sexta-feira, 1 de julho de 2016

O NOME DAS COISAS

Comecei a pensar sobre o nome das coisas. Mas tá tudo errado! Veja só se eu não tenho razão...
Se a operação Lava-Jato fosse a jato mesmo, não demoraria tanto para terminar. Essa investigação não acaba mais!
Você não concorda que deveria ser arvorizado ao invés de arborizado? Ou você fala árbore no lugar de árvore?
Se o Reino Unido fosse unido mesmo, então eles não iriam querer sair da União Europeia, ficariam unidos com os outros países da Europa. Mas eles são tão desunidos que agora a Escócia quer se separar. E a Irlanda também. Reino Desunido! E olha que esta moda pode pegar. França, Holanda, Suécia, Itália, todos eles agora estão namorando a ideia de se divorciarem da União Europeia. Desunião Europeia.
Mas o reino em que os nomes são todos ao contrário é o reino animal, na verdade em um animal em particular: o boi. Nesta única espécie encontramos cortes de sua carne que foram batizados com nomes que só servem para nos confundir. Se lhe oferecerem um patinho para comer, saiba que não tem nada a ver com pato. É uma região que fica entre o coxão mole e o coxão duro do boi. É um tal de colocar um animal dentro de outro... Dentro do mesmo boi encontramos o lagarto, também conhecido como tatu, que é de onde sai o rabo do primeiro, entendeu? Do outro lado do corpo, atrás do pescoço, tem o cupim. Acima do “músculo do dianteiro” fica um peixinho que, incrivelmente, vive fora d’água... Mas não tem só animais no interior do bovino, pois eis que encontramos a fraldinha, mas não sei se é descartável ou não. Sobre o peixinho o boi guarda a sua raquete, da qual faz uso nos fins de semana, quando vai ao clube de tênis para treinar e manter a forma. E, para completar, até colocaram coisa de fêmea no macho boi: maminha. É uma confusão mesmo.
E pelo jeito o homem tem uma queda para batizar coisas com nomes de animais. Para trocar o pneu você levanta o carro com o macaco. Mas em algumas oficinas é possível encontrar uma ferramenta muito maior, também usada para levantar grandes pesos, cujo nome é jacaré. Por falar em carro, os mesmos saem das fábricas em direção às concessionárias transportados por longos caminhões denominados cegonhões. Na outra ponta do parafuso colocamos uma porca. Para apertar usamos o alicate. Mas, quando apertamos uma borboleta, usamos a mão mesmo. Quando acertamos algo bem no alvo, dizemos que acertamos na mosca. Se uma pessoa está enrolando, fazendo hora, falamos que ela está cozinhando o galo. Se acontecer um resultado inesperado, improvável, aí então deu zebra...
Na verdade, em todos estes nomes aqui colocados, acho que podem ser encontradas as razões que os justificam. É, pensando bem, provavelmente os nomes das coisas estão certos...
Mas agora estou pensando... Por que colocamos nomes de animais em tantas coisas?

sábado, 4 de junho de 2016

TÁ TRANQUILO, TÁ FAVORÁVEL

De repente, no mundo interconectado e instantâneo no qual vivemos, alguma coisa se espalha com velocidade astronômica. Cai na boca de todo mundo. Tem até um termo novo, mais especificamente um verbo, que é usado para identificar tais situações: viralizar. Quando determinado conteúdo propaga-se de maneira exponencial pela internet, diz-se que viralizou. Pois bem, uma das últimas ondas que nos invadiu, como um surto repentino, foi a expressão: “Tá tranquilo, tá favorável”. Vindas de uma música de um tal MC Bin Laden, estas quatro palavras tomaram conta dos comentários nas redes sociais. E se incorporaram ao vocabulário. Viraram uma espécie de chavão filosófico. Chegou até a aparecer em propaganda de automóveis na TV. E cheguei até a fazer brincadeira. Estávamos eu e minha família no carro, na portaria de um parque aquático, prestes a entrarmos para uma estadia de quase três dias, quando o atencioso funcionário nos orientou: “É só seguir em frente, por esse caminho, tranquilo...”. Então eu rebati, espontâneo: “Tá tranquilo, tá favorável”. Todos nós rimos.

Um dia desses, em uma pausa no serviço na qual fui à busca de um cafezinho na copa, eis que ouvi: “Tranquilo?”. Era o cumprimento de um amigo que trabalha na outra ala do andar, ao que eu respondi: “Tá tranquilo, tá favorável!”. Afastei-me do recinto. Então tive uma ideia. Voltei e com ele compartilhei o pensamento filosófico que me surgiu, dizendo: “O segredo da vida é estar sempre tranquilo, mesmo quando a situação não seja favorável”. Neste momento ocorreu a ruptura, quando ficou claro que, apesar de estarem colados no chavão que viralizou, nem sempre o “tranquilo” e o “favorável” andam juntos.

Então comecei a pensar sobre esta questão... Quem consegue ficar tranquilo quando a situação não está favorável? É difícil. É um grande desafio. Mas tenho a impressão de que o sujeito que consegue esta proeza vive bem melhor. Isto porque, muitas vezes, a situação fica desfavorável, ou menos favorável, justamente devido à nossa intranquilidade. Afinal, não é verdade que quando estamos nervosos, inquietos ou apressados, aquela pequenina porca sempre nos escapa da mão e desaparece diante dos nossos olhos? É verdade sim, neste nosso estado de alma, a diminuta peça parece que ganha vida e brinca de se esconder. Some no chão ou, pior, mete-se em cada lugar, os piores lugares, dentro do aparelho com o qual estamos lidando... E ficamos mais nervosos, com o parafuso na mão, e esta nossa falta de tranquilidade agrava ainda mais a situação. É o intranquilo que induz ao desfavorável, e vice-versa, em uma realimentação negativa que nos puxa para baixo.

Mas quem consegue romper com este ciclo, este sim demonstra sabedoria. Entendeu que pode ficar tranquilo, mesmo quando a situação está desfavorável...

Bom, eu poderia estender-me muito mais sobre essas coisas... Mas, como não pretendo fazer uma crônica de autoajuda, vou parando por aqui. Pelo menos acho que este texto serviu para mostrar que se pode tirar algo de útil de conteúdos aparentemente bobos que viralizam por aí...

domingo, 24 de abril de 2016

PEQUENO ENSAIO SOBRE O ANONIMATO

O anonimato é algo que costuma envolver muitas contrariedades. Pois veja bem, ontem mesmo tomei conhecimento de uma notícia que ilustra bem o que quero dizer. Jovens infratores realizaram mais um sequestro relâmpago. Apoderaram-se do carro, com o qual entraram no shopping e, usando o cartão da vítima, efetuaram vultosas compras. Até aí, tudo normal. Normal entre aspas, pois não podemos admitir que uma violência desta monta seja coisa normal. Mas poderiam, ou melhor, deveriam, se fossem mais espertos, manterem-se no anonimato. Porém, o desejo de ostentação falou mais alto. Horas depois, ao comemorarem na noite o sucesso da empreitada, acabaram colocando fotos na rede social, posando com largos sorrisos ao lado dos novos pertences. Resultado: todos presos. Regra número 1 do anonimato: "O horror ao anonimato pode até  levar um criminoso a se denunciar".
Outro ponto bastante interessante do anonimato é sobre como as pessoas do mundo artístico se empenham em evitá-lo, geralmente no começo de carreira. Querem mostrar o seu trabalho, querem aparecer, pois é assim que garantirão um futuro promissor... Mas depois, quando a fama chega ao ponto de tornar suas vidas patrimônios exclusivos dos fãs, com a mídia se julgando no direito de vasculhá-las como bem entender, aí então perseguirão o anonimato com muito mais afinco do que antes fugiram dele. O maior desejo será passar despercebido. Daí se explica o fato de estas pessoas por vezes apelarem até para disfarces. Colocam uma peruca e uns óculos escuros só para parecerem ser apenas mais um indivíduo qualquer, para não aparecerem... Agora estamos prontos para enunciar a regra número 2 do anonimato: "O desejo por anonimato é inversamente proporcional à sua existência. Quanto menos se tem, mais se quer, e quanto mais se tem, menos se quer".
Até os animais, em certas ocasiões, não querem nem saber do anonimato. Para ilustrar esta realidade, contarei o que aconteceu comigo há umas duas semanas. Estava eu em minha caminhada, em uma tranquila tarde de domingo, quando, ao aproximar-me de determinada árvore ao pé do viaduto, decidi não desviar meu trajeto. Já fazia um bom tempo que evitava passar debaixo daquela árvore, com medo dos ataques de certo pássaro em defesa do seu território. Mas desta vez resolvi não dar a volta, afinal o coitado do pássaro nem devia estar mais por lá, depois que brutalmente cortaram várias árvores naquela via pública. Além disto, alargaram a rua, refizeram a calçada e, para completar, cercaram um pequeno canteiro de obras bem debaixo da tal árvore. Pensei que, com certeza, o pássaro agressor tivesse abandonado o lugar que foi tão agredido... Então, quando já me afastava do temido local, eis que ouço o "grito" do pássaro imediatamente acompanhado por uma bicada no alto da cabeça. Novo ataque! Depois do xingo que saiu de minha boca como um ato reflexo, ao virar-me ainda meio desnorteado, vejo o valente ser plumado sobre os paralelepípedos. Altivo, deu até uma balançadinha no rabo comprido, querendo dizer assim: "Cai fora! Este é o meu território!". Esta é uma situação que leva à terceira regra do anonimato: "Quem defende o seu território não quer saber de anonimato".
Há situações nas quais o anonimato é condição essencial para a existência de certas organizações. Alcoólatras Anônimos, Neuróticos Anônimos, Disque Denúncia, CVV - Centro de Valorização da Vida, confessionário... Em maior ou menor grau, são exemplos nos quais os usuários destes serviços tendem a não querer aparecer. Mas esta tendência parece concentrar-se apenas nas citadas organizações ou em outras poucas mais que existirem. Fora disso, tudo indica que o mundo caminha para a extinção do anonimato. São câmeras em toda parte, sem contar aquelas que levamos embutidas em nossos celulares. Está cada vez mais difícil fazer algo que ninguém perceba, principalmente algo ruim, o que é uma coisa boa, visto que muitos crimes, hoje em dia, são descobertos e investigados graças a esta exposição involuntária. A internet, as redes sociais, a velocidade dos meios de comunicação, são fatores que induzem ao "aparecer", desnudando o ser humano, uns perante os outros... Aí então fico pensando que esta exposição excessiva poderia gerar um efeito colateral no outro extremo, ou seja, como reação, certas pessoas fariam questão de não aparecerem. Sempre, em qualquer situação. Obsessivamente. Doentiamente... Pronto! Este é o material humano para criar uma nova associação: os "Anônimos Anônimos". Para tratar, anonimamente, os viciados em anonimato. Ficarão contentes neste duplo anonimato...
Mas não vá pensando o leitor que o indivíduo que conseguir escapar a esta ditadura do "antianonimato" cairá fatalmente nas garras do vício pelo anonimato... Isto porque há várias situações em que se busca o anonimato, e a mais nobre delas é aquela relacionada com a evolução espiritual. É muito bonito vermos uma pessoa realizar uma boa ação e procurar, ao mesmo tempo, não ser notada por ninguém... "... não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita...", está escrito. E já que estamos no campo espiritual de nossa discussão, vem-me à mente as seguintes perguntas: "Deus pratica o anonimato? Ele assina suas obras?". Bom, no sentido literal da questão, é lógico que Ele não assina a sua criação, pois, se não fosse assim, teria sempre uma plaquinha ao lado de uma árvore, de uma montanha, de uma flor, e assim por diante... Escrito: "By God" ou "Made by God". Grafado em inglês, com certeza, por ser o idioma universal... Haveria mais placas do que qualquer outra coisa no mundo...
Agora, falando sério, existem aqueles que dizem que o Criador assina sim todas as suas obras. Basta ter olhos para ver. Ou sentir... Eu, particularmente, quando estou nos meus melhores dias, vejo que "O Cara Lá De Cima" assina todas as suas criações, percebendo então que Ele não está nada interessado em manter-se anônimo. Vejo Deus em tudo e em todos. Verdadeiro estado de graça...
Mas, quando estou em um daqueles dias terríveis, não quero saber de nada e nem ninguém. Quero mesmo é ficar em meu anonimato...

sexta-feira, 18 de março de 2016

INJEÇÃO DE ÂNIMO PARA ENFRENTAR A CRISE

As crônicas carregam consigo toda uma carga de contemporaneidade, isto quer dizer que em seus DNAs há o gene “data”, que faz com que o leitor identifique, de uma maneira mais ou menos precisa, a época em que o texto foi produzido. Nesta crônica que agora começo, já vou logo lhe poupando de eventuais deduções, revelando assim o mês e ano presente: Março de 2016. E completo com o local: Brasil (pode parecer desnecessária esta localização, mas vai que estas palavras sejam um dia traduzidas para várias línguas e corram o mundo... – sou otimista). Pronto, espaço e tempo definidos, só me resta enunciar o “fato” ou “assunto” que será tratado nas linhas seguintes... Bom, se você estiver lendo este meu texto no futuro, digamos em 2025, 2050 e assim por diante, talvez a palavra que aqui colocarei em letras maiúsculas soe totalmente sem sentido... Porém hoje, no Brasil, só se fala em CRISE.
Não quero, em nenhuma letra desta crônica, manifestar ideias ou ideais políticos. Não porque tenha alguma prevenção ou preconceito com relação à política. Para mim, a política é absolutamente necessária. No entanto, quero direcionar integralmente este texto no sentido de transformá-lo em uma espécie de injeção de ânimo. Falarei diretamente contigo, meu caro leitor ou leitora. Sei que esta estratégia poderá empobrecer a qualidade literária, mas não tem problema...
Problema mesmo é desanimar. Não desanime. Nunca, jamais!
Já passamos por outras crises... Reparou? O verbo está no passado: já passamos!
Não dê ouvidos para o pessimismo. Bombardeiam os nossos ouvidos com sentenças negativas: “Não vamos sair da crise este ano. Nem no ano que vem. Talvez só em 2019...”.
Repudie estes comentários paralisantes. É sensato ficar esperando até lá? Se não nos mexermos nos próximos dois ou três anos, isto só vai adiar a nossa saída deste estado no qual nos encontramos.
Não se intimide. Se você tem possibilidade de comprar alguma coisa, pois compre!
Se você não tem, então espere, e não desespere! Planeje e busque alcançar! Tenha esperança!
Se o emprego se foi, lute por uma recolocação com a cabeça erguida. Procure sempre se qualificar. É nas crises que nos superamos! Reinvente-se!
Se você está na condição de empregar, de contratar colaboradores, não importa qual o tamanho ou o ramo do seu negócio ou empresa, confie! Acredite que o país vai melhorar! Dê o primeiro passo. Procure alternativas. Na retomada da economia, os mais otimistas e criativos sempre saem na frente!
Vamos nos ajudar. Pertencemos a um povo com inegáveis qualidades. Precisamos resgatar a nossa autoestima!
Todo texto muda conforme o tempo em que é lido.
Você, leitor que vive o mês de Março de 2016, enxerga a palavra “crise” sempre com letras maiúsculas e assustadoras...
Mas se você, daqui a um tempo, ler ou ouvir falar esta mesma palavra, ela aparecerá com letras menores, de uma maneira mais amigável...
Pois será coisa do passado, afinal, tudo passa. Até as maiores crises.
Vamos atravessar isto tudo. Inteiros. E melhores que antes.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O QUE ESTAVA FALTANDO?

Era uma vez um planeta chamado Terra. Havia muitas espécies de animais e plantas neste astro que foi agraciado com uma vida realmente exuberante. Porém, uma espécie em particular desenvolveu-se muito além das demais, e passou a considerar-se superior às outras. Denominavam-se homens.
Após notáveis avanços nas mais variadas áreas, chegou o tempo em que os homens dominaram o conhecimento do código genético, que norteava a formação dos seus próprios corpos. Assim sendo, pouco tempo após a concepção já se podia saber tudo sobre o novo ser que estava por nascer. Este mapeamento do futuro dos filhos, aliado a um acompanhamento da gravidez que possibilitava detectar os mínimos problemas na formação da vida intrauterina, tais fatores começaram a modificar a procriação da espécie.
O aborto já era totalmente permitido em grande parte do planeta. Em muitos países podia-se interromper a vida que se desenvolvia ou, em outras palavras, matar o embrião ou o feto, por qualquer motivo, ou até sem motivo algum. Por outro lado, outra grande parte do planeta só permitia o aborto em condições específicas diversas, como, por exemplo, para salvar a vida da mulher ou preservar sua saúde física ou mental, para interromper a gravidez decorrente de estupro ou incesto, em caso de malformação fetal, ou por razões econômicas ou sociais. E, finalmente, em poucos países a prática era totalmente proibida.
Então, além de todos os motivos que já existiam para abortar, começaram a surgir outros... Os grandes problemas detectados na vida intrauterina foram os primeiros a causar alterações no comportamento com relação ao aborto. Os pais queriam evitar o sofrimento. Malformação grave, microcefalia, hidrocefalia, debilidade mental, grandes problemas neurológicos ou sensoriais, síndrome de Down e muitas outras síndromes... Onde o aborto era totalmente permitido, tais situações foram cada vez mais alvo da interrupção da gravidez. E, nos outros países, as leis começaram a ser alteradas para incluir a legalidade da prática nestas situações. Até que não mais nasceram seres nestas condições. E os homens julgaram-se mais felizes por isto.
Mas a espécie humana não parou por aí. O próximo passo foi erradicar aquelas vidas nas quais, ainda no útero, detectava-se alguma doença. Não bastava evitar o nascimento das grandes desgraças, os problemas menores também passaram a ser evitados. Era preciso garantir saúde perfeita. Ter um filho era como comprar um carro zero quilômetro. Falhas no controle de qualidade não eram toleradas. Então todos os filhos nasciam sem problema algum. E os homens julgaram-se mais felizes por isto.
Prosseguindo nesta escalada em busca da “perfeição”, o mapeamento genético intrauterino denunciava aqueles DNAs que poderiam causar problemas futuros. Os primeiros alvos desta nova fase foram aqueles embriões ou fetos que carregavam grande probabilidade de gerar indivíduos que desenvolveriam, na infância ou na juventude, algum tipo de câncer ou outra doença igualmente grave. Eram todos eliminados. Por outro lado, a engenharia genética permitia o nascimento de seres que levavam uma espécie de selo de qualidade, com a saúde garantida pelos próximos 10 ou 20 anos. E cada vez mais se exigia selos de qualidade que garantissem a saúde por um tempo cada vez maior: 30, 40, 50 anos... E os homens julgaram-se mais felizes por isto.
E esta busca frenética do que se julgava “perfeito” desembocou por caminhos estranhos... Não somente a saúde absoluta era procurada, mas também outras características. Cor da pele, dos olhos, tipo físico, feições faciais... Tudo era cuidadosamente escolhido. E evitado. Problemas genéticos foram extintos. Por outro lado, tentava-se elaborar o melhor código genético, aquele que garantisse, ou que, pelo menos, melhorasse a probabilidade de gerar “indivíduos” com grandes acréscimos de qualidades como inteligência do tipo QI, inteligência emocional, criatividade, etc... E os homens julgaram-se mais felizes por isto.

Porém, estranhamente, os homens não se tornaram mais felizes. Lá no fundo, tornaram-se até mais infelizes. Faltava algo... O que estava faltando?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

FELIZ (E RÁPIDO) ANO NOVO

Já havíamos gritado, em coro, a contagem regressiva de dez até "zero!", até "já!", até "viva!", até "aê!", até... Enfim, não me lembro de qual ou quais foram as exclamações que vieram depois do "um". Só sei que todo mundo estava feliz e que esta felicidade tinha que ser coroada com a abertura de um champanhe. Assumi a incumbência da tarefa, pois o ano novo não poderia começar sem aquele tão esperado estouro da rolha. Foi tão esperado mesmo: a rolha estava emperrada. Demorei, demorei muito... Mas acredito que este primeiro acontecimento foi a única coisa que demorou naquele ano.

Quando achei que poderia dar um tempo em todas as pendências da vida, empurrando-as para depois do carnaval, pois, como dizem, é só depois do carnaval que o ano efetivamente começa, eis que este esperado tempo reduziu-se a pó. A folia chegou mais rápido que nunca.

Então quis aproveitar a festa do rei Momo para renovar as energias. Mas não deu tempo. Não sou de pular carnaval, porém, se o fosse, acho que só daria tempo para dar um pulo por dia. Quatro ou cinco dias, quatro ou cinco pulinhos.

Passaram o carnaval e aqueles quarenta dias que o separam da sexta-feira santa ou da Páscoa, não sei ao certo, só sei que estas duas datas piscaram diante de meus olhos... Não deu tempo de planejar viagem ou passear, nem de resolver ou adiantar qualquer uma das pendências da fila.

Tiradentes, Corpus Christi, dia do trabalho (foi nesta mesma ordem?) passaram voando e, na cola, as festas juninas: São João, Santo Antônio, São Pedro (também não tenho certeza da ordem). A única certeza era que já estava no meio do ano! Nossa! E as pendências? O que foi que eu fiz desta metade do ano? Praticamente nada. Apenas continuidade da rotina corrida: "trabalho-casa-família"...

Independência, Nossa Senhora da Aparecida, Finados, República, pronto! O fim do ano chegou! Nem deu tempo de perceber, de viver e de diminuir a lista de pendências...

Todo mundo diz que o tempo está correndo rápido demais. Não é novidade nenhuma. Então gostaria de dividir contigo algumas informações que obtive ao pesquisar, na internet, sobre as mencionadas datas. Para mim foram novidades...

Primeira: a distância que separa a terça-feira de carnaval da Páscoa é de 47 dias. Enganei-me.

Segunda: há uma lógica de calendário que garante que o Corpus Christi só pode acontecer de 21 de maio até 24 de junho. Assim sendo, a ordem certa é: Tiradentes, dia do trabalho, e depois Corpus Christi. Outro engano meu.

Terceira: as datas das festas juninas são nos dias 13, 24 e 29, referentes aos dias dos santos Antônio, João e Pedro, nesta ordem. E, para variar, mais um furo de minha parte. Inverti o João com o Antônio. Pecado!

Mas pecado mesmo é o tempo estar correndo assim tão rápido... Será que algum destes santos pode dar um jeito de desacelerar um pouco o tempo?

sábado, 26 de dezembro de 2015

É TEMPO DE PENSAR SOBRE O TEMPO

Convido-lhe a fazer uma experiência. A partir de agora, estabelecerei uma conexão direta com o tempo presente. Começará no próximo parágrafo, topas? Vem comigo? Se não quiser, esqueça este texto e continue pulando de galho em galho na árvore "passado-futuro", crucificado entre dois tempos que vivem a nos angustiar. Mas se topar, então vamos lá, somente "aqui-agora". Já!
 
Conjugo todos os verbos no presente do indicativo. Olho somente para o que acontece no instante em que vivo. Não penso no passado, tampouco no futuro. Não associo, percebo as coisas tal como são, pois associações geralmente nos remetem para fora do momento em que estamos.
 
Meus olhos permanecem voltados para a janela. As coisas passam, mas na verdade sou eu que passo pelas coisas. Nada importante acontece. O trem está vazio. Serpente iluminada em meio à noite. Não! Sem associações! Concentro-me nos cinco sentidos. Plataforma da estação Cidade Jardim corre ao meu lado. Fica para trás (...) Desembarque pelo lado esquerdo do trem (...) Atenção! A estação Luz, da CPTM, está interditada (...) Não quero lembrar do incêndio no Museu da Língua Portuguesa. Está no passado. Agora, o passado não existe. Mas lembro. Uma morte. Bombeiro civil (...) Novamente presente. Os sapos coacham na estação Tamanduateí. Sinfonia. Ainda nada importante. O trem chega. Entro. Não quero lembrar de nada. Só observar. Cada um no seu mundo. Ninguém percebe o mundo ao redor. Desço. Saio da estação. Ponto de ônibus. No chão tem uma garrafinha de água mineral e uma lata de coca-cola. Tem também uma pessoa. Dorme ao lado destes dois objetos. As pessoas no ponto não dão importância. São três objetos largados no chão. Chega o ônibus, para, eu entro. Perto do meu ponto de descida, na praça, o motorista conduz o veículo com extrema lentidão, faz a curva muito aberta, em um traçado que não compreendo. Entendo só depois, quando ele fala: "... cachorro folgado... dormindo no meio da rua...". Continua nada importante. Nada importante, mas curioso... Desço do ônibus, ando, chego em casa.
 
Meu tempo presente é este. E o seu? Existe? Você pratica a vivência plena do momento? Exercita os cinco sentidos? Por exemplo, em outro "agora" estou no ônibus fretado... Volta do serviço... Sinto o vento que entra pela janela aberta. Cabeça recostada no encosto da poltrona. Venta só na orelha esquerda. Faz barulho. Outra coisa sem importância. Mas agora é importante. Importante porque é presente. Porque é real.
 
Tenho a impressão que o tempo não existe. Não é bem assim... Sinto-o, sei que ele passa... Mas acho que é uma ilusão. E desconfio que quanto mais nos libertarmos desta ilusão, aplicando concentração total no presente, vivendo-o plenamente, mais nos aproximaremos da verdadeira felicidade que está reservada aos reles mortais. Mortais? (...)
 
Mas você pode achar que isto tudo é uma grande baboseira e que só perdeu "tempo" ao ler este texto... Olha o tempo aqui de novo! Tudo bem... Afinal, cada um lida com o tempo do seu modo, não é mesmo?

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

LINHA DE PRODUÇÃO

Foi pensando a respeito do fechamento das escolas estaduais que comecei a buscar alguma razão para este nosso mundo insano... Procurei os motivos, tentando encontrar a mola mestra que impulsionaria todas as decisões descabidas, tudo aquilo que é torto e que, infelizmente, vai tomando conta de nossas miseráveis vidas... Uma sensação estranha me levava a crer que descobriria uma espécie de origem única para explicar (não para justificar) o porquê das coisas.
Caminhava, voltando do serviço, carregando estes pensamentos na mochila da mente, quando eis que um zíper dela se abre e despeja a resposta: LINHA DE PRODUÇÃO.
Isso! Aí está a explicação de tudo! Então as ideias vieram limpas e claras...
Voltei para o fechamento das escolas estaduais. Depois de instaurar a aprovação automática, nada mais lógico que amontoar os alunos em salas de aula superlotadas. Assim o processo fica otimizado. Ninguém repete, para não atrasar a esteira. Todo mundo junto, compactado, para garantir o ganho de escala. Linha de produção. Qualquer semelhança com aquela clássica cena do consagrado filme Pink Floyd - The Wall não é mera coincidência. Os alunos sobre a esteira no moedor de carne da escola.
A partir daí, meu pensamento começou a pipocar e a fechar todas as pontas...
Visualizei a linha de produção do consumismo, do capitalismo desenfreado. Comprar produtos, consumir bens ou serviços, tudo isso representa o último estágio da esteira que não para, nunca. Pelo contrário, vai acelerando, cada vez mais. É preciso comprar, comprar sempre. Bombardeados pelas propagandas, acreditamos ter a necessidade de adquirir os mais variados objetos de consumo. E ficamos infelizes se não conseguirmos este objetivo...
Linha de produção. Agora sei o porquê da pressa que nos oprime e nos torna opressores, vítimas e algozes. Alguém nos apressa e apressamos alguém. Contágio progressivo que nos torna eficientes engrenagens de um mundo cada vez mais acelerado. Engrenagens e esteiras devem correr o mais rápido possível, para que se lucre cada vez mais. E correr o impossível. Não podemos parar. Não podemos parar pra pensar. Linha de produção.
Mundo assim é um completo inferno para os perfeccionistas ou detalhistas como eu. Não há tempo para perfeição ou detalhe. Resta-me o consolo de poder fazer poucas coisas do jeito que quero. Escrever, dentro da literatura, é uma delas. Nesta crônica, posso demorar o tempo que eu quiser em busca da palavra perfeita. Fico imaginando se a realização do meu sonho realmente me traria felicidade. Escritor profissional. Até aí, tudo bem. Mas e o editor, no meu cangote, pressionando acima dos limites para ter altos volumes de produção, sobre os temas mais vendáveis? Neste contexto, onde fica a qualidade? Qualidade? Parece que ninguém mais está se importando com isso. Ultimamente fala-se muito em qualidade, mas pratica-se pouco. Afinal, na linha de produção do mundo não há tempo ou espaço para qualidade.
Tô fora! Pare o mundo que eu quero descer!

sábado, 17 de outubro de 2015

QUERO


Quero ver e enxergar.
Quero ouvir e escutar.
Quero sentir e me arrepiar.
Que tudo sempre tenha significado.
Quero viver instante após instante, para que a vida não passe sem que eu perceba.
E que esta obsessão pelo presente acabe com toda minha ansiedade.
Quero ter uma relação mágica com o tempo. Ampliá-lo ao sabor da imaginação.
Quero não me perder.
Quero estar sempre atento... ao que merece atenção.
Quero me distrair... quando for possível.
Quero acabar com a tagarelice mental. Menos pensamentos. Mais sensações e sentimentos. Pensar sem palavras.
Quero não me precipitar. Sentir-me sempre centrado. Dar-me ao luxo de pensar um segundo antes de falar ou fazer qualquer coisa. Mesmo que ao meu lado uma multidão me pressione, exigindo pressa e urgência para tudo... Aonde querem chegar?
(...)
Quero não querer mais nada.
Quero não querer mais n
Quero não querer m
Quero não que
Que
Q
(...)

sábado, 26 de setembro de 2015

O MELHOR DE TODOS OS JOGOS

Você gosta de jogar videogame, jogos de computador ou eSports? Pois bem, agora vou lhe apresentar o melhor de todos os jogos...
Uma das coisas mais legais é o avatar usado neste jogo. Ele é dotado dos mais avançados recursos. De tão perfeito que é, os jogadores chegam até a pensar que eles mesmos são seus próprios avatares. Os recursos multimídia são de última geração. Pode-se ver, ouvir, sentir o cheiro, o tato e até o gosto dos elementos do game.
Quando você entra no jogo, os outros jogadores que entraram antes de você escolhem o seu nickname. Este é um dos poucos pontos negativos. Depois você pode até mudar o seu nickname, mas dá muito trabalho.
Os cenários são extremamente ricos e variados, o que leva os jogadores a não enjoaram ou se cansarem. Mas, por outro lado, esta imensa variedade de opções pode fazer com que muitos até se esqueçam do verdadeiro objetivo do jogo... Na verdade, não há um objetivo fixo e definido para todos, pois cada competidor traça as suas próprias metas. Pode parecer confuso, e realmente é, mas lhe garanto que, mesmo assim, o game é sensacional...
Os jogadores mais experientes dizem que já encontraram o padrão do jogo, mas que, mesmo assim, não "fecharam" o game, pois afirmam que ele não tem fim... Comentam que as melhores jogadas são aquelas nas quais o competidor procura ajudar os outros jogadores, principalmente os adversários. Ganha-se muitos pontos com isto.
Outra dica que os mais avançados no game dão é ficar ligado no seu anjo da guarda. Muitos outros dizem que eles não existem, ou que, no máximo, pode-se invocá-los apenas no começo do jogo. Mas quem entende do game garante que os mentores, como também são chamados, acompanham todos os participantes, durante todo o tempo. Basta apenas identificar os sinais e, aos poucos, conforme for subindo de nível na competição, melhorar o avatar para que ele possa captar as mensagens vindas do seu anjo. Asseguram, ainda, que esta sintonia é essencial para obter os melhores resultados no jogo.
Uma diferença deste game com relação aos demais diz respeito ao tratamento que se deve dar ao avatar. Você deve estar acostumado a não dar muita importância para ele, não é mesmo? Arrisca-se sem medir muito as consequências, só para ganhar mais pontos, porque se for destruído pode, logo em seguida, contar com um novo, não é assim que funciona? Mas este game é completamente diferente. Deve-se cuidar muito bem do seu avatar, pois se ele morrer dentro do jogo, aí então... Bom, aqui a coisa fica meio indefinida. Há aqueles que afirmam que é game over na certa. Mas muitos outros dizem que o jogo continua de uma outra forma... Há até quem diga que o jogador pode voltar aos mesmos cenários, com um novo avatar, para uma nova partida...
É isso aí meu caro gamer, este é o melhor jogo de todos. É o JOGO DA VIDA! Disponível para download gratuito em todo o Universo!

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

COM QUANTAS PALAVRAS SE FAZ UMA CRÔNICA?


Com quantas palavras se faz uma crônica? Com quantos paus se faz uma canoa? Com quantos anos se aprende a viver?
Com quantos revolucionários se faz uma revolução? Quantas andorinhas são suficientes para que se faça verão? Quantos beijos esgotam uma paixão?
Quantos medos cabem em uma vida? Quantas incertezas nos atormentarão? Quanta ansiedade cabe em um coração?
Quantas repetições do mesmo erro antes de se acertar? Quantas vezes nem perceberemos nossos próprios erros? Quantas oportunidades de mudar desperdiçaremos?
Com quantas rimas se faz uma poesia? Quantos orgasmos antes da meno(ou andro)pausa? Quantos teremos depois?
Quantos dias antes da morte? Quantas vidas viveremos? Quantos Sóis há no Universo?
Quantas invasões na história do mundo? Quantos tiranos tomarão o poder? Quanto sangue ainda vai correr?
Quantas vezes os mesmos pensamentos cíclicos e embolorados rondarão nossa mente? Quantos dias viveremos sujeitos a uma mesma rotina? Quantos anos faltam para a aposentadoria?
Quantos filhos queremos ter? Quantos filhos tivemos? Quantos filhos perdemos?
Quanto dinheiro guardaremos? Quanto foi gasto? Quanto foi roubado?
Quantos sonhos tivemos? Quantos sonhos restaram? Quantos sonhos ainda sonharemos ter?
Quantas mentiras nos farão engolir goela abaixo, travestidas de verdades inquestionáveis? Quantos de nós seremos manipulados em favor de interesses indignos? Quantos escaparão da extensa e desumana massificação?
Quantos menos favorecidos ainda serão vítimas de ações truculentas da polícia? Quantos mais destes crimes passarão impunes? Quantas balas ainda serão perdidas em crânios e peitos inocentes?
Quantos políticos continuarão legislando em causa própria? Quantos deles dilapidarão o patrimônio público? Quantos ainda conseguirão nos enganar?
Quanto contaremos até perdermos a conta? Quanto mais suportaremos até perdermos a paciência? Quanto esperaremos pela mudança sem nada fazermos para mudar?
Quantos carros cabem na cidade de São Paulo? De quantos quilômetros será, daqui a cinco anos, o congestionamento recorde? Quanto resistirá nosso pulmão diante de tanta poluição?
Quanto tempo ficaremos imersos no mundo virtual enquanto o mundo real clama a nossa presença? Quantos vícios sugarão nossa energia e nossa alma? Quantos de nós estaremos acordados?
Quantos mais "quantos" serão necessários para dizer tudo que deve ser dito? Quantas interrogações continuarão sem resposta? Com quantas palavras se faz uma crônica?

sábado, 18 de julho de 2015

MUNDO ESTRANHO


O mundo está ficando cada vez mais estranho, ou sou eu que estou ficando cada vez mais chato... Ou então mais distante da realidade, pois é assim que a gente começa a questionar a própria realidade, e passa a encontrar estranheza onde todos os outros acham normal.

Pois, veja bem, você não acha estranho que as pessoas quase não se falam mais? Quando meu celular toca no ônibus fretado, no caminho de volta para casa depois de um dia de serviço, e me vejo falando com minha esposa em meio aos colegas de transporte coletivo, todos eles quietos e absorvidos em seus celulares, trocando mensagens, jogando, navegando na internet, nas redes sociais, vendo e-mails ou vídeos, ouvindo músicas, enfim, fazendo tudo aquilo que é possível fazer com os celulares de hoje em dia além da sua função básica e teoricamente principal que é falar como telefone normal, pois bem, quando a minha fala rompe a barreira de silêncio do silencioso mundo virtual, aí então me sinto diferente... Diferente por usar o celular de maneira antiquada... Aliás, o meu celular é um exemplo concreto de antiguidade. Poderíamos dizer que é anterior à era dos smartfones, pois de “smart” não tem nada, é um autêntico “burrofone”. Sem internet, sem câmera, sem nada... Então, um dos sintomas da crescente estranheza do mundo atual é que as pessoas não se falam mais. Onde já se viu? Achar-se diferente, ou até sentir-se envergonhado por falar ao celular?

As pessoas vivem mais no mundo virtual do que no mundo real. Perdem tempo em construir perfis nas redes sociais, muitas vezes tão distantes de como realmente são...

Quando estão passeando ou se divertindo, preocupam-se mais em tirar fotos ou filmar – para logo registrar com algum comentário nas redes sociais – do que passear ou se divertir propriamente dito, ou seja, não vivem o momento presente, o mundo real, a vida e as pessoas de carne e osso que estão ao seu lado justamente naquele preciso instante...

Nos almoços, jantares, festas ou quaisquer outras reuniões sociais, ao invés de interagirem com aqueles que os cercam nos ambientes onde se encontram, mergulham em seus celulares, em uma alienação voluntária do mundo real. E aqueles que não mergulham nesta alienação, por sua vez também se sentem alienados, visto que se encontram abandonados, cercados por indivíduos isolados, cada qual com o seu celular na mão...

O motorista do fretado me pergunta: “Tem WhatsApp?”. Não, não tenho. Alguém do banco me liga, oferecendo um aplicativo que tornará minhas transações financeiras mais “seguras”. “Obrigado, meu celular não baixa aplicativos”. O vendedor de uma grande loja, depois de me dar algumas orientações técnicas sobre bombas d'água, percebendo que estou fazendo uma pesquisa de mercado, sugere: “Tire uma foto da etiqueta do produto”. Não dá, meu celular não tira fotos.

Dentro deste contexto, o estranho sou eu. No entanto, ainda acho que o mundo está muito estranho ultimamente. Só queria saber onde isto tudo vai dar... Você sabe?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

BASTA!!!


O Senhor do Mundo está sentado. Na parede à sua frente um relógio de ponteiros. Ele se distrai observando o tique-taque do ponteiro mais fino, saltando a cada segundo, para marcar o tempo, para provar que o tempo existe. Tique taque tique taque tique taque tique taque tique taque tique... Ideia! O Senhor do Mundo acaba de ter uma ideia. Ideia para torná-lo ainda mais rico e poderoso.

“Vou acelerar os relógios!”, esta frase sintetiza tudo. “Vou acelerar todos os relógios do mundo”, prossegue ele falando sozinho, maravilhado com a sua descoberta. Tão simples e ao mesmo tempo tão lucrativa. Por alguns instantes pensa nas dificuldades para implementar a sua ideia. Mas então se lembra que é o Senhor do Mundo. Para o Senhor do Mundo não há dificuldades. Nenhuma.

Imediatamente entra em contato com o Senhor da Tecnologia, seu subalterno, e ordena-lhe que invente um aparelho que controle todos os relógios do mundo. Não há nada impossível para o Senhor da Tecnologia. Quando este apresenta o aparelho pronto para o seu superior, recebe outra ordem: “Acelere os relógios! Vamos começar devagar... Faça com que o dia tenha 25 horas”.

Mas o Senhor do Mundo não dá ponto sem nó. Sem demora faz com que todos saibam que a hora excedente deve ser utilizada para o expediente do trabalho. Portanto, a ordem é retardar a saída do serviço. Outra determinação é não estabelecer novos prazos ou metas. Se alguém, antes da mudança no horário, cumpria uma determinada tarefa em, por exemplo, exatas duas horas, após a mudança no horário deverá manter o prazo de duas horas. Porém a nova hora do dia com 25 horas será menor que a antiga hora do dia com 24 horas, fato este que obrigará o sujeito a acelerar um pouco o seu ritmo a fim de não exceder o novo horário...

E a pressão aumenta: dia com 26 horas, depois com 27, 28, 29 e assim por diante... Até que o dia fica com 36 horas. O sujeito entra na empresa às 8 horas e o expediente só termina às 23 horas. Meia-noite só chega quando o relógio bate 36 horas... Resultado: para acompanhar o aumento da velocidade dos relógios, todo mundo vai correndo cada vez mais, produzindo cada vez mais e tornando o Senhor do Mundo cada vez mais rico e poderoso. A pressa toma conta de todo mundo, em tudo que estiverem fazendo, no trabalho ou fora dele. É preciso correr para acompanhar o relógio.

E a pressão continua aumentando. Não há limites para o Senhor do Mundo. Cada vez mais horas no dia, os relógios cada vez mais rápidos, as horas cada vez menores, e todo mundo correndo cada vez mais para dar conta de tudo...

Mas o limite do Senhor do Mundo foi o Senhor do Tempo.

O Senhor do Tempo viu que estava tudo errado.

Então o Senhor do Tempo deu um enorme grito: BASTA!!!

E o tempo parou.

E esta estória acabou.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

MORTE PADRÃO


Deveria existir uma morte padrão, igual para todo mundo. Sem sofrimento, apenas desaparecer. Então seria assim, o sujeito daria falta de alguém e perguntaria para outro: onde está fulano? E este alguém responderia para o sujeito: morreu.


Para que se tivesse certeza da morte, seriam necessárias algumas condições. Alguém teria que ver o indivíduo morrer, ou melhor, desaparecer. Ou então, caso não houvesse ninguém por perto no momento fatídico, poderiam ser observadas as pistas: peças de roupa caídas no chão, sobre cadeiras ou poltronas, enfim, sobre qualquer lugar onde a pessoa tivesse morrido. Deu para perceber que só a pessoa sumiria, sobrando apenas suas vestimentas. Cenas inacabadas também denunciariam a morte, como, por exemplo, uma mangueira aberta vazando água pelo chão, uma bicicleta caída na rua, um guarda-chuva rolando ao vento, um cachorro perdido com coleira e guia arrastando pela calçada...


Por pura questão de lógica, as doenças acabariam. Afinal, qual é a função principal da doença? Matar o corpo, de uma vez ou aos poucos. Mas a questão da morte já estaria resolvida, seria um simples desaparecimento, independente de qualquer doença. Câncer, ataque cardíaco, AVC, tudo isto perderia a razão de existir. O sujeito não precisaria de nada disto para morrer.


No entanto, para que houvesse uma certa ordem, seria necessário que ninguém morresse dirigindo ou pilotando algo que colocasse em risco outras pessoas, como um avião, uma locomotiva, ou até um carro ou uma moto. Quando se tivesse no comando destas ou de outras máquinas que trouxessem prejuízos quando abandonadas instantaneamente, nestas situações seria proibido morrer. Enfim, a morte chegaria apenas em situações inofensivas, para atingir somente aquele que deve morrer. Exemplo de situação inofensiva é eu morrer, ou melhor, desaparecer agora, deixando cair a caneta (é, eu não estou escrevendo no computador, e sim com caneta) sobre o caderno com o texto inacabado... Ou você, que está lendo estas palavras, não chegar ao final da frase...


Para garantir o funcionamento deste esquema de mortes por simples desaparecimento, também seriam proibidas as mortes por acidente, de qualquer tipo. Igualmente não permitidos os meios de abreviar a vida, por assassinatos, suicídios, ou quaisquer outras maneiras possíveis. Os acidentes poderiam até acontecer, os tiros poderiam ser dados, mas os corpos permaneceriam intactos. Não me pergunte como, mas seria assim que aconteceria. A morte viria sem traumas, sem acidentes, sem ninguém provocar, apenas com a desintegração instantânea e indolor do corpo, quando chegasse a hora...


Imagine só um jogo de futebol. O narrador falaria mais ou menos assim: “Fulano arranca pela lateral direita, dá o breque, dribla o zagueiro, cruza para a cabeça da área em busca do centroavante que está sozinho, que... Morreu!!!”. Restaria apenas o uniforme e as chuteiras largadas sobre o gramado.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

NÃO COMPREENDO


Se você não tem paciência de ler, então nem comece. Hoje em dia já não se para pra mais nada. Ler perde tempo. Cansa. Eu compreendo.

Se você chegou neste parágrafo, mesmo assim não vou me alegrar. Sei que a leitura pode ser interrompida a qualquer momento. Uma mensagem no celular, um e-mail, alguma novidade na rede social... São coisas mais importantes. Eu compreendo.

Se você ainda está lendo, pode ser porque está curioso em saber no que vai dar este texto. Mas eu já lhe adianto: não vai dar em nada. Pode parar de ler. Eu compreendo.

Se você insiste em continuar na leitura, isto pode ser sintoma de uma simples teimosia. Ou então você é um daqueles sujeitos que têm, por princípio, não interromper nada que tenha começado... Eu compreendo.

Se você não está gostando deste texto, se está entediado com tantos “se você” e “eu compreendo”, tudo bem, eu compreendo.

Se você já percebeu que eu me ferrei com esta crônica ridícula, amarrada por uma regra idiota, sem saber como continuar este textinho safado, e se com isto está com ódio ou pena deste pobre pretenso escritor que vos escreve... Tudo bem. Eu compreendo.

Se você agora só está pensando em acabar de ler, com o único objetivo de ter mais elementos para me criticar, tudo bem, eu compreendo.

Se você pulou algumas linhas deste texto, com o intuito de diminuir o sofrimento, tudo bem, eu compreendo.

Agora se você, leitor, chegou até este ponto sem pular nada e, ainda por cima, gostou deste meu texto e até sentiu-se preso por ele, então eu, sinceramente, não compreendo...

quinta-feira, 12 de março de 2015

QUAL É A COR DO VESTIDO?


Qual é a cor do vestido? Esta é a pergunta que meu colega de serviço me faz, mostrando no celular a foto de um vestido listrado. Dourado e branco, é o que respondo. Eu vejo azul e preto, diz ele. Outra colega também vê estas mesmas cores. Uma terceira colega empata novamente o jogo ao dizer dourado e branco. E o placar segue disputado, sem definição. Surgem comentários e explicações:

“Acho que os mais velhos veem dourado e branco”,

“Eu vi a explicação de um especialista. Tem a ver com a cor do fundo e a luminosidade. Quando a gente vê, acaba fazendo uma compensação”,

“Tá bombando na internet”,

“Um cara postou essa foto do vestido da madrinha de casamento dele. Aí correu o mundo. Cada um vê de uma cor”.

Chego em casa e, antes de sair da sala para ir jantar, o telejornal também fala do tal vestido que muda de cor. Na cozinha, comento com minha esposa sobre o intrigante vestido capaz de parar a internet. “Não acredito que vocês também estão falando sobre esse vestido”, diz minha filha ao chegar perto da mesa. A refeição é interrompida. Vamos todos ao computador onde o meu filho está. É preciso saber e conferir que cores cada um de nós vê. Caminho até lá com a certeza de ver novamente dourado e branco, mas vejo azul e preto, as mesmas cores que minha esposa, filha e filho veem. “No serviço eu vi dourado e branco, mas agora estou vendo azul e preto!”, falo eu, surpreso com a mudança. “Tem gente que vê as duas cores”, explica minha filha. E meu filho não se conforma: “Como que você viu dourado e branco?! Impossível! É azul e preto!”.

Cansado de vestidos e cores, após o jantar sento no sofá e distraio-me em frente a televisão...

Minha filha entra na sala e acende a luz. “Nossa, pai! Não sei como você consegue ver TV com tudo escuro!”. Não acredito! Ela está preto e branco! Como nos televisores antigos! Minha filha e sua roupa também em diversos tons de cinza! Esfrego os olhos. Ela ainda está monocromática. Faço de conta que tudo está normal. Deve ser algum piripaque momentâneo, logo logo vai passar.

Mas levo um novo susto quando meu filho também entra na sala. Está esbravejando, revoltado com a derrota no jogo de computador. De sua boca vejo irradiar-se uma luz vermelha. Cada vez mais vermelha a cada palavra raivosa.

Tudo fica mais doido ainda quando chega minha esposa, com um perfume na mão. “Comprei da cabeleireira. Dá uma cheirada.”. Inalo a fragrância e minha vista se ofusca com tanta luz amarela que sai do vidro de perfume.

Acordo, sozinho na sala.

Após alguns instantes desnorteado, penso: “Então foi tudo sonho. Depois que sentei em frente a TV, acabei dormindo...”.

E falo para mim mesmo: “Chega de vestido colorido! Não quero nem saber que cor que ele é ou deixa de ser...”.

domingo, 1 de março de 2015

VIDA LONGA E PRÓSPERA


Hoje a sua vida acabou Sr. Spock. A lógica perdeu o seu maior expoente. Justamente agora, quando vivemos em um mundo tão necessitado de lógica.

A bordo da Enterprise ou teletransportado em um planeta qualquer, seus comentários e atitudes transmitiam sempre a segurança de quem atingiu a sabedoria através do caminho da razão.

Lutando sempre com sua parte humana, mostrava somente as qualidades de um vulcano. Controle das emoções, calma, precisão sob qualquer circunstância. Em seu corpo, mente e espírito, tudo parecia fluir de maneira perfeita, para que, logicamente, se gastasse o mínimo de energia para proporcionar o melhor resultado.

Nós, que não temos sangue vulcano, vivíamos e vivemos querendo absorver alguma essência dessa genética extraterrestre, para que nos permita ao menos controlar um pouco mais o cavalo xucro dos sentimentos e emoções que nos levam de um lado para outro, desequilibrando-nos. Ah, Sr. Spock, como invejamos a sua estabilidade, sempre senhor de si. Contrastando maravilhosamente com o Dr. McCoy, formavam um binômio de forças que tinha, ao centro, a figura marcante do Capitão Kirk.

Lógica perfeita, sem indecisões. Quando o capitão lhe questionava sobre algum ponto que demandava cálculos complexos, seu cérebro superior reunia rapidamente todas as variáveis e o resultado surgia, praticamente de maneira imediata, com uma precisão que, para aqueles que se debatem e sofrem pelos meandros da Matemática, chegava até a causar raiva.

Se todos nós, humanos, tivéssemos a sua lealdade e integridade, certamente boa parte dos problemas que enfrentamos, principalmente no campo da política, seriam todos resolvidos. Mas ainda temos que nos conformar com a nossa condição, entendendo que você está em um estágio superior, o “além do homem”... No entanto, a mensagem que disto fica é de esperança. Um dia todos nós, dentro da escalada evolutiva, mereceremos, e viveremos, em um mundo melhor...

Lembramos também da “sonda mental”. Ah, a sonda mental... Quem não desejaria ter esta capacidade? Qual homem, perturbado com os mistérios e contrariedades da mulher, da sua mulher, não gostaria de nela aplicar uma sonda mental? Desvendando assim as correntes de pensamentos e sentimentos que a conduz por caminhos aparentemente desprovidos de lógica...

Ninguém mais levantará a sobrancelha daquele jeito... Continuarei tentando imitar, mas sentindo que a referência foi-se embora. Mão espalmada com os dedos colados dois a dois. Vida longa e próspera, Sr. Spock, onde quer que você esteja.

27/02/2015