estimular, essa coisa é só e somente uma: vontade de meditar. Para atingir, realmente, o pleno estado de meditação: esvaziar a mente, não pensar em nada, não sentir nada, nada para tudo, tudo dando em nada.

Este parágrafo é bem curtinho mesmo, só isto, para que você aproveite e interrompa a leitura para meditar.

Mas eu não posso sugerir isso para você, pois se assim o fizesse estaria dizendo alguma coisa e, como eu não quero dizer nada, melhor é deixar isso contigo, você só para a leitura para fazer uma breve meditação de um minutinho se quiser. Certo?

Meditou? Teve algum contato com o nada? Assusta-se com estas minhas palavras? Não, não responda, pois neste texto nada deve ficar registrado.

Neste momento, acredito que uma boa parte dos leitores já abandonou a leitura. Então prossigo com você, insistente, que persiste até chegar à última palavra deste texto. E sinto que devo te falar uma coisa: caso, ao final da leitura, restar-lhe uma forte sensação de tempo perdido, de que nada aqui foi dito, de extrema inutilidade... caso tudo isto aconteça, peço-lhe desculpa, antecipadamente. Não tenho intenção de prejudicá-lo. Na verdade, não tenho intenção nenhuma, de ordem alguma, mantendo-me assim apegado ao nada, ponto central e essência de todo este texto, em sua totalidade ou em qualquer de suas partes.

Uma grande vantagem de escrever sobre nada, é que não preciso me preocupar em elaborar um bom final para o texto. Ou seja, a redação simplesmente acaba em qualquer ponto, sem conclusão, sem desfecho, sem nada. Porque estes elementos são necessários quando se lida com algum conteúdo e, se este não existe, não faz sentido se importar com a problemática de encontrar o desfecho ideal... Muito bom! Gostei disso! Fica muito mais fácil. É só colocar um ponto final, e pronto!

No entanto, não colocarei este ponto final agora, pois quero escrever mais um pouquinho, apesar de não ter nada a dizer sobre o nada. É só para a crônica ficar com mais volume, uma quantidade maior de palavras. Porém tenho que tomar cuidado para não entrar em nenhum assunto, pois aí estaria escrevendo sobre alguma coisa e, portanto, fugindo do meu propósito inicial. Assim sendo, infelizmente, não poderei discorrer sobre uma questão que me surgiu na mente neste exato instante. Não, não posso falar sobre a mesma. E você pode até morrer de curiosidade em saber, mas jamais saberá. Porque não posso colocar conteúdo algum aqui, mantendo assim, intocável e absoluto, o nada.

Nada mais a declarar sobre o nada.

E ponto final.

sábado, 15 de março de 2025

O MAIOR PROBLEMA DA HUMANIDADE É O SER HUMANO

O maior problema da humanidade é o ser humano. Esta frase desabou sobre o meu pensamento como uma verdade absoluta. Talvez a mesma já tenha sido utilizada muitas vezes, por inúmeros pensadores e filósofos. Ou por muitos "quaisquer uns" que se meteram a pensar na situação do mundo. Mas isto não impede que eu a coloque como base deste meu texto.

Confesso que fico um tanto desconfortável em centralizar minhas ideias e argumentos em torno deste conceito bem negativo, que não dá margem a qualquer expectativa de melhora, pois se o maior problema da humanidade é o ser humano, como ela melhorará se sempre carregará consigo a causa maior das suas desventuras, que é o próprio ser humano que a compõe?

No entanto prosseguirei assim mesmo, com o desconforto de quem não quer cair no pessimismo, ou, em outras palavras, daquele que não quer trair os seus conceitos evolucionistas, acreditando sempre na evolução do mundo.

E cabe aqui outra confissão. Sinto que está cada vez mais difícil acreditar no tão falado "mundo melhor", esta esperança tão propagada entre os espiritualistas, esotéricos e assemelhados. É muito bom, revigora a alma, acreditar que este nosso planeta passará por uma transformação positiva, em um futuro próximo no qual haverá a preponderância do bem sobre o mal e onde a espécie humana poderá expressar toda a sua humanidade. Porém, infelizmente, esta bela crença não para em pé quando nos deparamos com a realidade atual.

Nos últimos tempos, as redes sociais passaram a servir como ferramentas para propagar toda sorte de coisas ruins: mentiras, preconceitos, negacionismos, retrocessos inimagináveis... A ciência e a civilização perderam terreno para a bestialidade. A democracia nunca foi tão atacada pelo autoritarismo. A extrema direita ganhou grande espaço no espectro político. Enfim, muitas e muitas coisas, que nem sei como condensar tudo neste texto, mas que, infelizmente, todas estas coisas vão justamente em sentido contrário do tal "mundo melhor".

Então fico pensando que não vai dar tempo, pois, se é como dizem alguns, que já estamos entrando em uma nova era, e que o mundo está passando e que continuará a passar por transformações que, em um futuro próximo, nos colocarão em um patamar superior de evolução espiritual, então, vendo a grande distância que nos separa desta bem-aventurança, fica a forte impressão de que não vai dar tempo. Ou de que este mundo melhor nunca venha a acontecer, atestando o fracasso da humanidade.

“Fracasso da humanidade”, esta expressão realmente tem um peso, uma carga negativa muito forte. Porém, como aqui já demonstrei, não quero que este texto caia no pessimismo e não deixe nem um fio de esperança. Então poderíamos dizer assim: “Sinto muito, mas o tal ‘mundo melhor’ não vai chegar neste milênio. Que tal no próximo, a partir do ano 3000? Assim está bom?”. É lógico que não está bom. Mas pelo menos o “nunca” foi tirado e conseguimos vislumbrar tempos melhores lá na frente, mesmo que seja daqui a muito tempo.

Infelizmente, dentro de um futuro próximo, não consigo ver coisas melhores. O planeta está agonizando e produzindo catástrofes, uma reação natural ao aquecimento global e outras agressões causadas pela humanidade, que não sabe habitar decentemente este mundo chamado Terra. O poder e o dinheiro é o que move o ser humano, que segue uma trajetória de exploração insana dos recursos naturais. O materialismo e o imediatismo dominam o cenário, não sobrando espaço para preocupações com o futuro das próximas gerações.

O que será preciso acontecer para chacoalhar a humanidade o bastante para que haja mudanças realmente efetivas? Para que o ser humano se comporte, enfim, como ser humano? Para que os valores que nos orientam sejam realmente valores positivos, calcados em virtudes e em coisas boas? O que será preciso? Já passamos por muitas guerras, duas delas mundiais. Será que será preciso a terceira? Será que sobreviveremos a ela? E pandemias então? Quantas mais serão necessárias? Até que ponto o planeta reagirá às agressões do homem, como um cavalo xucro que não aceita a montaria, dando coices, sendo que cada coice é uma catástrofe? Qual será o fim disso?

Sim, sim, tenho que admitir que também há muita coisa boa no mundo... E que talvez este texto esteja sendo injusto ao mostrar só o lado negativo. Mas penso que há momentos em que vozes precisam se levantar, escancarando a perigosa realidade que nos cerca...

Enfim, eu acredito no ser humano. Acredito que o bem sempre vence o mal. Acredito que o futuro nos reserva um “mundo melhor”. Mas caramba, como isso parece tão distante!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

PRECIPITAÇÃO

Estou no trem, voltando do serviço. Mas isto não é a minha rotina, pois meu trabalho é 100% remoto. Então, de vez em quando, vou para a empresa, porque ficar sempre trabalhando de casa, sem nenhum contato presencial, parece que fica meio estranho. Assim sendo, mais ou menos uma vez a cada dois meses, lá vou eu, de São Caetano do Sul até Alphaville, na cidade de Barueri. Uma longa jornada.

O vagão está relativamente vazio, com muito poucas pessoas em pé. Eu sigo sentado, ao lado da janela, vendo as coisas se afastarem de mim, enquanto vou, cada vez mais, me aproximando de casa. Decido então, com o celular na mão, pesquisar os concursos literários que estão em andamento. É um hobby muito gostoso esse meu, de escrever e participar destes certames. Uma vez ou outra acaba dando certo, e sou contemplado com mais um prêmio para "engordar" o meu currículo literário. E assim vou, olhando os regulamentos e avaliando, para poder selecionar aqueles concursos nos quais pretendo participar.

Encontro dois bem interessantes. Em um deles vejo que posso mandar meu livro “Contos Sem Escritor”. Vamos ver se desta vez este meu trabalho obtém reconhecimento. Sabe aquelas obras que você bota fé, insiste em mandá-las para concursos, mas nada acontece? Essa é uma delas... Outra obra em que acredito bastante é o conto “Carreta, Encaixotado, Acidente”, também sem premiação alguma. Mas agora estes textos têm uma nova chance, cada qual com o seu concurso.

Após esta tarefa de direcionar os próximos passos do meu hobby, parto para outra vertente do mesmo, pois lembro que preciso colocar o meu blog em dia, cumprindo a meta de postar um texto por mês. Então fico buscando alguma ideia e inspiração. Mas é duro. Nada aparece. Olho pela janela do trem, vejo as luzes e a movimentação lá fora, enquanto a composição segue o seu curso e nada, nada aparece. Dentro do vagão, também nada desperta a minha criatividade. E em meio a esta busca por alguma ideia, desço na estação Barra Funda, para fazer baldeação. Desloco-me pela estação como mais uma formiguinha no meio de um formigueiro, situação esta que é perfeitamente normal.

-.-.-

Até agora, leitor, só coloquei contextualizações: o trem, a volta do serviço, a procura dos concursos literários, a busca de alguma ideia... Nada disso tem importância. O que importa é a próxima cena que lhe narrarei. Se esta próxima cena não tivesse ocorrido, nada teria a escrever. Eu estava caçando alguma ideia do que escrever, e eis que aconteceu algo, algo para escrever, o que motivou este texto. Mas voltemos para aquelas cenas.

-.-.-

Desço a escada e, na plataforma, oriento-me pela sinalização para saber em qual dos dois lados devo pegar o próximo trem. Sentido Rio Grande da Serra, é deste lado que tenho que ficar. O trem chega, abre as portas, e quando eu estou a um passo de entrar na composição, uma moça surge ao meu lado e pergunta:

– Moço, esse trem vai pra estação da Luz?

No instante imediatamente posterior a esta indagação, não consigo me situar geograficamente e nada respondo. Mas há urgência e certa afobação por parte dela, que logo em seguida repete a pergunta de outra maneira:

– Ou é do outro lado?   

Esta interrogação soa em meus ouvidos como uma afirmação: sim, é do outro lado. E, ato contínuo, digo um “sim” e concordo rapidamente com a cabeça.

Tudo acontece muito rápido. Quando ainda estou entrando no vagão, uns dois passos para dentro, mais ou menos equidistante das laterais do mesmo, é exatamente neste instante que percebo o erro. “Não, é este trem que vai para a estação da Luz!”, é a frase exclamativa que surge em minha mente, tão logo resgato a orientação geográfica. Mas esta constatação acontece justamente quando as portas do trem estão se fechando. Agora não há mais nada a fazer.

Em pé, com as costas na lateral da composição, fecho os olhos e levanto a cabeça. Só me resta ver passar, em minha mente, as consequências do meu ato:

“Caramba! Que besteira eu fiz! A coitada agora vai pegar o trem errado, contratempo, atraso, problema, tudo por minha causa! Mais uma vez a minha precipitação leva ao erro! O que custa esperar mais um segundo e procurar, na cabeça, alguma orientação para responder com certeza, fundamento, sem correria e sem querer se livrar logo da situação? O que custa?”.

Muitos outros pensamentos e sentimentos surgem como consequência deste incidente. Não vale a pena colocá-los todos aqui. Apenas quero colocar um deles, para fechar este meu relato:

“Queria uma ideia para um texto e agora já tenho algo para escrever! Mas não precisava ser desse jeito! Coitada da moça!”.