No último texto que escrevi, surgiu-me a ideia
de fazer um outro texto, baseado em ditos populares. Pensando a respeito, acreditei
que não ficaria muito interessante tentar encadeá-los, procurando um contexto em
que um puxasse o outro, sem perder o fio da meada, pois talvez assim acabaria forçando
a barra e os elementos da redação não ficariam perfeitamente encaixados... E
não adiantaria tapar o sol com a peneira, procurando dar fluidez àquilo que, a
princípio, já não se ajustou.
Assim sendo, achei melhor mesmo eu não tentar descascar
este abacaxi, pois seria muito ousado, de minha parte, elaborar uma obra dentro
deste difícil propósito... nada de querer abraçar o mundo!
Pensei então em separar os ditos populares por
setores. Sim, porque é possível fazer esta classificação. Vejamos... Há aqueles
que se enquadram no setor eclesiástico:
Devagar com o andor;
Deus escreve direito por linhas tortas;
Entre a cruz e a espada;
Comer o pão que o diabo amassou;
Acender uma vela pra Deus e outra pro diabo.
Também podemos separar os que têm a ver com elementos
aquáticos, marítimos ou fluviais:
Dar nó em pingo d’água;
Dar com os burros n’água;
Nadar, nadar, e morrer na praia;
Ensinar a pescar ao invés de dar o peixe;
Perder o barco;
De vento em popa;
Quem semeia vento, colhe tempestade;
Chuva miúda não mata ninguém;
Boi de piranha.
E assim por diante...
Mas depois desisti de fazer todo este
enquadramento, pois o leitor ficaria entediado com esta espécie de
enciclopedismo. Neste ponto, me vi sem saída. O que, a princípio, parecia ser
uma boa ideia, conseguir colocar muitos ditados populares em um único texto,
configurou-se, para mim, como algo sem pé nem cabeça. No entanto, lembrei-me
que a esperança é a última que morre, e, desta maneira, busquei organizar o
pensamento, com calma, pois a pressa é inimiga da perfeição. Urgia encontrar
uma maneira de materializar o objetivo de agregar vários, muitos ditos
populares, em um único texto, produzindo um resultado leve e que agradasse o
público leitor.
De uma coisa eu estava certo: não adiantaria ir
jogando os ditados populares no texto, a torto e a direito. Se assim o fizesse,
meu trabalho não teria sustentação alguma, estaria tão firme como um prego na
areia. Não, de modo algum seguiria por este caminho, pois seria chutar o pau da
barraca.
Enquanto não conseguia encontrar uma maneira de
avançar na escrita, vinha-me à mente aquelas pessoas, expoentes da arte da
escrita, que conseguiram realizar verdadeiras obras-primas enquanto seguiam
formatos preestabelecidos. Chico Buarque, com a letra da música “Construção” e
suas proparoxítonas. E outro grande Chico, o Anysio, não menos brilhante, que
interpretou, no programa do Jô Soares em 02/06/2000, um fenomenal monólogo por
ele escrito, com absolutamente todas as palavras iniciadas pela letra “m”. E lá
estava eu, empacado. Desistir não era uma opção. Tinha que insistir. Uma hora
conseguiria sair deste bloqueio criativo. Com persistência... Água mole em
pedra dura, tanto bate até que fura.
Mas quer saber de uma coisa? Acabei desanimando.
O motivo foi uma análise realista a respeito dos ditados populares. Pois veja
bem, hoje em dia, qual o real valor desse amontoado de palavras? São provérbios,
máximas, aforismos, não importa o nome como são chamados esses ditos populares,
porque todos eles estão, dia após dia, caindo no esquecimento. Isto é uma
percepção minha, não tenho nenhum dado concreto que a evidencie. E você,
leitor, o que acha disto? Estará mesmo esta sabedoria popular fadada à
extinção? Não sei se é possível fechar questão quanto a este ponto, só sei que
o mesmo dá muito pano pra manga...
No entanto, acabei reagindo, pois ao invés de
desanimar com o prognóstico de extinção, resolvi continuar e abraçar a causa “salve
os ditos populares!”. Como um biólogo que se empenha em salvar uma tartaruga ou
uma baleia do extermínio, lá fui eu, buscando na memória os ditados populares e
anotando-os:
Quanto mais se abaixa, mais o cu aparece;
Sem lenço nem documento;
Devagar se vai ao longe;
Isso é mais velho que andar pra frente;
O apressado come cru;
Balança, mas não cai;
Antes tarde do que nunca;
Mais vale um pássaro na mão do que dois voando;
Tá cagando e andando;
Não caga e não sai da moita;
Ficar na moita;
Em terra de cego, quem tem um olho é rei;
Tá mais perdido que cego em tiroteio;
Tá mais perdido que cachorro em mudança;
Não colocar todos os ovos em uma única cesta;
Antes só do que mal acompanhado;
Deixar a banda tocar;
Deixar o lobo cuidando dos carneiros;
A vaca foi pro brejo;
Há males que vêm para bem;
Ficar em cima do muro;
Pau mandado;
Os últimos serão os primeiros;
Pão e circo;
Dormir no ponto;
Perder o trem;
Cozinhando o galo;
Tua batata tá assando;
Segue o enterro;
As voltas que o mundo dá;
Fazer cara de paisagem;
Foi pra Portugal e perdeu o lugar;
Chorar lágrimas de crocodilo;
Vergonha é roubar e não poder carregar;
Sem eira nem beira;
Sem ter onde cair morto;
Jogar pérolas aos porcos;
Ficar pianinho;
Dar ponto sem nó;
Colocar as barbas de molho;
No fio do bigode;
Confundir gato por lebre;
Quem não tem cão, caça com gato;
Casa de ferreiro, espeto de pau;
O Sol nasce para todos;
Pau pra toda obra;
Tirar o time de campo...
Todavia, restava o grande desafio de conceber um texto que agregasse, harmoniosamente, todos as expressões populares que me vinham à mente... Então olhei para a última delas: “Tirar o time de campo”. É isso que vou fazer! E decidi, categórico, encerrar aquilo que nem comecei e sair de banda.
Um comentário:
Excelente Ademir, gostei bastante. Parabéns
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