sábado, 22 de agosto de 2026

O QUE ACONTECEU?

Há certas coisas que nos acontecem e que não estamos preparados para falar ou contar sobre elas, pois, por algum motivo, queremos esquecer o assunto. Mas este sentimento acaba se diluindo com o tempo, até chegar ao ponto de não oferecer resistência alguma e então podemos contar naturalmente. O que vou colocar aqui agora é algo do tipo. O forte sentimento de ter sido vítima de algo muito estranho, que fez com que eu me sentisse um alucinado, um louco, ou simplesmente uma vítima de um duende travesso, tudo isso esvaiu-se, e agora você vai poder saber o que aconteceu comigo.

Não sei precisar bem quanto tempo faz. Na roda-viva em que vivemos, em que semanas passam como dias, e que dias passam em um piscar de olhos, o passado parece um borrão... Então vamos definir assim: não faz nem muito e nem pouco tempo. Estávamos preparando o salão de festas do prédio onde minha filha mora. Não me pergunte para qual evento era esta preparação. Era algum aniversário ou outra comemoração qualquer. Também isto ficarei devendo em minha narração. Mas não importa, porque não é relevante para o acontecimento pontual que pretendo aqui descrever.

A primeira cena que precisa ser aqui colocada começa com a minha pessoa, este que vos conta este bizarro incidente, andando na área externa, após ter saído do salão de festas, tendo como objetivo contornar o prédio e entrar pela porta frontal do mesmo, a fim de chegar no elevador. Era preciso fazer algumas viagens de ida e volta neste percurso, pegando as coisas que estavam ao lado da entrada do elevador e as levando para o salão. Sacolas, embalagens, comidas, enfim, tudo aquilo necessário para a festa.

Ao chegar na frente do elevador, olho o espaço onde deveriam estar todas as coisas e...

Nada! Sumiram!

Volto para a área externa e, indeciso do que fazer, acabo entrando novamente no prédio, para me certificar que, exatamente no lugar onde aquilo tudo havia sido deixado, nada mais estava.

Outra vez saio do prédio. Nem sei dizer se, naquele momento, ainda mais uma vez adentrei no edifício para confirmar a visão do vazio. Creio que sim...

“Mas como pode ser? Como alguém tirou tudo aquilo de lá?”, era o que eu pensava. E, com isto em mente, a ideia de que alguém estranho havia pego todas aquelas coisas, fui chamar o porteiro, informando-o sobre o desaparecimento. Ele me acompanhou e, antes mesmo de entrarmos no prédio, aparece minha esposa e imediatamente lhe falo sobre o sumiço.

Então lá fomos nós, eu e ela, para a frente do elevador e, lá chegando...

Todas as coisas estavam lá!

Atordoado, falei qualquer coisa para o porteiro em tom de desculpa e tentando explicar o meu engano...

Fiquei bem nervoso e abalado com o acontecido. Pensei em alucinação, loucura, coisas do tipo. Mas hoje encaro isto de modo mais leve. Como não mais me aconteceu outra coisa doida assim, o incidente perdeu a intensidade. Pois é, ainda bem, eu não aloprei novamente... Ou o tal duende travesso que fez tudo desaparecer acabou me deixando em paz...

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

GUARDA-CHUVAS

Apelei, confesso que apelei, pois, ao invés de lançar mão da minha “Inteligência Natural”, acabei apelando e perguntando para a “Inteligência Artificial” (não vou dizer qual foi, porque não quero fazer propaganda de nenhuma delas!). A pergunta foi esta: “Preciso de ideias para escrever uma crônica... Você pode me ajudar?”. E não é que ela, no final da sua resposta, ao dar uma dica rápida da estrutura de uma boa crônica, colocou como exemplo a perda de guarda-chuvas e, com isto, me deu uma ideia legal?!

Pois bem, agora já tenho a ideia. Então fecho a aba da IA e vamos lá! (até rimou!). Nada de IA daqui para frente. Quero “eu” escrever, sem outra inteligência, somente a minha!

Quero falar sobre guarda-chuva, os guarda-chuvas da minha vida. E já começo falando do último, aquele que comprei na segunda-feira passada. Estava na rua Coronel Oliveira Lima, no centro de Santo André, um ótimo lugar para se fazer compras. Acompanhava a minha esposa e minha filha. Logo na entrada de uma loja, do lado esquerdo, vi alguns guarda-chuvas pendurados e fechados. Interessei-me por um, cujo preço era vinte reais. Naquele momento estava sozinho, pois as duas se adiantaram, entrando em outra loja. Veio-me à mente a intenção de já o comprar, pois pensei que, por menos de vinte reais, não encontraria outro. Mesmo assim resisti a este primeiro impulso e decidi pesquisar mais. E digo a você que esta decisão valeu a pena, pois acabei encontrando um por dezessete e cinquenta e, ainda por cima, o “dito-cujo” é azul. Sim, azul! Afinal, por que todo guarda-chuva masculino pequeno tem que ser preto? Chega de preto! Gostei muito da tonalidade do azul que usaram e me senti bem em fugir do padrão, um pequeno ato de rebeldia com estilo...

Após este breve relato sobre como este último guarda-chuva, o “diferentão”, entrou em minha vida, vamos partir agora para aqueles que saíram de minha vida, os perdidos, esquecidos, que me deixaram bem chateado quando me vi sem eles... Creio que aquele que mais me aborreceu quando notei o seu desaparecimento, foi um que era bem grande na circunferência. A separação ocorreu durante uma viagem de férias, quando passava alguns dias na cidade de Guararema. Lá estávamos eu, minha esposa e minha sobrinha e, para infelicidade nossa, ele, o meu guarda-chuva grande e preto, estava sendo bastante utilizado, pois pegamos uns dias bem chuvosos por lá. Nem sei como o perdi, só sei que doeu muito, ficava me lamentando pela perda do estimado pertence, utilizava os adjetivos "grande" e "preto" para, em meio a lamúrias, demonstrar o meu pesar. Pode parecer um exagero, tanta lástima por um simples objeto, nada valioso. Porém, devo dizer que meu sentimento era forte e pungente, pois sentia-me bem quando o abria e via a larga área que ele protegia ao meu redor, imponente, vitorioso sobre qualquer tipo de chuva, até mesmo as mais agressivas.

Mas não são só as perdas de guarda-chuvas que nos chateiam, há também as suas quebras, que acontecem espontaneamente, muito cedo, tornando-os praticamente descartáveis. Já faz muito tempo que não se consertam guarda-chuvas... E isto faz com que as suas presenças em nossas vidas sejam demasiado breves, mal temos tempo de usá-los, e logo as varetas desencaixam, entortam, os cabos afrouxam ou soltam, as lonas desfiam, e aí já são substituídos por outros, novos e igualmente frágeis... Se o pobre coitado consegue resistir e dura um pouco mais, aí vem o fatal esquecimento, que o separa do seu dono ainda em tenra idade...

Outra vez pode parecer um exagero o modo como me expresso, humanizando um simples guarda-chuva, usando a expressão "tenra idade" direcionada a um objeto inanimado... Mas não é um exagero não, aliás é uma postura que deveria ser adotada por mais pessoas, pois se os infelizes guarda-chuvas são vítimas de muitos esquecimentos, é justamente porque são menosprezados. Sim, menosprezados. Mesmo eu, que agora refiro-me a eles cheio de sentimentos, se isto fosse de coração mesmo, não os esqueceria por aí em qualquer canto. Confesso então que, efetivamente, não dou o devido valor a eles. Mas nem por isto deixo de muito sentir quando os perco. Creio que é o mesmo que acontece nos relacionamentos humanos, especialmente naqueles entre parceiros amorosos, quando um deles não valoriza o outro, e só vai dar valor quando não mais o tiver...

Mas, pensando bem, este guarda-chuva que perdi em Guararema era, por mim, bem valorizado. Mas como, então, eu fui capaz de esquecê-lo em algum canto e, ainda por cima, nem lembrar que canto foi esse?

Imperdoável, esquecimento imperdoável, com certeza. E quer saber de uma coisa? Não vou nem mencionar os outros guarda-chuvas da minha vida. Todos eles perdem o valor quando os comparo com este, grande e preto que, imponente, protegia-me das chuvas, mesmo as mais molhadas e chuvosas...

Ah, mas talvez este azul que comprei agora, o "diferentão", que foge da mesmice da cor preta dos guarda-chuvas masculinos pequenos, talvez este também conquiste destaque na galeria dos guarda-chuvas da minha vida.

De minha parte, farei de tudo para não o esquecer. E que seja eterno enquanto dure a sua breve vida...