sexta-feira, 17 de março de 2017

SEM IDEIA



A inspiração e a criatividade são coisas que só aparecem por vontade própria. Não por nossa vontade, que por vezes fica a implorar ideias para compor pequenos textos com um nível mínimo de originalidade, mas por suas próprias vontades, como se elas fossem entidades com vida própria, que brincam conosco, aparecendo e desaparecendo ao seu bel prazer.
Justamente agora, quando coloquei algumas palavras de propaganda do meu blog no vidro traseiro do carro, sinto a necessidade de elaborar uma crônica acima da média para nele publicá-la. Quero causar uma boa impressão para aquele indivíduo desconhecido que, por um milagre qualquer, resolva acessar o endereço eletrônico, divulgado em letras brancas.
Mas que nada! Nenhuma ideia! Assim não dá! Como vou prender este meu leitor em potencial, talvez um seguidor assíduo dos meus textos mais ou menos mensais, ou quem sabe até um propagador deles, divulgando e compartilhando no vasto “mundo internético”? Se não conseguir escrever nada proveitoso, vai tudo por água abaixo.
Atualmente a concorrência é cruel. Como uma pequena crônica pode competir com vídeos que nos transmitem tanta coisa em tão pouco tempo? Os chineses já diziam que uma figura vale mais que mil palavras. O que dizer então dos vídeos, que nos remetem de um lado para o outro, estimulando nossos sentidos? Vamos ser sinceros, no mundo corrido que vivemos atualmente, fica cada vez mais difícil alguém ter paciência de ler alguns poucos parágrafos. É muito mais fácil assistir passivamente as curtas cenas que viralizam na internet, que são as mais bizarras, ridículas, engraçadas, fofas, chocantes... Assim não dá pra competir!
Porém eu sou teimoso. Fiquei a gritar em pensamento para aqueles neurônios escondidos em algum canto obscuro de minha massa cinzenta, suplicando por alguma mísera ideia que valesse a pena. A resposta que obtive foi o silêncio. Ou, quando muito, as sinapses e impulsos nervosos entre as células do meu cérebro nada de novo revelavam. Eram simplesmente caminhos viciados de um pensamento que reclamava oxigenação. A rotina apressada do dia-a-dia, embebida de dificuldades que se renovam constantemente, mas que são sempre as mesmas, como se estivessem presas a um carrossel, tudo isso acaba consumindo os poucos lampejos de criatividade que são reservados aos pobres mortais. E foi assim que minha teimosia acabou cedendo terreno para a evidência dos fatos.
Então finalmente desisti de sofrer em busca da extinta criatividade. Deixa pra lá. Na verdade “extinção” é palavra muito forte e fatal para explicar o que acontece. Pois ela vai voltar. A criatividade voltará! É sempre assim, é cíclico, em fases. Sei que daqui um tempo ela surgirá novamente (espero...).
Vinculado a esta desistência, decidi escrever sobre isto tudo. E lendo os parágrafos acima, devo confessar que achei até que o resultado final foi aceitável... No entanto, com certeza, estou muito longe do desempenho de minha esposa, pois quando ela está “sem ideia” do que preparar na cozinha, costuma criar os mais saborosos pratos. Seria bom que o mesmo acontecesse comigo com relação aos textos...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

VOU LER MAIS!



Ano novo é assim mesmo. A gente fica doidinho pra fazer resolução de ano novo. E a minha resolução, já deu pra perceber qual é, não é mesmo? Tá no título: “VOU LER MAIS!”. Com letra maiúscula, ponto de exclamação e tudo que tem direito. Afinal, faz um ano que eu não leio nada! Tenho uma seção no meu blog, sob título “O que ando lendo:”, na qual relaciono todos os livros que li. O último registro é de dezembro de 2015! Aí então o pessoal não vai nem acreditar quando ver que não tem nada em 2016. Vão achar que foi esquecimento, que eu li várias obras, como é de se esperar de qualquer um que se julgue escritor, mas acabei me esquecendo de relacioná-las neste meu histórico de leitura... Doce ilusão. E, como eu não quero sustentar esta imagem falsa a meu respeito, já vou logo postando este texto que, além de desmascarar o conceito positivo de leitor assíduo que provavelmente alguém cultive sobre minha pessoa, também serve para que eu compartilhe com o meu público esta minha determinação. Se daqui um tempo você ver que não coloquei mais nenhuma leitura no “o que ando lendo” do meu blog, aí então pode me cobrar. Não só “pode” como “deve” me cobrar. Pronto! Arrumei uma legião de fiscais da minha leitura! Assim aumenta o comprometimento e a responsabilidade desta resolução de ano novo... Aumenta também a vergonha, caso eu não consiga cumprir nem um pouco desta promessa!
Já que agora conto com uma tropa de inspetores, é importante estabelecer alguns critérios de cobrança. Não me venha apontando o dedo se, depois de um ou dois meses, eu não tiver registrado nenhuma leitura em minha estatística. Não pretendo, nem de longe, me tornar um “rato de biblioteca”. Quero apenas voltar à frequência de leitura que tinha antes do longo deserto de letras que foi o ano de 2016. Antes disso, nos cinco anos anteriores, eu lia uma média de quatro ou cinco livros por ano. Atingindo novamente este patamar, para mim já está bom. Há também outra questão que preciso abordar aqui... Assim que postar este texto em meu blog, planejo me dedicar ao estudo de determinada área específica, na qual buscarei uma renovação de certificação... Coisas do serviço, da atividade que me possibilita o sustento do dia-a-dia... A partir de março eu acredito que já estarei livre para começar esta minha retomada na leitura! Pode cobrar! Mas dentro destas condições aqui colocadas, certo?

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

PAPAI NOEL



“Você montou a árvore?”, pergunto assim que entro na sala. “Tá montada faz tempo”, responde minha esposa. Por quantos dias não enxerguei a árvore de natal de dois metros de altura? Uns três dias, talvez. Também, pra quem não enxergou o novo painel com rack instalado bem no meio da parede da sala, tudo se pode esperar, qualquer distração é pouca... Confesso que esta falta por mim cometida tem a ver somente com extrema distração, ou total desprezo por tudo aquilo que não está no meu foco. Ou seja, como a árvore não estava no meu caminho, ou como não tive que desviar da minha rota de todos os dias normais, igualmente não desviei a vista para o lado, nem ao menos os poucos trinta graus necessários para focalizar a grande árvore, tão cuidadosamente enfeitada... É, a coisa tá ficando séria...
Mas parece que eu não sou o único a ignorar os enfeites de natal. Olhando para as ruas, para as casas e prédios por aí, reparei que neste ano as luzes diminuíram bastante. Foram esquecidas. A causa disto talvez seja a tal da crise, com seus milhões de desempregados e naturais desdobramentos socioeconômicos. Outra possível causa tem explicação na correria do dia-a-dia a que todos nós estamos sujeitos. O tempo passa tão rápido que minha esposa costuma falar que não vale a pena tirar os enfeites em um ano para colocá-los no ano seguinte. “Pra quê? O ano passa tão rápido que não vale a pena”, diz ela... É, a coisa tá ficando séria...
Mas será que a razão destes sintomas “antinatalinos” não se encontra na distração, na crise ou na correria, mas sim em algo mais dramático, como por exemplo, “o espírito de natal está morrendo”? Estas ideias me fazem contar o que aconteceu com minha sobrinha-neta, de quatro anos, nesta noite de natal. Lá foi o meu sobrinho, como vem fazendo nos dois últimos natais, vestir-se mais uma vez com a roupa do Papai Noel. A menina ficou desconfiada, encarava o barbudo, olhava nos seus olhos. Depois de todo o cerimonial clássico, envolvendo aquelas perguntas do tipo “você foi uma boa menina?” e a tão esperada entrega do presente, ele sai de cena, para trocar a roupa de “Papai Noel” pela de “papai”. Quando volta, a pequenina fala, na lata: “Era o papai que estava vestido de Papai Noel”. Diante desta descoberta, parece que foram os adultos que mais sentiram a quebra do encanto natalino. Minha mãe chegou a considerar que ela poderia ter ficado, de certa maneira, chocada com o acontecido. Mas que nada! Pois que agora, quando perguntam para a garotinha se o Papai Noel existe, a resposta é sempre a mesma e sem sombra de dúvida: ”Sim”.
Ela está certa, o Papai Noel existe, acima de qualquer desmascarada. Mesmo que os enfeites diminuam, ou que os distraídos não percebam árvores de natal de dois metros de altura. Apesar de tudo, ele existe.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

MERCADO MUNICIPAL, AQUI AGORA



Dia 14/11, véspera da proclamação da república, segunda-feira, emenda de feriado. Fim-de-semana prolongado, com chuvas igualmente prolongadas... O que fazer nesta tarde, para onde passear? Depois de descartar as demais alternativas, o mercado municipal surge como o lugar ideal. Pode chover que não tem problema, pois é coberto. Lugar histórico, com uma bela e preservada arquitetura.
A família é composta por quatro integrantes, mas só três decidem passear. Odranoel, o filho de 16 anos, quer ficar em casa, jogando no computador. Esinom, a filha de 22, está ansiosa para conhecer o ponto turístico. Asiram, a mãe, 52 anos, faz uns 40 ou mais que seus pés não pisam o chão daquele secular mercado. Também está ansiosa com o passeio. Antes de mencionar o último integrante, devo dizer que a sogra também vai. Dona Ahnizeret, 76 anos, mãe da mãe, ponta firme pra qualquer parada, principalmente as loucas aventuras da família Avlis Onerom. E, fechando o quadro dos participantes desta mais nova expedição do nosso intrépido clã, Rimeda, o pai, 52 anos. Este vai porque vai. Sem entusiasmo. Tanto é que quando todos estão esperando o uber na calçada, em frente à casa, ele ouve da esposa: "Se for para ir com essa cara é melhor ficar!".
Da viagem de ida, duas coisas merecem destaque: a longa duração do trajeto e as habilidades do motorista. Durante a hora e meia de prisão no congestionamento, ouvem o condutor do veículo desfilar as suas diversificadas atividades. Neste cansativo percurso, que demora três vezes mais que o normal, ficam sabendo que ele, além de motorista de úber, é corretor de imóveis, marceneiro, padeiro e, ainda por cima, seu filho de oito anos já namora, desde os seis... Família prodígio.
Para quem não conhece, o mercado municipal de São Paulo tem dois pavimentos. O inferior comporta as muitas lojas, o mercado propriamente dito. O superior, que ocupa uma faixa lateral da grande área interna da portentosa construção, abriga alguns restaurantes. Rimeda, o pai, ao ver o preço destes restaurantes, chega à seguinte conclusão: ”Shopping é passeio de pobre. Mercado municipal que é coisa de rico!”. Então decidem comer algo mais barato, ou menos caro, na parte de baixo. Descem a escada e dão de cara com um tal de “Tigrão”, uma lanchonete e pastelaria. Pedem dois pastéis de camarão com catupiry (um para a filha, e outro para o pai), dois bolinhos de bacalhau (um para a mãe, e outro para a sogra) e dois sucos (de laranja para Esinom e de goiaba para Rimeda). Asiram, a mãe, fica indignada ao ver quanto custa o pastel: “Por esse valor eu compro quatro pastéis na feira e ainda sobra!”. Mas ela não sabe que esse do mercado é diferente. Olha, não dá pra reclamar do recheio não. Tem muito camarão mesmo, daqueles meio grandinhos. Nada daquela papinha de camarão. E ainda por cima com uma generosa quantidade de catupiry de verdade. Uma verdadeira refeição. Vale o preço.
Enquanto Rimeda e a filha deliciam-se com as últimas mordidas em seus caros e saborosos pastéis, Asiram e sua mãe vão ao banheiro. Na volta, se perdem. Precisam até ligar para marcar um ponto de encontro: “Estamos em frente ao ‘Porco Feliz’ (um açougue)”. O encontro acontece no local marcado e logo Asiram vai explicando: “A gente saiu do banheiro e chegou no ‘Tigrão’. Mas era tudo diferente, o caixa... e lá tinha mesas... Sabe esses filmes em que o cara volta pro mesmo lugar e tá tudo diferente?”. Mas isto não é nada, meu caro leitor ou ouvinte, espere só para ver. A volta destes quatro indivíduos para casa promete... Porém, antes de contar os desencontros e peripécias no retorno de nossa aventureira família, vamos passear um pouco mais pelo mercado.
“Tem pimenta?”, Rimeda pergunta ao vendedor. E este já vai lhe colocando um tantinho da farinha na palma da mão. Ele prova, constata, e comenta, ao apertar o passo e novamente se aproximar da família: “Esta é apimentada mesmo! Se a mãe comer essa farinha, pega fogo!”. Asiram tem sensibilidade com coisas apimentadas. Também tem sensibilidade com preço alto. Acha tudo caro e vive procurando os preços mais baixos. Este tipo de alergia á saudável para a saúde financeira da família Avlis Onerom, mas aqui no mercado municipal ela está sofrendo, pois não encontra nada barato. Porém, depois de muita procura, acaba por encontrar lascas de bacalhau com um valor aceitável para os seus padrões. “Tá mais barato”, ela fala e mostra para os outros três. Momentos de indecisão. Apesar de a filha dizer para aproveitar e já comprar, a mãe decide comprar depois, no final do passeio.
Corredores cheios, muita gente. Neste cenário um tanto conturbado, os vendedores nem se preocupam em gritar ou anunciar suas mercadorias. Ficam quietos, afinal tem tanta freguesia pra lá e pra cá que nem precisam fazer propaganda. Também quase não oferecem os seus produtos para degustação. Além da farinha apimentada, o que aparece para provar é somente uva, queijo e café, sendo que este último só é saboreado por Rimeda, que fica sabendo do preço: o dobro do normal, pois se trata de café orgânico, proveniente do interior... Sertãozinho? Muzambinho? O pai já não mais se lembra do nome da cidade. Quanto ao queijo, em pequenos pedaços sobre a bandeja, enquanto uma multidão de dedos procura capturá-los, recebe a aprovação de Rimeda e Esinom. Asiram, a mãe, pergunta se é muito salgado. O pai e a filha respondem que não, que o queijo é bom, macio. A uva, ao contrário, não agrada os paladares. Primeiro se interessam pelo seu formato, bastante comprido. Comentam algo e logo o vendedor oferece a fruta, dizendo que é usada para produzir a bebida “chandon-sei-lá-de-quê”. É somente Esinom que ouve este comentário, mas logo esquece o nome.
Do mercado, acabam comprando quatro paçocas e um pacote de balas. Uma paçoca para cada um deles e as balas para Odranoel. Compram também castanhas quebradas. Com relação às lascas de bacalhau, procuram por aquela que está com um preço bom, mas não mais a encontram. As lojas já estão fechando, fato este que leva à seguinte conclusão de Rimeda: “Deve estar em uma loja que já fechou”. Esinom, dirigindo-se à mãe, não deixa por menos: “Eu te falei para já comprar naquela hora!”. Após dizer isto, fala algo mais para a mãe e afasta-se, sozinha. Rimeda pensa que ela vai procurar as tais lascas, mas depois ela lhe aparece com um enorme espeto com gigantescos morangos cobertos com calda de chocolate. Ele não entende como pode caber tanta comida naquele corpinho miúdo, sem barriga nenhuma.
Pronto. Aos nossos quatro aventureiros só lhes restam o caminho de volta. E, quanto a você, estimado leitor ou ouvinte, pode se preparar. Logo adiante vêm muito mais aventuras e trapalhadas dessa turma. Vamos começar a relatar os acontecimentos a partir do ponto em que eles estão em frente ao mercado municipal, esperando o uber.
“Quer esperar? Chama o uber. Quer ir agora? Vai de táxi!”, gritam dois rapazes, postados na calçada. São os garotos-propaganda dos taxistas, uns três ou quatro que se enfileiram com seus carros brancos, rente ao meio-fio. Revezam-se nos gritos, os nossos indivíduos encarregados do marketing. E sabem fazê-lo, pois, conforme o tempo passa, a proposta “vai de táxi” fica cada vez mais tentadora, apesar do preço, consideravelmente maior. A primeira reserva do uber é cancelada pelo motorista. A segunda chamada demora a chegar, pois o trânsito está intenso. Na tela do aplicativo, o tal carrinho que aparece no mapa custa a se aproximar. Fica dando voltas, travado há vários quarteirões de distância. Enquanto isso: “Quer esperar? Chama o uber. Quer ir agora? Vai de táxi!”.
Então, depois de muita espera, o motorista liga para Esinom. Diz ele: “Estou em frente ao mercado municipal”. Mas que “em frente” é essa que não acham? Não entendem. Saem em busca do automóvel procurado. Modelo: Sandero. Quanto à placa, já está gravada na memória de Rimeda, que se adianta em passadas apressadas pela Avenida do Estado. Quer encontrar logo o carro encomendado, pois não deseja expor a família em andanças por lugares arriscados. Mas o problema é que ele está sem o seu celular, que, sem carga, repousa tranquilamente na mesinha da sala. Geralmente acontece isso. Ele deixa a bateria acabar e, quando está saindo, ao notar a inoperância do aparelho, acaba largando-o em casa. Mas ele, neste momento, nem está pensando em celular. O que faz somente é cravar o olho nas chapas dos carros. Quer achar rapidamente o transporte para que todos saiam logo dali. Vira a esquina e continua, sem nada encontrar. Passa por outra esquina, vai dando a volta no mercado, sem olhar para trás, e nada do uber.
Vamos agora acompanhar os outros integrantes da família, que veem Rimeda se afastar mais à frente. De repente o celular de Esinom toca. É o motorista, novamente. Ele explica que, na verdade, não está bem em frente do mercado, mas sim um pouco distante, no quarteirão ao lado. Diz o nome da rua e o número. Então, com esta nova informação, alcançam finalmente o tão procurado Sandero. Logo que Esinom avista o veículo, espera encontrar seu pai lá dentro do carro, sentado, aguardando-os. “Saiu na frente e encontrou antes da gente”, pensa ela. A surpresa não é somente dela, mas de todas as três, quando constatam o sumiço de Rimeda. Asiram sai em busca do marido, enquanto Esinom e Dona Ahnizeret acompanham a espera do motorista. Este, por sua vez, já demonstra sinais de irritação e impaciência, devido à demora e principalmente porque seu carro está parado em local totalmente irregular, sujeito a multas. Então pergunta: “Quantos anos ele tem?”. Refere-se ao indivíduo que está desaparecido, imaginando tratar-se de alguém idoso, talvez bem idoso, que está perdido por qualquer incapacidade característica da idade. A filha hesita em responder, um tanto envergonhada pelo pai. “Ele tem 52 anos”, acaba falando. O condutor do uber rebate, com uma expressão nada boa: “É mais novo que eu”.
Mudando de cena, vemos neste momento a busca de Asiram, que vai outra vez até a entrada do mercado onde ficam parados os táxis. Olha para um lado, para outro, e nada do marido. Irrita-se ao ouvir a propaganda, dita a plenos pulmões: “Quer esperar? Chama o uber. Quer ir agora? Vai de táxi!”. Tem que achá-lo rapidamente, pois o motorista do uber está esperando.
Onde, afinal, está Rimeda? Arrisca algum palpite? Bom, o que eu posso dizer é que ele acaba dando duas ou três voltas em torno do mercado. Quando passa em frente àquela mesma entrada, escuta a mesma ladainha: “Quer esperar? Chama o uber. Quer ir agora? Vai de táxi!”. Isto lhe causa uma mistura de sentimentos: arrependimento, irritação e vergonha. Olhando os propagandistas, pensa: “Será que eles me reconheceram? Será que se lembram que eu estava aqui com a minha família e que não quisemos pegar táxi? Será que perceberam que eu estou perdido, que a família se perdeu?”. E ele continua, com um olho cravado nas chapas de todos os carros e com o outro olho em busca dos seus familiares. Preocupa-se, imagina um sequestro dos entes queridos. Mas ao mesmo tempo não dá muito crédito para este cenário trágico. “É muito azar. Já não basta o azar de terem se perdido, é preciso ter outro azar em cima para serem vítimas de um sequestro”, este é o pensamento que lhe passa pela cabeça. Então muda a estratégia e inclui outro elemento para procurar. Busca por um telefone público, os “dinossauricos” e quase extintos orelhões. Encontra um em frente a uma das entradas do mercado, do outro lado da rua. Pega o aparelho e leva-o ao ouvido: sem linha. Prossegue na tentativa de encontrar uma maneira de se comunicar com a família. Cogita a ideia de pedir emprestado um celular ou entrar em algum bar ou qualquer estabelecimento comercial a fim de ligar para a esposa. Porém acha que ainda não precisa adotar esta atitude que, de certa maneira, lhe parece um tanto abusiva ou exagerada. Decide continuar a sua caça aos orelhões. Afasta-se um pouco do mercado. Até que chega a um cruzamento onde lhe aparecem três espécimes do dinossáurico meio de comunicação. “Um deles deve estar funcionando. Não é possível que os três estejam quebrados”, conclui Rimeda. E ele tem sorte, pois logo o primeiro dá linha.
Digita o número de Asiram, a cobrar. Tem certa dificuldade para ouvir a gravação, mas entende que ela quer dizer que este tipo de ligação não é permitido. Assim sendo, liga para sua casa. Odranoel atende. Ele explica para o filho a situação. Pede para ele ligar para a mãe. “Fala pra ela que é para se encontrar comigo na mesma entrada do mercado em que a gente estava antes”, estas são as palavras do pai. Então Rimeda espera, pois quer aguardar o contato do filho com a mãe, para saber como estão. Pretende conversar mais uma vez com Odranoel, antes de partir para o local do encontro.
Asiram recebe a ligação do filho com alívio, pois a mesma comprova que o marido encontra-se bem. Mas o alívio cede lugar para a impaciência quando nota a demora de Rimeda. “Já era para ele estar aqui”, conclui ela. Não consegue ficar parada, só esperando. Vai para a esquina da Avenida do Estado. Volta. Então liga para Odranoel. Depois para Esinom, para falar que podem ir embora com o uber, para não atrasar ainda mais o motorista. Mas, de alguma maneira, continuam esperando, pelo menos mais um pouco, pelo resgate do pai.
E por falar em uber, vamos dar uma olhada nos acontecimentos que cercam o cada vez mais irritado motorista. Ele sabe que se tomar uma multa, isto inviabiliza totalmente a corrida e tira-lhe também o lucro de muitas outras viagens. Enerva-se por estar estacionado em local proibido, por atrapalhar o complicado fluxo local, composto por pedestres, automóveis e carrinhos puxados por sucateiros, e vai disparando: “Por que vocês não andam todos juntos? Por que a família não anda junta? (...) Ele está sem o celular? Então que pegue o celular de alguém na rua! Fala que é uma emergência!”. Enquanto isso, Dona Ahnizeret, com seus 76 anos, sente-se cansada pela caminhada, pela espera prolongada, e já vai procurando onde se encostar, ao mesmo tempo em que diz: “Acho que dá para eu encostar aqui... Se o dono do carrinho chegar, aí eu saio”. Esinom, sempre assustada com tudo, já vê a vó desabar junto com o carrinho, no que lhe parece ser um frágil e arriscado equilíbrio... ”Já cheguei”, anuncia o sucateiro, que surge por trás da sogra de Rimeda e já vai falando: “Pode ficar, minha senhora. Eu vou sair daqui a pouquinho, mas até lá pode ficar...”. E o condutor do uber continua inquieto, pra lá e pra cá, cavando um buraco no chão com a sua impaciência.
Daquele mesmo olherão, Rimeda procura falar novamente com o filho. Tenta umas duas ou três vezes até que, por fim, a ligação completa e Odranoel atende. O pai já vai logo perguntando: “Conseguiu falar com a mãe?”. Quando fica sabendo que sim, tranquiliza-se. “Estão todos vivos e bem! Graças a Deus!”, é o que pensa. Mas o filho interrompe este breve instante graça ao dizer, chamando a atenção do pai: “Você ainda não foi se encontrar com a mãe? Ela tá esperando!”. E lá vai o marido, aliviado, encontrar-se com a esposa.
Ao se aproximar da entrada do mercado municipal, Rimeda lança o olhar ao longe, em busca de Asiram. Encontra-a voltada de costas, na esquina da Avenida do Estado. Agrada-lhe ter esta visão e, principalmente, ter a certeza de que aquelas costas, aquelas omoplatas e ombros, não lhe restam dúvidas que pertencem à sua querida esposa, sua sã e salva esposa. Tão logo se encontram, ela apressa-se em dizer: “Eu já falei pro uber ir embora!”. E imediatamente liga para a filha, na tentativa de reverter a situação.
Agora vamos acompanhar Esinom e a avó, desde o momento em que a mãe manda o uber partir. A jovem aperta o celular contra o ouvido e tenta confirmar o que acaba de ouvir. “Mãe, tem certeza que a gente pode ir embora?”. Após a resposta positiva, entram no carro, Dona Ahnizeret e a neta, com um vazio por dentro, denunciando a falta de dois integrantes da família. Vão quatro e voltam dois. Não está certo... Mas para o motorista está mais do que correto. Engolindo palavras e sentimentos negativos, esforça-se para conter a explosão. Não se conforma com o enorme tempo de espera, com o transtorno da agitação do centro da cidade, com as multas que podem aparecer... A ligação de Asiram surge realmente no último instante. Ao mesmo tempo em que Esinom ouve a boa notícia, o Sandero manobra e começa a sair. “Achou eles!”, exclama a filha. Ato contínuo, o motorista rebate, atordoado: “Eles?!? Tem mais que um perdido?”. “Não não! Eu falei errado...”, justifica-se ela, enquanto percebe que ele volta a manobrar para colocar o carro no mesmo lugar anterior.
Ufa! Tudo está resolvido. Meu caro leitor ou ouvinte, permita-me contar agora a reação de Odranoel, com seus 16 quase 17 anos, ao saber do final feliz do resgate de seu pai. A mãe liga, informa a boa notícia, e ele simplesmente diz: “Amém!”. Olha, partindo do Oel (apelido de Odranoel), este “amém” representa muita coisa mesmo, pode ter certeza.
E assim acaba a odisseia da família Avlis Onerom, só para comprovar que um simples passeio no mercado municipal da cidade de São Paulo nem sempre é tão simples assim...

sábado, 29 de outubro de 2016

A SACOLA

Robson caminhava regularmente, duas vezes por dia, vinte minutos por vez, indo e voltando do serviço. De sua casa até o ponto do ônibus fretado e deste mesmo ponto até chegar novamente à sua casa.
Ganhava o pão na área de exatas e divertia-se com o exercício da criatividade, estimulando o outro lado do cérebro com a elaboração de textos, geralmente crônicas.
Costumava buscar ideias enquanto andava. E como naquela madrugada estava difícil encontrar sequer um fiapinho de inspiração para um novo texto, eis que mudou o foco e olhou para a copa da árvore que se aproximava.
Havia uma sacola plástica amarrada a um galho.
Era branca, fina, pouco menor que aquelas usadas em supermercados, opaca o bastante para não permitir a identificação do seu conteúdo, mas ao mesmo tempo translúcida na dose exata para despertar a curiosidade.de Robson. Acompanhou com a cabeça o objeto que se erguia em seu campo de visão. Passou por baixo do mesmo.
Esqueceu-se da tal sacola durante o dia, mas depois, quando voltava do serviço, ao iniciar a rotineira caminhada, já começou a pensar na misteriosa coisa ensacada que se mantinha suspensa... “Será que é merda?”, perguntou-se. Desculpem-me os leitores e, principalmente, as leitoras, por usar uma palavra assim tão vulgar, mas não tive escolha, pois apenas reproduzi, entre aspas, o questionamento de Robson, mantendo-me fiel à sua expressão.
Mesmo com, digamos assim, a... “suspeita nojenta”, que lhe pairava na mente, mesmo assim não se desviou um centímetro sequer da mesma trajetória de sempre, e passou exatamente embaixo do saco atado ao galho.
A partir daí aquela sacola passou a fazer parte do seu dia-a-dia, sempre no mesmo lugar e nos mesmos horários, provocando e despertando-lhe pensamentos.
No dia seguinte, de madrugada: “Vou continuar passando bem embaixo da sacola. É o meu caminho. Nada vai acontecer...”.
Mesmo dia, voltando do serviço: “Eu poderia dar um jeito de tirar isso daí. Subir na árvore ou cutucar com alguma coisa comprida, um cabo de vassoura...”.
Na semana seguinte, em um dia qualquer, de madrugada: ”Uma hora vai acabar caindo. Essa noite choveu bastante. Ela está meio torta. Mais torta que de costume...”.
No mesmo dia qualquer, voltando do serviço: “Pode ser que o galho em que ela está amarrada quebre. O galho é meio fino. Parece que está um tanto ressecado...”.
No mês seguinte: “Está resistindo bastante. Mas não vou alterar a minha rota. É muito azar cair bem na hora em que eu estiver passando embaixo...”.
Cinquenta e quatro dias depois, exatamente às 5 horas, 32 minutos, 13 segundos e 24 centésimos, o galho se rompeu. A sacola, com seu fino e desgastado plástico, iniciou a trajetória de queda, acelerando em direção à cabeça de Robson, na qual espatifou-se logo em seguida...
Moral da história: “Tem hora que se você não fizer nada, o pior pode acontecer. Em uma caminhada, na vida familiar, profissional... Há sacos espalhados por aí... Na política ou economia de um país... Então faça alguma coisa!”.

sábado, 24 de setembro de 2016

SONHEI QUE GANHEI NA MEGA-SENA

Sonhei que ganhei na Mega-Sena. Foi um sonho, é lógico. Mas parecia ser tão real esse sonho, tão real, que nem parecia sonho. Para mim era verdade. A gente vive jogando na Mega-Sena e tentando ganhar. Mas quando vê que a coisa realmente aconteceu, ou, pelo menos, sente como se fosse uma verdade verdadeira, aí então começamos a pensar diferente... Ah, você não concorda? Acha que vai pensar sempre do mesmo jeito e que ganhar na Mega-Sena é sempre bom? Pois veja bem o que aconteceu comigo neste sonho.
Lá estava eu com a realidade diante de meus olhos. Havia ganhado a Mega-Sena. Não sabia o valor. Mas sabia que era muito, muito mesmo. Então começaram os questionamentos.
“O que eu vou fazer com tanto dinheiro? É muita responsabilidade... Para mim, quanto mais dinheiro se tem, mais aumenta a responsabilidade. É todo aquele lado humano, espiritual, que diz pra gente que devemos fazer bom uso da riqueza, ajudar os outros e tudo mais... Mas quanto devo empregar de toda a minha fortuna neste sentido? Quantos por cento? Dez por cento? O dízimo, pregado por algumas religiões, seria a quantia certa neste caso? Mas ainda sobraria muito, muito dinheiro... E com tanta gente passando necessidade... Que percentual usar nesse tipo de coisa? Como usar? Como escolher as melhores maneiras de ajudar? É muito dinheiro envolvido...”.
E o sonho prosseguiu, cada vez mais intenso, cada vez mais real. Eu era o personagem único e, bailando ao meu redor, os pensamentos atiravam flechas que perturbavam o que, para muitos, seria motivo de extrema felicidade:
“Como aplicar o dinheiro? Comprar imóveis? Guardar tudo no banco? Quais investimentos? Acho que é bom abrir uma empresa, para não ficar só usufruindo da fortuna... Atitude nobre, girar a economia, proporcionar progresso para a sociedade... Mas empresa de quê? Qual ramo? Não importa qual seja, sempre absorverá muito o meu tempo, não terei sossego. Mas é só arranjar uma pessoa de confiança para tocar o negócio. Mas não se acha uma pessoa realmente de confiança assim tão fácil. Mas não precisa ser uma perfeição em termos de integridade... Mas o dinheiro corrompe... Mas... Mas... Mas...”.
Sonho mergulhado em “mas”, já estava virando um pesadelo. E piorou quando pensamentos nefastos, negativos, tomaram conta de mim:
“Todo mundo que se aproximar de mim será por interesse, pensando somente no meu dinheiro... É melhor sumir na vida, desaparecer... Qualquer pé-rapado que tem um pouquinho mais já vira alvo de roubos, sequestros... Imagine agora eu, com toda essa grana! Viver cercado por seguranças, vidros blindados, sem liberdade! Oh meu Deus! O dinheiro compra tudo, todos os confortos e prazeres materiais do mundo em que vivemos... Mas tira a alma da vida, a simplicidade das coisas simples que valem pelo que são, e não pelo que custam... Oh meu Deus! E agora? E agora?”.
Acordei... E dei graças a Deus por ter sido um sonho, por não ter ganhado na Mega-Sena.