domingo, 11 de agosto de 2013

Eu, Bob


Tudo começou em uma sexta-feira. Não comi nada da ração. Também não bebi nada. Jejum completo.
Somos em seis e moramos em uma casa espaçosa. O pai, a mãe, o filho, a filha (todos estes humanos), uma porquinha-da índia e eu, um cachorro. Eu disse que a casa é espaçosa, mas só conheço parte dela, pois não subo escadas. Porém, mesmo sem escalar aqueles medonhos e imprevisíveis degraus, mesmo sem saber o que tem lá pra cima, dá pra deduzir que a residência é bem grande. O lugar que ocupo, o canil, também é amplo. Enquanto muitos cães, em outras casas, ficam apertados em um canto qualquer, o meu espaço é bastante privilegiado. Casa de blocos com telhas onduladas, quintal cimentado entre os canteiros, cerca de madeira com grade de arame, portãozinho...
Então, como estava dizendo, naquela sexta-feira eu não comi e nem bebi nada. Estava tudo travado. Também as minhas necessidades ficaram prejudicadas. Quanto à parte sólida, nada fiz. E a parte líquida, logo de início comecei a urinar bem menos. Fazia força, fazia pouco, e sempre com vontade. Espalhei pingos de xixi por todo o quintal. Estava doendo também. Tinha alguma coisa errada com as minhas “partes baixas”. Só perceberam o meu jejum absoluto quando já era tarde da noite, pois acho que aquele foi um dia corrido para a família... Toda noite o pai costuma recolher meu cocô e jogar água no xixi, mas naquela sexta-feira ele não limpou. Quando entrou no quintal, foi ver as tigelas e, ao notar que estavam cheias, exclamou: “Nossa Bob, você não comeu nada!”. Saiu com a cara preocupada.
No dia seguinte apareceu a veterinária. Quando ouviu o que a mãe e o pai disseram a meu respeito, que eu não havia comido e nem bebido nada, que estava fazendo xixi de pouquinho em pouquinho e, principalmente, quando viu a força que eu fiz para urinar, ela falou que era infecção urinária. Disse que me passaria remédio e, se eu não melhorasse, teriam que me levar para fazer um tal de ultrassom.
Neste mesmo dia começaram a me dar remédio. Mas não deu muito certo não. Primeiro tentaram colocar o comprimido dentro de uma coisa que parecia, no gosto, a ração que comia todo dia. Na aparência, era bem maior que um grão de ração. Estava na cara que tinha algo dentro. Até aí não havia problema algum, pois se eu não estivesse doente, engoliria o negócio num instante. Sempre fui de comer bem e de uma vez só. Porém naqueles dias minha fome acabou. Então eles colocaram o remédio em coisas gostosas, para me atrair. Começou com quibe, mas acabei aprendendo a separar o remédio e comer só a carne, então partiram para o frango. Com ele ficava muito mais difícil de separar, porque o danado é gostoso demais. Quando a gente (força de expressão) vai ver, já engoliu...
No domingo estava um pouco melhor. Pouca coisa. Comi um tantinho mais que nada. Quanto a beber, era nada mesmo, pois estava cismado com a água. Se estava dolorido e difícil de ela sair, pra que colocar mais água pra dentro?
Na terça-feira travou total. Não saía nada, nem gotinhas. E a dor, então, aumentou ainda mais. No final da tarde, colocaram-me no quintal lateral. Logo percebi que estavam esperando o pai. A casa estava cheia. A vó, a tia e a prima vieram me ver. Estavam todos preocupados comigo.
Já fazia um bom tempo que havia escurecido, quando o pai chegou, apressado. Mal entrou e já foi me colocando a correia na coleira. Abriu a porta do meio e então apareceu o porta-malas aberto do carro. Oh, não! A última vez que entrei aí dentro foi... Mas não deu nem tempo de lembrar direito daquele apuro danado, pois o pai já foi me pegando e colocando lá pra dentro. Sou um cachorro de médio para grande porte e também pesado. Acho que não foi fácil pra ele encarar o peso. Porém foi melhor assim, meio que no susto. Se me deixassem parar para pensar, aí então eu travaria e quero ver alguém me colocar no carro...
Como comecei a dizer, daquela última vez que havia entrado no porta-malas (que também foi a primeira), foi simplesmente terrível. Levaram-me para a casa da tia. Acho que havia alguma festa por lá, pois ouvi o barulho. Pelo que percebi era a festa da minha prima, uma cachorra pequenina e bem peluda. Mas quem disse que eu saí de lá de dentro? Quando eu subi no carro não percebi a altura estratosférica em que fui me meter... (quem disse que cachorro não é inteligente o bastante para utilizar a palavra “estratosférica”?) Fiquei a festa toda no porta-malas. Com dó de mim, vieram me dar o bolo de aniversário. Estava bom pra cachorro (no sentido figurado e no real também...). Disseram que era só eu descer que tinha mais para mim. Mas eu não quis nem saber. Só fui descer em casa, depois de muito sofrimento. Foi tanta coisa que tentaram pra me tirar dali... Mas não vou contar porque tudo isso, todos estes acontecimentos pertencem a outra estória. Então fica para outra, pois desta vez não me levariam para festa nenhuma. Muito pelo contrário.
Depois de um trajeto curto, mais perto que a casa da tia, o carro estacionou. O pai e a mãe agiram rápido. Botaram-me pra fora, meio empurrado, meio carregado. Receavam que o meu medo aumentasse, pois aí, com certeza, dificultaria muito as coisas. Já desci preso pela coleira e então percebi que estava em um pequeno estacionamento. Logo adiante havia a entrada do prédio, e foi para lá que me levaram. Assim que entramos, eis que aconteceu o meu primeiro contato com um elevador. A mãe apertou um botão na parede e abriu-se uma porta diante de nós. Não tenho medo de dizer, sou um cachorro medroso. Acho que já deu para perceber. Mas outra vez o pai foi mais rápido que o meu medo. Puxou-me pela coleira e de repente estava naquela casinha. Na verdade, um “casão”, bem mais alta que a minha. Também era mais espaçosa. Outro botão apertado e a porta fechou-se. Ficamos um tempinho lá dentro. Deu umas balançadas e, depois de um pequeno tranco, a porta abriu novamente. Ao sairmos, nos dividimos. A mãe ficou em um balcão e nós seguimos adiante, onde havia várias cadeiras, e lá ficamos. O pai sentado em uma delas e eu ao seu lado.
Aquilo era um hospital. Não passei bons momentos nesse lugar. Várias vezes ali voltei, mas nenhuma delas foi tão ruim quanto esta primeira. Pensei que nunca mais sairia dali. Começou com uma consulta normal. Mas para mim não foi algo tão normal assim. Estava acostumado com consultas feitas em casa, sem precisar subir em mesas enormes. Carregaram-me lá pra cima e me seguraram, enquanto a veterinária me examinava. Depois de me apalpar, disse que eu estava com dor. Até aí, nenhuma grande descoberta. Se eu pudesse falar, da minha dor era a primeira coisa que falaria. Após as inconvenientes invasões daquele abusado exame, por cima, cutucando o meu ouvido, por baixo, enfiando-me uma coisa que depois soube que se tratava de um instrumento chamado termômetro, finalmente me tiraram daquela altura gigantesca. Tenho medo de altura, sim. É um dos meus maiores medos. Não gosto de subir em nada que esteja acima do chão, principalmente se é algo que não conheço. Naquela mesma primeira noite de hospital, colocaram-me diante de uma balança. Não era muito alta. Para falar a verdade, já havia, em minhas caminhadas, subido degraus maiores na calçada. Mas se não fosse o pai ter aplicado novamente a técnica do “meio empurrado, meio carregado”, com certeza eu lá estaria até agora, estacionado em frente da balança.
Depois de me pesarem, levaram-me de volta ao consultório. Então a doutora disse que eu teria que fazer um tal de Raio X. Eta exame danado de ruim! Primeiro porque não pude entrar com o pai e nem com a mãe, que ficaram lá fora, esperando. Dentro de um lugar meio escuro, apertaram-me de tudo quanto é lado. Seguraram-me de um jeito que eu fiquei travado. Acho até que me prenderam com uns cintos, mas eu não tenho certeza. Só sei que deu um desespero tremendo. Ainda bem que durou pouco!
Outra vez no consultório, a veterinária mostrou-nos o resultado. Pegou a foto que tiraram de dentro de mim e, colocando-a sobre uma luz que acendeu na parede, apontou para várias pedras e foi contando... Disse que havia umas treze na bexiga. “Ah! Então é por isso que eu estou deste jeito, com essa dor ferrada”, pensei. “Poxa! Como elas foram parar aí? Não me lembro de ter comido pedra... Sabonete eu até comi (depois vomitei; não foi boa coisa), mas pedra, acho que não”.
Quando a doutora disse a palavra “cirurgia”, notei que as expressões do pai e da mãe foram cobertas por um véu de apreensão... Todo mundo sabe que cachorro é um bicho sensível, que percebe facilmente os sentimentos dos seres humanos. O pai me olhava com uma cara de dó que não precisava nem dizer nada. O rosto da mãe era uma preocupação só.
A última vez que vi alguém da família naquela primeira noite de hospital foi quando o pai se despediu de mim. Colocaram-me em uma gaiola pequena e ele, do lado de fora, repetiu um milhão de vezes que tudo ia ficar bem e que no dia seguinte voltaria para me ver. Mas sua cara estava preocupada e dizia muitas outras coisas...
Esta estória está ficando um tanto longa. Acho que sou um cão bastante abusado ao tentar prender a atenção dos humanos com uma narração tão prolongada. O que as pessoas esperam de um cachorro são reações rápidas, coisas breves, como, por exemplo, pegar bolinha ou abanar o rabo contente quando o dono chega. Assim sendo, vou procurar resumir os acontecimentos, passando somente pelos principais, aqueles que eu não posso deixar de contar.
Quanto à cirurgia, recuperação e aqueles intermináveis dias de hospital, não tenho quase nada a mencionar. Cirurgia, ninguém se lembra. Homem, cachorro, qualquer animal, todo mundo apaga. E depois, a prisão. Eu e outros cães, todos encarcerados em cubículos engradados, empilhados uns sobre os outros. Não posso dizer que é desumano porque o termo não se aplica à minha espécie. E ainda ouvi, de um colega de cela ao lado, que estávamos em um hospital de primeira linha, bem melhor que muitos hospitais dos humanos. Acho que os homens têm muito a melhorar nesta área... Está certo que havia alguns ali comigo que mal conseguiam levantar a pata. Para estes, tanto fazia estar preso ou não. Mas havia outros, como eu, que estavam bem e que queriam sair logo dali. Foi por isso que eu fiquei muito bravo quando, no dia seguinte após a cirurgia, apareceu a mãe. Achei que me traria de volta, mas logo percebi que estava enganado. Fiquei revoltado. Quando foi me fazer um carinho na cabeça, não aguentei. Quase peguei a mão dela com uma abocanhada. É lógico que não machuquei, não seria capaz disso. Só queria dar um susto.
Finalmente acabei saindo. Ufa, não estava aguentando mais! Não que o tratamento fosse ruim. Pelo contrário. Cuidaram bem de mim, levaram-me até passear, dar uma volta. O problema é que hospital é lugar nada agradável... Quando o doutor estava dando a minha alta, com todos nós no consultório, disse que eu era um cachorro tranquilo e bonzinho. Gostei do elogio. Vi que o pai e a mãe também gostaram. Mas notei, não conseguiram esconder perante a percepção aguçada de um cão, que ficaram surpresos. Acho que não acreditaram no “tranquilo”, sabem que eu não sou bem assim... Mas é que quando a gente está fora de casa, tenta se comportar melhor. Enfim, parece que consegui enganar bem...
Ficar doente, passar por dificuldades de saúde, como eu passei, tem suas vantagens. Por vários dias fiquei no quintal lateral, onde a mãe estende a roupa. Junto a este quintal, há um corredor que vai até à porta do meio, passagem para a garagem, e até à porta da sala também. Colocaram uma madeira para impedir que eu chegasse nestas portas, e assim ganhei mais este corredor dentro do meu espaço autorizado. Era uma boa área para andar e xeretar e, principalmente, ficava bem ao lado da família. Dava até para ver a cozinha de perto, meu lugar preferido, de onde partem os cheiros mais incríveis. De noite me colocavam para dentro, em outro corredor, que passa ao lado da cozinha.
Logo que cheguei do hospital, percebi que a ração mudou. Não gostei nada do sabor. Também não estava com muita fome. Acho que era por causa da tal cirurgia. Bem que poderiam me dar aquelas coisas que eles comiam. Meu olfato de cão se maravilhava com aquele festival de odores. E havia também um outro festival, não tão agradável quanto este. Lá embaixo, onde abriram e tiraram as minhas pedras, estava pingando algo... A doutora disse que era normal, iria pingar mesmo, pois o corte estaria purgando, sarando. Mas o problema é que não estava sarando não. Comecei a sentir um peso no saco (você acha que um cachorro utilizaria a palavra escroto, saco escrotal ou testículos? Lógico que não! Conheço todos estes termos, mas não pegaria bem utilizá-los. Afinal, um vira-lata não tem nada disso. Tem saco mesmo!). O dito cujo ficou inchado pra caramba, parecia que iria estourar! Quem primeiro percebeu esta minha anomalia foi a filha...
E lá vamos nós, novamente, para o hospital. Toda noite me levavam para lá. Uma injeção por dia. Acho que foi umas sete vezes. Nesse vai-e-vem, acabei aprendendo a andar de carro. No final, quando era para sair, já estava pulando para fora do porta-malas!
Destes “passeios” para levar a minha picada diária, tenho duas coisas a comentar. A primeira é que o medo que tenho dos meus semelhantes continuou o mesmo, ou até piorou. Em uma das ocasiões em que aguardava minha vez, ao lado do pai e da mãe, que estavam sentados em duas das muitas cadeiras da área de espera, ouvimos alguém chamar pelo meu nome. A gente se sente importante. Chamam os animais, e não as pessoas. Então o pai levantou-se e puxou-me pela correia da coleira. Naquela noite havia muitos cães no hospital e isso me estressa. A maioria deles late por qualquer coisa. Quando estávamos bem em frente das fileiras de cadeiras, expostos para toda aquela plateia de cachorros e seus respectivos donos, os latidos aumentaram sendo que um deles, em particular, me fez tremer na base. Sentei e travei totalmente. Não conseguia mover um músculo sequer. Mas foi tudo muito rápido. O pai estava atento e não deixou a minha travada ganhar força. Já foi logo puxando e até me arrastou um pouco. Foi-que-foi que acabou conseguindo fazer com que eu, de alguma maneira, chegasse ao consultório. Fico chateado com esta minha reação, percebo que o pai se envergonha bastante ao ver um cachorrão do meu tamanho, paralisado pelo pânico quando ouve algum latido mais alto ou estridente, mesmo que venha do mais minúsculo cão. Mas o que eu posso fazer? Não consigo controlar. É mais forte que eu...
A segunda coisa que fiquei de contar é sobre os nomes de cachorro que a gente ouve chamar lá no hospital. Veja só: Cocada. Outro: Coca-Cola. Esse é pior: Gonçalves. O enfermeiro até deixou escapar uma risadinha quando foi chamar esse nome. O pessoal inventa cada uma!
Ah, tem mais outra coisa que eu não posso esquecer de contar sobre esse período em que estava me recuperando. Aconteceu algo maravilhoso naqueles dias. Deixaram de me dar a ração, que eu não estava nada disposto a comer, para colocar, no seu lugar, canja! Santa canja! Não dava nem para acreditar, era simplesmente delicioso! Metia a cara no potinho e papava tudo de uma vez, sem tirar o focinho de lá de dentro. A ideia de me alimentar assim tão generosamente surgiu devido ao fato de que eu havia perdido um peso considerável. Quem pensou nesta divina solução foi a veterinária do hospital. Até que ela é legalzinha. Quando me levavam para tomar as injeções, em uma das vezes ela chegou até a me chamar de príncipe. Confesso que a primeira impressão que tive a seu respeito não foi das melhores. De vez em quando cismo com alguma pessoa. Mas acho que desta vez me enganei. Até me arrependo da avançada que lhe dei. Também, logo de começo já foi querendo passar a mão na minha cabeça. É lógico que eu não machuquei. Sou da paz. Um grunhido e uma ameaçada de abocanhada básica, só para marcar o meu território. Coisa de animal mesmo. Acho que foi por isso que ela disse para o pai e para a mãe que eu sou traiçoeiro...
É... Assim está bom... Pra quem não queria se alongar muito... Dei uma de cachorro abusado mesmo! Mas é que não deu para resumir, bem que eu tentei, mas não dava. Tem coisa que a gente não pode dizer assim por cima... Sabe, gostei deste negócio de contar coisas. Bem que poderia dar um livro! Não tem aquele livro que acabou virando filme? Como é mesmo o nome? “Marley e eu”, acho que é isso. Naquele, quem conta a estória é o dono do cão. No meu, é o próprio cão. Bem melhor assim, não acha? “Eu, Bob”, ficou bom?

domingo, 28 de abril de 2013

CONTADOR DE VISITAS

Posso escrever sobre o que está acontecendo agora. O trem está chegando. Acabei de entrar na composição. Isto é a mais absoluta verdade. E quando se escreve verdades, o leitor percebe. Acredito que a escrita carrega muito mais do que simples palavras, que é possível transferir o contexto do ambiente no qual o escritor está vivendo no exato momento em que está redigindo. Por exemplo, agora estou sentado no banco, papel e caneta na mão, olhando o entra e sai pela porta do vagão. O trem parte da estação e eu olho o escuro da noite pela janela.
Mas também i... A caneta falhou. Durante a caminhada entre a estação de trem e a de metrô, coloquei a dita cuja no bolso dianteiro esquerdo da calça e, quando fui retomar estas despretensiosas linhas, eis que ela já não escrevia mais nada. Na linha amarela, entre as estações Pinheiros e Paulista, fiquei a lutar com minha caneta preta. Nada. Acabei descobrindo um pequeno vazamento. Na longa conexão entre a Paulista e a Consolação, insistia em tentar tirar a tampinha, que mais parecia estar soldada ao corpo da caneta. Nada. Quase a joguei em alguma lixeira. Ainda bem que não o fiz, pois senão agora, na espera que costuma ser longa, aguardando o demorado ônibus... Acabei pegando outro. O Circular via Goiás passou por mim, não era ponto dele, mas acabou parando quando fiz sinal. O motorista foi legal, quebrou o galho. Deixei aquele que provavelmente estaria esperando até agora, para entrar noutro que dá uma volta danada. Mas acho que no final acabarei chegando mais cedo...
Não sei se cheguei mais cedo. Acho que o tempo foi mais ou menos igual. Com relação ao tempo, só sei que está passando muito rápido. Passou o fim de semana num instante. Hoje é segunda e aquela sexta-feira em que eu fiz hora extra ficou para trás. Para trás também ficaram as linhas que descreviam a volta do serviço, a caneta que falhou, o ônibus. Revisando agora o que já foi escrito, devo dizer algo que não foi dito. A caneta, a tal caneta preta, voltou a funcionar. E é justamente com ela que escrevo neste momento, sentado em um banco de madeira, com o maravilhoso sol da manhã banhando o meu corpo. Mas é hora de largar este paraíso. O horário de entrar para o trabalho está se aproximando.
Dois dias depois e cá estou eu, novamente no mesmo banco, novamente no mesmo sol. O bom desta época do ano é que o tempo é firme, chove muito pouco (apesar de que chover é bom, faz bem para a natureza, para as plantas), e as tardes, o pôr-do-sol nestes meses de abril, maio, é muito bonito. Cada entardecer revela um espetáculo de cores, brilhos e contrastes. Uma tela de um Grande Artista a cada fim do dia. Mas eu não quero falar de fim do dia. Quero, isto sim, falar de começo. Dizer que não são somente os humanos que apreciam tomar o revigorante sol da manhã. Os insetos também sabem desfrutar destes maravilhosos momentos. Sexta-feira passada, neste mesmo banco, eis que encontrei uma mosca, imóvel sobre o paralelepípedo. Somente saía da imobilidade para esfregar as patas traseiras, em sua ginástica típica. Com certeza curtia o banho de raios solares. Tenho que contar também a respeito de uma abelha, do que nela observei naquela mesma manhã de sexta-feira. Porém agora tenho que interromper, pois as atividades do dia me chamam. Chega de moleza, vamos ao trabalho!
Outra vez estou a esquentar os ossos. Olho para a esquerda, em um ponto vazio no espaço. Era aí que ela estava, exibindo a sua destreza. Paralisada no ar. Paralisada não é bem o termo exato a usar, pois que a abelha deve bater as asas vigorosamente, a fim de conseguir uma estabilidade tão grande no voo. E olha que a estabilidade daquele inserto era notável. Eu, sentado em um banco de verdade, sob o gostoso sol da manhã e, ao meu lado, ela também aproveitava. De vez em quando, esticava as pernas, como se estivesse baixando o trem de pouso.  Depois encolhia novamente. Sentada no nada, em uma cadeira imaginária, ou talvez um banco, para me fazer companhia. Mas ela não conseguia ficar muito tempo parada. Repentinamente ia para frente. Depois voltava para trás. Admirável. Como se fosse um helicóptero, pilotado com rapidez e maestria. Ou quem sabe uma minúscula nave espacial. Cheguei a pensar em diminutos seres extraterrestres, a espionar o nosso mundo. Pensamento estúpido. Mas não deixa de ser fantástico e interessante.
Espionando como vivem os seres humanos. Como tomam o sol da manhã em bancos de madeira, como fazem hora extra após o expediente e depois tentam contar a viagem de volta de trem e outras conduções, lutando contra uma caneta preta que insiste em não funcionar, como insistem em escrever textos e colocá-los em blogues, para depois torcer afoitamente, esperando que o contador de visitas salte para números elevados, doce ilusão inatingível.
Dei um tapa na abelha, na nave espacial miniatura, com seus pequeninos e intrometidos espiões. Mentira, não dei não. Mas vou ficar espiando o contador de visitas, isso eu vou.

quarta-feira, 27 de março de 2013

ESPANHÓIS E COMUNISTAS

Viro a esquina em direção ao barbeiro e digo para mim mesmo: “Em busca de ideia para uma crônica...”.
Antes de dobrar a próxima esquina, ouço o comentário de um senhor ao olhar as manchetes na lateral de uma banca de jornal: “Esse papa é simpático!”. Não, daqui não sai crônica. Na verdade, pode até sair... Mas não quero fazer.
Entro no barbeiro. Sr. Lauro, tradição, mobiliário antigo, rádio com música clássica... Aqui daria uma boa crônica. Mas fica para outra vez, talvez...
Um na cadeira, cortando o cabelo. Outro sentado, esperando. Sento e, na cadeira ao lado, procuro uma parte do jornal para ler. Primeira página do Diário do Grande ABC. Processamento de lixo reciclável, preço da Zona Azul, desafios dos times de futebol da região. O São Caetano tá tão mal que nem tem nada dele. Notícia de jornal pode puxar um bom texto. Mas não, não é isso que eu estou buscando.
Sai o sujeito da cadeira do barbeiro, outro toma o seu lugar. Agora eu sou o próximo. E já tem gente atrás de mim, está ficando cheio...
De repente começo a ouvir o Sr. Lauro dizer: “... Acho que vocês são parentes. Ele é filho do Seu Francisco...”. Estas palavras são dirigidas à pessoa que está cortando o cabelo, mas fazem referência à minha pessoa. Então levanto-me e digo: “Eu sou filho do Seu Francisco...”. Pronto! O barbeiro, profundo conhecedor da família Moreno, acaba de fazer a ligação entre dois parentes distantes. E, de quebra, dá assunto para a crônica. Agora vai! Recordações, origens familiares, parentes conhecidos em comum, tudo isto vale a pena registrar... E que fique aqui registrado: a minha crônica está começando agora!
Após os primeiros momentos de “filho de quem”, “neto de quem”, “irmão de quem” e outros “quem” mais, acabamos por situar o nosso grau de parentesco. Isto depois de várias confirmações e repetições, coisa comum em situações deste tipo. Para facilitar ao leitor a navegação pela árvore genealógica, peço para que imagine, nos idos do começo do século passado, dois irmãos e imigrantes espanhóis. Cada um deles constitui sua própria família. Um deles, Francisco, tem seu segundo filho, também Francisco, que é o meu pai. O outro irmão, Antonio, tem uma filha chamada Josefa, mãe de outro Antonio, que é justamente quem está conversando comigo. Pensando bem, acho que não somos parentes distantes... Ou pelo menos nem tanto.
Vamos falando de familiares conhecidos, tecendo nossos comentários:

“(...) O Milton tinha um coração muito bom. Entrou na bebida e nas drogas, se envolveu com maus elementos. Mas tinha um coração muito bom. Foi bom pra todo mundo, menos para ele mesmo (...) O Vicente vendia um bar pra comprar outro. Ele teve um no final da Maranhão, na esquina. Também chegou a ter em frente à GM, na Tiradentes. O Seu Lauro disse que ele vinha de sábado, bem cedo, cortar o cabelo... É, depois que o filho morreu, ele caiu bastante (...) O Vande morreu cedo. Deu uma melhorada por um tempo, ficou uns dois ou três anos bom, depois... Essa doença é (...) O Antonio (mais um Antonio na família), ele queria matar o cara que viciou o filho. Ele foi vereador, pelo Partido Comunista, duas vezes (...) ”.


Para o leitor, estas recordações são recortes que talvez não formem uma figura coerente. Pode haver confusão entre os personagens e as lacunas no texto, é possível que elas esvaziem o pouco conteúdo que consigam apreender. Mas não tem problema, pois sei que fios de vida passam através destas linhas escritas. São fios que, de uma maneira ou de outra, acabam participando de todas as famílias...
O papo começa com o Antonio sentado na cadeira do barbeiro e eu em pé, ao seu lado. Depois as posições são trocadas e o papo continua. E prossegue no bar ao lado, acompanhado de um cafezinho. Ele me conta do seu avô comunista, irmão de meu avô por parte de pai. Diz que ele recebia revista do partido, diretamente da Rússia. E que quando chegava a “batida”, ele se escondia no forro da casa. Então falo do meu avô por parte de mãe, também comunista, e do seu trágico fim, assassinado por anticomunistas em uma questão de divisa de terras que foi criada para acobertar a real motivação política do crime. E, com relação à política atual, compartilhamos nossa repulsa endereçada ao ex-prefeito da cidade...
Ele me fala de um tal Chevrolet 1928, que era do Lourenço. “Tio Lourenço” surge em minha mente como um nome presente nas estórias da família. O Chevrolet, nunca o vi, mas ao ouvi-lo contar como uma recordação tão viva, chego até a ver o brilho de sua lanterna...
No mesmo dia, vou à casa dos meus pais para falar a novidade. Como meu pai não está, exponho o acontecido somente para minha mãe. Ela ouviu com atenção e alegria. Raízes familiares fazem bem para todo mundo, principalmente quando vamos ficando mais velhos...
E, para finalizar esta crônica, fico sabendo de uma relação que liga os nossos avôs... Depois de ouvir-me, minha mãe diz que o pai dela e o avô do parente encontrado no barbeiro eram amigos, encontravam-se... Então fico a imaginar os dois, nas primeiras décadas do século vinte, interior paulista, reunidos com outros companheiros de ideal, na esperança de, através do comunismo, mudar o mundo...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

MEU MODO DE VER O MUNDO – PARTE 6 LEAGUE OF LEGENDS

Fui no “Campus Party”. Trata-se de um evento direcionado aos fanáticos em videogame. Não sou fanático, mas devo confessar que meu filho, com seus 13 anos, não consegue pensar em outra coisa. Então, a motivação inicial que me fez enfrentar este evento foi a de estar junto ao meu garoto. Não basta ser pai, tem que participar.
Adiantamos o almoço do sábado e saímos pouco depois do meio-dia. No carro, eu mais parecia motorista de táxi, pois o banco da frente estava vazio. Lá atrás, o meu filho e um amigo seu, logicamente também ligadão em games. Entusiasmados, conversavam animadamente, tentando adivinhar quais seriam as promoções que estariam em jogo. Inventavam que determinada empresa daria um computador último tipo, sonho de consumo para qualquer gamer. Seria tudo muito fácil... Ei, você aí! Você ganhou um computador da marca tal, modelo tal... Dariam também placas de vídeo, tudo do bom e do melhor. E assim por diante... Acho que sabiam que estavam exagerando, mas tenho certeza que desejavam, do fundo dos seus cibernéticos corações, que todas estas inocentes imaginações se concretizassem...
Trinta reais de estacionamento. Um roubo. No Anhembi é assim mesmo, nenhuma novidade. Mas a surpresa veio na entrada: catracas liberadas. Na verdade, não foi surpresa. Meu filho já havia dito que o evento seria gratuito. Porém, uma coisa é saber e a outra é viver, sentir a experiência de passar livre e gratuitamente por uma catraca que, muitas outras vezes, só nos permitiu a passagem após a compra do ingresso: outro roubo.
Lá dentro, a quantidade de estandes não era muito grande. Logo foi possível identificar o principal motivo. O mapa do Campus Party indicava que metade do pavilhão estava tomada pelo acampamento. Não conseguimos ver esta parte, mas acredito que seria uma cena totalmente pitoresca olhar, de cima, aquele mar de barracas...
Nenhum dos estandes prendia a atenção do meu filho e seu amigo. Foram seguindo em frente, sabiam o que procuravam. Até que um grande telão apareceu, cercado por uma multidão de jovens espectadores, boa parte deles em uma arquibancada, outros sentados em cadeiras formando uma enorme plateia e, ainda, em volta, havia muitos em pé... Foi entre estes em pé que, inicialmente, ficamos.
A vibração é intensa. Em duas grandes mesas, montadas em um palco e voltadas para o público, espalham-se os dez jogadores, cinco de cada equipe. Cada um por trás do seu respectivo monitor, teclado e mouse. Fones de ouvido e microfones posicionados, concentração total. No telão, mais uma batalha épica de LOL – League of Legends, o jogo mais jogado ao redor de todo o planeta. Esta partida, uma das semifinais de um torneio mundial, está sendo transmitida pela internet. Centenas de milhares de apaixonados torcedores acompanham cada detalhe...
AEEEEEEÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!!!!!!!
A torcida grita em uníssono. Emociono-me. Coisa boba, mas emociono-me. Multidões com objetivos comuns mexem comigo.
Tento acompanhar o jogo. São muitas coisas que acontecem simultaneamente. Não consigo. É como ver uma pancadaria geral entre dois times inteiros de futebol e ter que captar e entender cada lance. Há um painel central, que focaliza em detalhe apenas uma área do campo de batalha que, por sua vez, aparece totalmente no canto inferior direito, somente com as informações principais. Na parte inferior central constam dados do desempenho de cada um dos dez jogadores, com vários indicadores. Dependendo do personagem que se escolhe para jogar, variam-se muito os tipos de golpe. É uma chuva de informações! De repente ouço um “UUUUUU” gritado pela torcida atenta. Deve ter sido algum lance que passou perto, alguma coisa que por pouco não aconteceu. Só que eu não consegui ver nada! Para mim, mais parece explosões de fogos de artifício... Sou do tempo do Atari! Antes disso, brinquei com o tal Telejogo Philco! Duas barrinhas eram os jogadores e, no meio deles, uma bola que na verdade era um pequeno quadrado... Foi uma evolução fenomenal, de um lado a outro do universo. Não consegui me adaptar. É muita coisa pra processar, muitos botões ou teclas pra apertar. Não dá pra acreditar que a molecada faz tudo isso e ainda bate-papo, escrevendo mensagens para os outros jogadores em mais um setor que divide a tela já tão retalhada... Isso sem contar que também se comunicam verbalmente, com fones e microfones a postos! É demais! Mas pelo menos neste torneio mundial eles não estão digitando aquelas coisas cifradas entre si. A comunicação entre eles é apenas verbal. Lá no palco, sentado entre dois outros colegas de equipe, vejo o jovem coreano, pouco mais que uma criança, olhos pregados no monitor, a falar no microfone. Logicamente, não ouço o que ele diz, pois suas palavras são abafadas pelo agito da torcida e pela narração da partida. Isso mesmo, esqueci de dizer, afinal, não poderia faltar a figura do narrador, acompanhado de comentarista e tudo mais, para não perder em nada para os maiores confrontos futebolísticos. Sinceramente, acho até que esta torcida aqui é mais entusiasmada e apaixonada do que muitas por aí nos campos de futebol...
Sabe o que foi que eu fiz no meio disto tudo? Entrei na onda! Tentei entender o máximo que pude com o meu cérebro Atariano, estacionado nos videogames dos anos 80. Perguntei algumas coisas para o meu filho... A nossa torcida era para os coreanos. Aí então ele disse assim: “Pai, quando eu avisar, você dá aquele assobio!”.
FFFIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIUUUUUU
Não basta ser pai, tem que participar.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

MEU MODO DE VER O MUNDO – PARTE 5; AS LEIS DA FÍSICA

            Sempre acreditei nas leis da física. Até aquele momento, acreditei...
            Estava voltando pela Av. do Estado, eu e minha filha no carro. Era noite e chovia fino. Fui pegá-la em uma festa de aniversário, onde estava com os amigos em uma churrascaria. Ao passarmos por dois faróis em sequência, quase caí novamente na mesma armadilha. Há um bom tempo atrás, neste mesmo lugar, acabei tomando uma bela multa. É aquele velho golpe dos faróis defasados e bastante próximos. O primeiro está quase fechando e te obriga a acelerar um pouco. Aí vem o segundo, sorrateiro, que se apresenta com uma enorme luz vermelha na sua frente, quando praticamente não há como parar. E, para completar a cena, a câmera de fiscalização não deixa por menos... Ah, mas desta vez eu fui esperto. Já estava vacinado. Passei pelo primeiro já sabendo que o segundo iria fechar e que não daria tempo. Assim sendo, preparei-me para a freada, que não foi brusca, mas sim na intensidade exata para parar o carro no ponto certo.
Tão logo paramos, veio o estrondo.
O impacto na traseira chacoalhou-nos com violência. No mesmo instante, minha filha começou a chorar. Procurei tranquilizá-la. Apesar da batida forte, logo se percebia que, felizmente, nenhum dano físico nos havia acontecido. Sem machucados, graças a Deus.
A experiência de vida, de outras batidas do mesmo tipo, logo fez surgir em minha mente as seguintes palavras ou cenas: grande amassada, guincho, polícia, BO, seguro do carro...
Desci do carro já preparado psicologicamente para ver aquele desastre de latas contorcidas.
Nada. Não encontrei nada. Olhei a traseira de perfil, procurando algum afundamento. Zero. Eu, que sou detalhista e que costumo achar pelo em ovo, não percebi nenhuma alteração. A coisa ficou ainda mais difícil de explicar quando notei o tamanho do carro que colidiu com o meu. Era gigante. Uma picape, dessas que impressionam pelo porte.
O sujeito logo desceu para conversar comigo. Disse que quem estava dirigindo era ela. Olhei para o banco do motorista e vi uma senhora, paralisada, sem ação. A inspeção que fizemos nos veículos mostrou que o dele, por mais incrível que possa parecer, foi o mais afetado. Algo ficou solto e meio pendurado, na altura da placa. Quanto ao meu carro, acabei encontrando um pequeno sinal... Apenas um centímetro, como se fosse uma unhada, que mal atingiu a pintura. Mas foi tão insignificante que perdeu, em visibilidade, para um leve risco que há no para-choque, provavelmente adquirido por um esbarrão de algum outro veículo enquanto o meu estava estacionado...
Ele me deu o seu cartão. Pediu-me o telefone. Trocamos nossos dados, mas eu sabia que não nos falaríamos depois. Não havia porquê.
Entrei no carro e seguimos para casa. Quanto às explicações, deixarei para você, leitor. Alguns diriam que se trata de algo sobrenatural, divino, a “mão de Deus”... Outros procurariam explicar dizendo que foi porque calhou de bater justamente em um ponto de maior resistência, no ângulo certo... Quanto a mim, estou surpreso até agora. E escrevo justamente para perpetuar esta surpresa e dividi-la contigo.
Só sei que, depois deste incidente, não mais acredito nas leis da física como antigamente...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

MEU MODO DE VER O MUNDO – PARTE 4; DIA 21/12/2012, MAIS UM FIM DO MUNDO

Não poderia deixar de escrever sobre o tão falado fim do mundo, agendado pelos maias para o próximo dia 21. Só porque, há muito tempo atrás, certo calendarista maia resolveu parar de fazer o seu calendário justamente no dia 21/12/2012... Mal sabia ele que sua preguiça em continuar o serviço causaria tanto impacto...
Há aqueles que não acreditam na preguiça do calendarista, mas sim em uma motivação mística ou espiritual. Esta data representaria, então, o final de um ciclo e o começo de uma nova era. Virando a página para um mundo melhor.
Basta fazer uma pesquisa na internet para perceber que este novo fim do mundo espalhou-se também pelo mundo virtual. Daqui até o “dia D” a coisa promete esquentar ainda mais. E, se tudo acabar em fogo, quente mesmo vai estar no último dia!
Tem um sujeito, onde trabalho, que já faz um bom tempo que vem falando sobre o dia 21 de dezembro. Acredita no fim, fala com convicção. Mas, como ele é espirituoso, daqueles que soltam uma brincadeira de vez em quando, a gente duvida da sua certeza. Mesmo porque o seu tom de voz, a maneira como diz, leva a crer que está fazendo tipo. No entanto, seus comentários apocalípticos são frequentes, fato este que nos leva a crer que, para ele, se não for verdade verdadeira, o fim do mundo é algo que tem grande chance de acontecer agora, na próxima sexta-feira.
Hoje é domingo. Se os apocalípticos estiverem certos, não haverá mais sábado. Tampouco manhã de domingo... Agora são quase duas e meia de uma tarde nublada. Estou sentado em um banco de cimento, apoiado em uma mesa de igual material, escrevendo estas palavras da minha última crônica antes do fim... Que trágico! Os galos e galinhas ao meu lado mal sabem do pouco tempo que temos... Quanto tempo será que tem a enorme seringueira que se espalha à minha frente? Por quantos fins de mundo anunciados pelos homens teria passado? Os galos cantam o momento presente. É uma chamada ao agora, ao que realmente importa. Os pássaros cantam, o trenzinho passa, carregando adultos e crianças, serpenteando por entre a majestosa vegetação...
Sentado no meio de um parque, imerso na natureza e na tranquilidade, realmente não é o melhor lugar para continuar a escrever esta crônica do fim do mundo. Na verdade, isto aqui parece mais o começo do mundo... Uma formiga subiu no papel, espantou-se com a ponta da caneta e seguiu sua caminhada. Uma menina diverte-se no balanço. O ranger das correntes na viga espalha-se pelo ar, tal qual a seringueira com seus galhos abraçando o céu. O cheiro de terra e folhas úmidas, uma criança que passa correndo ao meu lado. Um casal de terceira idade que para no meio do caminho, frente a frente, para se abraçarem. E que depois seguem lado a lado, juntinhos no enlace dos braços... Tudo isto está me desconcentrando do fim do mundo! Ainda mais agora, que o sol começou a aparecer, e ficou ainda mais bonito!
Sentei aqui neste banco, com a intenção de fechar o texto com observações inteligentes sobre o fim do mundo, talvez até brilhantes, para que ficasse pontuado de maneira a atrair o leitor... Mas eis que toda esta vida que me cerca, muito mais brilhante que qualquer tirada literária, tomou conta das palavras e acabou com o meu fim do mundo...

sábado, 24 de novembro de 2012

MEU MODO DE VER O MUNDO – PARTE 3


Algo me chama a atenção e olho para o alto. Vejo um beija-flor, aflito, voando de um lado para outro, tentando escapar por uma das janelas lacradas com vidro transparente. Penso: poxa, por que ele não passa por baixo?
Tenho que explicar o cenário para o leitor. Vamos lá! Está preparado? Imagine um estacionamento coberto. Ótimo. Agora amplie o pé direito. Não tem nada a ver com o seu pé ou quanto você calça. Refiro-me ao termo “pé direito”, comum em engenharia civil ou arquitetura. Entendido? Então, o vão entre o piso e a laje superior tem bem uns oito metros ou até mais... Em dois dos lados não há paredes, e é justamente por aí que o tal do beija-flor pode escapar. Um espaço livre, com os seus cinco metros de altura, acima do qual começam as paredes nas quais estão as já citadas janelas, mostrando retângulos de céu azul.
Descrito o cenário, agora você pode então compartilhar da angústia retratada neste terrível problema vivido pelo nosso belo e rápido espécime de pássaro. Fica ele lá no alto, fascinado pelos retângulos azuis. Para na frente de um, de outro, de um, de outro... Mantém-se a uma distância de uns dois ou três metros do vidro. Não avança. De alguma maneira sabe que não dá para passar.
Tento uma comunicação impossível. Falo em volume baixo, mas mesmo assim sinto-me um pouco envergonhado, pois desconfio que sou ouvido por alguém que passa ao meu lado. “Abaixa amiguinho, abaixa!”, é o que digo. Falar sozinho não é conveniente. Tampouco conversar com pássaros em lugares públicos. Mas isso não importa. Estamos diante de um grave problema de um pequeno ser que se sente preso sem estar preso. Ele não sabe como sair, não consegue ver. Pousa em um cano que passa lá no alto, perto do teto...
Para nós, que estamos olhando de outro ângulo, é tão óbvio. É só voar mais baixo, para então vislumbrar todo o espaço aberto por onde se pode escapar. Porém, a atração das janelas azuis é forte. Como uma lâmpada para uma mariposa. Luz, céu azul, liberdade. Mas tem a questão das limitações. O beija-flor nem sequer se lembra de que abaixo das janelas há um grande vão, pois certamente por aí passou, antes de encurralar-se. Falta-lhe memória. Sobra-lhe o anseio por liberdade. Por isso não consegue distanciar-se das janelas que lhe mostram o maravilhoso céu azul, seu tão adorado campo de voo.
Afasto-me da cena. Não se tem tempo para libertar um beija-flor... Mas minha mente e meu espírito lá ficaram...
Imaginei um desfecho para o fim deste drama. O pobre pássaro, exausto de tanto voar, vai ao chão. E lá embaixo movimenta-se, débil, no perigo dos carros que manobram ao seu lado. Para então olhar para o alto e ver todo o espaço livre à sua frente. Está livre!
Já que não sei o fim real deste fato verídico, imagine você o seu fim. Alegre ou triste. Maravilhoso ou trágico. Fantástico ou banal. E pode também elaborar mil analogias, comparando a situação vivida pelo beija-flor com nossas vidas. Crie uma moral da estória... E busque a sua janela azul...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

MEU MODO DE VER O MUNDO – PARTE 1

As coisas do mundo estão aí para todo mundo ver. Ver com os olhos, com as mãos, com a imaginação... Através da audição, do olfato, do paladar. Usando os cinco sentidos, o sexto, ou qualquer outro que consigamos alcançar. O mundo é o mesmo para todos, mas cada um o cria a seu modo.
Ando reparando que às vezes me detenho sobre coisas tão aparentemente insignificantes, e que as percebo de uma maneira tão peculiar, que achei por bem começar a registrar este meu modo de ver o mundo. Esta é a primeira parte, de um total de sei lá quantas partes vão ter. É assim como a vida, que começa e a gente não sabe quando vai acabar.
Não vá pensando, caro leitor, que esta série tem algum objetivo ou enredo qualquer. Esta não é a minha intenção. Quero apenas mostrar certos ângulos da vida, como percebo a realidade ou a irrealidade, só isso. Não quero mudar suas opiniões. Não quero prendê-lo a esta leitura. Você é livre, leitor. Fique à vontade para parar de ler, agora, sem ao menos terminar a parte 1. Eu não ligo. Mesmo porque, nem sei quem você é. É a vantagem da impessoalidade. Inclusive até, pode ser que você esteja no futuro, lendo as palavras de um escritor que não existe mais...
Mas se você continuar, meu caro ou cara leitora, não lhe prometo nada. Apenas lhe digo, vem comigo, e vamos ver no que vai dar.

MEU MODO DE VER O MUNDO – PARTE 2


Um bem-te-vi pousa em um frágil galho de uma grande árvore ao meu lado. Instantes depois, o galho quebra, pegando o pássaro de surpresa. Por alguns décimos de segundo, ele cai junto com o galho. É o tempo do seu reflexo, até que a informação lhe chegue ao cérebro de ave e que este ordene às asas para que entrem em ação. Ele então sai voando, como quem diz “Cair não me pertence”.
Agora, um sabiá insiste em cutucar algo perto do canteiro de arbustos. Parece uma migalha de pão. Para, olha ao redor, vigia. O que está bicando lhe parece ser algo importante, não quer ver ninguém por perto. Tanto é que pega a sua preciosidade com o bico e alça voo para longe do meu olhar curioso.
Cantos de pássaros, folhas sacudidas pelo vento, silêncio, harmonia e natureza... Os galhos do coqueiro estão dançando. A luz do sol, filtrada pelo céu nublado, produz um impressionante contraste por entre os mais variados matizes de verde. Leonardo da Vinci aconselhava os pintores a saírem em busca de cenas e cores justamente em dias assim, quando as tonalidades ficam mais distintas...
Natureza é arte. É por isto que uma das vertentes da arte é imitar a natureza. O ser humano, em sua brincadeira de ser divindade, criou a arte para tentar copiar as expressões de criação que lhe cercam. E quando conseguem atingir os mais elevados graus de realização, sentem-se pequenos deuses. A pintura que abraça, a escultura que oprime, a música que eleva ou transtorna. Tudo é arte. A arte do belo e do feio, do êxtase ao medonho...
Eu, sentado no banco do meu carro. Cercado pela natureza contagiante. Esperando minha filha que, juntamente com muitos outros jovens, luta por uma das 30 vagas ao curso de Artes Visuais... Arte lá dentro, em cada uma das salas onde é aplicada a prova de aptidão. Criações borbulhando de cada mente jovem e entusiasmada. Arte aqui fora, com a natureza, toda convencida, esbanjando sua perfeição...
Lembro-me agora da última coisa que lhe disse quando estava para entrar na prova: “Seja feliz!”. Arte é sentimento. Arte é expressão. Arte é felicidade.

sábado, 27 de outubro de 2012

DE UM GALHO PARA OUTRO


Estação Pinheiros. Caminho apressadamente ao lado de muitos outros corpos também apressados. Dois grandes fluxos de usuários, contrários e separados por aqueles pequenos postes e fitas que costumam delimitar as filas. Qualquer tropeço aqui no meio leva junto uns três ou quatro: queda do tipo reação em cadeia.
Está chamando. Do outro lado da linha, minha sogra atende. Digo que estou saindo do trem para pegar o metrô. Ela logo adivinha o motivo da ligação. “Você quer falar com o Francisco, não é? Ele está aqui do lado”. Ouço as primeiras palavras do sobrinho do meu finado sogro como quem ouve uma assombração. É o Seu Manoel falando. O mesmo “alô” arrastado. O mesmo timbre da mesma fala mansa. Volto ao passado. Dá saudade... A genética é uma coisa impressionante. Tio e sobrinho não conviveram juntos. Mas Francisco tem o mesmo jeito do tio, que é o meu sogro, que já foi... A mesma maneira de rir, enterrado entre os ombros. E quando apertou a minha mão, demorando mais no cumprimento, oscilando no mesmo ritmo demorado, turvou-se rapidamente a cena e diante de mim, por um instante, surgiu o Seu Manoel... E agora novamente se transforma, em um simples “alô”, trazendo de volta quem já partiu... E por falar em partir, Francisco está partindo de volta para Alagoas. É por isto que estou ligando para ele, em meio a todos estes passos apressados que caminham pela passarela que liga a estação de trem com a de metrô. Amanhã cedo ele retorna para a sua terra.
A ligação fica ruim. Não consigo entendê-lo. No começo da escada rolante que desce, decido interromper e abreviar. “Eu não estou ouvindo direito o que você está falando. Mas eu estou ligando para te desejar uma boa viagem...”. A despedida termina. Palavras normais de ambas as partes. Tudo de bom, desculpe alguma coisa, que nada, abração... Desligo o celular pouco antes de entrar no segundo lance de escada rolante. Fica a sensação de que foi rápido demais, de que deveríamos ter nos demorado mais um pouco na despedida, uma ou outra brincadeira talvez...
Ainda mesmo neste segundo lance de escada rolante, vejo uma cena que me chama a atenção. A vida é assim mesmo. Não dá nem tempo de viver um momento e já vem outro para nos fisgar. É impossível não notar. Duas pequenas luzes azuis são os olhos da menina que está no colo da mãe. Voltada para trás, observa tudo e todos com extrema atenção. Mais “todos” do que “tudo”. Quero dizer que se concentra mais nas pessoas do que nas coisas. Um homem, no degrau anterior da escada rolante, faz brincadeiras para ganhar de presente a luz de um olhar ou de um sorriso da pequenina. No primeiro momento penso que é uma pessoa qualquer, estranha à criança, querendo somente algumas migalhas do encanto que aquele rostinho proporciona. Mas depois percebo que deve ser o seu pai, carregando mala e bolsa. Então concluo que estão viajando.
Nesta tenra idade, as crianças geralmente não têm o mínimo pudor ou receio de encarar os outros, demoradamente. Carinhas miúdas e ingênuas... Mas esta menininha, para mim, tem um olhar intimidador. Sinto uma desproporcionalidade. Como se dentro deste diminuto corpo infantil, praticamente ainda uma bebê, estivesse abrigado um espírito, uma alma elevada, superior em inteligência e talvez em muitas outras virtudes também...
Na plataforma da estação do metrô, outra vez a vida me empurra de um galho para outro, em sua dança de contrastes. Surge-me outra cena que me rouba a atenção. E não tem como não roubar, pois a moça está vestida (vestida?) de uma maneira bastante escandalosa. Os fartos e negros peitos saltam para fora do mais do que generoso decote tipo bojo. O short está de acordo com a proposta deste tipo de roupa: exibição. Lá estão seios e pernas expostos para quem quiser ver.
A composição para na plataforma e nós entramos. Após os poucos segundos de acomodação das pessoas nos espaços disponíveis, vejo que as cenas anteriores continuam por perto. A menininha de olhos azuis e a “meninona” de peitos negros... A primeira está no assento ao meu lado, no colo da mãe. A segunda está no outro lado vagão, sentada rente à janela. Fico algum tempo tentando decifrar quem é a pessoa que a acompanha. Tem idade para ser seu pai. Sentado junto a ela, com o braço direito por trás das costas da moça, jaqueta de couro preto, todo cheio de estilo... Não, não pode ser o pai. Descarto esta opção e concluo ser alguém exibicionista como ela, pois está mostrando o seu “brinquedinho” para todo mundo...
Volto-me para a bem mais nova das meninas, que certamente está fazendo muito mais sucesso que a outra. Incrível o poder de atração destes olhinhos cor de céu. Por onde passam, arrastam estranhos, que querem sorver fagulhas do seu indescritível encanto. Agora mesmo mais um está caindo em sua rede. É um senhor forte, por volta de uns cinquenta anos, pele escura, que, assim desse jeito vigoroso, fica até engraçado vê-lo balançar a cabeça de um lado para outro, brincando de se esconder por trás de uma barreira invisível. Acontece algum tipo de comunicação entre os dois. Ele começa timidamente, mas ao perceber que ela está correspondendo, dando-lhe o prazer do seu maravilhoso sorriso, isto lhe provoca movimentos mais largos e desavergonhados.
Então eu também tento estabelecer uma ligação com a menininha, a dona da boina rosa e da meia-calça em um tom mais claro de roxo... Mas não consigo. Ela prefere o homem negro. Volta-se novamente para ele, e eu explico o meu fracasso porque ainda vejo, naquele rostinho infantil, algo mais amadurecido, que continua a me intimidar. Estranho: intimida, mas atrai.
A vida é assim mesmo. Vai nos empurrando de um galho para outro. Estação Consolação. As portas do metrô se abrem. Entro. Está bem vazio. Sento junto à janela. De dentro da mochila, pego a apostila que estou estudando e também uma caneta. O verso das folhas está em branco. Ótimo! A menininha de olhos azuis... Tenho que escrever. Preciso escrever!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

INSTANTES

Se eu fosse escrever sobre este instante, procuraria um lugar mais tranquilo. Mas este lugar mais tranquilo revelaria outro instante, bem diferente deste.
O instante já acabou. O instante seguinte também já acabou. A gente nem percebe um e já vem outro. E nem nota a diferença entre eles. Acaba ficando tudo igual.
No mesmo lugar e ao mesmo tempo, duas pessoas vivem momentos diferentes.
Vivemos sempre fora do tempo, perseguindo os instantes futuros ou nos apegando aos instantes passados... Quero então agora viver somente o instante presente. Encontrar algo diferente neste congestionamento. Um sorriso de alguém que passa na calçada me faz lembrar que as pessoas têm rostos. Começo então a notar a expressão de cada um que passa pela janela da van que me leva ao serviço.
Agora é outro agora. Este lugar é outro lugar. Estou em um instante diferente. Estou realmente ou só o meu corpo está?
Se eu digo “meu corpo”, então eu não sou só um corpo...
Se não há movimento, então não há tempo.
Se não há ponto final, então o texto não acaba nunca...