domingo, 12 de fevereiro de 2023

EU, PELOS ARES!

Estou sentado em frente ao computador, em busca de inspiração para criar mais um texto para este blog. Está difícil... A ideia que tinha perdeu o colorido. Começo então a ver tudo que escrevi, nestes mais de onze anos de projeto para exercitar a escrita. Rolo a tela, recordo... Mas a ideia não vem.

Desvio então o olhar para a direita e eis que ele crava sobre um antigo álbum de fotografias, daquelas pequenas, 10 x 15, sobre a escrivaninha e atrás da garrafa d’água, vazia. Resolvo abri-lo, pois talvez me traga a esperada inspiração.

Fotos da época do colégio, no início dos anos 80. Caramba! Já faz mais de quatro décadas! Uma foto chama a minha atenção. Tiro-a do plástico e, no verso, encontro algumas palavras a respeito da mesma: “Euforia de fim de ano resultando no meu arremesso para o “espaço” (2º ano)”. Calculo então a data: novembro ou dezembro de 1981.

Fico admirando a cena, captada em um breve instante, no qual o meu arremesso para o espaço devia estar em seu ponto mais alto. O clique foi perfeito. De baixo para cima, fotografou-me em pleno voo, arremessado por um bando de adolescentes, como eu, bons tempos... Que loucura! A brincadeira era jogar o cara para cima, o grupo todo impulsionando, rodeando e sustentando o projétil humano por todos os lados. Um, dois, três! E lá fui eu para os ares! Acredito que passei dos três metros, talvez até cheguei aos quatro. Deu tudo certo na foto: um bonito céu de fundo, imagem centralizada nos quatro mastros de bandeiras, sendo que havia somente a do Brasil hasteada, esticada pelo vento... Meio que sentado no ar, meu pé esquerdo parecia chutar o símbolo nacional, enquanto os braços, esticados e para frente, buscavam dar ao corpo algum equilíbrio no espaço.

Fui o primeiro, escolhido por ser o mais leve. Depois vieram outros... Fui bem acolhido no pouso. Porém com um de nós o resultado não foi inteiramente feliz. Houve algumas desistências no momento de amortecer a queda e ele foi parar no chão! Nada quebrado, nada muito sério, apenas uma demonstração da insanidade reinante no nosso grupo!

É incrível como um instante, captado em um negativo e registrado quimicamente em papel fotográfico, é capaz de provocar recordações e emoções... São tempos que não voltam mais...

Por duas vezes entrei em grupos de WhatsApp de colegas daquela época. Não deu certo. Diferenças políticas muito marcantes inviabilizaram minha permanência nos mesmos. Foi melhor assim. Não vale a pena discorrer mais sobre esta questão agora, vamos ficar com as boas recordações, de um tempo em que nem imaginávamos as transformações sociais que viriam pela frente...

E esta foto, com certeza, captou um instante único, que nos faz suspirar... E que rendeu o texto do blog deste mês! 

sábado, 28 de janeiro de 2023

MÃE, MÃE, MÃE, MÃE!

Um negro sendo espancado por cinco policiais negros. A vítima grita pela mãe, que mora a uns 80 metros do local da agressão. Cassetete, arma de choque, spray de pimenta e muita, muita violência.

Mãe, mãe, mãe, mãe!

É muito chocante. A cena é de uma covardia extrema. Ver um homem, totalmente subjugado, apanhando brutalmente, agarrando-se no que lhe parecia ser a única salvação para escapar da morte, clamar por quem lhe deu a vida.

Mãe, mãe, mãe, mãe!

Seus gritos não alcançaram os ouvidos da mãe. Após a sessão de espancamento, foi encostado na lateral de um carro. Largado, não esboçava reação alguma. Mas seu corpo reagiu, com a morte, três dias depois.

Qualquer assassinato é revoltante, mas há alguns que movimentam nossas mais profundas fibras e que nos deixam totalmente indignados. Precisava acontecer isso por, segundo a versão dos policiais, “direção imprudente”? Arrancado à força do carro e submetido a uma execução...

O pano de fundo é óbvio: racismo estrutural. E não adianta vir com o argumento de que os agressores, todos eles, também são pretos. Isso não lhes tira a capacidade de terem preconceito com sua própria cor.

Vivemos em um mundo rodeado por muitas sombras. Tenho, em meu íntimo, que devemos buscar a luz, de todas as formas possíveis. Não é nada agradável escrever coisas com este gigantesco grau de negatividade. Mas às vezes é preciso, para alertar, para tornar cada vez mais evidente que é urgente que se faça algo para evitar estas ações terríveis, que aproximam a humanidade da bestialidade.

No entanto, enquanto nada é feito, só nos resta clamar...

– Mãe, mãe, mãe, mãe!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

PENINHA

Escrever sobre coisas que aconteceram é sempre mais fácil, pois a ideia já está pronta. Ao colocar estas coisas no papel, ou teclá-las na tela do computador, não importa a maneira como registramos as memórias, acabamos por salvá-las de caírem no esquecimento. E fazer isso enquanto as experiências estão relativamente frescas na lembrança, acredito que seja o melhor momento, porque aí conseguimos retratar os fatos com a fidelidade que merecem, sem distorções.

Deveria começar a narração seguindo a ordem cronológica, a partir do momento em que ouvi as exclamações vindas da garagem, quando elas, minha esposa e filha, disseram que um passarinho lá estava, naquela manhã do segundo sábado do mês de novembro de 2022, enquanto nos preparávamos para sair rumo à aula de Pilates. Mas não, prefiro começar contando pela lembrança mais marcante para mim, aquela que mostra o grau de intimidade que aquele pequeno ser, em tão pouco tempo adquiriu, ao ficar empoleirado sobre os meus óculos, pendurados no pescoço, enquanto eu, andando cuidadosamente, desfilava com a sua companhia, tendo-o rente ao peito, fazendo do objeto que são os meus olhos de ver de perto um balanço ou um poleiro improvisado. Que boa sensação! Também gostei muito quando andei um pouco pela casa, tendo-o pousado sobre meu ombro direito. Sempre quis desfrutar este grau de proximidade e confiança. Faz-me lembrar dos filmes que mostram papagaios pousados em ombros humanos. Muito boa experiência!

Batizei-o de Peninha. Mesmo nome do personagem principal de um conto infantil que fiz há décadas atrás. Diferente do seu xará da ficção, não tinha nenhuma peninha que teimasse em ficar espetada sobre a cabeça. Acho que o nome surgiu como uma espécie de resgate da antiga criação, apesar de nada se parecer com ela, mais sendo a minha vontade de materializar o protagonista daquela história, como se o mesmo viesse me visitar após tanto tempo.

Logo procuramos descobrir qual seria a sua espécie. Primeiramente pensei em pomba-rola, mas o bico mais comprido, apesar do seu pequenino tamanho, apontava para outra classificação. Minha sogra dizia que era sabiá, palpite que trazia boa probabilidade de corresponder à verdade, pois a presença destes pássaros é comum aqui nas redondezas. Cheguei até a imaginar que fosse filhote de bem-te-vi, mas descartei a ideia, pois não havia uma coloração amarela mais intensa em seu peitinho. O que havia, neste mesmo lugar, era um quase imperceptível amarelo-amarronzado, fazendo com que a hipótese da sogra, e também da esposa e da filha, ganhasse o ranking dos palpites.

E lá fui eu, pesquisar na internet, quanto tempo vive um bicho desses, o sabiá. Encontrei resultados variados, de 10 até 30 anos. Na pior das hipóteses, considerei uma década de longevidade, e fiquei a imaginar como seria o convívio com o passar do tempo. Havíamos decidido criar o animalzinho solto, e eu cultivava a esperança de que ele, mesmo após os cuidados que pretendíamos lhe dar em seu começo de vida, não nos abandonasse, permanecendo no entorno da casa, em especial no quintal do fundo, onde temos várias árvores que servem como um bom habitat para os pássaros. Que bom seria ter um animalzinho de estimação criado com total liberdade, mas que, pela vontade de nos ter por perto, optasse por conviver conosco! O conheceríamos de imediato pelo grau de intimidade, já chegaria pousando ao nosso lado, no nosso ombro. Conversaria em silêncio com a gente, contando-nos como é bonito ver o mundo de cima, rasgando os ares. Mas também estava perfeitamente preparado para um natural abandono da parte dele, deixando-nos para trás, para voar por terras distantes...

A memória não é algo linear ou contínuo. É composta por momentos, que trazem emoções. E uma das coisas que não posso deixar de contar foram as ocasiões nas quais o Peninha, sempre muito curioso e xereta, escapava do nosso olhar e sumia do mapa. Aliás, acho que este espírito desbravador e inquieto foi a causa do seu desgarramento da família. Um dos sumiços começou com a seguinte cena: o safadinho esforçando-se para subir a escada que leva ao que chamamos aqui em casa de salãozinho. Degrau após degrau, às vezes sem conseguir voar o suficiente para atingir o próximo nível, mas sempre bastante empenhado na sua exploração do território. Tenta uma, duas, três vezes. Tem degrau em que ele emperra. Aí depois embala uns dois ou três em seguida. E assim vai. Lá em cima, ao final da escada, uma grande maleta de plástico, embalando uma prancheta de desenho portátil, repousa atravessada rente ao portãozinho, para evitar que o xeretinha se perca entre tantas coisas que ali guardamos. No entanto isto se mostrou insuficiente para contê-lo. De repente: onde está o Peninha? Acredito que ele, já no último degrau, tenha dado um jeito de passar por baixo da grade lateral, entrando assim no pior aposento da casa em que poderia entrar, pois encontrar o pequenino seria, como diz o ditado, procurar uma agulha em um palheiro.

Andei com muita cautela entre as caixas, sacos, mesa e poltronas, no estreito caminho reservado à passagem, olhando cuidadosamente o chão que pisava, com medo de esmagá-lo acidentalmente. Procurava concentrar-me na audição, porque era possível ouvir um quase inaudível pio que às vezes o danadinho resolvia soltar. Mais difícil era saber de onde vinha o baixíssimo som. Cheguei até a pensar que ele ali morreria, perdido em algum canto. Fiquei nervoso e inconformado com a falta de cuidado que provocou este desfecho. Porém, depois de certo tempo, não muito, eis que o encontro, perto do portãozinho, na beira da curva do caminho entre todas as coisas. Ufa! Logo peguei-o com alívio. Até parece que queria dar uma volta naquela selva de objetos e, quando se deu por satisfeito, apareceu para ser resgatado. Que safado!

Algo parecido ocorreu no quintal do fundo. Nesta ocasião, eu estava sempre de olho no bichinho, enquanto varria as folhas. É uma área verde, cercada por muros e paredes, não teria como ele fugir de casa. Os seus pequenos e baixos voos não seriam suficientes para fazê-lo escapar. E como foi prazeroso vê-lo voar! Ele deve ter ficado contente por ter atingido a fenomenal altura de uns 70 centímetros, conseguindo pousar sobre um dos quatro canos do cercado que envolve o pé de goiaba. Depois fez um voo curto até o cano do canteiro da romã e, daí, arriscou-se em um trajeto de longa distância, quase dois metros, até empoleirar-se na cerca que delimita o canil, um pouquinho mais alta, com seus 80 centímetros, aproximadamente. Deve ter gostado bastante de aventurar-se por aquele pedaço de natureza que, para ele, era gigantesco! Outra cena que me lembro bem é vê-lo, outra vez empoleirado, no meio da grade da cerca. Ver aquele bichinho, pousado sobre o arame, em pequena altitude, em uma das muitas aberturas que formam a grade, foi muito bom. Fiquei contente, pois acho que ele se divertiu bastante... Mas eu tenho que deixar aqui algumas palavras sobre como é o quintal, a fim de que você, que procura acompanhar este meu relato, possa se orientar melhor... Do lado esquerdo há uma cerca e um pequeno portão de madeira, que definem a área lateral de um canil, onde há a casa do cachorro. Três pequenos canteiros que abrigam os pés de acerola, romã e goiaba, além do cimentado entre estas árvores, formam o quintal particular daquele que não está mais aqui para aproveitar... O nosso querido Bob se foi... E o querido Peninha quis também explorar este território natural. Aproveitou a minha rápida entrada para dentro de casa, a fim de fazer ou pegar algo que agora não me lembro, e sumiu novamente! Quando voltei ao quintal, nada de passarinho naquela região na qual ele estava. E olha que aqui também havia o perigo de ele perecer nesta aventura, pois do lado direito, sob e entre outros pés de fruta, folhagens, roseiras, há uma espessa camada de uma planta rasteira chamada “dinheiro em penca”, na qual o Peninha poderia perfeitamente afundar e se enroscar. Outro apuro! Caramba! E agora? Mais nervosismo e preocupação. Procura que procura e nada! Ao menos, de vez em quando, ouvia o seu quase inaudível pio, que era uma garantia de que ele não havia escapado para fora dos limites da casa, pois parecia que o baixíssimo som estava sendo emitido de algum lugar do meu quintal. Imaginava ele enroscado no emaranhado do dinheiro em penca, armadilha perfeita para pegá-lo em toda a sua fragilidade. Não deveria ter me ausentado nem um segundo sequer! Enquanto varria as folhas com os olhos grudados no bichinho, não tinha como ele se perder. Que irresponsabilidade a minha! Porém a coisa acabou como no salãozinho. De repente ele me aparece, com a mesma cara que diz: pronto, já dei uma voltinha por aí, agora já pode me pegar!

Chegou a hora de contar sobre a alimentação. Bom, quanto a esta parte, logo percebemos que ele não sabia comer sozinho. Na mesma hora em que ele apareceu aqui em casa, o colocamos em uma caixa de papelão ao lado de um pedaço de mamão. Esperávamos que ele comesse algo, mas, ao voltarmos da aula de Pilates, constatamos que o mamão estava intacto e a caixa vazia. Como o deixamos no corredor lateral, que vai dar em um pequeno quintal, também lateral e a céu aberto, pensei que ele havia partido para longe, e até achei bom. Fiquei, de certa forma, contente por ele ter conseguido independência, acreditando que dali para frente ele se viraria por si. Mas, pouco tempo depois, encontrei-o empoleirado sobre a haste de metal que serve de base para o carretel da mangueira. Foi o primeiro sumiço do safadinho... Bom, voltando à alimentação, ainda naquela manhã de sábado em que ele apareceu, consegui fazer com que tomasse um pouco de água na seringa. O coitadinho estava com sede.

No entanto, neste primeiro dia, depois de o Peninha matar a sede, não abriu o bico para engolir mais nada. Tentamos suco de mamão, água, e o biquinho continuava lacrado. Apesar de ele se mostrar ativo e esperto, não podia ficar sem comer. Então, ao final do dia, ainda naquele sábado em que ele resolveu aparecer aqui em casa, fui em busca de algum alimento apropriado. Saí do pet shop tendo em mãos um potinho com pó, que deveria ser dissolvido em água. Um composto específico, cheio de nutrientes, feito para filhotinhos de aves. Mas nem isso agradou o Peninha.

No dia seguinte, a casa estava cheia, pois era a festa de aniversário de minha filha. O Peninha estava no meu quarto, lá em cima, para não se estressar com tanta gente, pois dizem que os passarinhos são sensíveis com essas coisas. Sobre a caixa de papelão, um xale de furos largos para que evitasse um novo sumiço, mas também para permitir certo grau de iluminação e, principalmente, de ventilação. Porém, em determinado momento da festa, resolvi buscar o mais novo integrante da família, para apresentá-lo para as pessoas. Minha cunhada mostrou-se preocupada com o fato de ele não estar se alimentando. Minha irmã já sentenciou que ele estava doentinho, só de ver, sem mais nenhum exame, e este diagnóstico dado assim de repente, sem que fosse solicitado, deixou-me chateado. Poxa, que pessimismo! E olha que ela não é nenhuma especialista em pássaros! Achei bem mais pertinente o comentário do amigo de minha sobrinha, que disse que ele estava assustado. Ele havia morado muito tempo na Bahia, nasceu lá, acho que em região rural. Então as suas palavras ganharam valor, pois deve ter vivido situações e adquirido algum conhecimento capaz de fazê-lo perceber quando um animalzinho assim encontra-se amedrontado. Desta maneira, logo voltei com o Peninha para o meu quarto e lá o deixei, como antes, a fim de não mais estressá-lo.

Ainda nesta mesma tarde resolvi efetuar nova tentativa de fazê-lo comer alguma coisa. A papinha com o pó que havia comprado foi feita, desta vez, bem ralinha. Fiquei muito contente quando ele abriu o bico para nutrir-se do líquido, que eu empurrava e que saía de outro bico, o da seringa. Que ótimo! Parece que as coisas estavam melhorando com relação à alimentação do pequenino. Mesmo bem ralinha, a quantidade que ele engoliu já dava esperança de que conseguiríamos ajudá-lo nesta fase inicial da vida, para que crescesse e se desenvolvesse, ao nosso lado. Não importa se depois quisesse voar para longe. Seria criado sempre livre, nada de gaiolas. Então, logo após este primeiro sucesso em fazê-lo ingerir algo diferente de água, coloquei-o novamente na caixa de papelão. Até aquele momento, somente o matar a sede na manhã do dia anterior e esta papinha bem rala. Mas era o começo. Certamente melhoraria com o passar do tempo. Por muitas vezes eu o sustentaria, aconchegando-o em uma das mãos, enquanto a outra, empunhando a seringa, também o sustentaria.

Voltei a deixá-lo no quarto e retornei para a festa. Busquei tranquilizar a cunhada que havia manifestado preocupação por ele não estar se alimentando. Contei-lhe este primeiro êxito em fazer o Peninha ingerir os nutrientes contidos no pó. Que bom! Sem dúvida conseguiríamos cuidar deste mais novo integrante da família. E por falar em integrante da família... O Bob foi embora no domingo de Páscoa daquele mesmo ano. Sempre pedia aos céus para que ele tivesse uma passagem rápida, sem muito sofrimento. Dizia que ele era “muito gente boa” e que não merecia sofrer. E fui atendido. Foi levado pelos tumores que, felizmente, não o impuseram maiores sofrimentos. Sempre bem cuidado com o que a medicina veterinária pode proporcionar, fizemos o possível. Então, naquele momento, ao voltar para a festa, deixando o pequenino no quarto, com nutrientes em sua barriguinha, tudo levava a crer que a providência divina, vamos dizer assim, havia dado à nossa família um novo integrante. Levou o Bob, mas mandou-nos o Peninha!

Acabada a festa, já de noite, transportei a caixa, tirando-a do meu quarto e deixando-a ao pé da escada que leva ao salãozinho, um dos lugares prediletos dele, pois nestes dois primeiros dias gostou muito de subir até os últimos degraus, fazendo da escada uma espécie de árvore, satisfazendo o que acredito ser um instinto, de ficar por cima, aconchegado entre os galhos... Que chato que ele perdeu o seu ninho... Mas, não ligue não Peninha! Você foi parar no lar de amigos de pássaros. Será muito bem tratado aqui entre nós e, principalmente, com liberdade. Mas agora, nesta segunda noite aqui em casa, ainda ficará dentro desta caixa de papelão, coberta pelo xale, para evitar que se meta em enrascadas, certo? Então resolvi não o incomodar e nem levantei o xale para ver como estava. Com certeza estaria bem, dormindo, após ter se nutrido pela primeira vez com o tal pozinho que, naquele momento, era, aos nossos olhos, a salvação que o conduziria em direção a um pleno desenvolvimento. Fui dormir contente.

Na manhã do dia seguinte, antes mesmo que eu levantasse da cama, minha esposa, que levanta mais cedo e que já havia descido para a cozinha, voltou novamente ao quarto para me alertar: “Vem cá ver o passarinho! Eu não quis nem olhar direito! Não tenho coragem! Acho que ele está com a asinha meio torta, esticada... Coitadinho! Eu acho que...”.

Imediatamente fui ver. E constatei que ele estava morto. Nem toquei, não era preciso para ter certeza do acontecido. Parecia que já estava de algum modo enrijecido. Algumas formigas o cercavam, indicando que a natureza não para. Já estavam se aproveitando dos restos mortais do pobrezinho. A sua imagem no canto da caixa de papelão destruiu instantaneamente todas as esperanças de um futuro convívio. E trouxe também muitas perguntas sem resposta. Aliás, na verdade, apenas uma pergunta básica: por que ele morreu? E, a partir desta base, outras questões. Se ele morreu de fome, não era para ter ficado bem debilitado antes de morrer? Será que ele tinha algum problema de saúde? Será que o inconveniente comentário de minha irmã estava correto? Será que é por isto que ele nos apareceu aqui em casa? Dizem que certos animais abandonam a cria quando percebem que a mesma sofre de algum problema... Mas que problema seria esse? Algo no sistema cardíaco? Será que teve um infarte? Será que ele passou muito estresse quando eu o apresentei para as pessoas na festa? Será que isto teve consequência?

Muitas, muitas perguntas... Pesquisei um pouco na internet e vi que estes pequeninos seres são muito sensíveis às variações de temperatura. Aí me lembrei que o deixei no quarto na tarde anterior de um dia quente... Devia ter pesquisado isso antes, ter tomado mais cuidado! Mas será que foi isso? Ontem à noite eu nem quis ver como ele estava, para não o incomodar. Tinha confiança de que estava tudo bem. Fui dormir contente! Oh meu Deus! Será que nessa hora ele já estava morto? Quando aconteceu e, acima de tudo, por quê? Como disse, são muitas, muitas perguntas...

Peninha, meu amiguinho, que fez dos meus óculos um poleiro ou balanço, e passeou comigo, rente ao meu peito. Que se empoleirou no meu ombro direito, deixando-me contente por tê-lo assim ao meu lado. Que gostava de xeretar e dar os seus sumiços... Vida breve aqui com a gente! Nem quarenta e oito horas!

E a vida foi seguindo depois disso...

Aproximadamente um mês depois, estava aqui em casa um conhecido meu, que tentava arrumar uma gaveta com problema e que, além de entender de montagem de móveis, conhece bastante sobre passarinhos, pois cuida de muitos e tem isso como hobby. Pois bem, quando lhe contamos a história do Peninha, perguntou se ele já tinha penas, se estava totalmente “penado”. Respondi que sim. Então ele foi categórico. “Se não tem pena ainda, ou se tem poucas penas, aí o filhote abre bem o bico, procura comida. Mas se já está com todas as penas, aí não tem jeito. Ele morre de fome, mas não abre o bico para comer!”. Palavra de especialista.

Enfim, restaram perguntas sem respostas, mas, principalmente, restaram também ótimas lembranças!

Peninha, valeu por ter convivido conosco! Valeu mesmo! Acho que, como aconteceu, foi justamente aquilo que você queria. Deu suas sumidas, explorou bastante o mundo de uma maneira que jamais teria feito se tivesse permanecido no ninho...

Um grande abraço e voa com Deus! 

domingo, 20 de novembro de 2022

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Hoje é dia da Consciência Negra.

E eu não soube nem como terminar a frase anterior. Pensei em colocar um ponto de exclamação após a palavra “negra”, para denotar um chamamento, demonstrar uma importância que beira a urgência. Mas depois desisti deste acento e resolvi colocar ponto final, pois assim adquire um ar mais formal, permitindo uma interpretação com pesar, que carregue todo o preconceito acumulado durante séculos.

Esta minha indecisão em como escrever uma primeira frase simples de seis palavras sobre este assunto deve estar acontecendo por eu não ter o que hoje se chama “lugar de fala”. Não vivi, não vivo, e não viverei o preconceito que a maioria dos brasileiros sofre, literalmente, na pele. Digo “maioria” porque estou tomando como base que mais da metade de nossa população se autodeclara preta ou parda.

Mesmo não tendo lugar de fala, aventuro-me em falar sobre este assunto, pois acredito que é tarefa de todos nós construirmos um mundo sem preconceitos. No entanto nem sei como continuar este texto. Não quero repetir frases feitas, nem elaborar pensamentos vibrantes, como quem quer ensinar os outros.

Para aqueles que realmente são preconceituosos, nada tenho a dizer. Alguma coisa tem que mudar dentro deles, para que possam enxergar as pessoas e o mundo de outra maneira. O caminho é longo. Mas não é somente no terreno da conscientização que este caminho deve ser percorrido. Não devemos esquecer que racismo é crime, e que a lei deve ser aplicada de maneira geral e firme.

Para aqueles que dizem não ter preconceito com pretos ou pardos, surge a pergunta: será que não existe realmente nenhum preconceito? Devemos nos observar, em nossos pensamentos e sentimentos...

É tudo uma questão de consciência, que deve ser exercitada e questionada não só hoje, dia da Consciência Negra, mas em todos os dias de nossas vidas.

sábado, 22 de outubro de 2022

VIVEMOS TEMPOS DIFÍCEIS...

Vivemos tempos difíceis...

Onde os maiores absurdos se sucedem.

Onde a violência e a opressão ganham espaço.

Onde a mentira coloca um cabresto de medo em uma população ignorante.

Onde está o comunismo? Quando houve comunismo aqui no Brasil? Quando haverá?

Não houve. E provavelmente nunca haverá.

O que houve foram tempos melhores para os mais pobres. E os mais pobres sabem disto. Mas esta melhora temporária assustou nossas elites, as elites do meu país, as mais atrasadas do planeta.

Vivemos tempos difíceis...

O fascismo estende as suas garras.

Os preconceitos e as agressões são naturalizados.

Fanáticos se apegam a uma pauta de costumes e misturam religião na política.

Sequestraram os símbolos nacionais, bradam por liberdade, mas encontram-se aprisionados em seu próprio ódio.

Acreditam naquilo que querem acreditar. Constroem um universo paralelo. Negam a ciência. Seguem o seu mito. Cegos que seguem um insano.

Tanto que fizeram, tantas atrocidades, em uma escalada que só produziu um esgarçamento das instituições democráticas. Até o ponto em que o chamado “PIB” e a grande mídia perceberam que o casamento entre o ultraneoliberalismo e o fascismo não chegou aonde queriam.

Mas o que fazer agora com todo este povo enlouquecido? Atiçados por agentes que queriam e conseguiram voltar ao poder por meio de um golpe, continuam em seu frenesi. Porém agora estes mesmos agentes desejam se separar do fascismo. No entanto não sabem como descontaminar grande parcela da população. Ignoraram que mexer com estas coisas é muito perigoso...

Mas há uma saída, ainda há uma saída.

Acontecerá na hora do voto, naquele instante mágico.

Que neste momento...

O amor vença o ódio.

A esperança vença o medo.

A verdade vença a mentira.

O esclarecimento vença o preconceito.

A compaixão vença o egoísmo.

A democracia vença o autoritarismo.

A paz vença a violência... 

domingo, 25 de setembro de 2022

SIMPLIFICAÇÕES

Sabe, um dia desses estava pensando... Bem que o mundo podia ser bem mais simples e menos trabalhoso. Não, não se trata de preguiça, e vou provar isso para você, descrevendo o que pode ser chamado de uma nova concepção de vida, sob também novas leis da natureza.

A primeira simplificação seria com a alimentação ou, em outras palavras, com a obtenção de energia por parte de todos os seres vivos. É fácil observar que passamos grande parte do dia empregando esforços para conseguirmos nos alimentar. Começando pelo trabalho que, nos dias de hoje, infelizmente, para muitas pessoas nem está sendo suficiente para gerar recursos que proporcionem uma alimentação decente. Isso para os felizardos que conseguem algum emprego. Bom, mas isso é um outro assunto que fica para outra hora. Vamos sair da área social e voltar para a área científica ou, mais especificamente, para o campo da biologia. E vamos já dizer como poderia ser: sem necessidade de comer, simples assim. Obteríamos a energia de outra maneira, através do sol, por exemplo, como fazem as plantas, ou por meio de alguma conexão divina, captando as boas energias vindas do “Alto”. Pense nas vantagens... Se, por um lado, ficaríamos privados de saborear uma picanha suculenta, poderíamos ter alguma compensação prazerosa nesta tal conexão divina, sem falar que estaríamos livres de tudo aquilo que cerca a preparação dos alimentos: trabalho, tempo gasto, louça na pia, cozinha suja, etc. As refeições seriam bem mais rápidas, uns cinco ou dez minutos no máximo, o tempo suficiente para encher o nosso tanque de energia. Isso poderia ser feito individualmente ou em conjunto. Ou também, estou pensando em outras possibilidades agora, esta carga de energia poderia ser feita durante todo o dia, em uma espécie de Wi-Fi espiritual, ou ao longo da noite, enquanto estivéssemos dormindo. Sim, confesso que seria meio que sem graça, pois é durante as refeições que interagimos socialmente, principalmente quando nos alimentamos em festas, por exemplo. Mas olha, será que não compensaria um pouco de privação por uma vida com muito menos trabalho? Poderíamos encontrar outras maneiras de interação social e sobraria muito tempo para ser empregado em outras coisas... Além do que, desta maneira, ninguém passaria fome. Acredito que este último argumento seja o mais forte de todos...

A segunda simplificação que pensei envolve uma total mudança das condições atmosféricas do planeta, fazendo com que a temperatura, umidade e todas as condições climáticas fiquem dentro de padrões totalmente perfeitos. Imaginei que, desta maneira, poderíamos dispensar as roupas, ou usá-las apenas nas partes que desejássemos esconder... Menos vestimentas, menos trabalho em lavá-las, secá-las, passá-las, e outros “lás”... E aqui também teríamos outro ganho social: ninguém morreria de frio.

Foram estas as duas simplificações que imaginei. Pode parecer loucura pensar nestas coisas, mas será que é tão “fora da caixa” divagar nestas ideias? Ou parecem distantes por estarem, realmente, fora da nossa “caixa”? Bom, não pretendo aqui responder estas questões. Deixo somente as perguntas e repito a frase de Sócrates (não, não é o talentoso jogador de futebol e também doutor, mas sim o filósofo ateniense): “Só sei que nada sei”.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

DIA PRIMEIRO DE ABRIL

Enquanto subo a escada do sobrado onde moro, penso que esqueci o celular lá embaixo. No instante seguinte, percebo que está no bolso. Mais um instante, e minha mente toma consciência de que sou um ser que muito viveu na era pré-celular. Penso na década de 80, eu mais jovem, a gente vivia sem celular! Surge uma sensação de superioridade, pois sinto que todo o meu ser foi formado e viveu muito bem sem essa coisa, e isto me traz um outro sentimento, o de independência. Pude viver sem ele, e trago comigo este poder de ficar sem ele, ao contrário dos mais jovens, tão dependentes e que vivem na sombra desse aparelho. Foi mais ou menos isto o que aconteceu dentro de mim, em poucos degraus...

Alguns minutos depois, sob o chuveiro, vejo o dia que passou como se fosse um bloco, rápido e rotineiro. E ao mesmo tempo lembro que é primeiro de abril. "Poxa, passou todo o dia e eu não disse nenhuma mentira... Mas agora já passou da meia noite, já era...", este pensamento veio com um sentimento de perda, pois podia ter brincado, bolado uma mentira bem legal pra pregar em minha esposa, seria divertido.

Logo em seguida, um instante de comparação entre o momento atual e o passado. Antes era diferente, o dia primeiro de abril contrastava com os outros dias, pois naqueles outros dias não estávamos mergulhados em tantas mentiras ou, como se fala atualmente, fake news. O dia da mentira perdeu totalmente a exclusividade. Infelizmente, agora ficou um tanto sem graça usar a mentira para brincar, pois a gente vê tanta mentira por aí e, pior ainda, tantas pessoas acreditando nelas, que até pegamos raiva da mentira, queremos distância dela!

Mas tudo ficou pior com o celular! Espalhados em tantas mãos, formando infinitos canais de propagação de inverdades, muitas delas absurdas... Olha aqui o celular novamente, primeiro na escada e agora debaixo do chuveiro...

Depois destas filosofias de escada e de chuveiro, o que eu desejo é que volte o tempo em que o dia primeiro de abril era mais divertido, e que a gente viva mais longe das telas e próximo das verdades!

terça-feira, 26 de julho de 2022

MEU NOME É LIBERDADE

Meu nome é liberdade.

Ao mesmo tempo, atraio e assusto as pessoas. Quanto mais longe de mim, mais as atraio, e quanto mais perto estão, mais as assusto.

Também confundo os cidadãos, pois há aqueles que, em meu nome, cerceiam a liberdade de outros. Não entendem que sou como uma membrana entre os indivíduos: se alguém folga em me empurrar, faltará espaço para outro.

De um lado, posso estar bastante presente no pensamento e no coração leves de quem se encontra preso e, de outro lado, falto para aquelas mentes atormentadas, apesar de habitarem seres livres. A minha presença liberta os cativos e a minha ausência prende os livres.

Alguns me usam para justificar seus excessos. Reivindicam a minha posse e, em seu egoísmo e ganância, não querem me dividir com mais ninguém.

Nas ruas, festejam-me em danças frenéticas de bandeiras e flâmulas, enquanto no círculo doméstico, muitas vezes, sou açoitada.

Há lugares no mundo em que não deixam que eu esteja entre as mulheres, ou entre os negros, ou entre aqueles considerados de uma casta inferior, ou entre os pobres, aprisionados em sua miséria.

Eu deveria ser usada como um instrumento de igualdade. Mas me usam de modo egoísta, provocando desigualdades e alimentando um ciclo interminável de tensões.

Acho que a humanidade ainda está imatura para poder me usar da maneira correta e na plenitude que mereço. Mas não ligo, continuarei acompanhando a trajetória dos humanos, na esperança de um futuro melhor!

Meu nome é liberdade.

domingo, 19 de junho de 2022

ESCREVER

Chegou a hora de escrever. E cá estou eu, exercitando esta arte, tentando manter uma frequência média de um texto por mês...

Mas escrever sobre o quê?

Estamos mergulhados em um governo insano, para o qual não consigo encontrar todos os adjetivos para desqualificá-lo... Mas não quero escrever sobre isso. Estou cansado de sofrer ao ver tantas coisas erradas e, escrever sobre elas, somente revolve indignações e angústias.

Precisamos de leveza na vida, de histórias inspiradoras... Mas agora não me ocorre nenhuma ideia neste sentido.

As pessoas leem muito pouco, estamos todos sujeitos a um novo tipo de comunicação, com muitas imagens e poucas palavras, essencialmente visual, onde parece não haver mais espaço para algo além de um curto parágrafo... Mas eu não quero escrever somente um curto parágrafo. E, mesmo que quisesse, sei lá o que colocaria nele.

Abro a mente para alguma inspiração, que não vem, e nada acontece... Penso sobre o passado, sobre o tempo que está passando muito rápido, sobre o tempo que esfriou... E nada.

Nenhum acontecimento cotidiano que mereça ser retratado por meio de uma crônica... São os acontecimentos que se repetem monotonamente ou sou eu que não consigo ver o colorido neles?

E você, do outro lado, o que quer ler? Devo escrever o que você quer ler ou aquilo que eu quero? Um texto existe sem que ninguém o leia? São perguntas meio doidas, né? Ou não...

Pois é, desta vez está difícil. Não estou chegando a lugar algum. Então acho que é melhor não escrever nada.

Mas, agora, já está escrito!

sábado, 28 de maio de 2022

FASCISMO

Fascismo é quando uma minoria violenta domina uma maioria assustada.

O Brasil está passando por uma fase muito difícil. Muitas coisas terríveis estão acontecendo. Coisas que deveriam parar o país. Mas continuamos. Uma manifestação aqui e outra acolá. E tudo se esvai quando outra coisa terrível acontece. E o terrível vai se normalizando. E vamos todos nos anestesiando.

Como podemos continuar ao ver uma pessoa ser assassinada à luz do dia, por policiais que não se intimidam de ser filmados neste ato criminoso, com requinte de crueldade, submetendo a vítima a uma câmara de gás improvisada no porta-malas da viatura?

Esta notícia correu o mundo. Mais uma a rebaixar ainda mais a nossa imagem lá fora. E o que a gente faz aqui dentro?

Temos que nos indignar, canalizando toda a revolta para uma resistência pacífica, aos moldes de Gandhi. E usarmos o nosso voto, nas eleições deste ano, como instrumento de mudança para uma situação melhor.  

Mas temos que ter cuidado.

Tem gente que quer bagunçar tudo. Como uma criança imatura que não sabe perder, quer virar o tabuleiro, esparramar todas as peças, espernear e dizer que está sendo roubado.

Uma minoria violenta está disposta a seguir o seu mito até às últimas consequências. Eles estão armados. Devidamente armados pelo mito.

É a minoria violenta que quer assustar e dominar a maioria. É o fascismo tentando estender as suas garras.

As instituições não combateram e não combatem como se deve esta séria ameaça. Fazem vista grossa.

E eu só não vejo a hora de o nosso país sair deste estado lastimável em que se encontra...

Fascismo é quando uma minoria violenta domina uma maioria assustada.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

MOMENTOS ÚNICOS

Andando no parque linear da Kennedy, em São Caetano, pouco depois do anoitecer, ouço crianças que se aproximam atrás de mim. Estão correndo, muito alegres, falando coisas que não dá para entender, mais riem do que falam. Lembro-me que já fiquei assim contente em minha infância, rir sem motivo, junto com amigos, risada contagiante... Sinto, junto com elas, a liberdade que desfrutam, tanto espaço pela frente, no qual elas mergulham com movimentos descoordenados, explosão de felicidade.

Não me viro para vê-las, mas nem é preciso, pelo que ouço, consigo imaginar perfeitamente a cena! Havia acabado de ultrapassá-las, um menino e uma menina, junto aos pais, eu acho, formando um grupo de três adultos e duas crianças, se não me engano. Suas risadas e palavras que só elas entendem, e as passadas na corrida tentando me alcançar, ou simplesmente correr para festejar a alegria de passear com a família com o mundo inteiro ao redor... Não é preciso ver para ver a cena...

E logo outra cena bonita surge, desta vez diante dos meus olhos: um cachorrinho passeando, na frente do humano que o conduz com a coleira. O animalzinho parece sorrir.

Meu astral se sintoniza com a felicidade do momento. Vejo as flores preenchendo os canteiros que seguem ao lado do caminho das pessoas. As pessoas... Cada uma delas, cada um de nós pode ver e sentir esta alegria nas coisas... Ou não... É questão de sintonia...

Há momentos que são únicos. Bons de viver. Que eu possa sempre estar preparado para não os deixar passar sem os perceber.

sexta-feira, 18 de março de 2022

EXATOS DOIS ANOS DE 100% HOME OFFICE!!!

Hoje completo exatos dois anos de 100% home office! Nenhum dia, nem sequer um minuto de trabalho presencial!

Olha, nunca pensei que fosse me adaptar tão bem ao esquema de trabalho remoto... São muitas as vantagens e, a principal delas, é o tempo ganho ao deixar de me deslocar para o serviço. Aproximadamente três horas que ganhei por dia!

Em meio a tantas coisas ruins, na verdade mesmo terríveis, vindas com a pandemia, não podemos deixar de admitir que ela nos colocou em uma nova ordem em termos de dinâmica de trabalho. Veio meio que a fórceps. Aqui e acolá apareciam os trabalhos remotos. Mas eram poucos, muito poucos diante da tecnologia que já proporcionava, há muito tempo, as condições necessárias para a concretização do home office. Mas havia uma desconfiança de colocar os colaboradores em um esquema que parecia ser tão solto... Então veio a pandemia para dizer assim: "Ou vai ser trabalho remoto, ou não vai ser nada!".

E depois de o home office nascer assim, a fórceps, conforme esse "garotão" foi crescendo, muitos empresários viram que ele tinha um futuro promissor. Não viera simplesmente para reagir ao avanço da pandemia, mas sim para ficar. Quer seja 100% ou em um esquema híbrido, misturando o trabalho remoto com o presencial, não há como negar que o home office é uma realidade hoje no mercado de trabalho, principalmente na área de TI.

Então, no dia 18/03/2020, quando comecei a trabalhar em casa, nunca imaginava que a coisa se prolongaria por tanto tempo... Pensava-se que daríamos conta da pandemia em no máximo no tempo de uma quarentena, afinal, não eram os tais quarenta dias que resolviam quaisquer problemas em termos de contaminação? Mas não sabíamos que estávamos diante de uma pandemia bastante agressiva...

Porém, agora, já consigo imaginar como será o futuro: minha casa continuará sendo também o meu ambiente de trabalho! Quer seja 100% ou em esquema híbrido, terei os maravilhosos dias nos quais eu chego ao serviço em poucos segundos!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

TUDO DOIS


    Acabei de copiar a tela de um site que fornece a hora certa. Fico admirando o instante único:

“Horário de Brasília – Terça-feira, 22 de fevereiro de 2022 – 22:22:22”.

Tudo dois! Reparo que ainda faltou um dois, o do mês fevereiro. Contando com este, são doze: 12. E neste resultado apareceu outro dois.

Quando hoje, em minha caminhada após o serviço, estava pensando em escrever este texto repleto de dois, eis que caem, da árvore pela qual passava por baixo, duas folhas, uma após a outra. Será que entre as duas se passaram dois segundos? Logo pensei que este ínfimo fato, que passaria despercebido em qualquer outro momento, merecia constar em meu texto. E aqui está...

A data de hoje é palíndroma: 22/02/2022. É a mesma quando lida dos dois lados. E vasculhando a internet descobri que também é um ambigrama, porque os números 2 e 0 podem ser lidos de cabeça para baixo, sem alteração de sentido, quando são iguais àqueles usados em relógios eletrônicos, com o chamado display de sete segmentos.

A próxima vez que isto vai acontecer, data palíndroma que também é um ambigrama, segundo o artigo que consultei, será somente em 05/02/2050. Será que eu passarei por uma data assim novamente? Tomara que sim! Oitenta e cinco anos de idade!

domingo, 23 de janeiro de 2022

2022

2022 veio com tudo! Logo na virada, a entrada neste novo ano já foi bastante atípica: eu, meu filho e a cachorra dele, em uma clínica veterinária. Nós estávamos em pé, amparando-a na maca. O motivo foi o enorme estrondo de um rojão, horas antes, que provocou uma espécie de estado de choque na cadelinha. Olhei para o relógio e constatei que faltava menos de um minuto para 2022. Esperamos e nos cumprimentamos, com o tradicional “feliz ano novo”. Só nós três, dois humanos e uma canina, foi assim que comecei o ano.

Mas não parou por aí... Apesar de a pandemia continuar, a bruxa saiu do isolamento. Vamos à lista de incidentes, que já acumula um considerável número de ocorrências. E olha que ainda falta mais de uma semana para terminar o primeiro mês.

Logo no dia 6, tive a minha primeira experiência de algo que esperava nunca ter que enfrentar. Bom que eu me esforcei para escapar. Há muitos anos, mais que isso, há décadas que venho tomando água regularmente e em boa quantidade, na esperança de não ter que passar por uma crise de cólica renal. Este hábito foi decorrência de uma visita que fiz a um de meus irmãos, quando o encontrei em estado lastimável, vomitando de dor. Cheguei na hora certa e o socorri. E restou a determinação de hidratar bastante o corpo para não ter que sofrer como ele. Mas não foi suficiente. Aconteceu comigo também. Para quem não tem a dimensão do tamanho dessa dor, acho que dá para explicar para boa parte da metade das pessoas. Eu diria que é assim, é como uma bolada no saco, só que dói nas costas, região lombar, no meu caso foi do lado direito. Uma bolada no saco que não passa, contínua. Não cheguei a vomitar, mas por duas vezes, quando a dor ficou ainda mais intensa, senti ânsia e cheguei perto de botar tudo pra fora. Por sorte não durou muito, cerca de uma hora e meia. Quando estava para tomar a medicação na veia, na poltrona da enfermaria do hospital, a dor já havia passado. Deu uma grande aliviada quando nos aproximávamos do hospital. Com minha esposa no volante, eu procurava somente uma maneira de suportar o sofrimento. Foi então que resolvi colocar a mão sobre o centro da dor e fazer aquilo que se chama como autopasse... Deu certo! Acho que foi nessa hora que a pedra saiu do canal que vem do rim e entrou na bexiga. Se minhas energias, ou a breve elevação do pensamento que procurei fazer, ou alguma coisa do “outro lado” que tenha me ajudado, ou simplesmente a coincidência de buscar este recurso justamente no momento em que a pedra, em seu curso normal, saiu da região em que provoca as terríveis cólicas... Explicações e conclusões deixo para você, leitora, ou leitor, ou leitorx...

Logo depois, passamos pela aflição e padecimento de minha filha. Um dos seus molares do lado direito rachou. Há um tempo atrás, o equivalente do outro lado, na mesma arcada inferior, também havia rachado. Os dois do mesmo jeito, da ponta até a raiz, sem recuperação. Resultado: mais um implante.

A próxima visita da bruxa foi lá em Pato Branco, a mais de 800 quilômetros daqui de São Caetano. Mas o que é essa distância para sua vassoura supersônica? Pegou meu filho com uma dor de barriga danada. Desarranjou o intestino e provocou uma leve febre. O teste de Covid deu negativo.

Mas se lá deu negativo, aqui deu positivo, com o namorado de minha filha. Começou o ano com sintomas, dor de garganta, sensação de febre. Isolou-se por duas semanas, mas depois, quando veio um quadro de sinusite a acompanhar a tosse que ainda continuava, buscou atendimento médico e fez o tal exame que positivou. O resultado saiu ontem e, como ele esteve no fim de semana passado aqui em casa, amanhã minha filha fará o teste também. Vamos ver no que vai dar. Mas estamos todos bem, sem sintoma algum. Acho que quando ele veio aqui já não mais estava transmitindo...

Com a minha sogra a bruxa também marcou presença. Tratou de empurrá-la, fazendo-a cair, machucando o cotovelo e o joelho. E não deixou de atingir também o nosso cachorro, que também teve um começo de ano difícil, com uma crise de dor em seus bicos de papagaio, acompanhada de vômitos e inapetência. Chegou até a ficar internado.

Acho que, por enquanto, é só.

(...)

Opa! Estava esquecendo... No dia 11 roubaram meu celular. Um bando de jovens, no mínimo eram uns três de bicicleta e outros quatro a pé, cercaram-me em minha caminhada. Queriam só o celular. Então dei o aparelho, sem oferecer resistência.

E para completar o quadro de incidentes, a sogrinha fez uma cintilografia e o exame apontou uma isquemia no coração, com indicação para a realização de cateterismo. Mas isto pode ser encarado até como uma boa notícia, pois a medicina preventiva age assim mesmo, nos mostra os problemas antes que eles aumentem e nos surpreendam. Antes disso vamos tomando as medidas para garantirmos uma saúde e qualidade de vida melhores.

A gente brinca, fala que a bruxa está solta, mas no fundo entende que isto tudo pertence ao rol de coisas “normais”, afinal, quem não passa por problemas? É que o problema dos problemas é que geralmente eles vêm como uma tropa de choque, todos juntos.

Mas tudo bem, porque, se formos comparar, perto das coisas terríveis que estão acontecendo, principalmente em nosso país, com o desgoverno reinante, até que por aqui estamos todos bem. E, para quem acha que eu não precisaria ter misturado os acontecimentos familiares com a política, tenho a dizer que eu não poderia deixar de dizer, entende? Olhamos lá fora e vemos a pandemia ganhar força, em grande parte pelo governo jogar contra. Contra a vacina, especialmente para as crianças. Contra o meio ambiente. Contra o emprego. Contra a estabilidade econômica. Contra a ciência. Contra a educação e a cultura. Contra a verdade. Contra a paz. Contra o povo, principalmente os mais simples e necessitados. É o governo da morte e da destruição, que faz de tudo para chegar ao seu objetivo final, de terra arrasada.

Então, se este 2022 não começou muito bem para mim e meu círculo familiar mais próximo, sei, infelizmente, que para muitas outras pessoas, vítimas mais diretas das ações e inações governamentais, o cenário é intensamente mais sombrio.

Depois de dizer tudo isto, não sei se devo finalizar o texto com um “feliz 2022!”. Talvez seja mais adequado desejar “feliz 2023!”. Com a esperança de elegermos um presidente e congresso bem melhores. E com a bruxa má amarrada em um canto qualquer!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

NARRATIVAS

De vez em quando certas palavras ficam na moda. Agora é a vez da “narrativa”. Tudo é narrativa. Quando o sujeito não concorda com o que o outro fala, diz que está sendo vítima de determinada narrativa. E parece que não concordar é o lema da atualidade. Mas a coisa está tomando dimensões enormes e saindo fora do controle...

Um aluno do ensino fundamental, naquele período da pré-adolescência, questiona a explicação da professora de ciências, alegando que essa história de dizer que a Terra é redonda, não passa de uma narrativa tendenciosa, de quem quer impor o seu modo de pensar sobre os outros. Sim, porque ele não acredita nisso e tem todo o direito de crer que a Terra é plana!

Outra narrativa bastante contestada atualmente é aquela que apoia a vacinação em massa como o principal meio de combater a pandemia que estamos atravessando. Aliás, muitos acreditam que a própria pandemia é uma narrativa.

É neste ponto que eu fico a pensar que tudo aquilo que é contrário ao que o indivíduo pensa é classificado de duas maneiras. É rotulado de fake news ou, caso seja algo maior, envolvendo um contexto mais elaborado, ganha a segunda denominação possível: narrativa.

A internet e as redes sociais criaram inúmeras bolhas de pensamento e, infelizmente, algumas destas bolhas rebatem tudo aquilo que contesta as suas ideias e certezas dentro deste raciocínio irracional, rotulando tudo como fake news ou narrativa.

Nada escapa. Ciência, medicina, história, todo o conhecimento humano deve se curvar perante a ignorância.

É o triunfo da bestialidade sobre a civilização!

Mas, sob certo ponto de vista, eles estão certos. É tudo uma grande narrativa. Vivemos uma enorme narrativa de terror mesmo!

sábado, 27 de novembro de 2021

É TEMPO DE NATAL, E DE OUTRAS COISAS TAMBÉM...

Na minha caminhada, após mais um dia de home office, vejo luzes e enfeites, lembretes de que é tempo de Natal...

 Poxa, o tempo está meio estranho...

 Não é o tempo climático, mas sim o temporal. Digo, não o temporal climático, mas sim o que tem a ver com o passar do tempo. Acho que agora ficou menos confuso. As palavras nos dão nós e brincam com a gente. Nós que nos atam, deu pra perceber que um acento muda tudo? Não o com dois "s", pois este não muda nada, muito pelo contrário, serve só para acomodar os nossos glúteos, deixando tudo como está...

 Mas eu dizia que o tempo está estranho. Verdade verdadeira. Porém esta expressão também é estranha: verdade verdadeira. Pois se é realmente verdade, desnecessário dizer que é verdadeira. No entanto vivemos tempos das mentiras verdadeiras, as chamadas “fake news”. Tempos estranhos...

 E a gente estranha todas as coisas que parecem que estão fora do tempo certo. Por exemplo, neste ano que passou, tanto se falou em eleição, mas não foi ano eleitoral. Tá tudo muito insanamente adiantado. Aliás, o sujeito, desde que entrou, só está pensando na próxima eleição. Tempos estranhos...

 E a gente não sabe se a pandemia começou neste ano ou no passado. Tudo tão rápido, tudo tão igual. E o tal do vírus foi batizado com o ano retrasado: 19. Covid-19. Já não sei mais nada. Só sei que vivemos tempos estranhos...

 Mais que estranhos, tempos de ódio, preconceito e perseguição. As ideias são perseguidas, as palavras são atacadas por outras palavras. Escrever e pensar virou um jogo perigoso. E a gente se pergunta: quanto tempo isto vai durar?

 Mas é tempo de inaugurar um novo tempo nestes tempos. O negacionismo não sufoca a Arte. Há luz no fim do túnel!

 Se não há túnel, o artista o faz, abrindo um caminho para escapar deste inferno. E se não há luz no fim dele, a Arte iluminará.

 No ventre de todos estes tempos sombrios, um novo tempo está sendo gerado. Impossível conter.

 Mais do que tempo de Natal, é tempo de outros tempos...

sábado, 30 de outubro de 2021

MILIONÁRIOS

O assunto é o quanto a gente ganhava antigamente. Então eu, para ilustrar a conversa, vou em busca do pacote onde guardo todos os meus holerites. De volta à sala, exibo o calhamaço de papéis e digo: "Olha o tanto de holerite que eu tenho! E ainda faltam quatro anos para eu me aposentar!".

O "genrão" faz uma conta rápida e rebate: "Sogrão, mais 48 desses e você já se aposenta!".

Sento e começo minha procura pelos pagamentos da época em que trabalhava como programador de computador no CREA-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo). Sei que são deste tempo os valores mais expressivos. Mês a mês vou comparando as quantias. Até que chego na maior, logo antes de um corte de três zeros.

Encho o peito para dizer a estupenda cifra que consta no campo "Salário Base": 39.263.301,00. Mais de 39 milhões! Sei lá que moeda é essa!

Os mais velhos, eu e minha esposa, comentamos sobre coisas que os mais jovens, nossa filha e seu namorado, nunca viram... Os preços só valiam para a semana. Na seguinte já aumentavam. Geralmente se ouvia: "Na segunda-feira vai aumentar!". Além de ser uma verdade, era uma maneira de assegurar a venda.

Eu com os holerites e ela com a carteira de trabalho. Lembranças do passado. Constato que foi justamente neste mês do recorde numérico em meu salário base que casamos. Ela, compradora internacional, ganhava mais do que eu. Se eu já contava com algumas dezenas de milhões, imagine a renda conjunta dos noivos! Casamento milionário!

Como resultado dessas recordações, volto ao presente com uma afirmação sobre o meu futuro: "Eu ainda voltarei a ganhar isso!".

E, logo em seguida, arremato: "Não pelo meu mérito, mas sim por esse nosso governinho desgraçado de ruim, que está se empenhando em fazer com que isso aconteça!".

Hiperinflação, eu já te conheço!

terça-feira, 5 de outubro de 2021

DOR

Momento: eu voltando com o carro da minha filha, após ter feito a revisão na concessionária.

Momento mais específico: farol fechado à frente, carros parados, eu paro também, um jovem magro e alto andando entre os veículos, mostrando um papelão menor que uma folha sulfite.

Duas palavras escritas no papelão: fome dói.

Minha atitude: procuro a bolsa, já preparada para estas frequentes ocasiões, pego um achocolatado e um pacotinho de bolacha, ofereço.

Reação do rapaz: recebe minha pequena doação e, com um sorriso no rosto, agradece.

Meus pensamentos após este acontecimento: atualmente, muita coisa, infelizmente, dói...

Miséria dói.

Desemprego dói.

Inflação dói.

Pandemia dói.

Negacionismo dói.

Corrupção dói.

Desmatamento dói.

Violência dói.

Injustiça dói.

Preconceito dói.

Ignorância dói.

Desprezo dói.

Racismo dói.

Autoritarismo dói.

Petulância dói.

E a maior dor é não saber por quanto tempo isso tudo vai doer.

domingo, 29 de agosto de 2021

SEM RESPIRAR

Faz muito tempo. Aconteceu em alguma noite no começo da década de 90, quando era praticante de tai chi chuan. Primeiro o mestre falou para respirarmos muito rapidamente. E assim ficamos, por um bom tempo, neste processo de hiperoxigenação. Até que ele disse para inspirarmos profunda e lentamente, e então segurarmos a respiração. Prosseguiu dizendo que era para nós imaginarmos que estávamos fazendo a respiração fetal, sem necessidade de ar, mentalizando um fluxo subindo e descendo, entre dois pontos, não me lembro exatamente quais, só sei que eram na parte inferior do tronco.

Fiquei envolvido por esta experiência. Fui fundo, acreditei na tal respiração fetal. Sentia que despertava algo que, de alguma maneira, nutria-me e suplantava a necessidade de usar os pulmões. É lógico que, nos minutos anteriores, saturei-me de oxigênio, o que tornou mais fácil a tarefa de prender o ar.

Os segundos foram passando e eu mantinha a concentração no fluxo imaginário que subia e descia. Não, não era imaginário! Estranha e incrivelmente percebia que este processo estava me levando a uma marca nunca antes alcançada. Sem necessidade de voltar a usar os pulmões, relaxado, o tempo avançava e eu, com certeza, havia entrado em um estado diferente de tudo que vivi até aquele momento, ou depois.

“O mestre ainda não falou para soltarmos o ar e voltarmos a respirar. Mas já passou muito tempo!”. O intelecto brigava contra o inacreditável fato de o meu corpo haver aposentado os pulmões. O cérebro não entendia o que estava acontecendo. Mas eu continuava no sobe e desce do fluxo e, por incrível que pareça, não sentia necessidade de respirar.

Não sei definir quanto tempo assim fiquei. Só sei que foi muito. E que voltei a respirar mais por uma necessidade intelectual do que por uma real necessidade de ar, dando a impressão de que poderia ficar naquele estado indefinidamente. Muito estranho. Não ouvi o mestre dizer para soltarmos o ar ou voltarmos a respirar. Acho que ele queria que cada um chegasse ao seu limite ou descobrisse novas fronteiras. Ou simplesmente esqueceu de dar o comando para que voltássemos a usar os pulmões, e cada um foi voltando quando quis, ao seu tempo.

Esta experiência foi muito marcante. E agora, umas três décadas após o ocorrido, percorri a internet em busca de alguma explicação fisiológica. O que consegui encontrar de nada ajudou, pois a única coisa que ficou clara foi a grande diferença entre o mecanismo de oxigenação do sangue antes e depois do nascimento. Dentro do útero, nada de subir e descer na região mentalizada na aula de tai chi. Sem cordão umbilical e placenta, não há como retroceder à “respiração” fetal para suprir o não uso dos pulmões.

Porém seria interessante que a ciência se debruçasse sobre estas coisas estranhas. Afinal, acho que não sou o único que viveu ou viu por perto algo inexplicável, não é mesmo?

quinta-feira, 22 de julho de 2021

MANUAL DO PÉSSIMO LÍDER – OS 10 MANDAMENTOS

I – Não se choque com o título deste manual. Não dê importância para o adjetivo “péssimo”. Isto não é relevante, pois o que conta mesmo é liderar, ter muitas e muitas pessoas sob o seu domínio absoluto! Multidões na palma da mão!

II – Primeiramente você precisa saber quem vai liderar. Qual parcela do povo dominará. Aconselho que seja aquela parte mais ignorante, bestializada, rude e preconceituosa. E porque não dizer, idiota. Concentre seus esforços nesta parcela da população.

III – É preciso construir uma imagem. A imagem do líder. A que tem apresentado os melhores resultados é a do “idiota negacionista”.

IV – Mesmo que você tenha certo grau de inteligência, terá que manter a personalidade de idiota, fazendo loucuras. É uma vantagem ser líder deste jeito, porque assim vai se comunicar diretamente com aqueles idiotas que lhe seguem, uma massa de povo acéfala, com a garantia de que nunca questionarão os seus atos.

V – Não se preocupe, idiotas sempre existem, em qualquer lugar. Infelizmente sempre existem. Ou felizmente porque, para um péssimo líder, é a massa de manobra perfeita. E como se aumenta este contingente de pessoas? É instigando preconceito, ódio, guerra, superioridade de uns sobre outros, desunião... Isto tudo, se você incentivar, insuflará toda essa massa idiota, raivosa e preconceituosa que estará sempre ao seu lado. Isto é maravilhoso! Isto funciona!

VI – Se você tem inteligência e algum bom senso, faça de conta que não tem, porque para liderar os idiotas tem que ser idiota. Tem que ser negacionista, falar atrocidades, incentivar o ódio, isto tudo tem que ser feito. Critique a inteligência, desafie os inteligentes, porque é um perigo tê-la na sociedade, pois pode destruir o reinado do péssimo líder.

VII – Ao liderar boas pessoas, íntegras, que cultivam a democracia, educação e respeito, elas vão questionar os seus atos. Qualquer erro será questionado. A garantia está em liderar os idiotas, raivosos e preconceituosos. São muito mais fiéis. É só estimular todo o ódio que eles têm no coração, o preconceito, e destruir tudo que estiver à sua frente. Faça um governo destruidor, porque é muito mais fácil destruir do que construir. Culpe os governos anteriores. Sempre fale que está destruindo, derrubando para construir algo melhor. Mas não precisa construir nada! É só derrubar, destruir, e insuflar a massa que lhe sustenta com ódio e preconceito.

VIII – Escolha o momento certo para assumir a liderança. Os países, as nações, podem passar por períodos em que a política é desacreditada, ou até demonizada. Estas são excelentes oportunidades. Geralmente depois de um golpe, da derrubada de um governo... E nem se preocupe em derrubar, pois muitas vezes, quem derruba o governo limpa o caminho para você! O péssimo líder!

IX – Enquanto o momento certo não aparecer, forme o seu povo, nutra-o com muito ódio e preconceito. Tenha sempre um inimigo à frente. Direcione-os no combate ao inimigo. Quanto mais inimigos melhor! E não se esqueça de armá-los, pois eles lutarão por você no caso de as instituições ou a democracia conseguirem derrubá-lo.

X – Fique atento aos interesses das classes sociais dentro dos jogos de poder. Você pode ser útil para derrubar algum inimigo em comum. Pensarão que você está com eles e você fingirá estar. Eles lhe ajudarão a subir ao poder. Mas depois que conseguir, faça o possível para instaurar uma ditadura. É mais seguro, pois ajudará a conter aqueles que não estão sintonizados com sua liderança.

(...)

Se você chegou até aqui, devo lhe confessar algo. Senti-me um tanto mal em escrever coisas tão pesadas... Mas, na verdade, este não é um manual do péssimo líder, mas sim do bom cidadão, para evitar que caiamos nas mãos de terríveis lideranças que insistem em aparecer na história da humanidade.