domingo, 1 de setembro de 2024

OBRAS PERDIDAS

Conecto o HD externo no notebook e... nada! Não é reconhecido. Insisto várias vezes e obtenho o mesmo resultado. Vou para o quarto do meu filho e peço para ele conectar o HD no PC dele. Ainda nada!

E agora?!? Neste HD estão muitas fotos e filmes, registros da família, viagens... Além de grande quantidade de obras que escrevi, contos, livros...

A sensação de perda é muito ruim. Com relação às fotos e filmes, ficam lá guardados e nós, praticamente, nunca os vemos, mas saber que não existem mais, isto provoca um vazio na gente. Como vamos recordar momentos, ver nossos entes queridos mais novos, inclusive nós mesmos, e nos admirarmos com as diferenças, e puxarmos aqueles sentimentos indescritíveis? Com relação às obras perdidas, talvez ficassem perdidas para sempre, nunca publicadas, nunca mais lidas por ninguém, mas saber que não existem mais, isto me dá uma sensação de que algo muito importante foi tirado de mim, criações totalmente perdidas, todo um trabalho que, de repente, deixa de existir.

O próximo passo é começar pela hipótese menos impactante ou dramática. Pode ser um simples mau contato. Compro um novo cabo USB para conectar o HD externo. Quando a mercadoria chega em casa, vejo que no pacote há dois cabos. Oba! Veio em dobro! Sorte a minha! Mas a sorte acaba aí, pois, quando troco o cabo, nada acontece. Nenhum dos dois novos cabos é capaz de ressuscitar o meu HD.

O estágio seguinte é buscar um serviço especializado. Nesta etapa percebo como funciona a precificação neste mercado onde o público consumidor é formado por pessoas que não medem esforços para recuperar valiosíssimos registros perdidos. Os preços começam muito, muito altos. Mas podem abaixar bastante. No meu caso, abaixa para duas vezes e meia mais barato, mas ainda assim fica muito caro! Mas vale a pena! Acredito que este serviço será bem-sucedido e terei tudo de volta!

Mas a resposta deste serviço de recuperação de HD não vem tão logo... Enquanto isso, procuro maneiras alternativas de reaver os arquivos perdidos. Vou em busca de um Netbook, um pequeno computador encostado aqui em casa. Para minha felicidade, encontro todas as minhas criações literárias e também muitas fotos e vídeos, valiosos registros de família. Porém, tudo isto até 2014. O que veio depois não dá para resgatar. No entanto, já é uma grande coisa!

Certo tempo depois, vem o retorno da empresa especializada, que não é nada agradável: não foi possível recuperar nada do HD!

Após este baque, ainda consigo recuperar mais uma obra literária, por meio daqueles programas que possibilitam reaver até arquivos excluídos. Baixo uma versão gratuita e vou em busca de obter novamente um livro inacabado, escrito após 2014, que sei ter removido de outro computador encostado.

Desta maneira, com relação às obras literárias que escrevi, acredito que consegui resgatar tudo. Porém, ainda resta uma lacuna considerável nos registros de imagens, fotos e vídeos, da família...

Ainda tentarei, por meio de outros profissionais, ressuscitar o meu HD externo morto.

Só me resta, para completar este texto, recomendar a você, que me lê, para que cuide bem das suas informações valiosas, colocando-as na “nuvem”, onde há uma garantia dos provedores em manterem todos os arquivos, ou fazendo backups em outros HDs, mas nunca confiando, como eu, que o tal HD externo, no qual estão concentrados os dados (e só nele!), vai durar para sempre...

quarta-feira, 31 de julho de 2024

SOLEMAR – O RIOZINHO E A CONVERSA COM XXXXXX (PARTE 3 DE 3)

Havia um objetivo maior para aquela caminhada, além de catar conchas e molhar os pés na água do mar: propus à minha esposa chegarmos até o riozinho. Ah, o riozinho... Contei a ela que quando éramos crianças, lá íamos, eu e meu primo, pescar pitus, uma espécie de camarão de água doce, que era capturado em latas abertas na parte superior e perfuradas em vários pontos. Eram mergulhadas na parte mais funda do riozinho, sustentadas por fios para serem puxadas depois, e tinham em seu interior uns pedaços de miolo de pão, que atraiam os pobres crustáceos para esta armadilha.

– Não é muito longe não! É perto! Tá vendo aquela casa meio grande e isolada? Ela fica bem do lado do riozinho. É a referência que a gente tinha. Ela tá mais ou menos do mesmo jeito... – foi assim que a convenci para esticarmos a nossa caminhada até lá.

Lá chegando, seguimos o curso tortuoso do pequeno rio, afastando-nos do mar por algumas dezenas de metros, até atingir uma área onde ele ficava bem mais largo. Mais à frente, tinha até uma garça pousada em algo que se elevava no meio do leito. Envolvendo esta piscina natural, havia uma vegetação. Foi neste cenário que avistamos uma pessoa, sentada em algo que não me lembro agora, a contemplar as águas tranquilas diante de si. Ao nos aproximarmos dele, logo surgiu uma conversa, na qual ficamos sabendo um pouco da sua vida. Creio que não há nenhum problema em colocar aqui algumas coisas que ele nos disse, pois elas não revelarão a sua identidade, porque são coisas da vida...

Perdeu os pais muito jovem, ainda criança e na adolescência. O pai com 12 e a mãe com 16, se não me engano eram estas as idades. Disse que sua mãe sempre lhe falava para estudar. Comentou que ela mesmo era estudiosa. Mas confessou que ele não seguiu este conselho materno, pois não dava para os estudos. Mencionou escolha errada na vida e nos informou que morava na rua. Disse-nos sua idade e que tinha uma irmã. Gostou da figura estampada em minha camiseta, achando que era algum grupo de música mexicana (mas eram os Beatles, com aquelas roupas de cores berrantes do álbum Sgt. Pepper’s), então emendou que gostava de samba. Em algum ponto da conversa, contou-nos que era da Bahia. E assim soubemos um pouco da sua vida... Na nossa conversa, comentamos sobre a Natureza, sua beleza e a tranquilidade que ela nos dá (motivados, é lógico, por aquele belo pedaço de Natureza diante dos nossos olhos). Foi depois deste primeiro comentário que ele começou a revelar os elementos que aqui coloquei.

Assim está bom, já está de bom tamanho. Não contarei mais nada sobre você, meu caro XXXXXX (não vou revelar o seu nome). Mas vou deixar aqui registrado que o papo foi bom, e acho que ele gostou ainda mais que nós. E, por fim, mostrou-se bem satisfeito com o nosso sorriso ao nos despedirmos, comentando algo a respeito. Deixamos ele no mesmo lugar no qual o encontramos e iniciamos o caminho de volta. Logo que nos distanciamos um pouco, comentei que as pessoas que vivem na rua ficam extremamente gratas quando alguém conversa com elas. Infelizmente, elas sofrem um processo de invisibilização... São ignoradas, como se não existissem. Ou são evitadas, como se a sua existência representasse um mal por si só. Então, quando simples palavras lhes são dirigidas, tratando-os normalmente como seres humanos que são, neste momento sentem-se muito bem.

Pronto! Não há mais nada a descrever ou narrar sobre Solemar. Porque, a partir daí, ao chegarmos no carro que ficou estacionado na rua Cecília Meireles, logo entramos no mesmo e seguimos para almoçar no shopping da Praia Grande, deixando Solemar para trás...

Espero que você, leitor ou leitora que me acompanhou nesta trilogia de pequenos textos sobre Solemar, tenha captado ao menos um pouco dos sentimentos que vivi durante este breve passeio saudosista... O saudosismo é assim: vibra muito mais forte naquele que viveu o passado. Aqueles que ouvem a história, podem até achar meio sem graça... Mas deixe eu lhe perguntar uma coisa: você não tem um lugar que lhe traz esse saudosismo gostoso de boas recordações?

terça-feira, 9 de julho de 2024

SOLEMAR – O GRANDE PRÉDIO, AS BOLACHAS-DO-MAR, E OS EMISSÁRIOS (PARTE 2 DE 3)

Talvez o principal motivo que me levou a visitar Solemar foi a construção de um grande prédio bem ao lado da casa em que lá ficávamos. O novo empreendimento, com quatorze andares e ampla frente para o mar, ocupa a área do que era um terreno vazio e, pelos meus cálculos, avançou para uma ou mais casas ao lado. O quintal onde nos demorávamos nas redes ou cadeiras, vendo as crianças brincarem na piscina, parte desta área virou o estande de venda deste prédio vizinho. No que restou da nossa ex-casa, pude ver, na parte da frente, que o imóvel ganhou uma nova estrutura, aumentando para cima e virando um sobrado. A parte de trás, maior em comprimento, não foi possível ver, por estar escondida por um alto muro ou parede azul. O que aconteceu com as três janelas (da sala, banheiro e quarto) e com o corredor lateral? Foram “engolidos” pelo avanço do telhado e deixaram de existir? Ou estão atrás do muro azul? Agora, vendo detalhadamente o vídeo que fiz para registrar a cena, decidi pela primeira hipótese. Mas nada disso importa, pois o resumo da história é que tudo foi muito, muito modificado mesmo, e tudo que me lembro não existe mais!

Até a praia estava diferente, com o mar bem mais recuado quando comparado com minhas lembranças. E neste cenário que constantemente era contraposto com nossas memórias, lá fomos, eu e minha esposa, caminhar na beira da água, molhando os pés. Estávamos quase só nós dois na imensidão de areia, pois, apesar de o dia estar bonito naquele começo de inverno, era segunda-feira. Se o feriado não fosse em Barueri, mas sim na cidade de São Paulo, aí sim a praia estaria com muito mais gente. Porém é melhor assim, vazia, pois o contato com a natureza se faz mais presente.

Em algumas regiões a água se acumulava, formando rasíssimas piscinas onde a areia era um pouquinho mais baixa. Nesses lugares os pés sentiam a temperatura ligeiramente maior. Logo começamos a pegar algumas poucas conchas que surgiam, mas o que mais nos chamou a atenção foi o que parecia ser uma estrela-do-mar. Na verdade não era uma estrela-do-mar, mas sim “bolacha-do-mar”. Fiquei sabendo seu nome correto justamente agora, quando fui pesquisar na internet o nosso achado. Mais um pouco de conhecimento: a tal bolacha-do-mar pertence à ordem Clypeasteroida e é parente próxima da estrela-do-mar. De cor acinzentada e com o desenho de uma flor ao centro, encontramos algumas na areia molhada, mortas. Uma delas estava inteira, nenhuma parte quebrada, um achado que mereceu ser guardado em um saquinho plástico. No entanto, minutos depois, ao olharmos novamente para este brinde que roubamos da natureza, constatamos que havia se quebrado, e aí percebemos que se tratava de algo muito frágil, que logo depois voltou para a areia, pois não valia a pena guardá-la daquele jeito.

A caminhada continuava e, justiça seja feita, nem tudo piorou com o passar dos anos, pois não posso deixar de registrar que não passamos por nenhum esgoto a céu aberto. Antigamente, de quando em quando, tínhamos que pular os caminhos tortuosos, que seguiam poluindo a areia até atingirem a água do mar. Alguns, menores, não conseguiam atingir as primeiras ondas. Morriam em algum ponto do percurso arenoso, mas nem por isso deixavam de degradar o meio ambiente. Mas agora o cenário é bem diverso. Foram construídos emissários, que levam o esgoto em longas tubulações até regiões mais profundas do mar. Não que isto deixe totalmente de poluir, mas acaba sendo, vamos dizer assim, uma poluição mais bem comportada, pois se aproveita da “grande capacidade de depuração do oceano, em função de seu enorme volume de água” (com as próprias palavras, entre aspas, que encontrei no site da CETESB – Companhia Ambiental de Estado de São Paulo).

(continua)

sábado, 6 de julho de 2024

SOLEMAR – AS TRÊS CASAS E AS ESTRADAS (DE ASFALTO E DE FERRO) (PARTE 1 DE 3)

Solemar é uma praia que pertence à cidade de Praia Grande, no estado de São Paulo.

Decidi começar a crônica com esta frase, que dá a localização geográfica de um lugar que fez parte de minha vida por mais de quatro décadas. Desde 1966, quando tinha dois anos idade, até 2010, ano em que a casa foi vendida. Mas não foi somente esta casa que atravessou todo este tempo. Na verdade, foi uma espécie de corrida de bastões. O primeiro imóvel, vindo dos anos 60, atravessou a década seguinte e, no começo dos anos 80, passou o bastão para outro imóvel. Este prosseguiu até a virada do milênio, quando delegou a tarefa de acompanhar a minha família para o terceiro e último “corredor”, uma construção com quatro suítes cercando uma cozinha e sala conjugadas, tudo isto na parte posterior do terreno, pois a frente era embelezada por um jardim.

As três construções muito próximas, e todas elas muito próximas também da praia. A do meio em termos cronológicos, a que atravessou as décadas de 80 e 90, esta era em frente à praia, pé na areia mesmo. E foi assim, passando as férias de final de ano, que minha família passou de um imóvel para outro, sempre naquele final da rua Cecília Meireles, sempre Solemar. A primeira casa me viu crescer e chegar até a adolescência. A segunda presenciou meus anos de juventude, conheceu minha esposa e, em seu quintal de frente para o mar, alegrou-se ao ver minha filha brincando com os primos na piscina de armar. Meu filho, na barriga da mãe, conheceu as paredes recém-levantadas da terceira casa. São tantas recordações em cada uma delas... Nem sei por qual começar...

Não quero parecer injusto com nenhuma memória, lembrando de algumas e esquecendo outras, que dirão serem mais importantes que as primeiras, assim sendo tentarei deixar todas elas, as antigas, no passado, e procurarei relatar aqui o que aconteceu em uma rápida visita que lá fiz, há onze dias atrás. São memórias frescas, recentes, de um bate-volta entre São Caetano e Solemar, coisa que já estava querendo fazer há algum tempo.

Aproveitei o feriado em Barueri, cidade na qual trabalho, para dar esta escapada da rotina. Na verdade, há uma certa mentira quando digo “cidade na qual trabalho”. Isto porque atuo remotamente, no chamado regime home office. Mas tudo bem, isto não importa. O que vale é que é feriado na cidade da sede da empresa na qual eu fui registrado e, portanto, feriado para mim, oba! E lá fomos nós, eu e minha esposa, nesta jornada saudosista.

Ainda na estrada, mas já dentro da Praia Grande, observei que havia muito mais prédios pelo caminho, sinal do avanço da ocupação imobiliária. Fazendo as contas, acredito que não passava por ali há uns oito anos, tempo suficiente para mudanças significativas. Porém, uma das que me surpreendeu logo no começo, foi quando, ao sairmos da estrada, passamos por onde havia o trilho do trem. Aqui havia o trilho do trem! Aonde foi parar o trilho do trem? Só asfalto, asfaltaram tudo! Agora sim que não há mais chance de esta linha de trem ser reativada. Que pena! Tudo acabado! Agora, escrevendo estas linhas, lembro-me da viagem que fiz, ainda criança, com minha família e meus tios, de Solemar até Juquiá, naquele trem com bancos de madeira... Mas vou cumprir aqui o objetivo que já disse de deixar as memórias antigas no passado, certo? Não só para não cometer injustiças com as memórias, mas também para não me alongar muito, pois se fosse dar vazão a todas as lembranças, esta crônica viraria um livro de recordações...

(continua)

terça-feira, 11 de junho de 2024

ETERNIZADOS

Chegará o tempo em que a espécie humana, de alguma forma, conquistará a imortalidade.

Inteligências artificiais atingirão um grau inimaginável de aperfeiçoamento. E será com elas que as personalidades humanas se eternizarão.

Serão instaladas espécies de chips nas pessoas, que coletarão uma infinidade de dados, por um longo tempo, transmitindo-os para centrais de processamento. Memórias, sensações, ações, reações, condutas, procedimentos, hábitos, aprendizados, pensamentos, sentimentos, senso de humor, enfim, tudo o que se passa com o indivíduo e que o torna único, com sua identidade inigualável a qualquer outra. Tudo isto será utilizado para construir uma inteligência artificial que, aos olhos de qualquer um, refletirá totalmente a própria pessoa fornecedora das informações.

Unidades centrais de processamento, do tamanho aproximado de um cérebro humano, abrigarão suas respectivas inteligências artificiais, resultando em réplicas perfeitas de consciências e mentes.

Os corpos, que receberão os comandos destas mentes, serão construídos usando um nível de engenharia tão avançado que será muito difícil distingui-los dos corpos orgânicos. Inclusive até será possível escolher a idade na qual uma determinada pessoa será “eternizada” (este é o termo que usarão).

Por exemplo, aos sessenta anos, um homem decide implantar em si o tal chip que coleta todas as informações necessárias para replicar a sua mente. Ao fechar o contrato com a empresa que fornece os produtos e serviços relativos à eternização, disponibiliza vídeos e hologramas diversos nos quais aparece com a idade de trinta e seis anos, pois é com esta aparência que deseja se eternizar perante o mundo. O tempo passa e ele morre por uma causa qualquer, lá pela casa dos oitenta anos, dando assim início ao processo contratado. A réplica da sua mente é armazenada em uma unidade central de processamento. Um corpo com exatamente a sua aparência aos trinta e seis anos é construído. Por fim, mente e corpo unidos dão origem a mais um eternizado na face da Terra.

Será assim o processo de criação destes novos seres, que nem podem ser chamados de vivos, pois nunca morrerão, desde que sejam feitas as manutenções periódicas programadas. Quanto à energia para manter em funcionamento esta maravilha da engenharia, a mesma será obtida de diferentes maneiras. Cada corpo estará preparado para adquiri-la por meio da luz solar, ou de quaisquer outras fontes luminosas. Outro meio de obtenção de energia será através dos sons, ruídos ou vibrações. E, para fechar o leque de captação, o magnetismo terrestre também servirá para carregar suas baterias.

Depois de ter deixado aqui registrado todo um avanço em termos de tecnologia, penso que você, ao ler este meu exercício de futurologia, agora deve estar pensando como seria a humanidade desta época. Haveria também um grande avanço na área do bem estar social, resultando em uma humanidade mais justa e com menos diferenças e privilégios? Não, infelizmente digo que não, frustrando os mais otimistas. Na verdade, frustro a mim mesmo, pois, no fundo mesmo, acredito na evolução do ser humano como ser humano. Parece pleonasmo, mas não é. Trata-se de acreditar que o avanço moral do ser humano acompanha, mesmo que com atraso, o avanço científico e tecnológico. Mas, nesta minha experiência de retratar um cenário futurista, prefiro mostrar uma humanidade com ainda mais mazelas em suas estruturas do que as que vemos hoje...

Assim sendo, diria que haveria uma classe de privilegiados, aqueles que estariam no topo da pirâmide social. Portanto, a eternização, por ser um pacote de produtos e serviços extremamente caro, poderia ser adquirida somente por estes indivíduos, os mais abastados. Diria também que a maior empresa neste mercado da eternização seria comandada por um eternizado, pois o fundador do império não quis deixar o comando da organização para ninguém, mas somente para uma cópia de si mesmo.

Pronto, assim completo esta crônica futurista, que vai para o meu blog. Ficará registrada em um ínfimo e perdido blog, em meio a um oceano de informações. Mas poderia ser o pano de fundo para um livro ou um filme, talvez. Fique à vontade, pode usar esta ideia, do jeito que quiser. Do meu lado, eu só fico aqui pensando se estas coisas vão mesmo acontecer... Será?

domingo, 26 de maio de 2024

DIA DAS MÃES

Casa cheia. Não cabe todo mundo em torno de uma só mesa. Há duas, portanto, uma hexagonal e outra retangular. Família reunida para comemorar o dia das mães. Esta é a primeira cena que quero deixar registrada aqui neste meu relato.

Mas vamos detalhar um pouco mais os integrantes deste almoço festivo. Não, festivo não. Não chegava a tanto. Acabei exagerando no adjetivo. No entanto posso garantir que todas as pessoas falavam descontraidamente, dando a impressão que lá estava uma multidão com incontáveis conversas paralelas. Não, outra vez não usei a palavra correta. Não eram propriamente conversas, pois isto pressupõe que as falas se conectem em um enredo contínuo. Porém isto não ocorria, eram comentários soltos e curtos, que pulavam de um lado para outro, relacionados ao momento presente: elogios à comida, uma brincadeira aqui, outra lá...

No parágrafo anterior queria, pelo menos, ter dito quem estava em torno das mesas, mas acabei somente dando uma ideia do falatório que ocorria. Vamos então relacionar os indivíduos que estão comendo o delicioso estrogonofe preparado pela anfitriã. Além desta, já mencionada, temos: seu marido, sua filha mais velha acompanhada do marido, seu filho mais novo (são dois os filhos da anfitriã), a mãe do seu genro, a sua mãe, a irmã e seu marido e, finalmente, sua sobrinha. Ah, não posso esquecer do cachorro da casa, um filhote esbelto e pretinho, agitado que só ele, que está preso na coleira para não bagunçar com todo mundo, em sua incansável busca por comer, comer, comer, comer... Quem o vê, pensa que está a morrer de fome, ainda mais quando percebe as costelas que aparecem em seu esguio tronco. Pensamento errado, pois é bem alimentado e come bem. Então, diante disto, podemos concluir que há duas coisas com este animalzinho: não consegue engordar (deve ser o seu biotipo mesmo) e não tem aquela trava no organismo que indica que está satisfeito, ou seja, é como já disse, comer, comer, comer, comer...

Já que passamos para o reino animal, continuemos aqui, mas agora explorando um ser bem menor que qualquer cão, e que estava em um lugar incerto... Sim, não tenho condições de saber onde aquela barata estava e, por acaso, alguém sabe exatamente de onde elas vêm? Só se sabe que elas aparecem, principalmente nos dias mais quentes... (os mais observadores estranharão, pois lembrarão que estamos no segundo domingo de maio, dia das mães, e, nesta época do ano, no hemisfério sul, onde vive o escritor deste relato, que, por sinal, sou eu, enfim... voltando ao fio da meada, no hemisfério sul, distante apenas 40 dias do início do inverno, é absolutamente incomum passar por dias tão quentes; mas acredite, os dias estavam bem quentes nesta época do ano, graças ao aquecimento global, que anda provocando mudanças climáticas e atingindo a todos, mesmo aqueles que não acreditam no aquecimento global...).

Perdoe-me o leitor esta digressão climática. Voltemos à barata. Coisas de escritor amador, ficar assim desviando do assunto, tentando imitar o mestre Machado de Assis... No entanto, preciso dizer algo que só um escritor pode saber, que é justamente a motivação desta barata, a razão pela qual ela decidiu entrar em cena neste almoço de dia das mães. A razão é simples e objetiva: saiu em busca de alimento para oferecer às suas crias, pobres baratinhas que choravam de fome. Não acredita, leitor? Por acaso não está gostando do que lhe conto, julgando ser fantasioso ou infantil? Pois sinto muito, esta história vai continuar assim deste jeito, pois retrata a mais pura verdade.

Começarei a descrever a trajetória da barata justamente quando ela foi notada no ambiente. Começou assim: a filha da anfitriã sentiu algo percorrer a sua pele. De imediato até pensou que fosse o filhote agitado, fuçando em sua perna debaixo da mesa. Mas não. Infelizmente não. No instante seguinte percebeu o terrível infortúnio e gritou: “Ai, uma barata! Uma barata na minha perna! Ai, ai, ai!”. Sucedendo o grito, um breve choro meio desesperado. Enquanto isso, a barata já atravessava, por baixo da mesa hexagonal, aparecendo do outro lado e sendo vista pelo marido da anfitriã, que prontamente tratou de perseguir o repugnante inseto.

Logo que passou pela mesa, ela já se enfiou e escondeu-se por baixo dos pedais do órgão musical que ficava ao lado. Nisto, o marido da anfitriã pediu para que esta lhe trouxesse o inseticida, enquanto ele ficaria com o olhar pregado nos pedais (ele acreditava que, com o olhar fixo desse jeito, as baratas ficam imobilizadas, pois percebem que estão sendo observadas e não se arriscam sair do lugar). Verdade ou não, não se viu a barata saindo dali até que o inseticida chegasse às mãos dele.

Nem é preciso mencionar que o almoço foi totalmente interrompido e que tudo girava em torno daquele pequeno e indesejado ser...

Armado com o spray, logo borrifou de um lado a outro do estreito espaço entre os pedais do órgão e o piso da copa. Enquanto o veneno se espalhava, em busca do inseto que dele fugia desesperadamente, a jovem tentava se recompor da horripilante sensação de ter aquelas seis patas nojentas correndo em sua pele. Imediatamente foi em busca do álcool, para limpar-se em todo o caminho traçado pela barata.

O olhar atento do caçador logo percebeu que sua presa corria desesperadamente, metendo-se agora por baixo da mesa retangular, seguindo rente à parede e por detrás de uma caixa que ficava sob esta mesa. Rapidamente ele puxa a caixa que a escondia e aplica nova carga do spray venenoso...

Vamos agora voltar a dar o enfoque para ela, a perseguida, aquela que saiu em busca de alimento para seus filhos, mas que escolheu a hora errada para esta nobre tarefa... Você, que acompanha este meu relato, neste momento deve estar reprovando este espaço que estou dedicando a um ser nojento... No entanto, coloco aqui, a meu favor, o princípio da justiça, dizendo que a barata tem sim o direito de ter o seu lado da história aqui registrado, pois não podemos ficar com somente uma versão dos fatos, não é mesmo? E esta versão, ignorada pela maioria das pessoas, é realmente trágica. Especialmente neste caso em particular, pois a pobre barata estava simplesmente em busca de saciar a fome dos seus rebentos. Há algum mal nisso? Não, de modo algum. O problema, como já coloquei, foi ter escolhido a hora errada para efetuar esta busca... Mas, pensando bem, haveria outra hora? Se os seus filhos estão a chorar de fome, o que você faz? Vai esperar o momento certo de socorrê-los com alimento? Ora essa, o momento certo é agora! Mas bem que os filhotinhos de barata poderiam ter reclamado em outra hora, é o que podemos pensar. Se fosse na calada da noite, com a copa e todos os outros cômodos desabitados por humanos (com exceção dos quartos), se assim fosse ela poderia sair em busca de alimento tranquilamente. Mas não, aconteceu justamente com a casa cheia, naquele cômodo onde todas as pessoas almoçavam, comemorando o dia das mães... E a pobre mãe barata agora estava em uma situação realmente trágica...

A última borrifada do inseticida deixou-a em um estado muito crítico. Seu sistema nervoso sentia o terrível efeito dos agentes químicos. Não me atrevo a dizer o que se passava pela sua cabeça, pois aí já entraríamos na questão de admitir ou não que uma barata seja capaz de ter algum pensamento. Mas não podemos ignorar que este inseto tem um cérebro e que algo deve ocorrer em seus neurônios. Desta maneira, algum tipo de pensamento, por mais simples que seja, deve animá-la. Nada elaborado, sem palavras ou raciocínio encadeado, mas algo relacionado a memórias, talvez. Principalmente neste momento tão crucial, será que ela não está pensando nada? Eu diria que sim, ela está pensando. Agonizando, vítima de um grande sofrimento, talvez lhe passe pela cabeça o arrependimento de ter saído do seu canto com a casa assim tão cheia. Mas não, quando eu, o humano que narra a história da barata, penso um pouco mais a fundo, logo concluo que ela não se arrependeu, pois saiu e se expôs para atender ao apelo dramático dos seus filhos, que choravam de fome. Faria isso mais mil vezes, se preciso fosse! Afinal, quem disse que barata não tem instinto maternal?

Agora me dirijo a você, que ao acompanhar esta narração acabou por sentir pena deste infeliz inseto... E que se surpreende consigo mesmo ao torcer para que o marido da anfitriã desista da caçada, a fim de que a barata possa se recuperar. Sim, porque este ser é capaz de se recuperar de situações realmente graves. Uma pesquisa rápida na internet já nos mostra a grande resistência das baratas... Que elas podem viver por até uma semana quando têm a cabeça decepada... Que, enquanto são ninfas (ou “não adultas”, para simplificar), podem regenerar patas, antenas ou olhos... Que não se afogam com facilidade, pois seu fôlego dura cerca de 40 minutos... Que elas têm uma incrível flexibilidade e conseguem suportar 300 a 900 vezes o peso do próprio corpo... Que, que, que...

Mas vamos partir para o desfecho desta história, e conferir se a torcida dos defensores da barata surtirá algum efeito. Pois bem, após ter puxado a caixa e espalhado mais uma carga do inseticida, o marido da anfitriã logo percebe que a sua vítima se encontra em uma posição vulnerável: de barriga para cima, sob a mesa retangular. Então ele puxa a agonizante com uma vassoura, deixando-a perto de si, totalmente à mercê das suas ações.

Interrompo mais uma vez a ação de perseguição, pois acredito ser conveniente explicar a razão pela qual as baratas acabam por ficar de barriga para cima nestas situações. Isso acontece porque estes insetos respiram através de estruturas chamadas espiráculos, que são poros localizados na lateral do abdômen. Em contato com inseticidas, esses poros se fecham e ela, na tentativa desesperada de respirar, vira de barriga para cima, buscando puxar o ar, em sua luta para se recuperar da ação do veneno.

Enquanto a infeliz barata buscava respirar, o marido da anfitriã, esse gigante, lhe coloca a ponta do chinelo sobre a cabeça, deixando tudo preparado para o golpe fatal.

Aperta o chinelo sobre a cabeça do inseto. Para garantir o sucesso da operação assassina, equilibra-se na ponta de um dos pés e deposita todo o peso do corpo sobre aquele cérebro que já se encontrava vitimado pela ação tóxica do veneno. Ouve-se um pequeno estalar, indicativo de que os miolos da barata estavam devidamente esmagados. Pronto, nada mais resta a contar sobre esta personagem, pois ela não mais pertence ao reino dos vivos.

Mas a nossa história continua... Após a finalização da caçada, era necessário limpar a cena do crime. Então ele foi em busca de papel higiênico, recolhendo o pequeno corpo e ao mesmo tempo limpando o chão sob o cadáver. Ao se aproximar do banheiro, local onde daria um fim aos restos mortais, faz uma graça com a cunhada e a sobrinha, que haviam se afastado da copa, talvez buscando um refúgio seguro, longe daquele ser repugnante. Mostra-lhes o papel higiênico que embrulha a barata morta e obtém delas uma reação de medo e nojo, acompanhada de um breve grito da sobrinha.

Atira o conjunto, barata mais papel higiênico, no vaso sanitário. Aperta a descarga e lá se vai, para o esgoto, uma pobre mãe, que só estava buscando alimentar seus filhos, bem no dia das mães...

domingo, 21 de abril de 2024

MEU NOME É...

A minha presença na história política da humanidade vem de longa data.

Costumo aparecer mais em tempos difíceis e conturbados, propondo soluções fáceis para questões complexas, geralmente acompanhadas por posturas autoritárias e preconceituosas.

Necessito de inimigos para sobreviver. Minha força vem do ódio, cuidadosamente cultivado entre meus seguidores.

Outro polo catalisador de força vem do medo. Medo dos comunistas, mesmo que estes não mais existam em determinada época ou região. Não importa, eles sempre existirão, e sempre serão ameaça.

Costumo aliar-me aos princípios religiosos mais conservadores. Aliás, tudo que é conservador tem o meu apoio. Não gosto de mudança.

Construo mundos paralelos, nego a Ciência, estrangulo as Artes.

Posso usar a democracia para chegar ao poder, mas, aí chegando, acabo com ela.

Combato as minorias, não convivo bem com as diferenças. Gosto da autoridade e até aceito que ela aplique violência, desde que não seja contra as “pessoas de bem”.

Quem são as “pessoas de bem”? Ora essa, não me faça perguntas difíceis!

Qual é o meu nome? Ah, isso eu posso responder.

Meu nome é extrema direita.

domingo, 31 de março de 2024

60 ANOS DO GOLPE MILITAR

Antes que este dia acabe eu preciso escrever este texto. Tem que ser hoje, todo o texto escrito hoje, para absorver plenamente a carga desta data: 31 de março de 2024.

Há exatamente 60 anos atrás começou um período sombrio e terrível no Brasil, quando foi instaurada, através de um golpe, a ditatura militar.

É importante esclarecer que nenhuma ditadura é boa. Simples assim. Sem meias palavras. Sem reescrever a história.

É inadmissível que ainda existam pessoas que enalteçam este período do nosso país. Isto é resultado de desinformação.

Vivemos tempos difíceis. Os problemas do mundo são cada vez mais complexos. A internet e as redes socias acabaram potencializando o lado mais sombrio do ser humano. Nesse cenário conturbado prospera a extrema direita, que propõe soluções simples e autoritárias, carregadas de preconceito e ódio.

Não quero aqui analisar as causas que estão levando a humanidade para este desfiladeiro moral. Sei que não chegarei à conclusão alguma. Prefiro dedicar minha energia em sentido contrário. Ao invés de tentar desvendar as razões que estão levando as pessoas a caírem nas garras dos regimes autoritários, prefiro buscar caminhos para fazer com que as mesmas escapem desta armadilha. E um dos caminhos, com certeza, é através das Artes, em todas as suas expressões.

É preciso promover uma onda de informações positivas, esclarecendo as mentes. É preciso fazer entender que o melhor regime é sempre a democracia. Pode ser difícil, pode passar por tropeços, mas que devem ser solucionados com mais democracia.

Tantas coisas em minha mente, tanto a falar nesta importante data. Mas não quero cansar o leitor. Deixo aqui, para encerrar, duas frases, escritas em caixa alta, que resumem o que precisa ser dito, hoje e sempre:

DITATURA, NUNCA MAIS!

SEM ANISTIA AOS GOLPISTAS QUE ATENTAM CONTRA A DEMOCRACIA! 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

SOLSTÍCIO DE VERÃO

Justamente hoje, após o expediente de trabalho (100% home office), voltei a pensar em alguma ideia para escrever o texto do mês, com a finalidade de “alimentar” este meu blog. É sempre assim, quando vai se aproximando do dia 22, que é o dia em que o blog aniversaria (inaugurei em 22/10/2011), fico raspando o cérebro para ver se surge algo interessante para escrever. E foi assim que acabei decidindo fazer um texto para compor parceria com outro, intitulado “Solstício de inverno”, escrito e aqui postado em 21/06/23, exatamente no dia do solstício de inverno. Justamente agora também está ocorrendo esta coincidência, pois o momento em que precisamente aconteceu o solstício de verão foi na primeira hora de hoje, às 00h27min. Assim fica equilibrado, não privilegio uma estação em detrimento da outra: cada uma delas tem o seu solstício e o seu texto.

Após esta necessária apresentação das forças e coincidências que estão me impelindo a escrever, devo passar a discorrer sobre o tema propriamente dito... “Vamos lá, escreva sobre mim, vamos lá, escreva!”. Calma lá, meu caro Solstício de Verão, calma lá!

Bom, em primeiro lugar, sinto decepcioná-lo logo de início, pois prefiro o seu primo que apareceu há seis meses atrás. O motivo é simples, pois após o aparecimento daquele, todos os dias foram aumentando de tamanho, sucessivamente, com o acréscimo da presença Solar, trazendo mais energia e luz. É um período que, para mim, me agrada mais. Por outro lado, quando você surge, Solstício de Verão, a gente sabe que, pelos próximos seis meses, os dias ficarão cada vez mais curtos, com menor presença do camarada Sol e, portanto, com menos energia.

Mas não precisa ficar chateado com esta minha preferência, afinal não é nada relevante. É apenas um leve sentimento que resolvi aqui colocar. Coisa de escritor que pega coisas irrelevantes para descrever e esticar o texto. Portanto, não fique magoado Seu Solstício de Verão. Gosto de você também, viu? Afinal, você aparece justamente no momento de maior esplendor, quando o Sol mais incide os seus raios em nosso hemisfério. Aliás, há uma grande dialética envolvida nisso tudo, não é mesmo? Pois também hoje o seu primo, o Solstício de Inverno, está dando as caras no hemisfério norte... É uma dança maravilhosa, concorda? Todos os astros no palco do Universo... Poético, não? Mas é científico também!

Depois desta breve abordagem sobre o tema que me propus escrever, já vou partindo para a finalização do texto. Grande abraço, meu caro Solstício de Verão, até o ano que vem! E para você, que está lendo este texto postado no blog, não estranhe se a data da postagem for após o dia 22/12/2023, pois, para que esta redação tenha sentido, preciso postar estas linhas, que escrevo agora no computador, preciso postá-las ainda hoje, 22/12/2023, dia do Seu Solstício de Verão. Mas não sei se vou conseguir, pois já faz um bom tempo que acabou a força, e o sinal de internet foi junto. Quanto à internet do celular, é muito ruim o sinal aqui onde moro. Se a energia não voltar logo, vai estragar a postagem deste mês. Então, se você ver que a data deste post é depois do dia 22/12/2023, faça de conta que foi postado hoje, dia 22, certo?

E me desculpe... A culpa, na verdade, é da Enel, distribuidora de energia aqui na região. Olha o que dá privatizar! E agora estão querendo privatizar também a água, vendendo a Sabesp. Sem mais comentários... Mesmo porque isso já é assunto para outro texto...

domingo, 12 de novembro de 2023

O MUNDO ANIMAL DO MEU QUINTAL

Estava me preparando para começar a regar o quintal. Carretilha com a mangueira a postos. Eis que olho para a copa do pé de romã e vejo um bem-te-vi. O bonito pássaro parece estar com sede, pois, de quando em quando, abre o bico, em um gesto que parece pedir água. Então começo a falar com ele, dizendo que tem água em uma tigela de plástico junto à ponta da cerca, perto do muro. Para que a imensa maioria dos leitores, que obviamente não conhece o meu quintal, explico, para ficar mais fácil, que este recipiente estava abaixo da tal ave com a qual dialogava. Fui falando e, para a minha surpresa, parecia que ela se interessava pela minha explicação, pois acabou se aproximando um pouco, passando para um dos galhos do pé de atemoia. Falei, falei, insisti em convencê-la a saciar sua sede com a minha generosa oferta, apontei para o local da tigela e, quando já achava que estava aprendendo a me comunicar com os pássaros, vejo que o bem-te-vi se afasta e vai pousar em cima do muro, para, instantes depois, voar para longe...

Depois deste primeiro contato com o mundo animal do meu quintal, parti para a tarefa de regar as plantas e a horta, para amenizar a alta temperatura de um dia de primavera, resultado de uma onda de calor totalmente atípica, graças às mudanças climáticas que vivemos atualmente...

Quando regava o canteiro das cenouras e das cebolinhas, comecei a ouvir uns pequenos estalidos, e logo identifiquei que os mesmos vinham de uma mariposa que, sobre a terra, batia as asas. Foi fácil perceber, de imediato, que ela estava morrendo. “Pois é, os animais, todos os seres vivos, também morrem... Chegou a hora desta mariposa”, este foi o meu primeiro pensamento ao ver a cena a uma certa distância. Mas, como os movimentos de agonia do inseto continuavam, resolvi observar mais de perto. Coloquei nos olhos os óculos que trago sempre pendurados no pescoço e aí pude constatar o que realmente acontecia. Ela estava sendo comida viva por muitas formigas! A cena era impressionante. Com as asas coladas na terra, o inseto alado expunha todo o seu corpo para o banquete de outros pequeninos insetos, que já haviam se deliciado com boa parte das entranhas da agonizante. Não consegui entender como ela ainda estava viva!

Voltei à atividade da rega, mas meu pensamento não deixou a mariposa. Imediatamente se instalou, dentro de mim, um debate sobre o que fazer a respeito desta situação. Reconheci que as formigas apenas buscavam a sua sobrevivência, dentro de mecanismos perfeitamente naturais e legítimos. Outro fato que não deixava dúvida era que a pobre mariposa, de modo algum, poderia sobreviver. Mesmo que encontrasse algum modo de livrá-la das formigas sem prejudicá-la mais ainda, mesmo assim era impossível que escapasse à morte. E a primeira decisão que tive foi não interferir e deixar que a natureza seguisse o seu curso.

Mas aquelas batidas de asas tiravam a frágil estabilidade desta minha decisão. Como ela ainda podia estar viva? Que tamanho sofrimento ela estaria sentindo? Não podia deixar que este terror em miniatura continuasse...

Então deixei a mangueira de lado, fechei a torneira e fui em busca de um cano que fica encostado em um dos cantos do quintal. Segurando-o firmemente, procurei posicionar a ponta bem sobre a cabeça da sofredora. Apertei. O movimento das asas se intensificou, juntamente com as patas. Tirei o cano de cima dela e verifiquei que ainda vivia. Caramba! Não queria que ela sofresse ainda mais! O meu movimento deveria ter sido mais forte e certeiro. Outra vez posicionei o cano sobre a pobrezinha, mas desta vez apertei ainda mais, movimentando a arma do meu crime de um lado para outro. E assim fiquei por alguns segundos, torcendo para que este tenha sido o golpe fatal.

Levantei o cano e constatei que, enfim, ela havia se libertado daquele incrível sofrimento. Agora as formigas poderiam seguir com o seu banquete sem a agonia do prato principal.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

HALLEY

Cá estou eu, em 28 de julho de 2061, com 96 anos, olhando para o céu noturno, buscando o ilustre visitante que aparece a cada 75 ou 76 anos: o cometa Halley.

Em 1986, em uma turma de amigos, fugimos da luminosidade da cidade e fomos vê-lo no Riacho Grande. A cauda estava bem curtinha, mas, mesmo com este grau de decepção, a imagem ficou gravada na memória.

Sempre que me recordo deste dia, fatalmente me vem na lembrança um amigo, o Júlio, que também passou rapidamente pela Terra, pois nos deixou ainda jovem... Naquela sexta-feira de 1986, ele insistiu bastante para que eu pegasse a chave da chácara que meus pais tinham em Ibiúna, pois lá, segundo ele, seria o lugar ideal para apreciarmos o cometa. Encher o tanque do meu Chevette 77 e partirmos para lá, com o carro cheio de amigos: plano perfeito! Também concordo, teria sido maravilhoso. Mas eu não quis ir, apesar de todos os apelos. Com certeza ficou bastante chateado com esta minha atitude. Quer saber de uma coisa Júlio? Eu também fiquei mal com esta minha reação. Nunca te contei, e nunca poderei te contar, mas talvez agora você possa me ouvir enquanto mergulho o olhar enrugado nas estrelas... Foi a gagueira, minha maldita gagueira, que tanto me limitava! Naquela noite em que você, entusiasmado, argumentava o quanto legal seria a nossa aventura em Ibiúna, tudo o que eu mais queria era não ir para nenhum lugar. Queria me reprogramar, fazer alguma coisa para deixar de gaguejar. Tinha essas ideias bestas mesmo. Não me aceitava, negava a vida. Enquanto não fizesse aquilo que chamava de “reativação” ou “pacto”, para resolver o que para mim era o grande problema de minha vida, não queria saber de mais nada. Em algum momento após nos despedirmos, eu, dependente de minhas loucas regras e estratégias para não gaguejar, fiz essa tal de reativação ou pacto, o que me permitiu ir para o Riacho Grande no dia seguinte, mas a chácara de Ibiúna havia ficado para trás, valiosa oportunidade perdida...

Agora, tanto tempo depois, vejo o mesmo astro que testemunhou esta minha atitude que me causou um arrependimento por toda uma vida... A cauda está pequena, do mesmo jeito que estava em 1986. Bem que, desta vez, podia ter sido bem maior... Mas, pelo menos, acho que o Júlio ouviu o meu recado.

terça-feira, 26 de setembro de 2023

PÉ DE MAMÃO

Foi um choque. Quando vi meu pé de mamão tombado ao chão, esta triste cena me deixou meio desorientado. Logo chamei minha esposa para mostrar aquela longa vareta estendida sobre a terra. Sim, o pé de mamão, que deveria ter mais galhos e folhas, resumia-se a um caule que acho que ultrapassava um metro de altura. Bem no topo deste mini-arranha-céu vegetal havia umas duas ou três microfolhas. Apesar desta estrutura totalmente atípica, cultivava eu a esperança de um dia colher formosos mamões em um majestoso pé de fruta...

A primeira suspeita para explicar o acontecido foi pensar em um rato, vindo da casa abandonada que faz divisa com o meu quintal. Ou talvez um gato vindo das vizinhanças. Falei e tentei mostrar para a minha esposa, no escuro da noite, a borda de um canteiro de terra, que tinha sido arduamente por mim levantado há quase duas semanas, dizendo que alguém tinha pisado e deformado a lateral do mesmo. “Eu não pisei no canteiro, eu não ia pisar...”, argumentava para ela, jogando a culpa do acontecido com o pé de mamão em um maldoso ou desastrado animal que, além de derrubar minha esperança de colher mamões, deixou também sua marca neste canteiro.

Ao tentar levantar o pé caído, constatei que ele não mais se sustentava. Então imaginei um rato roendo o caule. O fato é que não havia como recuperar a planta. Fui em busca da tesoura de jardineiro e cortei o caule, uns três ou quatro dedos acima do solo, que foi justamente onde parecia ter sido comido pelo vândalo roedor. Fiz o corte na diagonal, e o motivo disto era a insistência da minha esperança, que acreditava que assim, naquela superfície maior, surgiriam brotos e o pé renasceria, tal qual uma Fênix...

No dia seguinte, minha sogra, que estava de passagem em casa porque minha esposa a havia levado para fazer um exame, ao analisar o longo caule cortado, desconfiou da minha tese do rato. Disse que o pé já não estava bem. Então resolvi inspecionar melhor, agora na luz do dia, o que restou do querido vegetal, no qual depositava as mais sinceras esperanças de lindos frutos. Logo verifiquei que ela estava certa. Em determinada região, justamente onde ele tombou, o caule estava meio ressecado e um tanto afinado. Era uma doença que não transparecia para quem visse a esbelta planta (bota esbelta nisso!). Se bem que aí já comecei a relacionar os acontecimentos... Estava explicada a razão das microfolhas que não se desenvolviam. Com este sério problema no talo, lá embaixo, os nutrientes mal chegavam no topo da estrutura vegetal.

No próximo fim de semana já procurei providenciar um sucessor para carregar minhas esperanças. Deixei secar ao sol sementes de mamão, afofei bem a terra no mesmo local do falecido, e semeei...

Dizia o sujeito do vídeo no YouTube, visto neste mesmo fim de semana, que mamão frutifica entre cinco a sete meses de idade. Caramba! Pelos meus cálculos o finado pé contava com quase dois anos de idade e nada... Muito longe mesmo de qualquer fruto! Vamos ver se este pé que ainda nem nasceu tem uma sorte diferente. Dizia também o mesmo sujeito do vídeo que é preciso regar diariamente. Pois bem, estou fazendo e procurarei continuar fazendo a minha parte com relação às regas. O resto é com a natureza.

Ainda vou comer um doce mamão colhido aqui no quintal de casa!

domingo, 27 de agosto de 2023

MEU NOME É GUERRA

Extermino povos para aumentar o poder dos poderosos.

Conquisto territórios e riquezas, deixando um rastro imenso de dor.

Arrasto países inteiros às ruínas, despertando os piores sentimentos nos seres humanos, que deixam de ser humanos.

Sou alimentada por uma indústria bélica que lucra cifras gigantescas. Enquanto muitos morrem, poucos enriquecem.

Satisfaço sentimentos de preconceito, ódio e crueldade. Sob o meu manto, as piores atrocidades acontecem.

Posso ser motivada, principalmente, por questões territoriais, religiosas ou geopolíticas. Mas dizem que sempre, no fundo, o verdadeiro motivo é o dinheiro e o poder.

Me chamam de santa, e matam em nome de Deus.

Me chamam de híbrida, e atacam usando desinformação, manobras jurídicas e outras frentes de atuação, garantindo que o inimigo receba golpes de diversas formas.

Acompanho os homens desde a sua origem. Fui evoluindo com o decorrer do tempo. Comecei com o corpo a corpo. Passei por pedras, paus, metais e lâminas. Cavalos, catapultas, arco e flechas. Pólvora, canhões, tanques, aviões. Bombas atômicas, de hidrogênio, do que for melhor para causar mais destruição. Vírus, substâncias químicas, vale qualquer coisa para matar ou causar dano ao inimigo.

Gastam rios de dinheiro para me nutrir, sendo que este valor seria mais que suficiente para resolver o grande problema de nutrição: bilhões de pessoas passam fome ou estão em situação de insegurança alimentar.

Mas não pense você que eu estou sensibilizada por causa disso tudo, afinal também tenho instinto de preservação. Podem canalizar todos os recursos para me fortalecer! Eu agradeço e sigo firme!

Meu nome é guerra! 

domingo, 6 de agosto de 2023

DIVAGAÇÕES CÓSMICAS PELA JANELA DO ÔNIBUS

Pela janela do ônibus vejo o horizonte avermelhado. A silhueta das árvores nos mostra um mundo de contornos. No céu, perto do pôr do sol, o brilho de um planeta que que foi batizado como estrela-d'alva. Esta cena me remete ao espaço sideral. Não é só isto que estou vendo, é muito mais!

Lembro-me da sonda Voyager 2, que nestes dias anda brincando de se esconder dos homens. Na verdade, foi um comando errado que ocasionou a sua perda de contato com a Terra. Então, para restabelecer este contato, os especialistas do nosso planeta conseguiram localiza-la novamente, com a ajuda de diversos observatórios terrestres e, a partir daí, puderam enviar o sinal que, após viajar por 18,5 horas, comandou o endireitamento da nave espacial, fazendo com que a sua antena voltasse a ficar corretamente posicionada.

Agora, já fora do nosso Sistema Solar, ela poderá continuar a sua dupla tarefa: nos informar sobre o que detectar por aí, no espaço afora, e também ser um repositório de informações sobre a humanidade, na esperança de que um dia seja encontrada por alguma forma de vida inteligente. Inclusive, até há instruções de como chegar até nós, em uma espécie de mapa estelar.

Mas será que um dia esta sonda espacial será encontrada por alguém?

E como seria o planeta onde este alguém habitaria? O seu pôr do sol teria alguma semelhança com o nosso? Teria este avermelhado maravilhoso e estas silhuetas fantásticas?

Existiriam ônibus neste mundo distante? Ou seriam outros tipos de transporte, muito mais avançados que os nossos?

Dentro deste meio de transporte desconhecido, haveria alguém que, como eu, estivesse mirando o horizonte ao findar do dia, com o pensamento perdido no Universo?

Perguntas, perguntas, perguntas...

Dentro da nossa pequenez, nada sabemos...

Eu, na poltrona do ônibus, olhando pela janela, por mais que expanda o pensamento nesta direção cósmica, nenhuma resposta obterei...

Nem sei se voltarei a ver o cometa Halley...

Em 1986 consegui ver a sua cauda. Era pequena. Na história de suas passagens, certamente esta não foi uma das suas melhores aparições.

Espero, ainda que bem velhinho, poder vê-lo novamente... E que venha menos tímido em sua próxima passagem, trazendo uma cauda bem comprida e brilhante!

Certamente eu, se conseguir vê-lo, mesmo que viaje em algum ônibus voador, ainda trarei comigo muitas interrogações...

Mas espero que aqui na Terra ainda haja um pôr do sol assim bonito...

Tomara!

quarta-feira, 21 de junho de 2023

SOLSTÍCIO DE INVERNO

Hoje, exatamente às 11h58min, ocorreu o solstício de inverno no Hemisfério Sul. Então quer dizer que hoje, para quem está abaixo da linha do equador, foi o dia mais curto do ano. Amanhã o dia será um pouquinho mais longo que hoje, e o próximo mais um pouquinho, e assim por diante, até chegar ao dia 22 de dezembro, às 00h27min, quando ocorrerá o solstício de verão, com o dia mais longo do ano. Sempre me ligo nessas coisas. Gosto desta metade do ano, quando o Sol vai aparecendo cada vez mais, fazendo-se cada vez mais presente, esticando os dias!

Resolvi regar o quintal do fundo de casa agora de noite. Já comecei a tarefa informando às plantas sobre esse tal solstício, dizendo que hoje foi o dia mais curto do ano e que, já amanhã, o dia será um pouquinho mais longo que hoje, e o seguinte um pouquinho mais, e tudo isso que já foi aqui falado. Quis regar hoje para já dar essa boa notícia a elas. Sim, para pegá-las justamente após o pior dia e consolá-las. Digo “pior” porque creio que, para elas, que dependem do Sol, deve ser difícil ver os dias encurtando, um após o outro... Mas agora elas já sabem que, de agora em diante, até perto do Natal, é só melhorar, é só esticar cada vez mais o dia, trazendo mais luz e energia!

Em setembro recomeçarei com a horta. Até lá, recolherei todas as folhas das árvores que caem na parte cimentada e as espalharei pela terra, assim o solo vai ganhar mais fertilidade. A tentativa que fiz de cultivar a horta nesta primeira metade do ano não foi nada bem-sucedida. Além de ter descuidado das regas, acredito que ainda pesou negativamente a sombra de todas as árvores, e também da alta parede do vizinho do lado esquerdo, justamente o lado onde o Sol corre mais baixo no outono e no inverno.

Mas agora o Sol vai jogar a nosso favor!

É gratificante saber que hoje todas as plantas do quintal do fundo de casa estão devidamente hidratadas, bem molhadinhas, já com a boa notícia de que os dias começarão a esticar, pouco a pouco...

Todas as árvores já sabem!

O velho pé de acerola, um dos mais antigos, junto com o de romã. O grandioso pé de goiaba, que quer tomar conta de todo o quintal. Mas o de amora não se dá por vencido, pois na altura compete com a goiabeira, porém perde na extensão da copa. No entanto, o quintal tem um jovem integrante, o abacateiro, que está prometendo que vai crescer muito ainda, a julgar pelo viço dos seus galhos e folhas, bem se vê que nasceu para aparecer com grandiosidade! E não podemos esquecer daquele pé que está sendo a principal atração do momento, ofertando-nos suas deliciosas atemoias! Porém ainda há outros, os menores, mas que não devem ser menosprezados: pitanga, limão e mamão. Finalizando o time das frutas, vem a lichia. Ainda é uma pequena mudinha, nascida da semente que plantei.

Todas as plantas já sabem!

As roseiras, folhagens, erva-cidreira, espada-de-são-jorge, azaleia, arbustos... E as couves-brócolis, azedinhas, pimentões e cebolinhas, que lutam bravamente tentando levantar a bola do sofrido time da horta!

Agora é certeza! A cada dia, um pouquinho mais de dia! É o movimento de translação da Terra que garante, como um relógio, preciso, na dança dos astros...

E, por falar em astros, assim que acabei a “regada do solstício”, olhei para o alto e notei que, surpreendentemente para um morador da Grande São Paulo, muitas estrelas estavam visíveis! Fiquei observando, observando... E a mente divagando... Até que pensei: será que tem alguma horta ou quintal assim em algum planeta por aí?

sexta-feira, 9 de junho de 2023

O BANQUEIRO E O PASTELEIRO

Um dia desses meu futuro genro me disse que o banco onde trabalha demitiu 60 funcionários da área de marketing. "Tá cortando da própria carne", foi com esta expressão que descreveu a gravidade da situação. Recebi esta notícia com indignação. "Mas como pode? Banco tá sempre lucrando bem!", foi o que disse na hora. Aí ele completou falando que o aumento do lucro não foi o esperado. Então eu continuei manifestando minha aversão a esta postura do setor bancário. "O que eles estão querendo? Se em um ano lucrou 20%, depois, no ano seguinte, quer lucrar mais? E depois mais, sempre mais? A coisa não pode ser assim! A economia tem um limite! Tem um teto!". Gesticulava, fazendo com a mão esquerda o tal teto, e a direita batendo neste limite. E o pensamento, revoltado, girava, e nem sei o quanto disse ou o quanto pensei de elementos do tipo: "Ganância! Exploração! Só eles querem lucrar assim? A economia não aguenta!".

Bom, vamos segurar esta primeira situação que vivi, porque, poucos dias depois, tive uma outra conversa, que serviu como perfeito contraponto. Mas antes é preciso contextualizar. Estava voltando a pé para casa e, ao me aproximar do viaduto em obras e ver os tapumes cobrindo quase toda a parte da passagem dos pedestres, pensei: "Será que o Manoel perdeu o ponto mesmo? Talvez a prefeitura o tenha mandado para outro lugar de São Caetano... Ou suspenderam a licença e ele está tirando uma folga...". Porém, logo após passar por baixo do viaduto, eis que vejo, do lado esquerdo, a Kombi dele, com várias abelhas em volta, atraídas pelo doce do caldo de cana. Percebo que está nas arrumações finais.

– E aí Manoel! Então você conseguiu continuar com o seu ponto aqui? Eu até pensei que, com toda essa obra do viaduto, cê tinha perdido...

E o papo continua, com comentários sobre o seu novo local de venda de pastéis, poucos metros distante de onde estava, afastando-se somente o suficiente para fugir da área em obras, porém mantendo-se ainda em região de passagem de grande fluxo de pessoas, perto da entrada do hipermercado e do ponto de ônibus. Ressalto estes pontos positivos e ele fala que lhe perguntaram de qual lado do viaduto queria ficar. Explica então que decidiu por este lado porque do outro poderia haver complicações envolvendo uma casa nas proximidades ou, em outras palavras, as abelhas poderiam causar transtornos àqueles moradores... Pois bem, este é o contexto que precisava colocar antes de partir para o que o Manoel me contou, em determinado ponto da conversa, e que caiu como uma luva, no sentido de fazer um perfeito contraste com o pensamento dos banqueiros. Veja se eu não tenho razão. Disse-me ele:

– Outro dia uma senhora veio falando comigo, ela quase nunca tinha passado por aqui. Então ela pediu um pastel e eu disse que tinha acabado. Aí a véia já foi reclamando que eu tinha que trazer mais pastéis, que eu não podia parar naquela hora e isso e aquilo. Então eu respondi que tenho uma meta, vendendo um tanto por dia, pra mim tá bom. Disse que não adianta eu já ir trazendo mais pastéis no dia seguinte, porque a coisa não funciona assim, tem dia que vende mais, mas tem dia que vende menos, e eu não quero voltar com massa pra casa. Mas ela foi insistindo, dizendo que se abrir uma outra banca aqui do lado aí é que eu ia ver, e tudo mais... Aí eu falei: “quero ver se ele vai colocar o pastel a cinco reais como eu e, se colocar, faço por quatro, e quero ver qualidade do dele...”. Então, como ela não parava, acabei falando assim: “Olha, minha senhora, quer saber de uma coisa? Por que eu faço assim? É porque eu não tenho ganância! Chegando na minha meta do dia, pra mim está bom, entendeu?”. Aí ela foi saindo, com um bico na cara e resmungando alguma coisa...

Desnecessário comentar, tampouco colocar uma moral nesta história. Esta parte pode, caso se queira, ficar a cargo de quem lê. De minha parte, só me resta colocar um título neste texto, que ainda não foi rotulado com nenhum nome. Acho que este cai bem: “O banqueiro e o pasteleiro”.

domingo, 16 de abril de 2023

CONTRAPONTO A UMA CORRENTE DE WHATSAPP

Um dia desses recebi uma corrente de WhatsApp que mexeu comigo e que está me motivando a escrever estas linhas. Ninguém é dono da verdade, mas a verdade não deve ser deturpada ou completamente negada para atender a determinados interesses, nestes casos, sempre sombrios interesses.

Explico melhor, para que o leitor possa entender o que estou querendo dizer. Primeiramente devo mencionar que a mensagem recebida tinha cerca de 80% do texto com conceitos aderentes ao meu pensamento, e creio que também condizentes ao senso comum, sem ferir a verdade, pois falava sobre todas as coisas que as crianças devem aprender em casa. Boas maneiras, honestidade, solidariedade, respeito, cooperação, etc. Ninguém, em sã consciência, pode ser contrário a estes princípios. Até aí, tudo bem. Na sequência, o texto prossegue, listando o que os professores devem ensinar na escola, enumerando todas as matérias que conhecemos: Matemática, Português, História, Geografia, Ciências, etc. E, para completar a primeira parte, mencionava que os professores “apenas reforçam o que o aluno aprendeu EM CASA!!!”. Estava escrito exatamente assim como aqui coloquei, com todas as letras maiúsculas e exclamações. Outra vez, até aí, tudo bem. Isto porque não há como negar que todo o aprendizado dos princípios acima descritos deve acontecer, prioritariamente, em casa, e que a tarefa da escola é, apenas, reforçar tais princípios civilizatórios.

Mas os 20% finais do texto me deixou de queixo caído. Não acreditava no que estava lendo. Transcrevo, abaixo, a parte mais impactante:

“NA ESCOLA NÃO se aprende sobre:

1 – Sexo

2 – Ideologia de Gênero

3 – Ativismo LGBT

4 – Comunismo

5 – Esquerdismo

6 – Islamismo”.

Respiro fundo. Organizo os pensamentos e as emoções. Vamos lá, combater a deturpação das ideias e o ataque rasteiro e preconceituoso a coisas que nem sequer se conhece...

Não ensinar nada sobre o sexo? E como fica a gravidez precoce? Falar sobre sexualidade nas escolas, na idade certa, representa uma orientação segura e responsável para se evitar ou minimizar consequências desagradáveis, afinal, infelizmente, nem todas as famílias têm condições de bem conduzir seus filhos neste delicado assunto. Outra pergunta: a sexualidade não pertence à nossa biologia? Dentro do ensino das Ciências deve haver assunto proibido?

Ideologia de gênero é uma fantasia criada na cabeça dos reacionários mais radicais. Oh meu Deus! Alguém ainda acredita em “mamadeira de piroca” nas creches?

Sobre o “ativismo LGBT”, creio ser preciso esclarecer que não se trata, em absoluto, de corromper ou influenciar a sexualidade de quem quer que seja. Entendo ser, simplesmente, um mecanismo para combater os preconceitos que recaem fortemente sobre os indivíduos que não se encaixam no padrão “homem/mulher/cisgênero”. Mostrar este preconceito, fazer com que os jovens aceitem e respeitem as diferenças, quaisquer que sejam, não seria também uma educação com elevados propósitos de cidadania? Que mal há nisso?

“Comunismo” e “esquerdismo” são palavras que foram demonizadas pela ignorância. Mas, enfim, o que é o comunismo? A definição mais simples que encontrei foi esta: “Uma ideologia política, social e econômica contrária ao capitalismo, na qual se estabelece uma sociedade igualitária”. Mais uma pergunta: “Se é aceitável ensinar, nas escolas, sociologia, filosofia e história, por que não abordar todas as ideologias existentes, tratando do comunismo, capitalismo, liberalismo, neoliberalismo, imperialismo, etc?”. É libertador para o aluno conhecer todas as vertentes de pensamento, para que possa, por fim, formar o seu próprio pensamento.

A presença do termo “islamismo” como algo negativo e que não deve ser ensinado nas escolas representa o mais alto grau de preconceito com uma religião como outra qualquer. Aliás, é a segunda maior população religiosa do mundo, depois dos cristãos. Penso que é extremamente válido que a escola mostre aos alunos os traços principais das diversas religiões: cristianismo católico, cristianismo protestante, espiritismo, umbanda, candomblé, judaísmo, islamismo, hinduísmo, budismo, confucionismo, xintoísmo, taoismo, vodu, etc. Conhecimento não é pecado, é mostrar ao aluno o enorme leque composto por vários caminhos, e cada um segue o que quiser depois, ou nenhum deles, pois o ateísmo também é um caminho válido e que deve ser respeitado, como qualquer outro.

Não é porque existem maus religiosos, que misturam as coisas e promovem o terrorismo fundamentado no “radicalismo islâmico”, que temos o direito de incriminar o islamismo. Não é a religião que é ruim, são alguns dos seus fiéis que o são. Afinal, o catolicismo também carrega uma carga muito negativa em sua história, com a santa inquisição e as cruzadas. De onde se conclui que é preciso separar a religião do religioso. Eu mesmo, que sou espírita, já me decepcionei bastante com os espíritas, mas não com o espiritismo.

Finalizando, faço um apelo para você que me lê, e que chegou até esta conclusão do meu raciocínio, para que não se deixe levar por preconceitos e correntes de WhatsApp. Família é algo muito importante, e os primeiros 80% do texto que recebi retratam esta importância sem incorrer em distorções ou mentiras. No entanto, os 20% restantes empurram os incautos para o terreno do preconceito e do ataque a conceitos demonizados e nunca explicados com a clareza que merecem. Fique atento. Não se deixe levar por coisas que lhe fazem odiar certas coisas. Isto nunca é um bom caminho. Você estará cada vez mais distante de um pensamento livre e justo.

Recado dado. Afinal, não poderia deixar passar este texto em corrente de WhatsApp sem dar o meu contraponto. 

sábado, 15 de abril de 2023

ANTITEXTO OU OS DEZ MOTIVOS QUE ME LEVAM A NÃO ESCREVER

Não vou escrever sobre política, apesar de acreditar que este tema é absolutamente importante e necessário.

Não vou escrever sobre economia, apesar de acreditar que eu posso, sim, contestar as taxas de juros do Brasil, que são “pornográficas”.

Não vou escrever sobre religião, apesar de acreditar ser importante alertar sobre o uso indevido da religião para favorecer interesses nada elevados.

Não vou escrever sobre futebol, pois depois que o São Caetano saiu de cena, após sua breve passagem pelo rol das grandes equipes, fiquei órfão de time.

Não vou escrever sobre coisas que aconteceram comigo ultimamente, porque nenhuma delas tem potencial para render algo literariamente interessante.

Não vou escrever sobre as plataformas de redes sociais, apesar de acreditar ser urgente aplicar sobre elas uma regulamentação que estanque o ódio que transita pelas mesmas.

Não vou escrever sobre filmes que vi, porque não sou crítico de cinema.

Não vou escrever sobre livros que li, porque leio muito pouco livro, e deveria ler muito mais.

Não vou escrever uma história criativa, porque não tive nenhuma ideia que valesse a pena e nem o ChatGPT me ajudou nisso.

Não vou escrever algo só para cumprir o compromisso de manter meu blog, porque escrever é coisa séria, que não deve ser banalizada.

É por isto tudo que não vou escrever. Mas, já que escrevi os motivos que me levam a não escrever, sendo que, nesta tarefa, acabei escrevendo, então por que não fazer disto tudo mais um texto, ou um “antitexto”?

domingo, 12 de fevereiro de 2023

EU, PELOS ARES!

Estou sentado em frente ao computador, em busca de inspiração para criar mais um texto para este blog. Está difícil... A ideia que tinha perdeu o colorido. Começo então a ver tudo que escrevi, nestes mais de onze anos de projeto para exercitar a escrita. Rolo a tela, recordo... Mas a ideia não vem.

Desvio então o olhar para a direita e eis que ele crava sobre um antigo álbum de fotografias, daquelas pequenas, 10 x 15, sobre a escrivaninha e atrás da garrafa d’água, vazia. Resolvo abri-lo, pois talvez me traga a esperada inspiração.

Fotos da época do colégio, no início dos anos 80. Caramba! Já faz mais de quatro décadas! Uma foto chama a minha atenção. Tiro-a do plástico e, no verso, encontro algumas palavras a respeito da mesma: “Euforia de fim de ano resultando no meu arremesso para o “espaço” (2º ano)”. Calculo então a data: novembro ou dezembro de 1981.

Fico admirando a cena, captada em um breve instante, no qual o meu arremesso para o espaço devia estar em seu ponto mais alto. O clique foi perfeito. De baixo para cima, fotografou-me em pleno voo, arremessado por um bando de adolescentes, como eu, bons tempos... Que loucura! A brincadeira era jogar o cara para cima, o grupo todo impulsionando, rodeando e sustentando o projétil humano por todos os lados. Um, dois, três! E lá fui eu para os ares! Acredito que passei dos três metros, talvez até cheguei aos quatro. Deu tudo certo na foto: um bonito céu de fundo, imagem centralizada nos quatro mastros de bandeiras, sendo que havia somente a do Brasil hasteada, esticada pelo vento... Meio que sentado no ar, meu pé esquerdo parecia chutar o símbolo nacional, enquanto os braços, esticados e para frente, buscavam dar ao corpo algum equilíbrio no espaço.

Fui o primeiro, escolhido por ser o mais leve. Depois vieram outros... Fui bem acolhido no pouso. Porém com um de nós o resultado não foi inteiramente feliz. Houve algumas desistências no momento de amortecer a queda e ele foi parar no chão! Nada quebrado, nada muito sério, apenas uma demonstração da insanidade reinante no nosso grupo!

É incrível como um instante, captado em um negativo e registrado quimicamente em papel fotográfico, é capaz de provocar recordações e emoções... São tempos que não voltam mais...

Por duas vezes entrei em grupos de WhatsApp de colegas daquela época. Não deu certo. Diferenças políticas muito marcantes inviabilizaram minha permanência nos mesmos. Foi melhor assim. Não vale a pena discorrer mais sobre esta questão agora, vamos ficar com as boas recordações, de um tempo em que nem imaginávamos as transformações sociais que viriam pela frente...

E esta foto, com certeza, captou um instante único, que nos faz suspirar... E que rendeu o texto do blog deste mês!