Na minha caminhada, após mais um dia de home
office, vejo luzes e enfeites, lembretes de que é tempo de Natal...
Desde 22/10/2011.
178 postagens, em média uma por mês.
Textos quase sempre pequenos, em doses pequenas, gota a gota.
____________________________________________________Ademir Moreno Aguilar
______________________de 1987 até agora => 39 premiações em concursos literários
sábado, 27 de novembro de 2021
É TEMPO DE NATAL, E DE OUTRAS COISAS TAMBÉM...
sábado, 30 de outubro de 2021
MILIONÁRIOS
O assunto é o quanto a gente ganhava
antigamente. Então eu, para ilustrar a conversa, vou em busca do pacote onde
guardo todos os meus holerites. De volta à sala, exibo o calhamaço de papéis e
digo: "Olha o tanto de holerite que eu tenho! E ainda faltam quatro anos
para eu me aposentar!".
O "genrão" faz uma conta rápida e
rebate: "Sogrão, mais 48 desses e você já se aposenta!".
Sento e começo minha procura pelos pagamentos da
época em que trabalhava como programador de computador no CREA-SP (Conselho
Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo). Sei que são deste
tempo os valores mais expressivos. Mês a mês vou comparando as quantias. Até
que chego na maior, logo antes de um corte de três zeros.
Encho o peito para dizer a estupenda cifra que
consta no campo "Salário Base": 39.263.301,00. Mais de 39 milhões!
Sei lá que moeda é essa!
Os mais velhos, eu e minha esposa, comentamos
sobre coisas que os mais jovens, nossa filha e seu namorado, nunca viram... Os
preços só valiam para a semana. Na seguinte já aumentavam. Geralmente se ouvia:
"Na segunda-feira vai aumentar!". Além de ser uma verdade, era uma
maneira de assegurar a venda.
Eu com os holerites e ela com a carteira de
trabalho. Lembranças do passado. Constato que foi justamente neste mês do
recorde numérico em meu salário base que casamos. Ela, compradora
internacional, ganhava mais do que eu. Se eu já contava com algumas dezenas de
milhões, imagine a renda conjunta dos noivos! Casamento milionário!
Como resultado dessas recordações, volto ao
presente com uma afirmação sobre o meu futuro: "Eu ainda voltarei a ganhar
isso!".
E, logo em seguida, arremato: "Não pelo meu
mérito, mas sim por esse nosso governinho desgraçado de ruim, que está se
empenhando em fazer com que isso aconteça!".
Hiperinflação, eu já te conheço!
terça-feira, 5 de outubro de 2021
DOR
Momento: eu voltando com o carro da minha filha,
após ter feito a revisão na concessionária.
Momento mais específico: farol fechado à frente,
carros parados, eu paro também, um jovem magro e alto andando entre os
veículos, mostrando um papelão menor que uma folha sulfite.
Duas palavras escritas no papelão: fome dói.
Minha atitude: procuro a bolsa, já preparada
para estas frequentes ocasiões, pego um achocolatado e um pacotinho de bolacha,
ofereço.
Reação do rapaz: recebe minha pequena doação e,
com um sorriso no rosto, agradece.
Meus pensamentos após este acontecimento:
atualmente, muita coisa, infelizmente, dói...
Miséria dói.
Desemprego dói.
Inflação dói.
Pandemia dói.
Negacionismo dói.
Corrupção dói.
Desmatamento dói.
Violência dói.
Injustiça dói.
Preconceito dói.
Ignorância dói.
Desprezo dói.
Racismo dói.
Autoritarismo dói.
Petulância dói.
E a maior dor é não saber por quanto tempo isso
tudo vai doer.
domingo, 29 de agosto de 2021
SEM RESPIRAR
Faz muito tempo. Aconteceu em alguma noite no
começo da década de 90, quando era praticante de tai chi chuan. Primeiro o
mestre falou para respirarmos muito rapidamente. E assim ficamos, por um bom
tempo, neste processo de hiperoxigenação. Até que ele disse para inspirarmos
profunda e lentamente, e então segurarmos a respiração. Prosseguiu dizendo que
era para nós imaginarmos que estávamos fazendo a respiração fetal, sem
necessidade de ar, mentalizando um fluxo subindo e descendo, entre dois pontos,
não me lembro exatamente quais, só sei que eram na parte inferior do tronco.
Fiquei envolvido por esta experiência. Fui
fundo, acreditei na tal respiração fetal. Sentia que despertava algo que, de
alguma maneira, nutria-me e suplantava a necessidade de usar os pulmões. É
lógico que, nos minutos anteriores, saturei-me de oxigênio, o que tornou mais
fácil a tarefa de prender o ar.
Os segundos foram passando e eu mantinha a concentração
no fluxo imaginário que subia e descia. Não, não era imaginário! Estranha e incrivelmente
percebia que este processo estava me levando a uma marca nunca antes alcançada.
Sem necessidade de voltar a usar os pulmões, relaxado, o tempo avançava e eu,
com certeza, havia entrado em um estado diferente de tudo que vivi até aquele
momento, ou depois.
“O mestre ainda não falou para soltarmos o ar e voltarmos
a respirar. Mas já passou muito tempo!”. O intelecto brigava contra o inacreditável
fato de o meu corpo haver aposentado os pulmões. O cérebro não entendia o que
estava acontecendo. Mas eu continuava no sobe e desce do fluxo e, por incrível
que pareça, não sentia necessidade de respirar.
Não sei definir quanto tempo assim fiquei. Só
sei que foi muito. E que voltei a respirar mais por uma necessidade intelectual
do que por uma real necessidade de ar, dando a impressão de que poderia ficar
naquele estado indefinidamente. Muito estranho. Não ouvi o mestre dizer para
soltarmos o ar ou voltarmos a respirar. Acho que ele queria que cada um
chegasse ao seu limite ou descobrisse novas fronteiras. Ou simplesmente esqueceu
de dar o comando para que voltássemos a usar os pulmões, e cada um foi voltando
quando quis, ao seu tempo.
Esta experiência foi muito marcante. E agora,
umas três décadas após o ocorrido, percorri a internet em busca de alguma
explicação fisiológica. O que consegui encontrar de nada ajudou, pois a única
coisa que ficou clara foi a grande diferença entre o mecanismo de oxigenação do
sangue antes e depois do nascimento. Dentro do útero, nada de subir e descer na
região mentalizada na aula de tai chi. Sem cordão umbilical e placenta, não há
como retroceder à “respiração” fetal para suprir o não uso dos pulmões.
Porém seria interessante que a ciência se debruçasse sobre estas coisas estranhas. Afinal, acho que não sou o único que viveu ou viu por perto algo inexplicável, não é mesmo?
quinta-feira, 22 de julho de 2021
MANUAL DO PÉSSIMO LÍDER – OS 10 MANDAMENTOS
I – Não se choque com o título deste manual. Não
dê importância para o adjetivo “péssimo”. Isto não é relevante, pois o que
conta mesmo é liderar, ter muitas e muitas pessoas sob o seu domínio absoluto!
Multidões na palma da mão!
II – Primeiramente você precisa saber quem vai
liderar. Qual parcela do povo dominará. Aconselho que seja aquela parte mais
ignorante, bestializada, rude e preconceituosa. E porque não dizer, idiota. Concentre
seus esforços nesta parcela da população.
III – É preciso construir uma imagem. A imagem
do líder. A que tem apresentado os melhores resultados é a do “idiota
negacionista”.
IV – Mesmo que você tenha certo grau de
inteligência, terá que manter a personalidade de idiota, fazendo loucuras. É
uma vantagem ser líder deste jeito, porque assim vai se comunicar diretamente
com aqueles idiotas que lhe seguem, uma massa de povo acéfala, com a garantia de
que nunca questionarão os seus atos.
V – Não se preocupe, idiotas sempre existem, em qualquer
lugar. Infelizmente sempre existem. Ou felizmente porque, para um péssimo líder,
é a massa de manobra perfeita. E como se aumenta este contingente de pessoas? É
instigando preconceito, ódio, guerra, superioridade de uns sobre outros, desunião...
Isto tudo, se você incentivar, insuflará toda essa massa idiota, raivosa e
preconceituosa que estará sempre ao seu lado. Isto é maravilhoso! Isto
funciona!
VI – Se você tem inteligência e algum bom senso,
faça de conta que não tem, porque para liderar os idiotas tem que ser idiota.
Tem que ser negacionista, falar atrocidades, incentivar o ódio, isto tudo tem
que ser feito. Critique a inteligência, desafie os inteligentes, porque é um
perigo tê-la na sociedade, pois pode destruir o reinado do péssimo líder.
VII – Ao liderar boas pessoas, íntegras, que cultivam
a democracia, educação e respeito, elas vão questionar os seus atos. Qualquer
erro será questionado. A garantia está em liderar os idiotas, raivosos e preconceituosos.
São muito mais fiéis. É só estimular todo o ódio que eles têm no coração, o
preconceito, e destruir tudo que estiver à sua frente. Faça um governo
destruidor, porque é muito mais fácil destruir do que construir. Culpe os governos
anteriores. Sempre fale que está destruindo, derrubando para construir algo
melhor. Mas não precisa construir nada! É só derrubar, destruir, e insuflar a
massa que lhe sustenta com ódio e preconceito.
VIII – Escolha o momento certo para assumir a
liderança. Os países, as nações, podem passar por períodos em que a política é
desacreditada, ou até demonizada. Estas são excelentes oportunidades.
Geralmente depois de um golpe, da derrubada de um governo... E nem se preocupe em
derrubar, pois muitas vezes, quem derruba o governo limpa o caminho para você!
O péssimo líder!
IX – Enquanto o momento certo não aparecer, forme
o seu povo, nutra-o com muito ódio e preconceito. Tenha sempre um inimigo à
frente. Direcione-os no combate ao inimigo. Quanto mais inimigos melhor! E não
se esqueça de armá-los, pois eles lutarão por você no caso de as instituições ou
a democracia conseguirem derrubá-lo.
X – Fique atento aos interesses das classes
sociais dentro dos jogos de poder. Você pode ser útil para derrubar algum
inimigo em comum. Pensarão que você está com eles e você fingirá estar. Eles
lhe ajudarão a subir ao poder. Mas depois que conseguir, faça o possível para
instaurar uma ditadura. É mais seguro, pois ajudará a conter aqueles que não
estão sintonizados com sua liderança.
(...)
Se você chegou até aqui, devo lhe confessar algo. Senti-me um tanto mal em escrever coisas tão pesadas... Mas, na verdade, este não é um manual do péssimo líder, mas sim do bom cidadão, para evitar que caiamos nas mãos de terríveis lideranças que insistem em aparecer na história da humanidade.
sábado, 19 de junho de 2021
EU ACREDITO NA VACINA! E NA CIÊNCIA TAMBÉM!!!
Não dá para passar por um momento desses sem
escrever. O mundo está atravessando uma fase muito difícil. E aqui no Brasil,
infelizmente, as coisas estão ainda piores.
Nunca pensei que seria necessário afirmar que
vacina funciona e que salva vidas. Mas há pessoas que não acreditam. Isto é
triste, principalmente em meio à pandemia que vivemos.
Nos últimos dias, consultei muitas vezes o site
do município onde é possível agendar a vacinação. Sempre de olho. E hoje
consegui agendar para hoje mesmo a minha primeira dose, que já foi injetada
para dentro do meu músculo.
Agora, enquanto escrevo, meu organismo está
lidando com a vacina. Se a gente parar para pensar, é maravilhoso! Uma defesa
específica será criada pelo meu mecanismo imunológico, que trabalhará
silenciosamente para me proteger.
Sinto-me na obrigação de dizer que mesmo após a
vacinação não se deve relaxar com as medidas ditadas pelos especialistas e que
todos nós sabemos quais são: distanciamento social, uso de máscara e higiene
das mãos. É o que fiz, faço, e farei. Uma trilogia que, nas dimensões
continentais do nosso país, salva centenas de milhares de vidas.
Gostaria também de agradecer àqueles que se
desdobraram para tornar viável, em tempo recorde, várias vacinas contra o Covid-19.
É extremamente louvável e enobrecedor o trabalho de cientistas e pesquisadores,
que se debruçam sobre doenças e pandemias e nos oferecem os milagres da
ciência!
E automaticamente acabo pensando no contraponto.
Enquanto alguns nos oferecem a salvação, outros nos oferecem a desinformação e
a mentira. Enquanto especialistas, íntegros e alinhados com o conhecimento
científico, procuram orientar a população neste momento tão difícil, um certo
indivíduo não se cansa de propagar asneiras...
Mas tudo bem! Hoje é um dia feliz. Estou vacinado! Não quero pensar em coisas negativas. Só quero dizer que acredito na vacina, acredito na ciência, e acredito também em um futuro melhor para o nosso país. Chegará o dia em que os negacionistas, os preconceituosos, os que lutam contra inimigos invisíveis, todos eles se recolherão diante de um mundo mais justo, igualitário e, principalmente, humano. Acredito neste dia! Não, isto não é um delírio de febre, reação da vacina, não! Não é nada disso! Afinal, sinto-me perfeitamente bem! Olha só: ainda nem virei um jacaré!
segunda-feira, 17 de maio de 2021
ESTE TEXTO ACABA AQUI
Este texto acaba aqui. Não adianta escrever mais
do que o extremamente pouco. Ninguém lê. O mundo está sendo dominado pelas
imagens. Todo texto que tiver mais que cinco linhas está fadado ao abandono. É
por isto que não pretendo chegar ao segundo parágrafo.
Leitor, o que você está fazendo aqui? É teimoso
ou curioso? Os dois? É outra coisa? Não importa. Mas já vou lhe alertando que
não adianta esperar algo deste texto. Ele não tem nada a oferecer. Já devia ter
acabado. Onde já se viu? Presunção minha! Pensar que seria capaz de roubar a
atenção dos memes, emojis, vídeos de poucos segundos, etc. É por isto que desta
vez tenho que encerrar de vez, sem misericórdia nem fecho final.
Outra vez nos encontramos, leitor. Quem diria?
Terceiro parágrafo! Mas há uma explicação para isto. Naturalmente, você não
deve ter perdido mais que poucas dezenas de segundos na leitura até aqui. Quase
certeza, menos de um minuto. Ainda está dentro da faixa de tempo que consegue
espaço dentro de uma sociedade cada vez mais apressada e ansiosa. Para passar
deste tempo, o texto deverá enfrentar as terríveis perguntas: “Para que serve?”,
“O que eu vou ganhar?” e “Onde é que vai dar?”. Bom, para economizar o seu
tempo e assim poder utilizá-lo para ver mais memes, vídeos curtos e coisas do
tipo, vamos às respostas. Este texto não serve pra nada, não vai dar em lugar
algum e você não vai ganhar nada lendo. Então, já que eu, como se diz na gíria,
cortei o barato, quase que lhe obrigando, leitor, a interromper a leitura, nada
mais me resta além de dizer: este texto acaba aqui.
Olá! Ainda tem alguém aí do outro lado, lendo?
Você gosta de ler, hein? E eu, de escrever, me comunicar. Mas talvez esteja na
hora de eu mudar de ramo, fazer alguns memes, vídeos curtos... É muito
estranho... A palavra escrita pode transportar o leitor para uma infinidade de
mundos, no entanto, aqui do meu lado, tenho a sensação de estar falando no
deserto. O deserto das palavras massacradas pelas imagens.
Este texto acaba aqui.
domingo, 25 de abril de 2021
SER POSITIVISTA É...
Acreditar na ciência. Ela existe para nos
ajudar. Na saúde, na tecnologia e em muitas outras áreas.
Acreditar nas vacinas e querer que tudo volte ao
que era antes, quando ninguém sabia e nem queria saber de onde ela vinha.
Acreditar na arte. Sim, porque é através da arte
que nos libertaremos desta reedição da Idade Média, que nos assombra e limita
os horizontes da vida.
Acreditar que um dia o mundo será mais humano e justo.
Onde não haverá espaço para o preconceito e as oportunidades serão iguais para
todos.
Acreditar que, em uma pandemia na qual estamos, o
uso da máscara pode salvar vidas. As nossas, as dos outros. É uma questão de
respeito à vida e ao semelhante.
Acreditar na política. Não é porque existem maus
políticos que se deve desacreditar da política enquanto instituição. Os bons
também existem.
Acreditar na democracia, saber o seu valor, protegê-la
e, principalmente, não a distorcer por interesses mesquinhos.
Acreditar que a Terra é redonda, porque
realmente é.
Acreditar, principalmente, que esta fase difícil
vai passar. Especialmente difícil em nosso país, mas vai passar.
Acreditar que as forças que promovem o ódio, a
destruição, a mentira, o preconceito, a desunião e toda sorte de maldades,
acreditar que tudo isto vai desmoronar.
É hora de promover uma onda positivista.
É hora de a luz vencer a sombra.
Isto não é religião.
Também não é política.
É simplesmente evolução da espécie...
Se você acredita nestas coisas, compartilhe este texto.
sexta-feira, 2 de abril de 2021
MANIFESTO AOS NEGACIONISTAS
Acredite na ciência. Não espere a morte lhe
visitar ou a algum ente querido. Esta pandemia é implacável. É preciso que se
diga com todas as letras: “Quem não toma as medidas sanitárias torna-se um
assassino e um suicida em potencial”.
Uso de máscara, distanciamento social,
higienização das mãos. Esta trilogia salva vidas. Vacina, também.
Não siga o presidente e suas políticas
genocidas.
O nosso país se tornou o cemitério do mundo.
Conclamo todos os negacionistas a negarem o
presidente. Pelo menos “no tocante à questão” da pandemia. Acordem! É a vida de
vocês que está em jogo!
Se tiver que trabalhar, vá, mas com todos os
cuidados possíveis. A economia precisa de gente viva para se recuperar. A cada
pai ou mãe que morre abre-se um vazio emocional e econômico na família, com
filhos órfãos abandonados.
Se você não acredita nos números da pandemia,
sugiro que visite as portas dos hospitais.
Não encare estas minhas palavras como uma
afronta. Não tem nada a ver com politização. Tem a ver com vida. Aqueles que,
por motivos negacionistas, transgridem as medidas sanitárias, acabam sendo
vetores da desgraça, atingindo amigos, parentes, pessoas queridas, eles
próprios. É questão de estatística e ciência. Onde o vírus não encontra barreiras,
a tragédia se espalha.
A minha intenção é conscientizar algum
negacionista e salvar a sua vida e de seus entes queridos.
Sabe para quê? Para continuarmos vivos, todos
nós.
Aí depois a gente continua brigando pelos
motivos de sempre...
sexta-feira, 5 de março de 2021
O NOVO NORMAL
Olho o carro na faixa da esquerda enquanto nos
aproximamos do farol. Veículo grande, tipo SUV. Percebo que ele não quer chegar
ao semáforo. Mas eu sigo minha marcha. No carro, minha esposa me acompanha, no
banco de trás, ela e o nosso cão.
“Deve estar com medo”, é o que penso ao tentar
explicar o comportamento do condutor ao lado, quase ao mesmo tempo em que vejo
alguém surgir atrás do seu automóvel. Eu vou parando diante do sinal vermelho e
o sujeito segue andando, já ocupando a parte da avenida que o SUV se recusou a ocupar.
Aproxima-se um pouco e logo percebo que se trata
de um pedinte. Ato contínuo, afasto as mãos espalmadas para cima e digo que não
tenho nada para dar. Sei que o tempo é curto, sei que a carteira está na
mochila pendurada no banco, e ainda sei que, além do difícil acesso, ela contém
apenas uma nota de vinte.
“Não, não, eu não quero dinheiro não!”, ele já
fala ao ver o meu gesto. “Eu quero alguma coisa pra comer! Estou com fome!”, e
continua dizendo coisas neste sentido. No borrão de palavras que restam em
minha memória, acredito que ele colocou alguns exemplos de alimentos...
Neste ponto, percebo que nada posso lhe oferecer.
A não ser a minha atenção de míseros segundos. Então falo algo mais ou menos
assim: “Eu só posso estar aqui, na sua frente, e te ouvir...”.
Ele percebe a sintonia com a sua dor e fala,
chorando: “Olha a minha situação! Na minha idade!”. Então percebo que temos
mais ou menos o mesmo tempo de vida. E que ele jamais esperava chegar neste
ponto... A minha atenção de míseros segundos ao menos serviu para ele
desabafar...
O farol abre e a vida segue.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
DE?ETIZAÇÃO
Um dia desses descobri que escrevo e falo errado
uma palavra. Minha filha me perguntou como escrevia. Respondi, sem hesitar: “de
te ti za ção”. Ela disse que o corretor ortográfico indicava que estava errado.
O certo é com “de” no lugar de “te”, duplo “de”. Assim: “de de ti za ção”. “Mas
vê aí se não pode usar também ‘te’”, disparei logo em seguida. Afinal, para
alguém como eu, que quer se considerar escritor e que costuma ter um zelo
especial pelas palavras, é difícil admitir um erro assim. Mas tive que admitir.
Um erro que durou uma vida toda, no meu caso, mais de cinco décadas.
Como atenuante, tenho a dizer que acho que nunca
escrevi esta palavra. Assim sendo, acredito que a falha da escrita não foi
cometida. Porém, com certeza, falei errado algumas vezes. Mas foram poucas,
pois não é uma palavra do meu dia a dia. E, além disso, para quem ouve, não é o
tipo de erro que fere os ouvidos. A troca do “de” pelo “te”, com seus sons meio
que parecidos, pode até passar despercebida no meio das cinco sílabas. Ainda
bem!
Bom, daqui para frente falarei e escreverei
corretamente: dedetização. Mesmo que o profissional que lida com este
procedimento fale como eu falava. Foi justamente o que ele me disse, no fim de
semana passado, quando veio executar o procedimento aqui em casa: “bla-bla-bla,
detetização, bla-bla-bla”.
Mas ainda bem que os insetos não ligam para dedetização com “de” ou com “te”. Morrem do mesmo jeito!
sábado, 26 de dezembro de 2020
O PLANEJAMENTO DA PANDEMIA DO COVID-19
Vamos voltar no tempo. Estamos no dia 13 de agosto de 2019. Quanto ao local, espero que não seja familiar para nenhum leitor... É onde costumam acontecer as reuniões de cúpula do ministério dos diabos, em algum lugar do inferno. O diabo rei abre a sessão:
– Meus caros ministros e ministras, fiz esta
convocação de emergência porque estamos enfrentando uma crise em nosso reino
demoníaco. Como vocês já devem estar sabendo, nossos recursos estão diminuindo.
Então a ordem, agora, é fazer mais com menos. O cronograma do apocalipse está
atrasado. Infelizmente, esta nossa lerdeza em acabar com o mundo está fazendo
com que muitas pessoas comecem a acreditar que os tempos difíceis estão chegando
ao fim. Falam até em nova era, renovação, mundo melhor, todas essas baboseiras!
Ora essa! Mas vou direto ao ponto porque não podemos perder tempo. Preciso que
vocês me apresentem projetos de destruição, que sejam baratos e eficientes!
Neste momento, todos olham para o ministro das Catástrofes,
que é quem geralmente toma a frente nestas ocasiões. Então ele levanta os seus faiscantes
olhos vermelhos, mas de uma maneira meio receosa, e começa:
– Ilustríssimo diabo rei, como vossa majestade deve
se lembrar, em 2004, no maior tsunami de todos os tempos, conseguimos obter um
bom resultado: mais de 230 mil mortos. Coloco-me à disposição caso queira fazer
algo parecido...
– Nada feito! – interrompe o diabo rei. Em que
ponto da simples frase em que eu disse “nossos recursos estão diminuindo” ou “fazer
mais com menos” você dormiu?!? Ninguém quer mexer com placas tectônicas agora.
Sai caro e demora muito! Aliás, nossa crise começou justamente quando o seu
ministério queimou todo o orçamento da década nesse tsunami. Essas obras
faraônicas causam grande impacto, mas são pouco eficientes, a relação
custo-benefício é ruim. Quero algo que cause uma grande desgraça sem gastar muito
e com pouco esforço.
Por alguns segundos, todos ficam quietos. Parece
que ninguém consegue ter uma ideia a altura do desafio proposto. Quem rompe o
silêncio é a ministra da Tentação. Com seu gestual magnetizante e suas curvas
perfeitas, começa a falar:
– Meu docinho quente e fofo – diz estas
primeiras palavras olhando para o diabo rei. Sabes muito bem que eu sempre faço
tudo para me infiltrar em todas as mentes para mergulhá-las no deleite das
tentações. Com isso venho conquistando, no varejo, grandes progressos. Não atuo
no atacado, como o ministro das Catástrofes. Prefiro agir assim, pontualmente.
Mas tenho a dizer que, muitas vezes, fico surpresa com os resultados obtidos. O
ser humano, de vez em quando, supera minhas expectativas.
– Sim, sim, minha magnífica ministra – o diabo
rei, agora, suaviza a expressão. Sempre admirei o seu trabalho, desde a maçã e
o paraíso de Adão e Eva. Você vem exercendo o seu ministério com extrema
competência. Acho que vou te dar um aumento. Depois desta reunião, dê uma
passadinha em meu gabinete, para tratarmos do assunto.
Nesta hora, alguns deixam escapar um sorriso
malicioso, outros ficam um tanto indignados: “Como assim promoção?!? Não
estamos mais em uma crise financeira?”. Só pensam. Não ousam enfrentar a
autoridade do diabo rei. E, para acabar com este clima e prosseguir com o assunto
da reunião, a maior autoridade do mal retoma a palavra:
– Você, ministro das Pestes e Pandemias, o que
tem a dizer? Anda meio parado ultimamente, hein? Acho que seu último trabalho
de relevo foi por volta de 1920... Como era mesmo o nome?
– Gripe espanhola – ergue a voz, um tanto tímido,
o ministro bola da vez do momento.
– Isso! – o diabo rei exclama. Que tal você
mostrar serviço e fazer jus ao salário de ministro que eu lhe pago? Quero uma
pandemia! Não uma pandemiazinha, como a que você fez há uns dez anos... A...
H1...
– H1N1, gripe suína... – outra vez completa o
ministro das Pestes e Pandemias, intimidado.
– Não, nada disso, quero uma senhora pandemia! –
ordena a diabólica majestade diabólica.
A esta altura, a reunião se inflama. Dá para
imaginar? Uma reunião inflamada de diabos, que já são inflamados... Seria isto
um pleonasmo? Bom, não importa. O fato é que cada um passa a dar a sua opinião
ou contribuição. O ministro das Desgraças Extraordinárias é o primeiro:
– Que tal fazer uma pandemia assim: um vírus tão
potente que, transmitido pelo ar como uma gripe, seja muito mais intenso e
letal. Tipo assim, apenas alguns segundos de exposição, sem máscara, e aí o sujeito
já bateria as botas!
– Não, não! Desse jeito vai espantar! – retruca
o ministro da Anticiência e Negacionismo. Atualmente contamos com um
contingente bastante expressivo de idiotas que são contrários às mais
consagradas evidências científicas, combatendo, por exemplo, o uso de vacinas
ou até dizendo que a Terra é plana. Esse tipo de gente é muito útil em
pandemias, pois erguem cruzadas contra as vacinas, não usam máscaras... Enfim,
estão do nosso lado! Mas se a gente criar um vírus tão potente que fique
inegável a sua atuação mortífera em poucos segundos, assim desse jeito a minha
legião de negacionistas vai passar a usar máscaras e até tomar vacina... Não
pode ser assim tão ostensivo, entendem? Eles têm que pensar que é somente uma
gripezinha, tá ok?
– Isso mesmo! – a ministra da Tentação volta a
participar. E podem deixar comigo, que eu vou atuar principalmente junto aos
jovens, meu público predileto. Farei com que eles se aglomerem bastante, com
tentações direcionadas para as baladas!
Neste instante, o ministro das Pestes e
Pandemias contribui com uma boa ideia:
– E eu posso criar um vírus com letalidade maior
entre os mais velhos ou com comorbidades. Aí tudo se encaixa! Os mais novos se
aglomeram e matam os mais velhos!
– Aí sim, hein? Gostei de ver! Pelo jeito, tu só
trabalha de cem em cem anos! – dispara o diabo rei, arrancando gargalhadas de
todos. Então, pelo que estou vendo, está se desenhando um projeto que será
tocado por três ministérios: Pestes e Pandemias, Anticiência e Negacionismo, e
Tentação. Quero uma integração perfeita entre vocês três, estão entendendo?
– Sim, meu fofo ardente e doce! Como sempre,
darei o meu melhor. Vou agir também no consumismo, com várias tentações de
compras, pegando aquelas pessoas que adoram bater pernas, fazendo com que se
amontoem nos shoppings e nos mercados de rua. Também vejo grandes
possibilidades no ramo turístico. Afinal, quem resiste a um belo pacote de
viagem com aquele descontão de ocasião?
– Ocasião da pandemia! – brinca o ministro das
Desgraças Extraordinárias. E todos riem novamente.
Tudo parece estar perfeito neste plano
literalmente diabólico. Porém, tem sempre alguém que consegue achar algum
defeito. É o ministro da Lei de Murphy:
– Mas o que vamos fazer com aqueles presidentes
ou presidentas que, dentro dos seus governos terrivelmente bons, consigam fazer
extensas campanhas de conscientização para combater a pandemia, implementando
mecanismos para atenuar toda a gravidade das desgraças que a gente quer ver? O
que vamos fazer com eles?
– Não precisamos nos preocupar com eles! –
sentenciou o ministro do Apocalipse, com ar vitorioso. Vamos concentrar nossos
esforços naqueles que estão do nosso lado, pois eles serão capazes de fazer um
bom estrago. A nação mais poderosa do planeta tem um presidente que está alinhado
com a gente. Mais abaixo, no maior país do hemisfério sul, entrou este ano um presidente
velho conhecido meu, desde quando, na década de oitenta, ele quis explodir um
quartel. “In Bolsonaro we trust” – com esta frase, dita com vigor, fecha sua
argumentação.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
PIM
Pim é uma pomba-rola muito curiosa. Adora ciscar
o chão a procura de algo que lhe sirva para colocar goela abaixo. Quando está
ciscando em grupo, é sempre a primeira a encontrar as melhores coisas para
comer. As outras pombas-rolas vivem admirando a sua habilidade: "Nossa
Pim! Você é boa mesmo, hein?". Mas também a advertem de vez em quando:
"Você tem que tomar cuidado! Se mete em cada lugar!".
E assim a vida para Pim segue normalmente, até
que em uma tarde ela decide ir para um quintal muito bonito, cheio de árvores,
lugar que ela já conhece por ter ido algumas vezes. Só desta vez não quer
ninguém por perto. Assim pode ciscar à vontade, sem outras pombas falando para
ela tomar cuidado e não se enfiar aonde não deve.
Assim que chega, logo nota um objeto diferente.
Bom, neste ponto eu preciso explicar que este objeto é um vaso de vidro, em
forma de cubo, sem terra nenhuma, que o Seu Rimeda limpou e deixou de cabeça
pra baixo, sobre umas pedras chatas e redondas que são usadas para pisar no
quintal. Preciso explicar também que o espaço entre a boca do vaso e o chão de
terra é muito pequeno. E dizer que é bom a Pim não se meter a fuçar lá embaixo,
senão...
Mas a gente conhece como é a Pim, não é mesmo? E
lá vai ela, explorar a novidade. Cisca perto da boca do vaso e, ao encontrar
algo que lhe interessa lá dentro, não vê mal algum em enfiar a cabeça por baixo
da borda de vidro para pegar. Segura com o bico e... O tal negócio escapa e vai
parar mais para dentro ainda! Ela não tem dúvida. Contorce ainda mais o corpo
e, com muita vontade, estica-se para pegar novamente, até que... Oh meu Deus!
Pim está presa dentro do vaso!
Como é de vidro e dá para ver tudo lá fora, ela
pensa que dá para atravessar. Coitada! Não sabe que vidro engana os pássaros, a
gente enxerga tudo, passa a luz por ele, mas ninguém consegue passar!
Então ela se desespera dentro do vaso, bate as
asas, bate de tudo quanto é jeito nas paredes e no teto. Se cansa, para um
pouco e, cada vez mais assustada, volta à sua luta para escapar!
O tempo vai passando, começa a escurecer. No
mesmo quintal, por trás de uma cerca, mora um velho cachorro, o Bob. Mas Pim
pode perder as esperanças, pois, por mais que ela bata as asas no vidro, ele
não vai latir para chamar seus donos... Porque se Seu Rimeda aparecesse,
poderia lhe salvar, tirando-lhe o vaso de cima. Mas que nada! O barulho que ela
está fazendo não chama a atenção do cachorro. Além do mais, o Bob, pela idade
avançada, anda meio molengão e dorminhoco, se depender dele, a nossa Pim terá
um trágico fim.
Na rotina da casa, o próximo horário em que
alguém virá para o quintal, será somente
lá pelas onze da noite ou até mais, que é quando o dono dá ao cão um quitute
com o remédio no meio, tira os cocôs que
ele fez, joga água no xixi, etc. Até lá, Pim, pelo grau de desespero em que se
encontra, não suportará...
Mas ainda bem que existem anjos da guarda,
porque, se assim não fosse, esta história não terminaria nada boa...
Neste mesmo dia, Dona Sarima havia lavado os
dois panos felpudos que o Bob deixa dentro da sua casinha, para aconchegar-se
enquanto dorme. E, usando justamente este fato, o anjo da guarda entra em ação.
Vai lá no ouvido da Dona Sarima e lhe assopra um pensamento: "Os
cobertores do Bob!".
Então ela fala para o marido:
– Nossa! O Bob tá sem os cobertores dele! Acho
que já secou. Tem que colocar...
Aí o que o Seu Rimeda responde deixa o anjo da
guarda com as penas das asas em pé!
– Que nada! Que frescura para um cachorrão
vira-lata! Ele pode ficar um dia sem isso...
Para a sorte da Pim, Dona Sarima não liga para o
que o marido disse e sai em busca dos cobertores. Logo depois que os colocou
dentro da casa do Bob, ouve um barulho e, um tanto assustada, chama o Seu
Rimeda. Ele procura descobrir de onde vem o som e logo acha a nossa pobre Pim,
desesperada, batendo as asas contra as paredes do vaso de vidro!
Rapidamente ele levanta a prisão da agoniada ave
que, ao ver-se livre, voa para longe...
Bom, agora que tudo acabou bem, acho que, depois deste apuro, Pim não vai ser tão curiosa...
domingo, 1 de novembro de 2020
MEU NOME É MEDO
Meu nome é medo. Acompanho o ser humano em toda
a sua existência. Mas não limito minha presença a esta única espécie. No
maravilhoso leque das inúmeras criações da natureza, estendo o meu sufocante
abraço sobre muitas variedades de seres vivos.
Mas é com o homo sapiens que a minha relação é
muito mais complexa. Só para se ter uma ideia, basta dizer que estes seres têm
a capacidade de sentirem medo de sentirem medo. Conseguem ficar em permanente
estado de expectativa, aguardando minha aparição. Chamam isto de ansiedade.
E quando apareço, têm as mais variadas reações.
É nestas horas que as pessoas se mostram como são. Pode parecer maldade de
minha parte, mas acho engraçado quando, na hora-h, o sujeito deixa ruir tudo
aquilo que ele pensava que era...
Culpam-me por muitas reações impensadas, feitas
em meio ao desespero, mas isto é uma injustiça, pois não sou eu quem as faço.
Não tenho culpa se esta classe de ser vivente não consegue comportar-se melhor
em minha companhia. Apenas faço o meu trabalho.
Minha função é salvar o homem de muitos apuros.
Para não caírem em um poço, não baterem o carro, não apanharem do inimigo e
assim por diante. Dão-me até um adjetivo para estas situações, pois dizem que
nelas há o tal “medo bom”.
Mas, para os chamados outros tipos de medos, os
humanos não gostam de mim, abominam-me. Mal sabem eles que a causa está neles
mesmo! É um tanto difícil de explicar... Contudo vou contar o que acontece,
talvez assim fique mais claro.
Às vezes cismo de dar uma abraçadinha em alguém,
só pra me divertir um pouco. Porém, quando já estou me afastando, o sujeito me
atrai, me alimenta, entende? Aí eu volto e aperto um pouco mais o abraço, é
assim que funciona. Há aqueles que nem precisam da minha cutucada inicial,
vivem a me chamar. É contraditório! Sofrem comigo, mas não me querem longe!
E assim vou vivendo minha vida, tendo como
missão principal fazer com que os seres não percam as suas vidas antes do
tempo. Sim, porque vocês não têm o privilégio que tenho, pois, afinal, eu sou
eterno!
sábado, 3 de outubro de 2020
REFLEXO
Estou no banheiro, em pé, em frente ao vaso
sanitário. Ao alívio de esvaziar a bexiga segue-se a aparição de uma barata.
Vem de trás do pedestal do lavatório. Corre, em uma trajetória curvilínea, e
estanca, ainda perto do pedestal. É pequena. Então penso que deve se tratar de
um ser jovem.
Com os olhos cravados no indesejado inseto, dou
o laço no cordão da bermuda. Não sei o porquê, talvez a ciência ainda explique
um dia, mas algo faz com que as baratas paralisem quando lhes pregamos a vista.
Não é garantia. Às vezes falha. No entanto, algo as prende com o nosso olhar.
Realizo o movimento de me abaixar, com o braço
esticado em busca do chinelo que está no pé. É um momento crucial. “Agora ela
escapa”, é o pensamento que surge em minha mente. Pego o chinelo e me preparo
para o ataque. “Poxa, que bom, ainda está no mesmo lugar!”, outra vez a voz
interior do caçador de insetos.
Aproximo a sola do chinelo até a distância exata.
Se for mais longe, torna o movimento mais demorado, aumentando assim as chances
da presa. E, se for mais perto, acaba espantando a caça antes do bote. Concluo
esta etapa também com sucesso.
A preparação para o golpe fatal envolve
mentalização. Explico. Imagino a “ida” e a “volta” do chinelo. Concentro-me no
ato concluído. Só existe a cena do movimento finalizado. Crio uma tensão e
ansiedade... Como só existe a ação terminada, este estado mental faz com que meu
braço se movimente tão rápido como um salto no tempo...
PLAFT!
Sucesso!
Agora o “eu caçador” fala em voz alta:
– Você tem que melhorar o seu reflexo...
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
EFEMERÓPTERO
Sou uma das espécies de animal que menos vive no
mundo. Na verdade, eu já vivi antes, mas sob formas diferentes. Comecei como
uma ninfa, vivendo na água por um ano. Depois subi à superfície e me transformei
em um subimago. Nesta nova forma, voei e pousei sobre a vegetação. No dia
seguinte, ou seja, hoje de manhã, passei por outra transformação, e aqui estou
eu! Mas não tenho consciência destas duas existências anteriores, então, para
mim, vale mesmo esta vida de inseto na qual me encontro. Ah, você deve estar se
perguntando como eu sei destas coisas... Mas você também não sabe que viveu na
barriga de sua mãe? E por acaso se lembra desta vida em que vivia mergulhado
dentro do útero? Acho que isto nos coloca em situações meio que parecidas, mas
nem tanto... Afinal sua vida será, em média, de uns 28.000 dias, enquanto a
minha será de apenas um dia.
Enquanto você ocupa seus milhares de dias com
coisas como crescer, brincar, estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, constituir
família, ter filhos, se aposentar, e todas as outras milhares de coisas que têm
aí no meio, enquanto isso eu só tenho um propósito em minha vida: acasalar.
Agora os mais assanhadinhos ou assanhadinhas vão querer estar no meu lugar,
hein? Mas é melhor pensar bem! Gostariam de uma existência assim tão breve? Só
tenho a lhe dizer que, quando se tem tão pouco tempo de vida, cada segundo é
importante!
Só para ter uma ideia, este tempo, em que estou
falando contigo, representaria, se fosse em sua vida, uns 3 meses. Pois é,
estou gastando o maior tempão nesta boa ação de lhe aconselhar... Então é esta
a mensagem que gostaria que ficasse em sua mente: aproveite todos os instantes
da sua vida!
Enquanto isso, aqui do meu lado, vou aproveitando! Acabei de ver uma fêmea que entrou agora no enxame! Não posso perder tempo! É com essa que eu vou!