segunda-feira, 20 de abril de 2015

MORTE PADRÃO


Deveria existir uma morte padrão, igual para todo mundo. Sem sofrimento, apenas desaparecer. Então seria assim, o sujeito daria falta de alguém e perguntaria para outro: onde está fulano? E este alguém responderia para o sujeito: morreu.


Para que se tivesse certeza da morte, seriam necessárias algumas condições. Alguém teria que ver o indivíduo morrer, ou melhor, desaparecer. Ou então, caso não houvesse ninguém por perto no momento fatídico, poderiam ser observadas as pistas: peças de roupa caídas no chão, sobre cadeiras ou poltronas, enfim, sobre qualquer lugar onde a pessoa tivesse morrido. Deu para perceber que só a pessoa sumiria, sobrando apenas suas vestimentas. Cenas inacabadas também denunciariam a morte, como, por exemplo, uma mangueira aberta vazando água pelo chão, uma bicicleta caída na rua, um guarda-chuva rolando ao vento, um cachorro perdido com coleira e guia arrastando pela calçada...


Por pura questão de lógica, as doenças acabariam. Afinal, qual é a função principal da doença? Matar o corpo, de uma vez ou aos poucos. Mas a questão da morte já estaria resolvida, seria um simples desaparecimento, independente de qualquer doença. Câncer, ataque cardíaco, AVC, tudo isto perderia a razão de existir. O sujeito não precisaria de nada disto para morrer.


No entanto, para que houvesse uma certa ordem, seria necessário que ninguém morresse dirigindo ou pilotando algo que colocasse em risco outras pessoas, como um avião, uma locomotiva, ou até um carro ou uma moto. Quando se tivesse no comando destas ou de outras máquinas que trouxessem prejuízos quando abandonadas instantaneamente, nestas situações seria proibido morrer. Enfim, a morte chegaria apenas em situações inofensivas, para atingir somente aquele que deve morrer. Exemplo de situação inofensiva é eu morrer, ou melhor, desaparecer agora, deixando cair a caneta (é, eu não estou escrevendo no computador, e sim com caneta) sobre o caderno com o texto inacabado... Ou você, que está lendo estas palavras, não chegar ao final da frase...


Para garantir o funcionamento deste esquema de mortes por simples desaparecimento, também seriam proibidas as mortes por acidente, de qualquer tipo. Igualmente não permitidos os meios de abreviar a vida, por assassinatos, suicídios, ou quaisquer outras maneiras possíveis. Os acidentes poderiam até acontecer, os tiros poderiam ser dados, mas os corpos permaneceriam intactos. Não me pergunte como, mas seria assim que aconteceria. A morte viria sem traumas, sem acidentes, sem ninguém provocar, apenas com a desintegração instantânea e indolor do corpo, quando chegasse a hora...


Imagine só um jogo de futebol. O narrador falaria mais ou menos assim: “Fulano arranca pela lateral direita, dá o breque, dribla o zagueiro, cruza para a cabeça da área em busca do centroavante que está sozinho, que... Morreu!!!”. Restaria apenas o uniforme e as chuteiras largadas sobre o gramado.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

NÃO COMPREENDO


Se você não tem paciência de ler, então nem comece. Hoje em dia já não se para pra mais nada. Ler perde tempo. Cansa. Eu compreendo.

Se você chegou neste parágrafo, mesmo assim não vou me alegrar. Sei que a leitura pode ser interrompida a qualquer momento. Uma mensagem no celular, um e-mail, alguma novidade na rede social... São coisas mais importantes. Eu compreendo.

Se você ainda está lendo, pode ser porque está curioso em saber no que vai dar este texto. Mas eu já lhe adianto: não vai dar em nada. Pode parar de ler. Eu compreendo.

Se você insiste em continuar na leitura, isto pode ser sintoma de uma simples teimosia. Ou então você é um daqueles sujeitos que têm, por princípio, não interromper nada que tenha começado... Eu compreendo.

Se você não está gostando deste texto, se está entediado com tantos “se você” e “eu compreendo”, tudo bem, eu compreendo.

Se você já percebeu que eu me ferrei com esta crônica ridícula, amarrada por uma regra idiota, sem saber como continuar este textinho safado, e se com isto está com ódio ou pena deste pobre pretenso escritor que vos escreve... Tudo bem. Eu compreendo.

Se você agora só está pensando em acabar de ler, com o único objetivo de ter mais elementos para me criticar, tudo bem, eu compreendo.

Se você pulou algumas linhas deste texto, com o intuito de diminuir o sofrimento, tudo bem, eu compreendo.

Agora se você, leitor, chegou até este ponto sem pular nada e, ainda por cima, gostou deste meu texto e até sentiu-se preso por ele, então eu, sinceramente, não compreendo...

quinta-feira, 12 de março de 2015

QUAL É A COR DO VESTIDO?


Qual é a cor do vestido? Esta é a pergunta que meu colega de serviço me faz, mostrando no celular a foto de um vestido listrado. Dourado e branco, é o que respondo. Eu vejo azul e preto, diz ele. Outra colega também vê estas mesmas cores. Uma terceira colega empata novamente o jogo ao dizer dourado e branco. E o placar segue disputado, sem definição. Surgem comentários e explicações:

“Acho que os mais velhos veem dourado e branco”,

“Eu vi a explicação de um especialista. Tem a ver com a cor do fundo e a luminosidade. Quando a gente vê, acaba fazendo uma compensação”,

“Tá bombando na internet”,

“Um cara postou essa foto do vestido da madrinha de casamento dele. Aí correu o mundo. Cada um vê de uma cor”.

Chego em casa e, antes de sair da sala para ir jantar, o telejornal também fala do tal vestido que muda de cor. Na cozinha, comento com minha esposa sobre o intrigante vestido capaz de parar a internet. “Não acredito que vocês também estão falando sobre esse vestido”, diz minha filha ao chegar perto da mesa. A refeição é interrompida. Vamos todos ao computador onde o meu filho está. É preciso saber e conferir que cores cada um de nós vê. Caminho até lá com a certeza de ver novamente dourado e branco, mas vejo azul e preto, as mesmas cores que minha esposa, filha e filho veem. “No serviço eu vi dourado e branco, mas agora estou vendo azul e preto!”, falo eu, surpreso com a mudança. “Tem gente que vê as duas cores”, explica minha filha. E meu filho não se conforma: “Como que você viu dourado e branco?! Impossível! É azul e preto!”.

Cansado de vestidos e cores, após o jantar sento no sofá e distraio-me em frente a televisão...

Minha filha entra na sala e acende a luz. “Nossa, pai! Não sei como você consegue ver TV com tudo escuro!”. Não acredito! Ela está preto e branco! Como nos televisores antigos! Minha filha e sua roupa também em diversos tons de cinza! Esfrego os olhos. Ela ainda está monocromática. Faço de conta que tudo está normal. Deve ser algum piripaque momentâneo, logo logo vai passar.

Mas levo um novo susto quando meu filho também entra na sala. Está esbravejando, revoltado com a derrota no jogo de computador. De sua boca vejo irradiar-se uma luz vermelha. Cada vez mais vermelha a cada palavra raivosa.

Tudo fica mais doido ainda quando chega minha esposa, com um perfume na mão. “Comprei da cabeleireira. Dá uma cheirada.”. Inalo a fragrância e minha vista se ofusca com tanta luz amarela que sai do vidro de perfume.

Acordo, sozinho na sala.

Após alguns instantes desnorteado, penso: “Então foi tudo sonho. Depois que sentei em frente a TV, acabei dormindo...”.

E falo para mim mesmo: “Chega de vestido colorido! Não quero nem saber que cor que ele é ou deixa de ser...”.

domingo, 1 de março de 2015

VIDA LONGA E PRÓSPERA


Hoje a sua vida acabou Sr. Spock. A lógica perdeu o seu maior expoente. Justamente agora, quando vivemos em um mundo tão necessitado de lógica.

A bordo da Enterprise ou teletransportado em um planeta qualquer, seus comentários e atitudes transmitiam sempre a segurança de quem atingiu a sabedoria através do caminho da razão.

Lutando sempre com sua parte humana, mostrava somente as qualidades de um vulcano. Controle das emoções, calma, precisão sob qualquer circunstância. Em seu corpo, mente e espírito, tudo parecia fluir de maneira perfeita, para que, logicamente, se gastasse o mínimo de energia para proporcionar o melhor resultado.

Nós, que não temos sangue vulcano, vivíamos e vivemos querendo absorver alguma essência dessa genética extraterrestre, para que nos permita ao menos controlar um pouco mais o cavalo xucro dos sentimentos e emoções que nos levam de um lado para outro, desequilibrando-nos. Ah, Sr. Spock, como invejamos a sua estabilidade, sempre senhor de si. Contrastando maravilhosamente com o Dr. McCoy, formavam um binômio de forças que tinha, ao centro, a figura marcante do Capitão Kirk.

Lógica perfeita, sem indecisões. Quando o capitão lhe questionava sobre algum ponto que demandava cálculos complexos, seu cérebro superior reunia rapidamente todas as variáveis e o resultado surgia, praticamente de maneira imediata, com uma precisão que, para aqueles que se debatem e sofrem pelos meandros da Matemática, chegava até a causar raiva.

Se todos nós, humanos, tivéssemos a sua lealdade e integridade, certamente boa parte dos problemas que enfrentamos, principalmente no campo da política, seriam todos resolvidos. Mas ainda temos que nos conformar com a nossa condição, entendendo que você está em um estágio superior, o “além do homem”... No entanto, a mensagem que disto fica é de esperança. Um dia todos nós, dentro da escalada evolutiva, mereceremos, e viveremos, em um mundo melhor...

Lembramos também da “sonda mental”. Ah, a sonda mental... Quem não desejaria ter esta capacidade? Qual homem, perturbado com os mistérios e contrariedades da mulher, da sua mulher, não gostaria de nela aplicar uma sonda mental? Desvendando assim as correntes de pensamentos e sentimentos que a conduz por caminhos aparentemente desprovidos de lógica...

Ninguém mais levantará a sobrancelha daquele jeito... Continuarei tentando imitar, mas sentindo que a referência foi-se embora. Mão espalmada com os dedos colados dois a dois. Vida longa e próspera, Sr. Spock, onde quer que você esteja.

27/02/2015

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

CÃO


Quero falar sobre um cachorro. Não é meu cachorro de estimação, não morreu, nem saudades, nem nada disso. Muito pelo contrário. Não cultivo nenhuma estima por aquele ser peludo, que insiste em apavorar a vida da minha família. Suas ações terroristas sempre acontecem no caminho entre a nossa casa e a da minha mãe...
Bom, mas vamos começar do começo. Pelo que me lembro, a aversão que este cão tem para comigo não foi sempre assim tão intensa. Acho que ele aprendeu a me odiar com outro cachorro. Este sim, apresentava uma raiva tão fortemente arraigada em cada nervo do seu corpo, que dava até gosto de ver. Colava a cabeça repleta de dentes nas grades do portão... Para minha felicidade, nunca realizou o seu desejo ardente de arrancar qualquer pedaço do meu corpo, mas penso que deve ter dito – em cachorrês, é lógico – algo para o outro, cão de rua, peludo, que sempre perambulava por ali, coisa do tipo: “Pega esse maldito sujeito que vive passando aqui em frente, no nosso território. Só não faço eu mesmo porque tem esse maldito portão...”.
E a ordem foi seguida, à risca. Sorte que o cachorro sem dono tem um porte pequeno, mas nem tanto... Porém se fosse do tamanho e com a força do seu mestre, que ordenou o ataque à minha pessoa, ah! Aí eu estaria frito!
Sobre mim as suas investidas não me metem medo. Já dei umas carreiras nele. Correu com o rabo entre as pernas. Os latidos saíram esganiçados, meio que sumindo pela boca assustada. Ficou uns tempos respeitoso. Quando eu passava pelo que ele julga ser seu território, na calçada, não ousava se aproximar... Porém, com o tempo, acabou perdendo o medo e recuperando a coragem.
O odiento ser peludo reina no terror contra minha família, principalmente com a minha esposa e minha filha. A rotina delas foi alterada, evitam aquele trecho da calçada, passando do outro lado da rua ou até dando a volta no quarteirão... Quanto a mim, não mudo a minha rota. Se o faço, é somente para acompanhá-las. Mas não adianta, aquela coisinha raivosa e peluda não tem jeito, cismou com a gente... Acho mesmo que o problema é só comigo.
Porém acabei tomando uma decisão. Quando ele começar a latir e vier se aproximando, eu simplesmente vou parar e esperar. Só isso. Até ele se cansar de me odiar. E se ele ousar me morder, se ele encostar em mim, aí então levará um chute que vai se lembrar pelo resto da vida.
Só que depois desta decisão, nunca mais encontrei o ousado e insano cão. E isto já faz um bom tempo... Chego até apensar que o dito cujo morreu... Mas se ele ainda estiver no reino dos vivos, na próxima ocasião em que nos encontrarmos a nossa questão será resolvida de uma vez por todas. Ah, com certeza da próxima vez não passa.

sábado, 3 de janeiro de 2015

DONA CRÔNICA


Agora. Vou escrever uma crônica agora. Tem que ser agora. Já passou muito tempo, tenho que atualizar o meu blog...

Que estória é essa? Pensa que crônica nasce a fórceps?

Quem é você?

Eu sou a Crônica.

Ótimo! Então você já está pronta!

Que nada! Eu ainda sou nada. Você vai ter que me escrever.

Ora essa, então por que você me apareceu?

Para lhe ajudar a decidir sobre o que escrever. Vai falando aí suas ideias...

Pensei em escrever sobre o Tempo.

Que nada, o Tempo é muito complexo e filosófico. Tem gente até que diz que ele não existe, que é uma ilusão. Vai bagunçar a cabeça do leitor.

Que tal sobre o Ano Novo?

Nem comece. Pode desistir. Só porque hoje é o primeiro dia do ano? Que falta de originalidade! Todo mundo fala a mesma coisa sobre o Ano Novo.

(no dia seguinte)

Caminhando em direção à estação de trem. Não são nem seis horas da manhã. Ao cruzar o estacionamento de um grande supermercado para cortar caminho, olho para o céu e vejo um aglomerado de nuvens, iluminadas por fiapos de luzes de uma cor difícil de definir. Algo entre o alaranjado eu rosa, eu acho. Admiro a beleza do cenário pintado pela Natureza... Lembro do filme Vanilla Sky... Que tal escrever sobre essas coisas?

Não. Isso serve mais para poesia... Essas paisagens e coisas do tipo... Não, nada disso.

(no mesmo dia)

Voltando do serviço, no trem, encostado no fundo do vagão. Emenda de feriado é assim mesmo: tem bem menos pessoas nas conduções. O transporte público fica até decente... Daqui onde estou dá pra ver todas as pessoas... E aí, Dona Crônica? Será que daqui sai algum texto interessante?

Depende. Tá vendo algo diferente? Uma situação, um olhar, um gesto, uma expressão, uma vestimenta, um rosto...

Não. Nada. Tudo normal.

São seus olhos que não estão captando... Um bom cronista, quando quer escrever, sempre consegue tirar alguma coisa daquilo que aparentemente não tem nada...

É, confesso, estou sem inspiração...

(no dia seguinte)

Já faz dois dias que estou tentando mas não consigo fazer uma crônica para colocar no meu blog...

Que tal colocar este nosso diálogo?

Você acha que fica bom?

Pelo menos é alguma coisa...

Tá bom, vou colocar sim. Mas da próxima vez, Dona Crônica, vê se pelo menos aparece com alguma ideia.

Que nada seu folgado, ideia é por tua conta! Ora essa!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

DEPOIMENTO DO JUMENTO JURASSIC


 
Meu nome é Jurassic. Este nome estranho veio por causa do filho do boiadeiro. Quando nasci, aquele filme, Jurassic Park, fazia o maior sucesso. Então o menino João Paulo não teve dúvida. Assim que me viu, quando ainda tentava me endireitar sobre as patas cambaleantes, disse: “Pai, ele vai se chamar Jurassic!”.
No começo minha vida era muito boa. Dura, é claro, mas boa. Jumento não se queixa de dureza e serviço pesado. Fomos talhados pra isso mesmo. Gostamos de trabalhar com o bicho-homem. Neste grande sertão sem-fim, já fizemos muita coisa juntos.
Porém, tudo começou a piorar quando João Paulo, com seus vinte e poucos anos, meteu-se em um financiamento e apareceu com uma moto. No começo o pai desconfiava da utilidade daquela geringonça barulhenta. Mas o filho insistiu que com ela era mais fácil tocar o gado. Foi que foi que acabou convencendo o velho a abandonar minha mãe na beira da estrada. Dizia que ela empacava demais. Depois foi o meu tio, que já estava um pouco velho. Compraram mais uma moto e aí foi a vez do meu pai. Mais algumas semanas e lá estava eu, no mesmo fim.
Agora, toda a nossa população, lutando para sobreviver e sendo atropelada nas estradas, virou assunto para políticos e autoridades. Tem até um tal promotor que quer matar todos nós para servir de comida para presidiários... Levando em conta que nós, jumentos, sempre fomos fiéis trabalhadores a serviço do homem nordestino... Decisão justa, não? E ainda se consideram seres humanos...

domingo, 19 de outubro de 2014

TUDO É RELATIVO


E se a seca continuar aqui no sudeste... Aí então o nível do reservatório Cantareira vai despencar de vez, com volume morto e tudo. Só vai sobrar terra rachada. De nada adiantará a riqueza do sudeste. Arranha-céus, bolsas de valores, megalópoles, megaempresas, megaganâncias... Sem água, tudo vai secar. A terra rachada reinará, soberana. Haverá migração. O povo de São Paulo tentará a vida no nordeste, com mais empregos, oportunidades, e até mais água. E os nordestinos darão o troco do preconceito que sofreram. Dirão assim: "O que esses sudestinos estão fazendo aqui? Deviam todos voltar pra sua terra...". Nem sei se existe a palavra sudestino. Se não existe, deveria existir... Esse termo ou qualquer outro para designar aquele que é natural do sudeste. Sudestino. Ficou bom. E engraçado... Mas não será nada engraçada a situação que enfrentaremos... Tem muita gente que diz que isso tem a ver com apocalipse, fim do mundo, essas coisas... Eu só sei que, se a coisa piorar por aqui na Terra, o homem vai dar um jeito de se mudar para outro planeta. Depois de cutucar a mãe-natureza, nela provocando as mais drásticas reações e consequências, escapará para um astro qualquer do universo infinito, a fim de, novamente, sugar tudo que este astro permitir ou não permitir, isto não importa...
E se o homem se mudar para a lua... Aí então estará livre da radioatividade, das enormes variações climáticas, e de todos os subprodutos de um holocausto nuclear... Xi, estraguei este planeta! Não tem problema, vamos pra outro! Não precisa ir para muito longe, o nosso satélite parece ser uma boa opção. É só construir uma porção de bases lunares, para abrigar os eleitos, agraciados com o direito de seguir com a devastação, universo afora... Como escolher estes poucos eleitos em um mundo com mais de sete bilhões de pessoas? Bom, isto não parece ser uma tarefa difícil para quem, ao longo de sua história, deu inúmeras mostras de sectarismos, promovendo infindáveis privilégios de poucos em detrimento das condições da imensa maioria... É só aplicar o Padrão Titanic, com seus botes salva-vidas insuficientes, mas totalmente disponíveis para atenderem plenamente a casta superior que estava a bordo. E quando todo este novo mundo estiver instalado na lua, um dos eleitos olhará para o céu e verá a Terra. Terra cheia. Apreciará a cena, pois será dotado de grande sensibilidade. Não nos esqueçamos de que, em matéria de preservação e continuidade da espécie humana, costuma-se manter a arte e os artistas. Assim sendo, além do necessário arsenal bélico (para combater qualquer ataque de seres extraterrestres – no caso, extralunares – ou mesmo para revidar ações guerreiras daqueles que ficariam na Terra), certamente também levariam um punhado de artistas e suas obras... (será que vai ter espaço para cronista?) Então, quando o artista eleito estiver divagando, lá na lua, as pessoas vão dizer que ele está no mundo da terra? Afinal, tudo é relativo. Mundo da lua, mundo da terra, lua cheia, terra cheia... Nordestino, sudestino...

sábado, 6 de setembro de 2014

MORFEU, NEURÍNIA E JEJUÍNO


Morfeu não dormia. Nunca. Não é força de expressão. Nunca é nunca mesmo.
Neurínia não esquecia nada. Não é força de expressão. Nada é nada mesmo.
As enfermeiras da maternidade, logo no primeiro dia de vida do pequeno Morfeu, notaram que ele não pregava o olho.
A mãe de Neurínia, no exato dia em que a menina completava sete anos de vida, ouviu-a dizer, pela primeira vez: "Mamãe, eu nunca esqueço nada".
Já na maternidade começaram os primeiros exames no bebê que não dormia. Nenhuma explicação. Depois vieram muitos outros. O mistério continuou.
Com a insistência da menina em dizer que nada esquecia, e observando o seu inacreditável desempenho escolar, seus pais resolveram levá-la para os especialistas. Muitas avaliações e exames. Nenhum deles conclusivo.
Nesta mesma época, o menino Morfeu já não era alvo de cansativas investigações médicas. Sem encontrarem utilidade nisto tudo, seus pais resolveram poupá-lo.
Neurínia também ficou livre das intermináveis sondagens dos doutores. Mas isto só aconteceu na adolescência, quando ela se rebelou contra tudo isso. Resolveu esquecer o seu problema... É lógico que "esquecer" foi aqui empregado somente como força de expressão. E, na verdade, este não era dos seus maiores problemas, pois, com o tempo, aprendeu a driblar a mente, para não mergulhar em infinitas lembranças a pressionar seus pensamentos. A técnica era procurar, constantemente, estar no presente, no "aqui-agora". Geralmente funcionava muito bem... De vez em quando até dizia que havia esquecido algo. Era mentira, é lógico. Fazia isso para parecer mais normal.
O bebê que não dormia deu muito trabalho para os pais. Revezavam-se à noite para cuidarem do filho que não desligava nunca. A criança que não dormia deu ainda mais trabalho, pois inventava brincadeiras a qualquer hora do dia ou da noite. O jovem que não dormia aprendeu a não incomodar todo o resto do mundo, que precisava dormir. Ficava boa parte do dia e a totalidade da noite no computador. Para o mundo globalizado, mergulhado na internet, não havia descanso. Morfeu usava as horas da noite e da madrugada para jogar com aqueles que estavam do outro lado do planeta: asiáticos, australianos, europeus orientais... De vez em quando fingia estar com sono. Certa vez, em uma excursão com os amigos da escola, chegou até a simular que estava dormindo. Tudo isto para parecer mais normal.
É lógico que não é a toa que eu estou contando as estórias de Morfeu e Neurínia, cada qual no seu parágrafo, mas que neste se juntam em matrimônio... Conheceram-se no tai-chi-chuam e casaram-se dois anos depois. No ano seguinte nasceu o primeiro filho, Jejuíno.
Na maternidade, o pequenino não queria saber de mamar. O jejum continuou quando foram para casa. Ao completar sete dias de vida e de inanição, seus pais não sabiam o que fazer... Mas, na verdade, sabiam o que estava acontecendo... E, desta maneira, compreendiam que nada poderia ser feito. Olharam-se um para o outro e disseram a frase sem palavras: "Jejuíno não vai comer, nunca comerá.".

sábado, 23 de agosto de 2014

ASSIM NÃO DÁ... (OU) TALVEZ UM DIA EU FAÇA ISSO...


Era uma vez um jovem que, disposto a sair com os amigos em um sábado a noite, ordenou ao mensageiro do senhor seu pai para que fosse rapidamente na residência de cada um deles, convoca-los para o imediato passeio, no qual procurariam folgar após uma semana pontilhada por inúmeros compromissos...
Era uma vez um jovem que, estando a fim de curtir a noite de sábado com os amigos, bateu um fio com cada um deles, intimando-os a sair para dar uma agitada depois de uma semana cheia de trampo...
Era uma vez uma vez um jovem que, pintando aquela vontade danada de dar um rolê com os amigos, entrou na internet logo que bateu duas da tarde de sábado (pois daí pra frente a companhia telefônica só cobrava um impulso...) e mandou um e-mail pros camaradas (sabia que eles também entrariam depois das duas; todo mundo entrava...) pra combinar algum lance para aquela noite, só pra desestressar depois de uma semana da pesada...
Era uma vez um jovem que, querendo dar um giro com os amigos naquela noite de sábado, entrou no MSN e teclou algumas mensagens pra eles, combinando um esquema pra aliviar o peso de uma semana punk...
Era uma vez um jovem que, doidão pra sair pra balada com os amigos naquela noite de sábado, mandou um WhatsApp pra turma, combinando uma parada pra aliviar a tensão, pois estava pilhado após uma semana nervosa...
Era uma vez um jovem que, tizado (gíria a ser inventada, com significado difícil de ser definido, mas que pode ser entendida, em termos aproximados, por “obcecado, dotado de uma vontade que ignora qualquer obstáculo”. Haverá quem dirá, no futuro do futuro, que esta gíria teria surgido como uma derivação ou contração da palavra “hipnotizado”) pra sair com os amigos no sábado à noite, disparou um VIMC pra eles (VIMC é uma palavra que vem das iniciais de “Vocal Inter-Mental Communicator”, revolucionária criação da micro-bio-eletrônica, na qual o sujeito tem um minúsculo aparelho implantado atrás da orelha, capaz de transmitir e receber pensamentos. Como os mais curiosos perguntarão o porquê do “vocal”, eu já me adianto explicando que este termo é devido ao fato de ser através de comando de voz que o usuário liga ou desliga o dispositivo, funcionamento este que diminui a probabilidade de “transmissões acidentais”...), instigando-os para uma zulha (gíria equivalente à balada, só que, entre as duas, ainda surgirá outra...) pra descarregar o estresse de uma semana daquelas...
Assim não dá...
Está cada vez mais difícil fazer um texto que não fique desatualizado depois de algum tempo...
Acho que um dia vou escrever um texto “multitemporal”, com cada episódio redigido de múltiplas formas, sendo que cada uma delas estaria ambientada em um determinado tempo. O leitor navegaria então livremente por onde quisesse...
Talvez um dia eu faça isso...

sábado, 9 de agosto de 2014

DESCULPE, POETA


         Eu, minha esposa e minha filha, andando de carro, de dia, em um horário qualquer que não me lembro.
Eu: “A lua tá se pondo...”.
Esposa: “O quê?!?”.
Eu: “É! Que nem o sol. A lua pode aparecer durante o dia. Depende do ciclo, da fase...”.
Esposa: “Vai me dizer agora que a lua está se pondo, a essa hora do dia?!?”.
Eu: “É, acho que é possível... A gente vê a lua por causa do reflexo da luz do sol... Não sei explicar direito, mas dependendo da posição... Nascer e se pôr durante o dia, que nem o sol...”.
Esposa: “Ora essa! Agora a lua virou sol! Onde já se viu?!”.
Filha: “Ô pai, tá viajando, não tem nada a ver!”.
Eu: “É sim, é possível, depende...”.
Esposa: “Tá ficando doido...”.
Eu: “Eu vou procurar na internet. E vou mostrar pra vocês que eu estou certo!”.
Procurei. Achei. E mostrei pra minha esposa e pra minha filha que eu estava certo. Ou que, pelo menos, não falei muita abobrinha... Na verdade, a lua não pode nascer e se pôr no mesmo dia, sob o sol do mesmo dia, deu pra entender? Mas pode nascer por volta do meio-dia e se pôr à noite, quando está na fase crescente, e, por outro lado, nascer de noite e se pôr de dia, também por volta do mesmo horário (12h00min), quando está na fase minguante.
É mais ou menos assim... No começo da fase crescente começa nascendo por volta do meio-dia. Depois vai atrasando o nascimento cerca de 50 minutos por dia, até chegar à lua cheia, que nasce no fim do dia ou começo da noite... E o atraso de quase uma hora por dia continua, enquanto a lua vai minguando, quando então, ao final da fase minguante, ela nasce no meio da noite para se pôr no meio do dia.
Todo este conhecimento acaba com o sentimento poético. Para o poeta romântico só existe a lua cheia, bem redonda e comportada, que nasce conforme o figurino: no começo da noite, junto com a estrela Dalva... As outras luas não existem, não merecem existir, pois onde já se viu? Nascer ou se pôr ao meio-dia? Intrometer-se no dia, que pertence ao sol, invadir suas manhãs e tardes? É o fim-da-picada! É o cúmulo!
Mas cúmulo maior vai acontecer quando o poeta souber sobre a estrela Dalva, aquela que primeiro aparece no céu, fonte de inspiração para os românticos... Olha, não conte pra ele... A estrela Dalva não é uma estrela, mas sim um planeta! Planeta Vênus, o segundo de dentro pra fora do nosso sistema solar... Mas esta estória fica pra outra vez...

sábado, 26 de julho de 2014

APOSENTADO OU ESCRITOR?


Quando apareceu na TV alguém falando e, embaixo, algum nome seguido de “aposentado”, minha esposa disse, meio que perguntando: “Então agora, quando for preencher alguma ficha, tenho que colocar ‘aposentada’?”.

Respondi que sim. Acrescentei que a aposentadoria nivela todo mundo, por baixo. O cara pode ter sido um diretorzão de uma grande empresa... Não importa. Vai ser mais um aposentado como todos os outros. É lógico, com muito mais mordomia, mas, para efeito de ficha ou daquela linha de rodapé que se coloca quando o sujeito aparece na TV, é tudo a mesma coisa: aposentado.

Então pintou aquele sentimento de desqualificação... Acho que foi por reagir a esta injustiça que me surgiu a ideia: “Quando eu me aposentar, vou colocar ‘escritor’”, foi o que disse.

Talvez até ela tenha julgado uma ousadia de minha parte. E com razão, pois onde já se viu um indivíduo como eu, que não ganha um tostão com literatura, ter a petulância de se autointitular “escritor”... É, está certo, sob o ponto de vista “econômico”, talvez eu nunca possa me considerar escritor. Mas nada me impede de, sob a visão “artística”, usar este título.

Completei e disse o seguinte pra minha esposa:

– Você também pode mudar! Põe “psicóloga”!

– Eu coloco “dona de casa”!

– Dona de casa, psicóloga... Põe psicóloga! É a sua formação! Que problema tem?

Estava instaurada a insubordinação ao nivelamento por baixo do termo “aposentado”. Foi assim que me preparei para o tão sonhado futuro alternativo. Na verdade foi mais uma regada em uma planta programada para crescer depois...

Resta saber se, quando chegar a hora, a inspiração e o pique vão continuar. Certa vez ouvi dizer que um certo alguém, acho que já com alguma projeção no meio literário, quando se aposentou e se viu livre para se dedicar ao seu sonho, eis que, de repente, viu a inspiração esvair-se e não conseguiu escrever mais nada... Será que isto vai acontecer comigo?