domingo, 23 de janeiro de 2022

2022

2022 veio com tudo! Logo na virada, a entrada neste novo ano já foi bastante atípica: eu, meu filho e a cachorra dele, em uma clínica veterinária. Nós estávamos em pé, amparando-a na maca. O motivo foi o enorme estrondo de um rojão, horas antes, que provocou uma espécie de estado de choque na cadelinha. Olhei para o relógio e constatei que faltava menos de um minuto para 2022. Esperamos e nos cumprimentamos, com o tradicional “feliz ano novo”. Só nós três, dois humanos e uma canina, foi assim que comecei o ano.

Mas não parou por aí... Apesar de a pandemia continuar, a bruxa saiu do isolamento. Vamos à lista de incidentes, que já acumula um considerável número de ocorrências. E olha que ainda falta mais de uma semana para terminar o primeiro mês.

Logo no dia 6, tive a minha primeira experiência de algo que esperava nunca ter que enfrentar. Bom que eu me esforcei para escapar. Há muitos anos, mais que isso, há décadas que venho tomando água regularmente e em boa quantidade, na esperança de não ter que passar por uma crise de cólica renal. Este hábito foi decorrência de uma visita que fiz a um de meus irmãos, quando o encontrei em estado lastimável, vomitando de dor. Cheguei na hora certa e o socorri. E restou a determinação de hidratar bastante o corpo para não ter que sofrer como ele. Mas não foi suficiente. Aconteceu comigo também. Para quem não tem a dimensão do tamanho dessa dor, acho que dá para explicar para boa parte da metade das pessoas. Eu diria que é assim, é como uma bolada no saco, só que dói nas costas, região lombar, no meu caso foi do lado direito. Uma bolada no saco que não passa, contínua. Não cheguei a vomitar, mas por duas vezes, quando a dor ficou ainda mais intensa, senti ânsia e cheguei perto de botar tudo pra fora. Por sorte não durou muito, cerca de uma hora e meia. Quando estava para tomar a medicação na veia, na poltrona da enfermaria do hospital, a dor já havia passado. Deu uma grande aliviada quando nos aproximávamos do hospital. Com minha esposa no volante, eu procurava somente uma maneira de suportar o sofrimento. Foi então que resolvi colocar a mão sobre o centro da dor e fazer aquilo que se chama como autopasse... Deu certo! Acho que foi nessa hora que a pedra saiu do canal que vem do rim e entrou na bexiga. Se minhas energias, ou a breve elevação do pensamento que procurei fazer, ou alguma coisa do “outro lado” que tenha me ajudado, ou simplesmente a coincidência de buscar este recurso justamente no momento em que a pedra, em seu curso normal, saiu da região em que provoca as terríveis cólicas... Explicações e conclusões deixo para você, leitora, ou leitor, ou leitorx...

Logo depois, passamos pela aflição e padecimento de minha filha. Um dos seus molares do lado direito rachou. Há um tempo atrás, o equivalente do outro lado, na mesma arcada inferior, também havia rachado. Os dois do mesmo jeito, da ponta até a raiz, sem recuperação. Resultado: mais um implante.

A próxima visita da bruxa foi lá em Pato Branco, a mais de 800 quilômetros daqui de São Caetano. Mas o que é essa distância para sua vassoura supersônica? Pegou meu filho com uma dor de barriga danada. Desarranjou o intestino e provocou uma leve febre. O teste de Covid deu negativo.

Mas se lá deu negativo, aqui deu positivo, com o namorado de minha filha. Começou o ano com sintomas, dor de garganta, sensação de febre. Isolou-se por duas semanas, mas depois, quando veio um quadro de sinusite a acompanhar a tosse que ainda continuava, buscou atendimento médico e fez o tal exame que positivou. O resultado saiu ontem e, como ele esteve no fim de semana passado aqui em casa, amanhã minha filha fará o teste também. Vamos ver no que vai dar. Mas estamos todos bem, sem sintoma algum. Acho que quando ele veio aqui já não mais estava transmitindo...

Com a minha sogra a bruxa também marcou presença. Tratou de empurrá-la, fazendo-a cair, machucando o cotovelo e o joelho. E não deixou de atingir também o nosso cachorro, que também teve um começo de ano difícil, com uma crise de dor em seus bicos de papagaio, acompanhada de vômitos e inapetência. Chegou até a ficar internado.

Acho que, por enquanto, é só.

(...)

Opa! Estava esquecendo... No dia 11 roubaram meu celular. Um bando de jovens, no mínimo eram uns três de bicicleta e outros quatro a pé, cercaram-me em minha caminhada. Queriam só o celular. Então dei o aparelho, sem oferecer resistência.

E para completar o quadro de incidentes, a sogrinha fez uma cintilografia e o exame apontou uma isquemia no coração, com indicação para a realização de cateterismo. Mas isto pode ser encarado até como uma boa notícia, pois a medicina preventiva age assim mesmo, nos mostra os problemas antes que eles aumentem e nos surpreendam. Antes disso vamos tomando as medidas para garantirmos uma saúde e qualidade de vida melhores.

A gente brinca, fala que a bruxa está solta, mas no fundo entende que isto tudo pertence ao rol de coisas “normais”, afinal, quem não passa por problemas? É que o problema dos problemas é que geralmente eles vêm como uma tropa de choque, todos juntos.

Mas tudo bem, porque, se formos comparar, perto das coisas terríveis que estão acontecendo, principalmente em nosso país, com o desgoverno reinante, até que por aqui estamos todos bem. E, para quem acha que eu não precisaria ter misturado os acontecimentos familiares com a política, tenho a dizer que eu não poderia deixar de dizer, entende? Olhamos lá fora e vemos a pandemia ganhar força, em grande parte pelo governo jogar contra. Contra a vacina, especialmente para as crianças. Contra o meio ambiente. Contra o emprego. Contra a estabilidade econômica. Contra a ciência. Contra a educação e a cultura. Contra a verdade. Contra a paz. Contra o povo, principalmente os mais simples e necessitados. É o governo da morte e da destruição, que faz de tudo para chegar ao seu objetivo final, de terra arrasada.

Então, se este 2022 não começou muito bem para mim e meu círculo familiar mais próximo, sei, infelizmente, que para muitas outras pessoas, vítimas mais diretas das ações e inações governamentais, o cenário é intensamente mais sombrio.

Depois de dizer tudo isto, não sei se devo finalizar o texto com um “feliz 2022!”. Talvez seja mais adequado desejar “feliz 2023!”. Com a esperança de elegermos um presidente e congresso bem melhores. E com a bruxa má amarrada em um canto qualquer!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

NARRATIVAS

De vez em quando certas palavras ficam na moda. Agora é a vez da “narrativa”. Tudo é narrativa. Quando o sujeito não concorda com o que o outro fala, diz que está sendo vítima de determinada narrativa. E parece que não concordar é o lema da atualidade. Mas a coisa está tomando dimensões enormes e saindo fora do controle...

Um aluno do ensino fundamental, naquele período da pré-adolescência, questiona a explicação da professora de ciências, alegando que essa história de dizer que a Terra é redonda, não passa de uma narrativa tendenciosa, de quem quer impor o seu modo de pensar sobre os outros. Sim, porque ele não acredita nisso e tem todo o direito de crer que a Terra é plana!

Outra narrativa bastante contestada atualmente é aquela que apoia a vacinação em massa como o principal meio de combater a pandemia que estamos atravessando. Aliás, muitos acreditam que a própria pandemia é uma narrativa.

É neste ponto que eu fico a pensar que tudo aquilo que é contrário ao que o indivíduo pensa é classificado de duas maneiras. É rotulado de fake news ou, caso seja algo maior, envolvendo um contexto mais elaborado, ganha a segunda denominação possível: narrativa.

A internet e as redes sociais criaram inúmeras bolhas de pensamento e, infelizmente, algumas destas bolhas rebatem tudo aquilo que contesta as suas ideias e certezas dentro deste raciocínio irracional, rotulando tudo como fake news ou narrativa.

Nada escapa. Ciência, medicina, história, todo o conhecimento humano deve se curvar perante a ignorância.

É o triunfo da bestialidade sobre a civilização!

Mas, sob certo ponto de vista, eles estão certos. É tudo uma grande narrativa. Vivemos uma enorme narrativa de terror mesmo!

sábado, 27 de novembro de 2021

É TEMPO DE NATAL, E DE OUTRAS COISAS TAMBÉM...

Na minha caminhada, após mais um dia de home office, vejo luzes e enfeites, lembretes de que é tempo de Natal...

 Poxa, o tempo está meio estranho...

 Não é o tempo climático, mas sim o temporal. Digo, não o temporal climático, mas sim o que tem a ver com o passar do tempo. Acho que agora ficou menos confuso. As palavras nos dão nós e brincam com a gente. Nós que nos atam, deu pra perceber que um acento muda tudo? Não o com dois "s", pois este não muda nada, muito pelo contrário, serve só para acomodar os nossos glúteos, deixando tudo como está...

 Mas eu dizia que o tempo está estranho. Verdade verdadeira. Porém esta expressão também é estranha: verdade verdadeira. Pois se é realmente verdade, desnecessário dizer que é verdadeira. No entanto vivemos tempos das mentiras verdadeiras, as chamadas “fake news”. Tempos estranhos...

 E a gente estranha todas as coisas que parecem que estão fora do tempo certo. Por exemplo, neste ano que passou, tanto se falou em eleição, mas não foi ano eleitoral. Tá tudo muito insanamente adiantado. Aliás, o sujeito, desde que entrou, só está pensando na próxima eleição. Tempos estranhos...

 E a gente não sabe se a pandemia começou neste ano ou no passado. Tudo tão rápido, tudo tão igual. E o tal do vírus foi batizado com o ano retrasado: 19. Covid-19. Já não sei mais nada. Só sei que vivemos tempos estranhos...

 Mais que estranhos, tempos de ódio, preconceito e perseguição. As ideias são perseguidas, as palavras são atacadas por outras palavras. Escrever e pensar virou um jogo perigoso. E a gente se pergunta: quanto tempo isto vai durar?

 Mas é tempo de inaugurar um novo tempo nestes tempos. O negacionismo não sufoca a Arte. Há luz no fim do túnel!

 Se não há túnel, o artista o faz, abrindo um caminho para escapar deste inferno. E se não há luz no fim dele, a Arte iluminará.

 No ventre de todos estes tempos sombrios, um novo tempo está sendo gerado. Impossível conter.

 Mais do que tempo de Natal, é tempo de outros tempos...

sábado, 30 de outubro de 2021

MILIONÁRIOS

O assunto é o quanto a gente ganhava antigamente. Então eu, para ilustrar a conversa, vou em busca do pacote onde guardo todos os meus holerites. De volta à sala, exibo o calhamaço de papéis e digo: "Olha o tanto de holerite que eu tenho! E ainda faltam quatro anos para eu me aposentar!".

O "genrão" faz uma conta rápida e rebate: "Sogrão, mais 48 desses e você já se aposenta!".

Sento e começo minha procura pelos pagamentos da época em que trabalhava como programador de computador no CREA-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo). Sei que são deste tempo os valores mais expressivos. Mês a mês vou comparando as quantias. Até que chego na maior, logo antes de um corte de três zeros.

Encho o peito para dizer a estupenda cifra que consta no campo "Salário Base": 39.263.301,00. Mais de 39 milhões! Sei lá que moeda é essa!

Os mais velhos, eu e minha esposa, comentamos sobre coisas que os mais jovens, nossa filha e seu namorado, nunca viram... Os preços só valiam para a semana. Na seguinte já aumentavam. Geralmente se ouvia: "Na segunda-feira vai aumentar!". Além de ser uma verdade, era uma maneira de assegurar a venda.

Eu com os holerites e ela com a carteira de trabalho. Lembranças do passado. Constato que foi justamente neste mês do recorde numérico em meu salário base que casamos. Ela, compradora internacional, ganhava mais do que eu. Se eu já contava com algumas dezenas de milhões, imagine a renda conjunta dos noivos! Casamento milionário!

Como resultado dessas recordações, volto ao presente com uma afirmação sobre o meu futuro: "Eu ainda voltarei a ganhar isso!".

E, logo em seguida, arremato: "Não pelo meu mérito, mas sim por esse nosso governinho desgraçado de ruim, que está se empenhando em fazer com que isso aconteça!".

Hiperinflação, eu já te conheço!

terça-feira, 5 de outubro de 2021

DOR

Momento: eu voltando com o carro da minha filha, após ter feito a revisão na concessionária.

Momento mais específico: farol fechado à frente, carros parados, eu paro também, um jovem magro e alto andando entre os veículos, mostrando um papelão menor que uma folha sulfite.

Duas palavras escritas no papelão: fome dói.

Minha atitude: procuro a bolsa, já preparada para estas frequentes ocasiões, pego um achocolatado e um pacotinho de bolacha, ofereço.

Reação do rapaz: recebe minha pequena doação e, com um sorriso no rosto, agradece.

Meus pensamentos após este acontecimento: atualmente, muita coisa, infelizmente, dói...

Miséria dói.

Desemprego dói.

Inflação dói.

Pandemia dói.

Negacionismo dói.

Corrupção dói.

Desmatamento dói.

Violência dói.

Injustiça dói.

Preconceito dói.

Ignorância dói.

Desprezo dói.

Racismo dói.

Autoritarismo dói.

Petulância dói.

E a maior dor é não saber por quanto tempo isso tudo vai doer.

domingo, 29 de agosto de 2021

SEM RESPIRAR

Faz muito tempo. Aconteceu em alguma noite no começo da década de 90, quando era praticante de tai chi chuan. Primeiro o mestre falou para respirarmos muito rapidamente. E assim ficamos, por um bom tempo, neste processo de hiperoxigenação. Até que ele disse para inspirarmos profunda e lentamente, e então segurarmos a respiração. Prosseguiu dizendo que era para nós imaginarmos que estávamos fazendo a respiração fetal, sem necessidade de ar, mentalizando um fluxo subindo e descendo, entre dois pontos, não me lembro exatamente quais, só sei que eram na parte inferior do tronco.

Fiquei envolvido por esta experiência. Fui fundo, acreditei na tal respiração fetal. Sentia que despertava algo que, de alguma maneira, nutria-me e suplantava a necessidade de usar os pulmões. É lógico que, nos minutos anteriores, saturei-me de oxigênio, o que tornou mais fácil a tarefa de prender o ar.

Os segundos foram passando e eu mantinha a concentração no fluxo imaginário que subia e descia. Não, não era imaginário! Estranha e incrivelmente percebia que este processo estava me levando a uma marca nunca antes alcançada. Sem necessidade de voltar a usar os pulmões, relaxado, o tempo avançava e eu, com certeza, havia entrado em um estado diferente de tudo que vivi até aquele momento, ou depois.

“O mestre ainda não falou para soltarmos o ar e voltarmos a respirar. Mas já passou muito tempo!”. O intelecto brigava contra o inacreditável fato de o meu corpo haver aposentado os pulmões. O cérebro não entendia o que estava acontecendo. Mas eu continuava no sobe e desce do fluxo e, por incrível que pareça, não sentia necessidade de respirar.

Não sei definir quanto tempo assim fiquei. Só sei que foi muito. E que voltei a respirar mais por uma necessidade intelectual do que por uma real necessidade de ar, dando a impressão de que poderia ficar naquele estado indefinidamente. Muito estranho. Não ouvi o mestre dizer para soltarmos o ar ou voltarmos a respirar. Acho que ele queria que cada um chegasse ao seu limite ou descobrisse novas fronteiras. Ou simplesmente esqueceu de dar o comando para que voltássemos a usar os pulmões, e cada um foi voltando quando quis, ao seu tempo.

Esta experiência foi muito marcante. E agora, umas três décadas após o ocorrido, percorri a internet em busca de alguma explicação fisiológica. O que consegui encontrar de nada ajudou, pois a única coisa que ficou clara foi a grande diferença entre o mecanismo de oxigenação do sangue antes e depois do nascimento. Dentro do útero, nada de subir e descer na região mentalizada na aula de tai chi. Sem cordão umbilical e placenta, não há como retroceder à “respiração” fetal para suprir o não uso dos pulmões.

Porém seria interessante que a ciência se debruçasse sobre estas coisas estranhas. Afinal, acho que não sou o único que viveu ou viu por perto algo inexplicável, não é mesmo?

quinta-feira, 22 de julho de 2021

MANUAL DO PÉSSIMO LÍDER – OS 10 MANDAMENTOS

I – Não se choque com o título deste manual. Não dê importância para o adjetivo “péssimo”. Isto não é relevante, pois o que conta mesmo é liderar, ter muitas e muitas pessoas sob o seu domínio absoluto! Multidões na palma da mão!

II – Primeiramente você precisa saber quem vai liderar. Qual parcela do povo dominará. Aconselho que seja aquela parte mais ignorante, bestializada, rude e preconceituosa. E porque não dizer, idiota. Concentre seus esforços nesta parcela da população.

III – É preciso construir uma imagem. A imagem do líder. A que tem apresentado os melhores resultados é a do “idiota negacionista”.

IV – Mesmo que você tenha certo grau de inteligência, terá que manter a personalidade de idiota, fazendo loucuras. É uma vantagem ser líder deste jeito, porque assim vai se comunicar diretamente com aqueles idiotas que lhe seguem, uma massa de povo acéfala, com a garantia de que nunca questionarão os seus atos.

V – Não se preocupe, idiotas sempre existem, em qualquer lugar. Infelizmente sempre existem. Ou felizmente porque, para um péssimo líder, é a massa de manobra perfeita. E como se aumenta este contingente de pessoas? É instigando preconceito, ódio, guerra, superioridade de uns sobre outros, desunião... Isto tudo, se você incentivar, insuflará toda essa massa idiota, raivosa e preconceituosa que estará sempre ao seu lado. Isto é maravilhoso! Isto funciona!

VI – Se você tem inteligência e algum bom senso, faça de conta que não tem, porque para liderar os idiotas tem que ser idiota. Tem que ser negacionista, falar atrocidades, incentivar o ódio, isto tudo tem que ser feito. Critique a inteligência, desafie os inteligentes, porque é um perigo tê-la na sociedade, pois pode destruir o reinado do péssimo líder.

VII – Ao liderar boas pessoas, íntegras, que cultivam a democracia, educação e respeito, elas vão questionar os seus atos. Qualquer erro será questionado. A garantia está em liderar os idiotas, raivosos e preconceituosos. São muito mais fiéis. É só estimular todo o ódio que eles têm no coração, o preconceito, e destruir tudo que estiver à sua frente. Faça um governo destruidor, porque é muito mais fácil destruir do que construir. Culpe os governos anteriores. Sempre fale que está destruindo, derrubando para construir algo melhor. Mas não precisa construir nada! É só derrubar, destruir, e insuflar a massa que lhe sustenta com ódio e preconceito.

VIII – Escolha o momento certo para assumir a liderança. Os países, as nações, podem passar por períodos em que a política é desacreditada, ou até demonizada. Estas são excelentes oportunidades. Geralmente depois de um golpe, da derrubada de um governo... E nem se preocupe em derrubar, pois muitas vezes, quem derruba o governo limpa o caminho para você! O péssimo líder!

IX – Enquanto o momento certo não aparecer, forme o seu povo, nutra-o com muito ódio e preconceito. Tenha sempre um inimigo à frente. Direcione-os no combate ao inimigo. Quanto mais inimigos melhor! E não se esqueça de armá-los, pois eles lutarão por você no caso de as instituições ou a democracia conseguirem derrubá-lo.

X – Fique atento aos interesses das classes sociais dentro dos jogos de poder. Você pode ser útil para derrubar algum inimigo em comum. Pensarão que você está com eles e você fingirá estar. Eles lhe ajudarão a subir ao poder. Mas depois que conseguir, faça o possível para instaurar uma ditadura. É mais seguro, pois ajudará a conter aqueles que não estão sintonizados com sua liderança.

(...)

Se você chegou até aqui, devo lhe confessar algo. Senti-me um tanto mal em escrever coisas tão pesadas... Mas, na verdade, este não é um manual do péssimo líder, mas sim do bom cidadão, para evitar que caiamos nas mãos de terríveis lideranças que insistem em aparecer na história da humanidade.

sábado, 19 de junho de 2021

EU ACREDITO NA VACINA! E NA CIÊNCIA TAMBÉM!!!

Não dá para passar por um momento desses sem escrever. O mundo está atravessando uma fase muito difícil. E aqui no Brasil, infelizmente, as coisas estão ainda piores.

Nunca pensei que seria necessário afirmar que vacina funciona e que salva vidas. Mas há pessoas que não acreditam. Isto é triste, principalmente em meio à pandemia que vivemos.

Nos últimos dias, consultei muitas vezes o site do município onde é possível agendar a vacinação. Sempre de olho. E hoje consegui agendar para hoje mesmo a minha primeira dose, que já foi injetada para dentro do meu músculo.

Agora, enquanto escrevo, meu organismo está lidando com a vacina. Se a gente parar para pensar, é maravilhoso! Uma defesa específica será criada pelo meu mecanismo imunológico, que trabalhará silenciosamente para me proteger.

Sinto-me na obrigação de dizer que mesmo após a vacinação não se deve relaxar com as medidas ditadas pelos especialistas e que todos nós sabemos quais são: distanciamento social, uso de máscara e higiene das mãos. É o que fiz, faço, e farei. Uma trilogia que, nas dimensões continentais do nosso país, salva centenas de milhares de vidas.

Gostaria também de agradecer àqueles que se desdobraram para tornar viável, em tempo recorde, várias vacinas contra o Covid-19. É extremamente louvável e enobrecedor o trabalho de cientistas e pesquisadores, que se debruçam sobre doenças e pandemias e nos oferecem os milagres da ciência!

E automaticamente acabo pensando no contraponto. Enquanto alguns nos oferecem a salvação, outros nos oferecem a desinformação e a mentira. Enquanto especialistas, íntegros e alinhados com o conhecimento científico, procuram orientar a população neste momento tão difícil, um certo indivíduo não se cansa de propagar asneiras...

Mas tudo bem! Hoje é um dia feliz. Estou vacinado! Não quero pensar em coisas negativas. Só quero dizer que acredito na vacina, acredito na ciência, e acredito também em um futuro melhor para o nosso país. Chegará o dia em que os negacionistas, os preconceituosos, os que lutam contra inimigos invisíveis, todos eles se recolherão diante de um mundo mais justo, igualitário e, principalmente, humano. Acredito neste dia! Não, isto não é um delírio de febre, reação da vacina, não! Não é nada disso! Afinal, sinto-me perfeitamente bem! Olha só: ainda nem virei um jacaré!

segunda-feira, 17 de maio de 2021

ESTE TEXTO ACABA AQUI

Este texto acaba aqui. Não adianta escrever mais do que o extremamente pouco. Ninguém lê. O mundo está sendo dominado pelas imagens. Todo texto que tiver mais que cinco linhas está fadado ao abandono. É por isto que não pretendo chegar ao segundo parágrafo.

Leitor, o que você está fazendo aqui? É teimoso ou curioso? Os dois? É outra coisa? Não importa. Mas já vou lhe alertando que não adianta esperar algo deste texto. Ele não tem nada a oferecer. Já devia ter acabado. Onde já se viu? Presunção minha! Pensar que seria capaz de roubar a atenção dos memes, emojis, vídeos de poucos segundos, etc. É por isto que desta vez tenho que encerrar de vez, sem misericórdia nem fecho final.

Outra vez nos encontramos, leitor. Quem diria? Terceiro parágrafo! Mas há uma explicação para isto. Naturalmente, você não deve ter perdido mais que poucas dezenas de segundos na leitura até aqui. Quase certeza, menos de um minuto. Ainda está dentro da faixa de tempo que consegue espaço dentro de uma sociedade cada vez mais apressada e ansiosa. Para passar deste tempo, o texto deverá enfrentar as terríveis perguntas: “Para que serve?”, “O que eu vou ganhar?” e “Onde é que vai dar?”. Bom, para economizar o seu tempo e assim poder utilizá-lo para ver mais memes, vídeos curtos e coisas do tipo, vamos às respostas. Este texto não serve pra nada, não vai dar em lugar algum e você não vai ganhar nada lendo. Então, já que eu, como se diz na gíria, cortei o barato, quase que lhe obrigando, leitor, a interromper a leitura, nada mais me resta além de dizer: este texto acaba aqui.

Olá! Ainda tem alguém aí do outro lado, lendo? Você gosta de ler, hein? E eu, de escrever, me comunicar. Mas talvez esteja na hora de eu mudar de ramo, fazer alguns memes, vídeos curtos... É muito estranho... A palavra escrita pode transportar o leitor para uma infinidade de mundos, no entanto, aqui do meu lado, tenho a sensação de estar falando no deserto. O deserto das palavras massacradas pelas imagens.

Este texto acaba aqui.

domingo, 25 de abril de 2021

SER POSITIVISTA É...

Acreditar na ciência. Ela existe para nos ajudar. Na saúde, na tecnologia e em muitas outras áreas.

Acreditar nas vacinas e querer que tudo volte ao que era antes, quando ninguém sabia e nem queria saber de onde ela vinha.

Acreditar na arte. Sim, porque é através da arte que nos libertaremos desta reedição da Idade Média, que nos assombra e limita os horizontes da vida.

Acreditar que um dia o mundo será mais humano e justo. Onde não haverá espaço para o preconceito e as oportunidades serão iguais para todos.

Acreditar que, em uma pandemia na qual estamos, o uso da máscara pode salvar vidas. As nossas, as dos outros. É uma questão de respeito à vida e ao semelhante.

Acreditar na política. Não é porque existem maus políticos que se deve desacreditar da política enquanto instituição. Os bons também existem.

Acreditar na democracia, saber o seu valor, protegê-la e, principalmente, não a distorcer por interesses mesquinhos.

Acreditar que a Terra é redonda, porque realmente é.

Acreditar, principalmente, que esta fase difícil vai passar. Especialmente difícil em nosso país, mas vai passar.

Acreditar que as forças que promovem o ódio, a destruição, a mentira, o preconceito, a desunião e toda sorte de maldades, acreditar que tudo isto vai desmoronar.

É hora de promover uma onda positivista.

É hora de a luz vencer a sombra.

Isto não é religião.

Também não é política.

É simplesmente evolução da espécie...

Se você acredita nestas coisas, compartilhe este texto.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

MANIFESTO AOS NEGACIONISTAS

Acredite na ciência. Não espere a morte lhe visitar ou a algum ente querido. Esta pandemia é implacável. É preciso que se diga com todas as letras: “Quem não toma as medidas sanitárias torna-se um assassino e um suicida em potencial”.

Uso de máscara, distanciamento social, higienização das mãos. Esta trilogia salva vidas. Vacina, também.

Não siga o presidente e suas políticas genocidas.

O nosso país se tornou o cemitério do mundo.

Conclamo todos os negacionistas a negarem o presidente. Pelo menos “no tocante à questão” da pandemia. Acordem! É a vida de vocês que está em jogo!

Se tiver que trabalhar, vá, mas com todos os cuidados possíveis. A economia precisa de gente viva para se recuperar. A cada pai ou mãe que morre abre-se um vazio emocional e econômico na família, com filhos órfãos abandonados.

Se você não acredita nos números da pandemia, sugiro que visite as portas dos hospitais.

Não encare estas minhas palavras como uma afronta. Não tem nada a ver com politização. Tem a ver com vida. Aqueles que, por motivos negacionistas, transgridem as medidas sanitárias, acabam sendo vetores da desgraça, atingindo amigos, parentes, pessoas queridas, eles próprios. É questão de estatística e ciência. Onde o vírus não encontra barreiras, a tragédia se espalha.

A minha intenção é conscientizar algum negacionista e salvar a sua vida e de seus entes queridos.

Sabe para quê? Para continuarmos vivos, todos nós.

Aí depois a gente continua brigando pelos motivos de sempre...

sexta-feira, 5 de março de 2021

O NOVO NORMAL

Olho o carro na faixa da esquerda enquanto nos aproximamos do farol. Veículo grande, tipo SUV. Percebo que ele não quer chegar ao semáforo. Mas eu sigo minha marcha. No carro, minha esposa me acompanha, no banco de trás, ela e o nosso cão.

“Deve estar com medo”, é o que penso ao tentar explicar o comportamento do condutor ao lado, quase ao mesmo tempo em que vejo alguém surgir atrás do seu automóvel. Eu vou parando diante do sinal vermelho e o sujeito segue andando, já ocupando a parte da avenida que o SUV se recusou a ocupar.

Aproxima-se um pouco e logo percebo que se trata de um pedinte. Ato contínuo, afasto as mãos espalmadas para cima e digo que não tenho nada para dar. Sei que o tempo é curto, sei que a carteira está na mochila pendurada no banco, e ainda sei que, além do difícil acesso, ela contém apenas uma nota de vinte.

“Não, não, eu não quero dinheiro não!”, ele já fala ao ver o meu gesto. “Eu quero alguma coisa pra comer! Estou com fome!”, e continua dizendo coisas neste sentido. No borrão de palavras que restam em minha memória, acredito que ele colocou alguns exemplos de alimentos...

Neste ponto, percebo que nada posso lhe oferecer. A não ser a minha atenção de míseros segundos. Então falo algo mais ou menos assim: “Eu só posso estar aqui, na sua frente, e te ouvir...”.

Ele percebe a sintonia com a sua dor e fala, chorando: “Olha a minha situação! Na minha idade!”. Então percebo que temos mais ou menos o mesmo tempo de vida. E que ele jamais esperava chegar neste ponto... A minha atenção de míseros segundos ao menos serviu para ele desabafar...

O farol abre e a vida segue.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

DE?ETIZAÇÃO

Um dia desses descobri que escrevo e falo errado uma palavra. Minha filha me perguntou como escrevia. Respondi, sem hesitar: “de te ti za ção”. Ela disse que o corretor ortográfico indicava que estava errado. O certo é com “de” no lugar de “te”, duplo “de”. Assim: “de de ti za ção”. “Mas vê aí se não pode usar também ‘te’”, disparei logo em seguida. Afinal, para alguém como eu, que quer se considerar escritor e que costuma ter um zelo especial pelas palavras, é difícil admitir um erro assim. Mas tive que admitir. Um erro que durou uma vida toda, no meu caso, mais de cinco décadas.

Como atenuante, tenho a dizer que acho que nunca escrevi esta palavra. Assim sendo, acredito que a falha da escrita não foi cometida. Porém, com certeza, falei errado algumas vezes. Mas foram poucas, pois não é uma palavra do meu dia a dia. E, além disso, para quem ouve, não é o tipo de erro que fere os ouvidos. A troca do “de” pelo “te”, com seus sons meio que parecidos, pode até passar despercebida no meio das cinco sílabas. Ainda bem!

Bom, daqui para frente falarei e escreverei corretamente: dedetização. Mesmo que o profissional que lida com este procedimento fale como eu falava. Foi justamente o que ele me disse, no fim de semana passado, quando veio executar o procedimento aqui em casa: “bla-bla-bla, detetização, bla-bla-bla”.

Mas ainda bem que os insetos não ligam para dedetização com “de” ou com “te”. Morrem do mesmo jeito!

sábado, 26 de dezembro de 2020

O PLANEJAMENTO DA PANDEMIA DO COVID-19

 Vamos voltar no tempo. Estamos no dia 13 de agosto de 2019. Quanto ao local, espero que não seja familiar para nenhum leitor... É onde costumam acontecer as reuniões de cúpula do ministério dos diabos, em algum lugar do inferno. O diabo rei abre a sessão:

– Meus caros ministros e ministras, fiz esta convocação de emergência porque estamos enfrentando uma crise em nosso reino demoníaco. Como vocês já devem estar sabendo, nossos recursos estão diminuindo. Então a ordem, agora, é fazer mais com menos. O cronograma do apocalipse está atrasado. Infelizmente, esta nossa lerdeza em acabar com o mundo está fazendo com que muitas pessoas comecem a acreditar que os tempos difíceis estão chegando ao fim. Falam até em nova era, renovação, mundo melhor, todas essas baboseiras! Ora essa! Mas vou direto ao ponto porque não podemos perder tempo. Preciso que vocês me apresentem projetos de destruição, que sejam baratos e eficientes!

Neste momento, todos olham para o ministro das Catástrofes, que é quem geralmente toma a frente nestas ocasiões. Então ele levanta os seus faiscantes olhos vermelhos, mas de uma maneira meio receosa, e começa:

– Ilustríssimo diabo rei, como vossa majestade deve se lembrar, em 2004, no maior tsunami de todos os tempos, conseguimos obter um bom resultado: mais de 230 mil mortos. Coloco-me à disposição caso queira fazer algo parecido...

– Nada feito! – interrompe o diabo rei. Em que ponto da simples frase em que eu disse “nossos recursos estão diminuindo” ou “fazer mais com menos” você dormiu?!? Ninguém quer mexer com placas tectônicas agora. Sai caro e demora muito! Aliás, nossa crise começou justamente quando o seu ministério queimou todo o orçamento da década nesse tsunami. Essas obras faraônicas causam grande impacto, mas são pouco eficientes, a relação custo-benefício é ruim. Quero algo que cause uma grande desgraça sem gastar muito e com pouco esforço.

Por alguns segundos, todos ficam quietos. Parece que ninguém consegue ter uma ideia a altura do desafio proposto. Quem rompe o silêncio é a ministra da Tentação. Com seu gestual magnetizante e suas curvas perfeitas, começa a falar:

– Meu docinho quente e fofo – diz estas primeiras palavras olhando para o diabo rei. Sabes muito bem que eu sempre faço tudo para me infiltrar em todas as mentes para mergulhá-las no deleite das tentações. Com isso venho conquistando, no varejo, grandes progressos. Não atuo no atacado, como o ministro das Catástrofes. Prefiro agir assim, pontualmente. Mas tenho a dizer que, muitas vezes, fico surpresa com os resultados obtidos. O ser humano, de vez em quando, supera minhas expectativas.

– Sim, sim, minha magnífica ministra ­– o diabo rei, agora, suaviza a expressão. Sempre admirei o seu trabalho, desde a maçã e o paraíso de Adão e Eva. Você vem exercendo o seu ministério com extrema competência. Acho que vou te dar um aumento. Depois desta reunião, dê uma passadinha em meu gabinete, para tratarmos do assunto.

Nesta hora, alguns deixam escapar um sorriso malicioso, outros ficam um tanto indignados: “Como assim promoção?!? Não estamos mais em uma crise financeira?”. Só pensam. Não ousam enfrentar a autoridade do diabo rei. E, para acabar com este clima e prosseguir com o assunto da reunião, a maior autoridade do mal retoma a palavra:

– Você, ministro das Pestes e Pandemias, o que tem a dizer? Anda meio parado ultimamente, hein? Acho que seu último trabalho de relevo foi por volta de 1920... Como era mesmo o nome?

– Gripe espanhola – ergue a voz, um tanto tímido, o ministro bola da vez do momento.

– Isso! – o diabo rei exclama. Que tal você mostrar serviço e fazer jus ao salário de ministro que eu lhe pago? Quero uma pandemia! Não uma pandemiazinha, como a que você fez há uns dez anos... A... H1...

– H1N1, gripe suína... – outra vez completa o ministro das Pestes e Pandemias, intimidado.

– Não, nada disso, quero uma senhora pandemia! – ordena a diabólica majestade diabólica.

A esta altura, a reunião se inflama. Dá para imaginar? Uma reunião inflamada de diabos, que já são inflamados... Seria isto um pleonasmo? Bom, não importa. O fato é que cada um passa a dar a sua opinião ou contribuição. O ministro das Desgraças Extraordinárias é o primeiro:

– Que tal fazer uma pandemia assim: um vírus tão potente que, transmitido pelo ar como uma gripe, seja muito mais intenso e letal. Tipo assim, apenas alguns segundos de exposição, sem máscara, e aí o sujeito já bateria as botas!

– Não, não! Desse jeito vai espantar! – retruca o ministro da Anticiência e Negacionismo. Atualmente contamos com um contingente bastante expressivo de idiotas que são contrários às mais consagradas evidências científicas, combatendo, por exemplo, o uso de vacinas ou até dizendo que a Terra é plana. Esse tipo de gente é muito útil em pandemias, pois erguem cruzadas contra as vacinas, não usam máscaras... Enfim, estão do nosso lado! Mas se a gente criar um vírus tão potente que fique inegável a sua atuação mortífera em poucos segundos, assim desse jeito a minha legião de negacionistas vai passar a usar máscaras e até tomar vacina... Não pode ser assim tão ostensivo, entendem? Eles têm que pensar que é somente uma gripezinha, tá ok?

– Isso mesmo! – a ministra da Tentação volta a participar. E podem deixar comigo, que eu vou atuar principalmente junto aos jovens, meu público predileto. Farei com que eles se aglomerem bastante, com tentações direcionadas para as baladas!

Neste instante, o ministro das Pestes e Pandemias contribui com uma boa ideia:

– E eu posso criar um vírus com letalidade maior entre os mais velhos ou com comorbidades. Aí tudo se encaixa! Os mais novos se aglomeram e matam os mais velhos!

– Aí sim, hein? Gostei de ver! Pelo jeito, tu só trabalha de cem em cem anos! – dispara o diabo rei, arrancando gargalhadas de todos. Então, pelo que estou vendo, está se desenhando um projeto que será tocado por três ministérios: Pestes e Pandemias, Anticiência e Negacionismo, e Tentação. Quero uma integração perfeita entre vocês três, estão entendendo?

– Sim, meu fofo ardente e doce! Como sempre, darei o meu melhor. Vou agir também no consumismo, com várias tentações de compras, pegando aquelas pessoas que adoram bater pernas, fazendo com que se amontoem nos shoppings e nos mercados de rua. Também vejo grandes possibilidades no ramo turístico. Afinal, quem resiste a um belo pacote de viagem com aquele descontão de ocasião?

– Ocasião da pandemia! – brinca o ministro das Desgraças Extraordinárias. E todos riem novamente.

Tudo parece estar perfeito neste plano literalmente diabólico. Porém, tem sempre alguém que consegue achar algum defeito. É o ministro da Lei de Murphy:

– Mas o que vamos fazer com aqueles presidentes ou presidentas que, dentro dos seus governos terrivelmente bons, consigam fazer extensas campanhas de conscientização para combater a pandemia, implementando mecanismos para atenuar toda a gravidade das desgraças que a gente quer ver? O que vamos fazer com eles?

– Não precisamos nos preocupar com eles! – sentenciou o ministro do Apocalipse, com ar vitorioso. Vamos concentrar nossos esforços naqueles que estão do nosso lado, pois eles serão capazes de fazer um bom estrago. A nação mais poderosa do planeta tem um presidente que está alinhado com a gente. Mais abaixo, no maior país do hemisfério sul, entrou este ano um presidente velho conhecido meu, desde quando, na década de oitenta, ele quis explodir um quartel. “In Bolsonaro we trust” – com esta frase, dita com vigor, fecha sua argumentação.

E todos os diabos riem, felizes da vida!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

PIM

Pim é uma pomba-rola muito curiosa. Adora ciscar o chão a procura de algo que lhe sirva para colocar goela abaixo. Quando está ciscando em grupo, é sempre a primeira a encontrar as melhores coisas para comer. As outras pombas-rolas vivem admirando a sua habilidade: "Nossa Pim! Você é boa mesmo, hein?". Mas também a advertem de vez em quando: "Você tem que tomar cuidado! Se mete em cada lugar!".

E assim a vida para Pim segue normalmente, até que em uma tarde ela decide ir para um quintal muito bonito, cheio de árvores, lugar que ela já conhece por ter ido algumas vezes. Só desta vez não quer ninguém por perto. Assim pode ciscar à vontade, sem outras pombas falando para ela tomar cuidado e não se enfiar aonde não deve.

Assim que chega, logo nota um objeto diferente. Bom, neste ponto eu preciso explicar que este objeto é um vaso de vidro, em forma de cubo, sem terra nenhuma, que o Seu Rimeda limpou e deixou de cabeça pra baixo, sobre umas pedras chatas e redondas que são usadas para pisar no quintal. Preciso explicar também que o espaço entre a boca do vaso e o chão de terra é muito pequeno. E dizer que é bom a Pim não se meter a fuçar lá embaixo, senão...

Mas a gente conhece como é a Pim, não é mesmo? E lá vai ela, explorar a novidade. Cisca perto da boca do vaso e, ao encontrar algo que lhe interessa lá dentro, não vê mal algum em enfiar a cabeça por baixo da borda de vidro para pegar. Segura com o bico e... O tal negócio escapa e vai parar mais para dentro ainda! Ela não tem dúvida. Contorce ainda mais o corpo e, com muita vontade, estica-se para pegar novamente, até que... Oh meu Deus! Pim está presa dentro do vaso!

Como é de vidro e dá para ver tudo lá fora, ela pensa que dá para atravessar. Coitada! Não sabe que vidro engana os pássaros, a gente enxerga tudo, passa a luz por ele, mas ninguém consegue passar!

Então ela se desespera dentro do vaso, bate as asas, bate de tudo quanto é jeito nas paredes e no teto. Se cansa, para um pouco e, cada vez mais assustada, volta à sua luta para escapar!

O tempo vai passando, começa a escurecer. No mesmo quintal, por trás de uma cerca, mora um velho cachorro, o Bob. Mas Pim pode perder as esperanças, pois, por mais que ela bata as asas no vidro, ele não vai latir para chamar seus donos... Porque se Seu Rimeda aparecesse, poderia lhe salvar, tirando-lhe o vaso de cima. Mas que nada! O barulho que ela está fazendo não chama a atenção do cachorro. Além do mais, o Bob, pela idade avançada, anda meio molengão e dorminhoco, se depender dele, a nossa Pim terá um trágico fim.

Na rotina da casa, o próximo horário em que alguém virá para o quintal,  será somente lá pelas onze da noite ou até mais, que é quando o dono dá ao cão um quitute com o remédio no meio,  tira os cocôs que ele fez, joga água no xixi, etc. Até lá, Pim, pelo grau de desespero em que se encontra, não suportará...

Mas ainda bem que existem anjos da guarda, porque, se assim não fosse, esta história não terminaria nada boa...

Neste mesmo dia, Dona Sarima havia lavado os dois panos felpudos que o Bob deixa dentro da sua casinha, para aconchegar-se enquanto dorme. E, usando justamente este fato, o anjo da guarda entra em ação. Vai lá no ouvido da Dona Sarima e lhe assopra um pensamento: "Os cobertores do Bob!".

Então ela fala para o marido:

– Nossa! O Bob tá sem os cobertores dele! Acho que já secou. Tem que colocar...

Aí o que o Seu Rimeda responde deixa o anjo da guarda com as penas das asas em pé!

– Que nada! Que frescura para um cachorrão vira-lata! Ele pode ficar um dia sem isso...

Para a sorte da Pim, Dona Sarima não liga para o que o marido disse e sai em busca dos cobertores. Logo depois que os colocou dentro da casa do Bob, ouve um barulho e, um tanto assustada, chama o Seu Rimeda. Ele procura descobrir de onde vem o som e logo acha a nossa pobre Pim, desesperada, batendo as asas contra as paredes do vaso de vidro!

Rapidamente ele levanta a prisão da agoniada ave que, ao ver-se livre, voa para longe...

Bom, agora que tudo acabou bem, acho que, depois deste apuro, Pim não vai ser tão curiosa...

domingo, 1 de novembro de 2020

MEU NOME É MEDO

Meu nome é medo. Acompanho o ser humano em toda a sua existência. Mas não limito minha presença a esta única espécie. No maravilhoso leque das inúmeras criações da natureza, estendo o meu sufocante abraço sobre muitas variedades de seres vivos.

Mas é com o homo sapiens que a minha relação é muito mais complexa. Só para se ter uma ideia, basta dizer que estes seres têm a capacidade de sentirem medo de sentirem medo. Conseguem ficar em permanente estado de expectativa, aguardando minha aparição. Chamam isto de ansiedade.

E quando apareço, têm as mais variadas reações. É nestas horas que as pessoas se mostram como são. Pode parecer maldade de minha parte, mas acho engraçado quando, na hora-h, o sujeito deixa ruir tudo aquilo que ele pensava que era...

Culpam-me por muitas reações impensadas, feitas em meio ao desespero, mas isto é uma injustiça, pois não sou eu quem as faço. Não tenho culpa se esta classe de ser vivente não consegue comportar-se melhor em minha companhia. Apenas faço o meu trabalho.

Minha função é salvar o homem de muitos apuros. Para não caírem em um poço, não baterem o carro, não apanharem do inimigo e assim por diante. Dão-me até um adjetivo para estas situações, pois dizem que nelas há o tal “medo bom”.

Mas, para os chamados outros tipos de medos, os humanos não gostam de mim, abominam-me. Mal sabem eles que a causa está neles mesmo! É um tanto difícil de explicar... Contudo vou contar o que acontece, talvez assim fique mais claro.

Às vezes cismo de dar uma abraçadinha em alguém, só pra me divertir um pouco. Porém, quando já estou me afastando, o sujeito me atrai, me alimenta, entende? Aí eu volto e aperto um pouco mais o abraço, é assim que funciona. Há aqueles que nem precisam da minha cutucada inicial, vivem a me chamar. É contraditório! Sofrem comigo, mas não me querem longe!

E assim vou vivendo minha vida, tendo como missão principal fazer com que os seres não percam as suas vidas antes do tempo. Sim, porque vocês não têm o privilégio que tenho, pois, afinal, eu sou eterno!

sábado, 3 de outubro de 2020

REFLEXO

Estou no banheiro, em pé, em frente ao vaso sanitário. Ao alívio de esvaziar a bexiga segue-se a aparição de uma barata. Vem de trás do pedestal do lavatório. Corre, em uma trajetória curvilínea, e estanca, ainda perto do pedestal. É pequena. Então penso que deve se tratar de um ser jovem.

Com os olhos cravados no indesejado inseto, dou o laço no cordão da bermuda. Não sei o porquê, talvez a ciência ainda explique um dia, mas algo faz com que as baratas paralisem quando lhes pregamos a vista. Não é garantia. Às vezes falha. No entanto, algo as prende com o nosso olhar.

Realizo o movimento de me abaixar, com o braço esticado em busca do chinelo que está no pé. É um momento crucial. “Agora ela escapa”, é o pensamento que surge em minha mente. Pego o chinelo e me preparo para o ataque. “Poxa, que bom, ainda está no mesmo lugar!”, outra vez a voz interior do caçador de insetos.

Aproximo a sola do chinelo até a distância exata. Se for mais longe, torna o movimento mais demorado, aumentando assim as chances da presa. E, se for mais perto, acaba espantando a caça antes do bote. Concluo esta etapa também com sucesso.

A preparação para o golpe fatal envolve mentalização. Explico. Imagino a “ida” e a “volta” do chinelo. Concentro-me no ato concluído. Só existe a cena do movimento finalizado. Crio uma tensão e ansiedade... Como só existe a ação terminada, este estado mental faz com que meu braço se movimente tão rápido como um salto no tempo...

PLAFT!

Sucesso!

Agora o “eu caçador” fala em voz alta:

– Você tem que melhorar o seu reflexo... 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

EFEMERÓPTERO

Sou uma das espécies de animal que menos vive no mundo. Na verdade, eu já vivi antes, mas sob formas diferentes. Comecei como uma ninfa, vivendo na água por um ano. Depois subi à superfície e me transformei em um subimago. Nesta nova forma, voei e pousei sobre a vegetação. No dia seguinte, ou seja, hoje de manhã, passei por outra transformação, e aqui estou eu! Mas não tenho consciência destas duas existências anteriores, então, para mim, vale mesmo esta vida de inseto na qual me encontro. Ah, você deve estar se perguntando como eu sei destas coisas... Mas você também não sabe que viveu na barriga de sua mãe? E por acaso se lembra desta vida em que vivia mergulhado dentro do útero? Acho que isto nos coloca em situações meio que parecidas, mas nem tanto... Afinal sua vida será, em média, de uns 28.000 dias, enquanto a minha será de apenas um dia.

Enquanto você ocupa seus milhares de dias com coisas como crescer, brincar, estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, constituir família, ter filhos, se aposentar, e todas as outras milhares de coisas que têm aí no meio, enquanto isso eu só tenho um propósito em minha vida: acasalar. Agora os mais assanhadinhos ou assanhadinhas vão querer estar no meu lugar, hein? Mas é melhor pensar bem! Gostariam de uma existência assim tão breve? Só tenho a lhe dizer que, quando se tem tão pouco tempo de vida, cada segundo é importante!

Só para ter uma ideia, este tempo, em que estou falando contigo, representaria, se fosse em sua vida, uns 3 meses. Pois é, estou gastando o maior tempão nesta boa ação de lhe aconselhar... Então é esta a mensagem que gostaria que ficasse em sua mente: aproveite todos os instantes da sua vida!

Enquanto isso, aqui do meu lado, vou aproveitando! Acabei de ver uma fêmea que entrou agora no enxame! Não posso perder tempo! É com essa que eu vou!

sábado, 1 de agosto de 2020

DARWIN E O MOSQUITO

Onório deitou-se. Após poucos minutos, o mosquito começou a zunir em seu ouvido. Então ele colocou o espanta-mosquito, aquele que vai na tomada e esquenta uma pastilha. Para garantir, também colocou, em outra tomada, um aparelhinho que funciona com luz ultravioleta, que atrai e mata os insetos.
“Pronto! Agora tá resolvido”.
Mas não. Enganou-se. Não contava que este mosquito, o único que por ali rondava, por alguma inexplicável razão, não seria espantado pelo cheiro exalado pela pastilha. Algo em seu pequeno organismo garantia esta imunidade, um desvio genético lhe trouxe esta vantagem. E, para a desgraça de Onório, a vantagem também se estendia à ação da outra arma, conectada na outra tomada, pois a luz ultravioleta não exercia influência alguma sobre o enxerido zumbidor alado.
A única influência capaz de atingir o estranho e incomum inseto era a atração que orelha de Onório lhe provocava.
O tempo escoava, embalado pelos zunidos, uma serenata de amor de um mosquito apaixonado por uma orelha.
Imagine se este incomum inseto, acidentalmente dotado de uma genética que lhe garantia uma vantagem competitiva enorme, imagine se, ao procriar-se, passasse estes dotes aos descendentes... Seria o início de uma nova espécie... Um supermosquito! Uma verdadeira proeza da seleção natural de Darwin!
Mas Darwin não contava com a raiva, a explosão e o reflexo de Onório que, agarrando e girando o travesseiro no movimento em arco do braço, estatelou o mosquito na parede, esmagado pela fronha!

terça-feira, 16 de junho de 2020

ENTREVISTA COM O COVID

Olhei para aquele sujeito microscópico. Feio. Feito uma bola, cheia de bastonetes. Aproveitei a oportunidade e perguntei-lhe, pois, vai que ele tenha boca e fale...
– Qual é o seu nome?
Ele remexeu-se, balançando seus bastonetes e, para minha surpresa surge uma boca mole, em sua porção inferior, que fala:
– Nosso nome é Covid, Covid-19.
Estranhei a primeira pessoa do plural, mas isto não atrapalhou o entusiasmo. “Oba! Agora vou encadear uma porção de perguntas! Furo de reportagem!”, foi o que pensei.
– De onde que você veio?
– Tem gente que pensa que nós fomos feitos pelos chineses. Outros pensam que foram os americanos. Mas, na verdade, nós acreditamos que surgimos devido a uma intromissão do ser humano no habitat dos morcegos, lá em Wuhan, na China.
Ajeitei minha máscara (e ao mesmo tempo lembrei que não é bom ficar mexendo nela...), dei um passo para trás e, um tanto temeroso, prossegui:
– Já esteve em muitos lugares?
– Sim, estamos no mundo todo.
– Porque você sempre fala na primeira pessoa do plural?
– Somos uma coletividade... – neste momento, todos os seus bastonetes deram uma tremidinha, e eu imaginei que era uma espécie de comunicação com seus semelhantes. Meio impressionado, quis manter um clima ameno na entrevista:
– E de qual lugar você mais gostou? (...) Ou vocês mais gostaram?
– Nós gostamos mais aqui do Brasil!!! – a tremida dos bastonetes, desta vez, foi bem mais intensa.
– Por quê? Foi por causa das nossas praias ou do nosso povo hospitaleiro?
– Nada disso! Foi o seu presidente que nos ajudou muito, nos menosprezando, dizendo que éramos uma gripezinha. Conturbou todo o combate contra nós... Enquanto isso, nós fizemos a festa, e ainda estamos fazendo!!!
Lembro-me que foi nesta hora que pensei: “Ainda bem que a entrevista não é ao vivo, assim dá pra editar...”. Mas foi tudo muito rápido e acabou interrompendo este pensamento. A tal bola cheia daquelas coisas chacoalhou-se toda e saiu na disparada. Estava toda animada! Acho que iria continuar na sua festa!