terça-feira, 21 de abril de 2026

PROPOSTA INDECENTE

Estava sem nenhuma ideia para escrever o texto do mês aqui no blog... Na verdade ainda é o texto do mês passado! Puxa, o tempo passa! Mas então, se não fosse a aventura que vivi no domingo último, ainda estaria sem assunto. Mas a vida é assim, de vez em quando nos dá alguma coisa para contar...

Tudo começou quando fomos dar ouvido para a mulherzinha do Google Maps. É como chamamos a voz deste aplicativo que orienta o caminho. Cabe aqui mencionar que nesta denominação não há nenhum aspecto de misoginia de nossa parte. Sendo sincero, talvez o diminutivo e a entonação com que falamos "mulherzinha" tenham a ver com uma certa irritação, pois achamos que ela fala demais...

Estávamos no carro eu, ao volante, minha esposa, ao meu lado, e minha sogra, no banco de trás. A viagem tinha como destino o Hotel Fazenda Vale da Mantiqueira, na cidade de Virgínia, em Minas Gerais. Havíamos partido de Santo André, em São Paulo, onde mora minha sogra. Como já disse, caímos na besteira de darmos ouvido para a sugestão de um caminho alternativo que a tal mulherzinha nos propôs, que, segundo ela, traria economia de 3 minutos, alguma coisa pouca assim... Tentados pelo ganho de tempo (ínfimo, que besteira!), aceitamos a proposta.

Em um primeiro momento, logo depois que saímos da estrada asfaltada e entramos em um pequeno vilarejo, tudo era perfeitamente aceitável. Afinal, que mal há em desbravarmos um pouco do interior? Lembro que vimos um homem com um chapelão de vaqueiro, que me fez comentar algo a respeito, tipo assim: "Olha o cara com um chapelão aí! Pra dizer que é interior mesmo!".

Mas eis que, sem demora, o chão de terra logo surge sob as rodas do carro. Mais adiante, várias vacas ao lado da estradinha atestam que estamos em uma zona rural. Chego até a parar o carro para tirar foto de uma que está bem perto. E não é que ela saiu bem? Vaca fotogênica. Então minha mulher lembra que, pouco tempo antes, sua mãe havia reclamado que não havia vacas na paisagem. Seu desejo foi atendido! Assim sendo, brincamos que agora ela deveria falar que quer ver asfalto, para que o mesmo surgisse diante de nós. Nem me lembro se disse isso mesmo, só sei que o tal asfalto demorou muito, mas muito mesmo para chegar...

Mesmo assim, com toda esta dificuldade do caminho, estávamos de bom humor, pelo menos nesta parte inicial da aventura. Eu fazia comentários sobre a paisagem, que era realmente exuberante. O terreno montanhoso de Minas Gerais é muito bonito mesmo. As várias tonalidades de verde se mesclam em um visual estupendo. O dia bonito e ensolarado deixava o cenário perfeito... O cheiro da natureza... Até as borboletas que cruzávamos pelo caminho ganhavam meus elogios.

Porém, aos poucos, a estreita estradinha ficava cada vez pior. Estávamos nos embrenhando pela serra, com muitas curvas. Pedras, muitas pedras, buracos, muitos buracos... E foi neste verdadeiro rali que ouvimos as fortes pancadas que o assoalho do carro dava no solo. Mesmo indo bem devagar, como o terreno era incrivelmente acidentado, era praticamente impossível escapar destas batidas. A cada uma delas, vinha mais preocupação de que o carro não resistiria. Afinal, um Toyota Etios Sedã não é um carro preparado para este tipo de desafio. Em alguns trechos surgiam valas, com certeza formadas durante as chuvas, mas que agora mais pareciam bocas enormes e arregaladas, prontas para engolir as rodas do carro. As pedras pontiagudas também me atormentavam e, a cada segundo, tentava encontrar uma maneira de escapar destes obstáculos e seguir em frente... Até quando o carro resistirá?

Era tanto solavanco que a minha sogra sustentou o joelho sobre uma manta dobrada algumas vezes para amortecer os impactos. Ainda mais agora, que ela está de “joelho novo”, nem pensar em estragar o belo trabalho que o doutor fez, com a infiltração de plasma sanguíneo e células tronco, procedimento milagroso que lhe livrou das dores. Na minha cabeça, era real a possibilidade de o carro ficar no meio do caminho, com algo quebrado ou vazando por baixo devido às pancadas e raspadas no chassi, ou atolado em alguma das infinitas armadilhas que surgiam naquilo que, com certeza, nunca poderia ser chamada de estrada. Aliás, como o Google Maps descobre estas coisas que mais parecem picadas abertas na mata? E como tem a coragem de considerar isso como estrada e botar os carros para se ferrarem nela! Até galho seco atravessado pelo caminho tinha. Sorte que era bem fino e, assim sendo, acreditei que a pintura do meu pobre Etios seria preservada.

Minha mulher fala para eu ir mais devagar. Mas nem vejo como ir mais lentamente. Olho para o traçado da estrada no mapa do aplicativo do celular. Um caminho tortuoso que não acaba nunca! Cada vez mais entrando sei lá onde, com a estrada piorando a cada minuto. Aquele espírito esportivo do começo, aventureiro, admirando a natureza, praticamente acabou. O que veio em seu lugar foi uma vontade de logo sair desta enrascada... A cada obstáculo transposto, com batida no assoalho do carro que faz vibrar os pés, o pensamento: “Será que desta vez quebrou mesmo algo embaixo do carro?”, ou: “Caramba! Maior prejuízo consertar os estragos no carro!”.

De repente surge um veio d’água cruzando transversalmente a estradinha. Então as rodas patinam e, neste instante, sinto aquele frio cortante atravessar meu peito e, na mente, a sentença: “Vou atolar!”. Não foi desta vez...

O pior era que estávamos em uma região quase que totalmente desabitada. Raras casas apareciam, muito de vez em quando, no fundo dos vales, e minha esposa comentou: “Como será que eles fazem para chegar lá embaixo?”. Esta era uma questão totalmente pertinente, visto que não encontrávamos nenhuma outra estradinha que saísse da nossa e descesse o morro. Sinal de celular? Esquece! Se acontecesse algo que impedisse que continuássemos, sei lá como faríamos para obter ajuda...

Foi então que apareceu, no sentido contrário, uma moto. Ah, não estamos sozinhos neste fim de mundo! O motorista parou ao meu lado e trocamos algumas palavras. “Vocês vão para o hotel?”, acho que foi o garupa que nos fez esta pergunta. Respondemos que sim e aí completei: “O aplicativo mandou vir por esse caminho para economizar tempo, achando que nesta estrada dá pra andar a sessenta quilômetros por hora, mas não dá pra andar nem a seis!”. Então ele tornou dizendo que, daqui para frente, o caminho melhoraria. Glória Deus! Santas palavras!

Realmente, daí para frente foi melhorando... Aqueles poucos minutos que ganharíamos com este “atalho”, acabou ficando, creio eu, em mais ou menos uma hora de atraso com relação ao tempo inicial previsto.

Mas tudo bem! Estávamos todos na civilização novamente. Ninguém ficou com o carro atolado ou quebrado no meio do nada.

Na recepção do hotel, fui ao banheiro. E foi aí que, lembro-me bem, surgiu-me a ideia de converter esta experiência em mais um texto. Afinal, esta aventura tinha que ficar registrada!

Ah, é bom aqui dar um aviso de utilidade pública. Caso você um dia vá para este mesmo hotel, vindo de São Paulo, jamais coloque direto o endereço do hotel. Primeiro coloque para ir para a cidade de Cruzeiro, SP. A partir daí, coloque para chegar em Pouso Alto, MG. E só a partir deste último destino, coloque o endereço do hotel. Se não fizer assim, o Google Maps lhe fará a proposta indecente de economizar alguns minutos e, se você ceder... Bom, agora você já sabe o que pode acontecer!