Há certas coisas que nos acontecem e que não
estamos preparados para falar ou contar sobre elas, pois, por algum motivo, queremos
esquecer o assunto. Mas este sentimento acaba se diluindo com o tempo, até
chegar ao ponto de não oferecer resistência alguma e então podemos contar
naturalmente. O que vou colocar aqui agora é algo do tipo. O forte sentimento
de ter sido vítima de algo muito estranho, que fez com que eu me sentisse um
alucinado, um louco, ou simplesmente uma vítima de um duende travesso, tudo
isso esvaiu-se, e agora você vai poder saber o que aconteceu comigo.
Não sei precisar bem quanto tempo faz. Na roda-viva
em que vivemos, em que semanas passam como dias, e que dias passam em um piscar
de olhos, o passado parece um borrão... Então vamos definir assim: não faz nem
muito e nem pouco tempo. Estávamos preparando o salão de festas do prédio onde
minha filha mora. Não me pergunte para qual evento era esta preparação. Era
algum aniversário ou outra comemoração qualquer. Também isto ficarei devendo em
minha narração. Mas não importa, porque não é relevante para o acontecimento
pontual que pretendo aqui descrever.
A primeira cena que precisa ser aqui colocada
começa com a minha pessoa, este que vos conta este bizarro incidente, andando
na área externa, após ter saído do salão de festas, tendo como objetivo contornar
o prédio e entrar pela porta frontal do mesmo, a fim de chegar no elevador. Era
preciso fazer algumas viagens de ida e volta neste percurso, pegando as coisas
que estavam ao lado da entrada do elevador e as levando para o salão. Sacolas,
embalagens, comidas, enfim, tudo aquilo necessário para a festa.
Ao chegar na frente do elevador, olho o espaço
onde deveriam estar todas as coisas e...
Nada! Sumiram!
Volto para a área externa e, indeciso do que
fazer, acabo entrando novamente no prédio, para me certificar que, exatamente
no lugar onde aquilo tudo havia sido deixado, nada mais estava.
Outra vez saio do prédio. Nem sei dizer se,
naquele momento, ainda mais uma vez adentrei no edifício para confirmar a visão
do vazio. Creio que sim...
“Mas como pode ser? Como alguém tirou tudo
aquilo de lá?”, era o que eu pensava. E, com isto em mente, a ideia de que
alguém estranho havia pego todas aquelas coisas, fui chamar o porteiro, informando-o
sobre o desaparecimento. Ele me acompanhou e, antes mesmo de entrarmos no
prédio, aparece minha esposa e imediatamente lhe falo sobre o sumiço.
Então lá fomos nós, eu e ela, para a frente do
elevador e, lá chegando...
Todas as coisas estavam lá!
Atordoado, falei qualquer coisa para o porteiro
em tom de desculpa e tentando explicar o meu engano...
Fiquei bem nervoso e abalado com o acontecido.
Pensei em alucinação, loucura, coisas do tipo. Mas hoje encaro isto de modo
mais leve. Como não mais me aconteceu outra coisa doida assim, o incidente
perdeu a intensidade. Pois é, ainda bem, eu não aloprei novamente... Ou o tal
duende travesso que fez tudo desaparecer acabou me deixando em paz...
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