Apelei, confesso que apelei, pois, ao invés de
lançar mão da minha “Inteligência Natural”, acabei apelando e perguntando para
a “Inteligência Artificial” (não vou dizer qual foi, porque não quero fazer
propaganda de nenhuma delas!). A pergunta foi esta: “Preciso de ideias para
escrever uma crônica... Você pode me ajudar?”. E não é que ela, no final da sua
resposta, ao dar uma dica rápida da estrutura de uma boa crônica, colocou como
exemplo a perda de guarda-chuvas e, com isto, me deu uma ideia legal?!
Pois bem, agora já tenho a ideia. Então fecho a
aba da IA e vamos lá! (até rimou!). Nada de IA daqui para frente. Quero “eu”
escrever, sem outra inteligência, somente a minha!
Quero falar sobre guarda-chuva, os guarda-chuvas
da minha vida. E já começo falando do último, aquele que comprei na
segunda-feira passada. Estava na rua Coronel Oliveira Lima, no centro de Santo
André, um ótimo lugar para se fazer compras. Acompanhava a minha esposa e minha
filha. Logo na entrada de uma loja, do lado esquerdo, vi alguns guarda-chuvas
pendurados e fechados. Interessei-me por um, cujo preço era vinte reais.
Naquele momento estava sozinho, pois as duas se adiantaram, entrando em outra
loja. Veio-me à mente a intenção de já o comprar, pois pensei que, por menos de
vinte reais, não encontraria outro. Mesmo assim resisti a este primeiro impulso
e decidi pesquisar mais. E digo a você que esta decisão valeu a pena, pois
acabei encontrando um por dezessete e cinquenta e, ainda por cima, o
“dito-cujo” é azul. Sim, azul! Afinal, por que todo guarda-chuva masculino pequeno
tem que ser preto? Chega de preto! Gostei muito da tonalidade do azul que
usaram e me senti bem em fugir do padrão, um pequeno ato de rebeldia com
estilo...
Após este breve relato sobre como este último
guarda-chuva, o “diferentão”, entrou em minha vida, vamos partir agora para
aqueles que saíram de minha vida, os perdidos, esquecidos, que me deixaram bem
chateado quando me vi sem eles... Creio que aquele que mais me aborreceu quando
notei o seu desaparecimento, foi um que era bem grande na circunferência. A
separação ocorreu durante uma viagem de férias, quando passava alguns dias na
cidade de Guararema. Lá estávamos eu, minha esposa e minha sobrinha e, para infelicidade
nossa, ele, o meu guarda-chuva grande e preto, estava sendo bastante utilizado,
pois pegamos uns dias bem chuvosos por lá. Nem sei como o perdi, só sei
que doeu muito, ficava me lamentando pela perda do estimado pertence, utilizava
os adjetivos "grande" e "preto" para, em meio a lamúrias,
demonstrar o meu pesar. Pode parecer um exagero, tanta lástima por um simples
objeto, nada valioso. Porém, devo dizer que meu sentimento era forte e
pungente, pois sentia-me bem quando o abria e via a larga área que ele protegia
ao meu redor, imponente, vitorioso sobre qualquer tipo de chuva, até mesmo as
mais agressivas.
Mas não são só as perdas de guarda-chuvas que
nos chateiam, há também as suas quebras, que acontecem espontaneamente, muito
cedo, tornando-os praticamente descartáveis. Já faz muito tempo que não se
consertam guarda-chuvas... E isto faz com que as suas presenças em nossas vidas
sejam demasiado breves, mal temos tempo de usá-los, e logo as varetas
desencaixam, entortam, os cabos afrouxam ou soltam, as lonas desfiam, e aí já
são substituídos por outros, novos e igualmente frágeis... Se o pobre coitado
consegue resistir e dura um pouco mais, aí vem o fatal esquecimento, que o
separa do seu dono ainda em tenra idade...
Outra vez pode parecer um exagero o modo como me
expresso, humanizando um simples guarda-chuva, usando a expressão "tenra
idade" direcionada a um objeto inanimado... Mas não é um exagero não,
aliás é uma postura que deveria ser adotada por mais pessoas, pois se os
infelizes guarda-chuvas são vítimas de muitos esquecimentos, é justamente
porque são menosprezados. Sim, menosprezados. Mesmo eu, que agora refiro-me a
eles cheio de sentimentos, se isto fosse de coração mesmo, não os esqueceria
por aí em qualquer canto. Confesso então que, efetivamente, não dou o devido
valor a eles. Mas nem por isto deixo de muito sentir quando os perco. Creio que
é o mesmo que acontece nos relacionamentos humanos, especialmente naqueles
entre parceiros amorosos, quando um deles não valoriza o outro, e só vai dar
valor quando não mais o tiver...
Mas, pensando bem, este guarda-chuva que perdi
em Guararema era, por mim, bem valorizado. Mas como, então, eu fui capaz de
esquecê-lo em algum canto e, ainda por cima, nem lembrar que canto foi esse?
Imperdoável, esquecimento imperdoável, com
certeza. E quer saber de uma coisa? Não vou nem mencionar os outros
guarda-chuvas da minha vida. Todos eles perdem o valor quando os comparo com
este, grande e preto que, imponente, protegia-me das chuvas, mesmo as mais
molhadas e chuvosas...
Ah, mas talvez este azul que comprei agora, o
"diferentão", que foge da mesmice da cor preta dos guarda-chuvas
masculinos pequenos, talvez este também conquiste destaque na galeria dos
guarda-chuvas da minha vida.
De minha parte, farei de tudo para não o esquecer. E que seja eterno enquanto dure a sua breve vida...