quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

PERFECCIONISMO

Não sei porque ainda insisto no perfeccionismo. Acho que esta atitude é contrária à ordem natural das coisas. Penso que a teoria da evolução de Darwin tem como princípio o erro da Natureza. Explico: aquele ser que nasce diferente dos demais pode ser considerado um erro. Porém esta diferença, quando for favorável à sobrevivência da espécie, seguirá avante no processo evolutivo. Se não for favorável, será uma mudança descartada. Se não houvesse o erro de nascer um ser diferente, não teria evolução. Ou, pensando de outra maneira, a Natureza vai errando e acertando na geração dos seres. Os acertos são as mudanças que os ajudam a viver mais e melhor. Os erros vão no sentido contrário. No entanto, o erro é a base. Base inteira se considerarmos erro todo ser que nascer diferente. Metade da base se considerarmos erro somente aqueles seres cujas diferenças não são favoráveis à evolução da espécie. Por um raciocínio ou por outro, há o erro como princípio básico. E fatalmente temos que admitir que a Natureza se permite errar para evoluir.

Então eu, um ser natural, como posso querer nunca errar? Fazer tudo certo, sempre? Não estaria assim, sendo contrário à evolução que faz parte da Natureza?

E aqui surge o paradoxo: buscar o perfeccionismo, sem admitir erros, acaba sendo o maior dos erros, pois estaremos nos distanciando da perfeição da Natureza, que admite os erros para evoluir.

Quando comecei a escrever este texto, tinha em mente relatar duas situações marcantes em minha vida, nas quais o perfeccionismo exacerbado comprovou ser o caminho mais rápido para o fracasso total. Não sei de vale a pena colocá-las aqui... Mas só para não deixar você no vazio de não contar estes fatos, vamos a eles, rapidamente.

O primeiro deles foi quando, ainda criança, estava fazendo uma pipa tipo raia. Lembro-me do extremo detalhismo ao cortar a folha de seda... Tudo milimetricamente elaborado... Para no fim culminar, no primeiro puxão da linha ao empiná-la, em uma vareta quebrada! Tanto esmero na confecção da pipa e a vareta estava “bichada”!

A segunda situação ocorreu nos meus tempos de jovem, quando tinha o hobby de montar circuitos eletrônicos. Decidi montar aquele rádio de quatro transístores em uma placa de circuito impresso, feita com todo o cuidado, na qual soldei todos os componentes buscando o máximo de perfeição. Finalizada a montagem, ao ligar o aparelho, funcionou por apenas alguns segundos, porque, logo em seguida, o som da estação foi substituído por um apito irritante, causado por algum componente que, aqui também “bichado”, provocou este triste resultado. Mais infeliz eu fiquei quando fui ver um amigo que também havia montado este mesmo circuito. Porém ele optou por, ao invés usar uma placa de circuito impresso, soldar os componentes usando uma ponte de terminais, com fios passando pra lá e pra cá, com os terminais dos componentes dobrados e tortos, passando uns sobre os outros, aquele emaranhado que mais parecia uma teia de aranha tridimensional... Esteticamente deplorável. Mas funcionava perfeitamente bem!

Acho que estes dois incidentes falam por si a respeito dos efeitos colaterais do perfeccionismo... E a Natureza nos fala como devemos agir: admitindo os erros para evoluir!

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