Casa cheia. Não cabe todo mundo em torno de uma
só mesa. Há duas, portanto, uma hexagonal e outra retangular. Família reunida
para comemorar o dia das mães. Esta é a primeira cena que quero deixar
registrada aqui neste meu relato.
Mas vamos detalhar um pouco mais os integrantes
deste almoço festivo. Não, festivo não. Não chegava a tanto. Acabei exagerando
no adjetivo. No entanto posso garantir que todas as pessoas falavam
descontraidamente, dando a impressão que lá estava uma multidão com incontáveis
conversas paralelas. Não, outra vez não usei a palavra correta. Não eram
propriamente conversas, pois isto pressupõe que as falas se conectem em um
enredo contínuo. Porém isto não ocorria, eram comentários soltos e curtos, que
pulavam de um lado para outro, relacionados ao momento presente: elogios à
comida, uma brincadeira aqui, outra lá...
No parágrafo anterior queria, pelo menos, ter
dito quem estava em torno das mesas, mas acabei somente dando uma ideia do
falatório que ocorria. Vamos então relacionar os indivíduos que estão comendo o
delicioso estrogonofe preparado pela anfitriã. Além desta, já mencionada,
temos: seu marido, sua filha mais velha acompanhada do marido, seu filho mais
novo (são dois os filhos da anfitriã), a mãe do seu genro, a sua mãe, a irmã e
seu marido e, finalmente, sua sobrinha. Ah, não posso esquecer do cachorro da
casa, um filhote esbelto e pretinho, agitado que só ele, que está preso na
coleira para não bagunçar com todo mundo, em sua incansável busca por comer,
comer, comer, comer... Quem o vê, pensa que está a morrer de fome, ainda mais
quando percebe as costelas que aparecem em seu esguio tronco. Pensamento
errado, pois é bem alimentado e come bem. Então, diante disto, podemos concluir
que há duas coisas com este animalzinho: não consegue engordar (deve ser o seu
biotipo mesmo) e não tem aquela trava no organismo que indica que está
satisfeito, ou seja, é como já disse, comer, comer, comer, comer...
Já que passamos para o reino animal, continuemos
aqui, mas agora explorando um ser bem menor que qualquer cão, e que estava em
um lugar incerto... Sim, não tenho condições de saber onde aquela barata estava
e, por acaso, alguém sabe exatamente de onde elas vêm? Só se sabe que elas
aparecem, principalmente nos dias mais quentes... (os mais observadores
estranharão, pois lembrarão que estamos no segundo domingo de maio, dia das
mães, e, nesta época do ano, no hemisfério sul, onde vive o escritor deste
relato, que, por sinal, sou eu, enfim... voltando ao fio da meada, no
hemisfério sul, distante apenas 40 dias do início do inverno, é absolutamente
incomum passar por dias tão quentes; mas acredite, os dias estavam bem quentes
nesta época do ano, graças ao aquecimento global, que anda provocando mudanças
climáticas e atingindo a todos, mesmo aqueles que não acreditam no aquecimento
global...).
Perdoe-me o leitor esta digressão climática.
Voltemos à barata. Coisas de escritor amador, ficar assim desviando do assunto,
tentando imitar o mestre Machado de Assis... No entanto, preciso dizer algo que
só um escritor pode saber, que é justamente a motivação desta barata, a razão
pela qual ela decidiu entrar em cena neste almoço de dia das mães. A razão é
simples e objetiva: saiu em busca de alimento para oferecer às suas crias,
pobres baratinhas que choravam de fome. Não acredita, leitor? Por acaso não está
gostando do que lhe conto, julgando ser fantasioso ou infantil? Pois sinto
muito, esta história vai continuar assim deste jeito, pois retrata a mais pura
verdade.
Começarei a descrever a trajetória da barata justamente
quando ela foi notada no ambiente. Começou assim: a filha da anfitriã sentiu
algo percorrer a sua pele. De imediato até pensou que fosse o filhote agitado,
fuçando em sua perna debaixo da mesa. Mas não. Infelizmente não. No instante
seguinte percebeu o terrível infortúnio e gritou: “Ai, uma barata! Uma barata
na minha perna! Ai, ai, ai!”. Sucedendo o grito, um breve choro meio
desesperado. Enquanto isso, a barata já atravessava, por baixo da mesa hexagonal,
aparecendo do outro lado e sendo vista pelo marido da anfitriã, que prontamente
tratou de perseguir o repugnante inseto.
Logo que passou pela mesa, ela já se enfiou e
escondeu-se por baixo dos pedais do órgão musical que ficava ao lado. Nisto, o
marido da anfitriã pediu para que esta lhe trouxesse o inseticida, enquanto ele
ficaria com o olhar pregado nos pedais (ele acreditava que, com o olhar fixo
desse jeito, as baratas ficam imobilizadas, pois percebem que estão sendo
observadas e não se arriscam sair do lugar). Verdade ou não, não se viu a
barata saindo dali até que o inseticida chegasse às mãos dele.
Nem é preciso mencionar que o almoço foi
totalmente interrompido e que tudo girava em torno daquele pequeno e indesejado
ser...
Armado com o spray, logo borrifou de um lado a
outro do estreito espaço entre os pedais do órgão e o piso da copa. Enquanto o
veneno se espalhava, em busca do inseto que dele fugia desesperadamente, a
jovem tentava se recompor da horripilante sensação de ter aquelas seis patas
nojentas correndo em sua pele. Imediatamente foi em busca do álcool, para
limpar-se em todo o caminho traçado pela barata.
O olhar atento do caçador logo percebeu que sua
presa corria desesperadamente, metendo-se agora por baixo da mesa retangular,
seguindo rente à parede e por detrás de uma caixa que ficava sob esta mesa.
Rapidamente ele puxa a caixa que a escondia e aplica nova carga do spray
venenoso...
Vamos agora voltar a dar o enfoque para ela, a
perseguida, aquela que saiu em busca de alimento para seus filhos, mas que
escolheu a hora errada para esta nobre tarefa... Você, que acompanha este meu
relato, neste momento deve estar reprovando este espaço que estou dedicando a
um ser nojento... No entanto, coloco aqui, a meu favor, o princípio da justiça,
dizendo que a barata tem sim o direito de ter o seu lado da história aqui
registrado, pois não podemos ficar com somente uma versão dos fatos, não é
mesmo? E esta versão, ignorada pela maioria das pessoas, é realmente trágica.
Especialmente neste caso em particular, pois a pobre barata estava simplesmente
em busca de saciar a fome dos seus rebentos. Há algum mal nisso? Não, de modo
algum. O problema, como já coloquei, foi ter escolhido a hora errada para
efetuar esta busca... Mas, pensando bem, haveria outra hora? Se os seus filhos
estão a chorar de fome, o que você faz? Vai esperar o momento certo de
socorrê-los com alimento? Ora essa, o momento certo é agora! Mas bem que os
filhotinhos de barata poderiam ter reclamado em outra hora, é o que podemos
pensar. Se fosse na calada da noite, com a copa e todos os outros cômodos
desabitados por humanos (com exceção dos quartos), se assim fosse ela poderia
sair em busca de alimento tranquilamente. Mas não, aconteceu justamente com a
casa cheia, naquele cômodo onde todas as pessoas almoçavam, comemorando o dia
das mães... E a pobre mãe barata agora estava em uma situação realmente
trágica...
A última borrifada do inseticida deixou-a em um
estado muito crítico. Seu sistema nervoso sentia o terrível efeito dos agentes
químicos. Não me atrevo a dizer o que se passava pela sua cabeça, pois aí já
entraríamos na questão de admitir ou não que uma barata seja capaz de ter algum
pensamento. Mas não podemos ignorar que este inseto tem um cérebro e que algo
deve ocorrer em seus neurônios. Desta maneira, algum tipo de pensamento, por
mais simples que seja, deve animá-la. Nada elaborado, sem palavras ou raciocínio
encadeado, mas algo relacionado a memórias, talvez. Principalmente neste
momento tão crucial, será que ela não está pensando nada? Eu diria que sim, ela
está pensando. Agonizando, vítima de um grande sofrimento, talvez lhe passe
pela cabeça o arrependimento de ter saído do seu canto com a casa assim tão
cheia. Mas não, quando eu, o humano que narra a história da barata, penso um
pouco mais a fundo, logo concluo que ela não se arrependeu, pois saiu e se
expôs para atender ao apelo dramático dos seus filhos, que choravam de fome.
Faria isso mais mil vezes, se preciso fosse! Afinal, quem disse que barata não
tem instinto maternal?
Agora me dirijo a você, que ao acompanhar esta
narração acabou por sentir pena deste infeliz inseto... E que se surpreende
consigo mesmo ao torcer para que o marido da anfitriã desista da caçada, a fim
de que a barata possa se recuperar. Sim, porque este ser é capaz de se
recuperar de situações realmente graves. Uma pesquisa rápida na internet já nos
mostra a grande resistência das baratas... Que elas podem viver por até uma
semana quando têm a cabeça decepada... Que, enquanto são ninfas (ou “não
adultas”, para simplificar), podem regenerar patas, antenas ou olhos... Que não
se afogam com facilidade, pois seu fôlego dura cerca de 40 minutos... Que elas
têm uma incrível flexibilidade e conseguem suportar 300 a 900 vezes o peso do
próprio corpo... Que, que, que...
Mas vamos partir para o desfecho desta história,
e conferir se a torcida dos defensores da barata surtirá algum efeito. Pois
bem, após ter puxado a caixa e espalhado mais uma carga do inseticida, o marido
da anfitriã logo percebe que a sua vítima se encontra em uma posição
vulnerável: de barriga para cima, sob a mesa retangular. Então ele puxa a
agonizante com uma vassoura, deixando-a perto de si, totalmente à mercê das
suas ações.
Interrompo mais uma vez a ação de perseguição,
pois acredito ser conveniente explicar a razão pela qual as baratas acabam por ficar
de barriga para cima nestas situações. Isso acontece porque estes insetos respiram
através de estruturas chamadas espiráculos, que são poros localizados na
lateral do abdômen. Em contato com inseticidas, esses poros se fecham e ela, na
tentativa desesperada de respirar, vira de barriga para cima, buscando puxar o
ar, em sua luta para se recuperar da ação do veneno.
Enquanto a infeliz barata buscava respirar, o
marido da anfitriã, esse gigante, lhe coloca a ponta do chinelo sobre a cabeça,
deixando tudo preparado para o golpe fatal.
Aperta o chinelo sobre a cabeça do inseto. Para
garantir o sucesso da operação assassina, equilibra-se na ponta de um dos pés e
deposita todo o peso do corpo sobre aquele cérebro que já se encontrava vitimado
pela ação tóxica do veneno. Ouve-se um pequeno estalar, indicativo de que os
miolos da barata estavam devidamente esmagados. Pronto, nada mais resta a
contar sobre esta personagem, pois ela não mais pertence ao reino dos vivos.
Mas a nossa história continua... Após a
finalização da caçada, era necessário limpar a cena do crime. Então ele foi em
busca de papel higiênico, recolhendo o pequeno corpo e ao mesmo tempo limpando
o chão sob o cadáver. Ao se aproximar do banheiro, local onde daria um fim aos
restos mortais, faz uma graça com a cunhada e a sobrinha, que haviam se
afastado da copa, talvez buscando um refúgio seguro, longe daquele ser
repugnante. Mostra-lhes o papel higiênico que embrulha a barata morta e obtém
delas uma reação de medo e nojo, acompanhada de um breve grito da sobrinha.
Atira o conjunto, barata mais papel higiênico,
no vaso sanitário. Aperta a descarga e lá se vai, para o esgoto, uma pobre mãe,
que só estava buscando alimentar seus filhos, bem no dia das mães...