Daqui de cima o mundo parece tranquilo. Mas sei
que não é. Dá aquela sensação de que o tempo não existe e de que há somente um
eterno presente...
Você deve estar se perguntando como eu, que vivo
sempre nas alturas, sei das coisas que acontecem na superfície terrestre. Afinal,
como posso saber que o mundo não é tranquilo? Bom, em primeiro lugar, devo
dizer que este questionamento não faz muito sentido, pois, antes desta
pergunta, faz-se necessário desvendar como esta impossibilidade, de eu
conseguir me comunicar contigo por palavras, está acontecendo neste exato
momento. Então, para não complicarmos e para que eu não me desvie do foco
daquilo que quero dizer, proponho aqui para que deixemos todas as perguntas de
lado, certo?
Retirado este entrave de ficar respondendo todas
as dúvidas e explicando as impossibilidades, posso então começar a falar
contigo, indo direto ao ponto e perguntando... Ah, vai dizer você agora, “por
que eu não posso perguntar, mas você já vai me fazendo uma pergunta?”. Olha,
então vamos fechar mais um acordo: eu posso perguntar, mas você não, beleza? E
o que quero saber de você é o seguinte: você é aquele tipo de pessoa que olha
para o céu e me aprecia?
Enquanto você vai pensando na resposta, quero
lhe mostrar como eu me sinto quando as pessoas só notam a minha presença quando
estou escura e carregada, como se antes disto eu não existisse. Só por temerem
a chuva, por ela estragar os seus planos, só aí notam que eu existo e, ato
contínuo, desejam que eu não existisse, desejo este que só mostra o quão
egoístas são. E há também aquelas que não gostam da sombra que faço, por
impedir o seu bronzeamento mais intenso ou atentar contra o seu ideal de “dia
bonito”... Outra vez o egoísmo em cena... Poxa, que discriminação! Culpar-me
pela sombra que faço! Ora essa, como se eu pudesse deixar de ter sombra... Pois
vá culpar o Sol então!
E por falar neste meu companheiro do dia a dia,
o Sol, queria deixar aqui registrado o meu protesto. Sim, porque ele é sempre
venerado, cultuado, valorizado... Enquanto eu só estrago os planos... Já sei,
já sei, você vai dizer que sou ciumenta, mas é a pura verdade! Ah, mas tenho
que ser justa e dizer que há aqueles que sabem me dar valor. Geralmente estão
nas zonas rurais, com seus pedaços de terra que dependem das chuvas para bem
produzir. Muitos deles rezam para que eu apareça, e, quanto mais escura eu estiver,
melhor! Querem logo que eu descarregue toda a água por cima deles!
Porém, infelizmente, a maioria das pessoas não
me vê com bons olhos. Na verdade, elas nem me veem! Nem olham para o céu! Vivem
tão atribuladas e apressadas, sempre com as cabeças enterradas nos celulares. E
olha que nós nos esforçamos para chamar a atenção. Fazemos o máximo para
embelezar o céu! Sim, pois não somos sempre escuras e sobrecarregadas d’água...
Mudamos muito de forma e de tonalidade. Podemos espalhar finos fiapos no céu,
como que feitos por um pincel mágico... Ou fazermos uma extensa plantação de
chumacinhos brancos no azul celeste... No entardecer, brincamos com as
tonalidades, e mostramos que podemos ser muito mais que simplesmente brancas ou
escuras... Tudo isto, fazemos tudo isto na esperança de sermos admiradas por
vocês aí embaixo... Mas que nada! Se a gente aparecer na tela do celular, aí
sim seremos vistas! Ninguém levanta a cabeça para nos ver, muito menos para nos
admirar!
No entanto, aqui também devo ser justa e dizer
que existem pessoas que sabem nos admirar. Apreciam mesmo quando estamos bem
gordas, branquinhas e fofinhas na parte de cima, mas chapadas e escuras na
parte de baixo, anunciando chuva pesada! São pessoas que têm um olhar especial,
pois enxergam beleza nos elementos da Natureza. Percebem as obras de arte que
nos esforçamos para estampar no céu... Quando fazemos aquele buraco no meio de
nós, e deixamos aquele cone de luz solar brilhar em meio ao cinza, como algo
divino que estivesse sendo derramado sobre a Terra, quando isto acontece
exclamam e sentem a vida de uma maneira diferente... Enquanto outras, ao seu
lado, continuam pregadas nas telas dos celulares! Vivem sem viver!
Ah... E você, como é? Não esqueci não da pergunta
que lhe fiz...
“Você é aquele tipo de pessoa que olha para o
céu e me aprecia?”.