Deveria
existir uma morte padrão, igual para todo mundo. Sem sofrimento,
apenas desaparecer. Então seria assim, o sujeito daria falta de
alguém e perguntaria para outro: onde está fulano? E este alguém
responderia para o sujeito: morreu.
Para
que se tivesse certeza da morte, seriam necessárias algumas
condições. Alguém teria que ver o indivíduo morrer, ou melhor,
desaparecer. Ou então, caso não houvesse ninguém por perto no
momento fatídico, poderiam ser observadas as pistas: peças de roupa
caídas no chão, sobre cadeiras ou poltronas, enfim, sobre qualquer
lugar onde a pessoa tivesse morrido. Deu para perceber que só a
pessoa sumiria, sobrando apenas suas vestimentas. Cenas inacabadas
também denunciariam a morte, como, por exemplo, uma mangueira aberta
vazando água pelo chão, uma bicicleta caída na rua, um
guarda-chuva rolando ao vento, um cachorro perdido com coleira e guia
arrastando pela calçada...
Por
pura questão de lógica, as doenças acabariam. Afinal, qual é a
função principal da doença? Matar o corpo, de uma vez ou aos
poucos. Mas a questão da morte já estaria resolvida, seria um
simples desaparecimento, independente de qualquer doença. Câncer,
ataque cardíaco, AVC, tudo isto perderia a razão de existir. O
sujeito não precisaria de nada disto para morrer.
No
entanto, para que houvesse uma certa ordem, seria necessário que
ninguém morresse dirigindo ou pilotando algo que colocasse em risco
outras pessoas, como um avião, uma locomotiva, ou até um carro ou
uma moto. Quando se tivesse no comando destas ou de outras máquinas
que trouxessem prejuízos quando abandonadas instantaneamente, nestas
situações seria proibido morrer. Enfim, a morte chegaria apenas em
situações inofensivas, para atingir somente aquele que deve morrer.
Exemplo de situação inofensiva é eu morrer, ou melhor, desaparecer
agora, deixando cair a caneta (é, eu não estou escrevendo no
computador, e sim com caneta) sobre o caderno com o texto
inacabado... Ou você, que está lendo estas palavras, não chegar ao
final da frase...
Para
garantir o funcionamento deste esquema de mortes por simples
desaparecimento, também seriam proibidas as mortes por acidente, de
qualquer tipo. Igualmente não permitidos os meios de abreviar a
vida, por assassinatos, suicídios, ou quaisquer outras maneiras
possíveis. Os acidentes poderiam até acontecer, os tiros poderiam
ser dados, mas os corpos permaneceriam intactos. Não me pergunte
como, mas seria assim que aconteceria. A morte viria sem traumas, sem
acidentes, sem ninguém provocar, apenas com a desintegração
instantânea e indolor do corpo, quando chegasse a hora...
Imagine
só um jogo de futebol. O narrador falaria mais ou menos assim:
“Fulano arranca pela lateral direita, dá o breque, dribla o
zagueiro, cruza para a cabeça da área em busca do centroavante que
está sozinho, que... Morreu!!!”. Restaria apenas o uniforme e as
chuteiras largadas sobre o gramado.