sexta-feira, 7 de agosto de 2026

GUARDA-CHUVAS

Apelei, confesso que apelei, pois, ao invés de lançar mão da minha “Inteligência Natural”, acabei apelando e perguntando para a “Inteligência Artificial” (não vou dizer qual foi, porque não quero fazer propaganda de nenhuma delas!). A pergunta foi esta: “Preciso de ideias para escrever uma crônica... Você pode me ajudar?”. E não é que ela, no final da sua resposta, ao dar uma dica rápida da estrutura de uma boa crônica, colocou como exemplo a perda de guarda-chuvas e, com isto, me deu uma ideia legal?!

Pois bem, agora já tenho a ideia. Então fecho a aba da IA e vamos lá! (até rimou!). Nada de IA daqui para frente. Quero “eu” escrever, sem outra inteligência, somente a minha!

Quero falar sobre guarda-chuva, os guarda-chuvas da minha vida. E já começo falando do último, aquele que comprei na segunda-feira passada. Estava na rua Coronel Oliveira Lima, no centro de Santo André, um ótimo lugar para se fazer compras. Acompanhava a minha esposa e minha filha. Logo na entrada de uma loja, do lado esquerdo, vi alguns guarda-chuvas pendurados e fechados. Interessei-me por um, cujo preço era vinte reais. Naquele momento estava sozinho, pois as duas se adiantaram, entrando em outra loja. Veio-me à mente a intenção de já o comprar, pois pensei que, por menos de vinte reais, não encontraria outro. Mesmo assim resisti a este primeiro impulso e decidi pesquisar mais. E digo a você que esta decisão valeu a pena, pois acabei encontrando um por dezessete e cinquenta e, ainda por cima, o “dito-cujo” é azul. Sim, azul! Afinal, por que todo guarda-chuva masculino pequeno tem que ser preto? Chega de preto! Gostei muito da tonalidade do azul que usaram e me senti bem em fugir do padrão, um pequeno ato de rebeldia com estilo...

Após este breve relato sobre como este último guarda-chuva, o “diferentão”, entrou em minha vida, vamos partir agora para aqueles que saíram de minha vida, os perdidos, esquecidos, que me deixaram bem chateado quando me vi sem eles... Creio que aquele que mais me aborreceu quando notei o seu desaparecimento, foi um que era bem grande na circunferência. A separação ocorreu durante uma viagem de férias, quando passava alguns dias na cidade de Guararema. Lá estávamos eu, minha esposa e minha sobrinha e, para infelicidade nossa, ele, o meu guarda-chuva grande e preto, estava sendo bastante utilizado, pois pegamos uns dias bem chuvosos por lá. Nem sei como o perdi, só sei que doeu muito, ficava me lamentando pela perda do estimado pertence, utilizava os adjetivos "grande" e "preto" para, em meio a lamúrias, demonstrar o meu pesar. Pode parecer um exagero, tanta lástima por um simples objeto, nada valioso. Porém, devo dizer que meu sentimento era forte e pungente, pois sentia-me bem quando o abria e via a larga área que ele protegia ao meu redor, imponente, vitorioso sobre qualquer tipo de chuva, até mesmo as mais agressivas.

Mas não são só as perdas de guarda-chuvas que nos chateiam, há também as suas quebras, que acontecem espontaneamente, muito cedo, tornando-os praticamente descartáveis. Já faz muito tempo que não se consertam guarda-chuvas... E isto faz com que as suas presenças em nossas vidas sejam demasiado breves, mal temos tempo de usá-los, e logo as varetas desencaixam, entortam, os cabos afrouxam ou soltam, as lonas desfiam, e aí já são substituídos por outros, novos e igualmente frágeis... Se o pobre coitado consegue resistir e dura um pouco mais, aí vem o fatal esquecimento, que o separa do seu dono ainda em tenra idade...

Outra vez pode parecer um exagero o modo como me expresso, humanizando um simples guarda-chuva, usando a expressão "tenra idade" direcionada a um objeto inanimado... Mas não é um exagero não, aliás é uma postura que deveria ser adotada por mais pessoas, pois se os infelizes guarda-chuvas são vítimas de muitos esquecimentos, é justamente porque são menosprezados. Sim, menosprezados. Mesmo eu, que agora refiro-me a eles cheio de sentimentos, se isto fosse de coração mesmo, não os esqueceria por aí em qualquer canto. Confesso então que, efetivamente, não dou o devido valor a eles. Mas nem por isto deixo de muito sentir quando os perco. Creio que é o mesmo que acontece nos relacionamentos humanos, especialmente naqueles entre parceiros amorosos, quando um deles não valoriza o outro, e só vai dar valor quando não mais o tiver...

Mas, pensando bem, este guarda-chuva que perdi em Guararema era, por mim, bem valorizado. Mas como, então, eu fui capaz de esquecê-lo em algum canto e, ainda por cima, nem lembrar que canto foi esse?

Imperdoável, esquecimento imperdoável, com certeza. E quer saber de uma coisa? Não vou nem mencionar os outros guarda-chuvas da minha vida. Todos eles perdem o valor quando os comparo com este, grande e preto que, imponente, protegia-me das chuvas, mesmo as mais molhadas e chuvosas...

Ah, mas talvez este azul que comprei agora, o "diferentão", que foge da mesmice da cor preta dos guarda-chuvas masculinos pequenos, talvez este também conquiste destaque na galeria dos guarda-chuvas da minha vida.

De minha parte, farei de tudo para não o esquecer. E que seja eterno enquanto dure a sua breve vida...

sábado, 18 de julho de 2026

PAPO DE NUVEM

Daqui de cima o mundo parece tranquilo. Mas sei que não é. Dá aquela sensação de que o tempo não existe e de que há somente um eterno presente...

Você deve estar se perguntando como eu, que vivo sempre nas alturas, sei das coisas que acontecem na superfície terrestre. Afinal, como posso saber que o mundo não é tranquilo? Bom, em primeiro lugar, devo dizer que este questionamento não faz muito sentido, pois, antes desta pergunta, faz-se necessário desvendar como esta impossibilidade, de eu conseguir me comunicar contigo por palavras, está acontecendo neste exato momento. Então, para não complicarmos e para que eu não me desvie do foco daquilo que quero dizer, proponho aqui para que deixemos todas as perguntas de lado, certo?

Retirado este entrave de ficar respondendo todas as dúvidas e explicando as impossibilidades, posso então começar a falar contigo, indo direto ao ponto e perguntando... Ah, vai dizer você agora, “por que eu não posso perguntar, mas você já vai me fazendo uma pergunta?”. Olha, então vamos fechar mais um acordo: eu posso perguntar, mas você não, beleza? E o que quero saber de você é o seguinte: você é aquele tipo de pessoa que olha para o céu e me aprecia?

Enquanto você vai pensando na resposta, quero lhe mostrar como eu me sinto quando as pessoas só notam a minha presença quando estou escura e carregada, como se antes disto eu não existisse. Só por temerem a chuva, por ela estragar os seus planos, só aí notam que eu existo e, ato contínuo, desejam que eu não existisse, desejo este que só mostra o quão egoístas são. E há também aquelas que não gostam da sombra que faço, por impedir o seu bronzeamento mais intenso ou atentar contra o seu ideal de “dia bonito”... Outra vez o egoísmo em cena... Poxa, que discriminação! Culpar-me pela sombra que faço! Ora essa, como se eu pudesse deixar de ter sombra... Pois vá culpar o Sol então!

E por falar neste meu companheiro do dia a dia, o Sol, queria deixar aqui registrado o meu protesto. Sim, porque ele é sempre venerado, cultuado, valorizado... Enquanto eu só estrago os planos... Já sei, já sei, você vai dizer que sou ciumenta, mas é a pura verdade! Ah, mas tenho que ser justa e dizer que há aqueles que sabem me dar valor. Geralmente estão nas zonas rurais, com seus pedaços de terra que dependem das chuvas para bem produzir. Muitos deles rezam para que eu apareça, e, quanto mais escura eu estiver, melhor! Querem logo que eu descarregue toda a água por cima deles!

Porém, infelizmente, a maioria das pessoas não me vê com bons olhos. Na verdade, elas nem me veem! Nem olham para o céu! Vivem tão atribuladas e apressadas, sempre com as cabeças enterradas nos celulares. E olha que nós nos esforçamos para chamar a atenção. Fazemos o máximo para embelezar o céu! Sim, pois não somos sempre escuras e sobrecarregadas d’água... Mudamos muito de forma e de tonalidade. Podemos espalhar finos fiapos no céu, como que feitos por um pincel mágico... Ou fazermos uma extensa plantação de chumacinhos brancos no azul celeste... No entardecer, brincamos com as tonalidades, e mostramos que podemos ser muito mais que simplesmente brancas ou escuras... Tudo isto, fazemos tudo isto na esperança de sermos admiradas por vocês aí embaixo... Mas que nada! Se a gente aparecer na tela do celular, aí sim seremos vistas! Ninguém levanta a cabeça para nos ver, muito menos para nos admirar!

No entanto, aqui também devo ser justa e dizer que existem pessoas que sabem nos admirar. Apreciam mesmo quando estamos bem gordas, branquinhas e fofinhas na parte de cima, mas chapadas e escuras na parte de baixo, anunciando chuva pesada! São pessoas que têm um olhar especial, pois enxergam beleza nos elementos da Natureza. Percebem as obras de arte que nos esforçamos para estampar no céu... Quando fazemos aquele buraco no meio de nós, e deixamos aquele cone de luz solar brilhar em meio ao cinza, como algo divino que estivesse sendo derramado sobre a Terra, quando isto acontece exclamam e sentem a vida de uma maneira diferente... Enquanto outras, ao seu lado, continuam pregadas nas telas dos celulares! Vivem sem viver!

Ah... E você, como é? Não esqueci não da pergunta que lhe fiz...

“Você é aquele tipo de pessoa que olha para o céu e me aprecia?”.

sábado, 20 de junho de 2026

AS COPAS DA MINHA VIDA

Copa do Mundo de futebol! Não preciso dizer mais nada. Se aqui no Brasil o futebol tem um espaço enorme na mídia, imagine então durante a copa, como agora. Bom, vamos deixar registrado o ano, para que quando, no futuro, este texto estiver na frente de algum leitor, o mesmo possa situar, no tempo, a época em que registro estas minhas despretensiosas impressões. Estamos em 2026.

Poxa... Quantas copas já vivi... Na de 1966 tinha um ano de idade, nem tenho como me lembrar... Mas acho que nenhum brasileiro gostaria de lembrar desta copa, na qual o Brasil foi eliminado precocemente, na primeira fase.

Depois veio a de 70. Desta eu me lembro! Porém é uma recordação que não tem a ver diretamente com o futebol. A cena que ficou gravada, na criança de cinco anos que eu era, foi o céu, repleto de balões, comemorando o tricampeonato!

Quando penso na de 74, duas coisas me vêm à mente: Pelé não jogou e “Carrossel Holandês”. No entanto, memória mesmo desta copa, não me restou nenhuma.

Em 78, a memória que trago bem marcada desta copa foi a marmelada da goleada da Argentina sobre o Peru, que tirou o Brasil da final.

Acho que a copa na qual eu mais torci, e a que mais me decepcionei também, foi a de 82, na qual tínhamos a “seleção perfeita”, e perdemos... A lembrança que ficou cravada na memória daquele “eu” jovem de dezessete anos foi uma cena em que estava sozinho, na lavanderia da casa dos meus pais, envolto em sofrimentos e martírios, logo após a derrota...

Quanto às copas de 86 e 90, podemos pular, pois nada de relevante trago delas.

Depois veio a de 94, que foi nos Estados Unidos, e desta tenho recordações... O fuso horário permitiu que eu acompanhasse bastante os jogos, que aconteciam à noite no horário do Brasil, quando já estava em casa após o trabalho. Morávamos em um quarto e cozinha e eu via as partidas na televisão de quatorze polegadas, que ficava em frente à cama. Lembro-me das reclamações da minha mulher, grávida, que se cansou de ouvir um pequeno jingle da emissora que transmitia os jogos... Via tudo quanto era jogo, comentários e cobertura da copa... A seleção do Parreira tinha a fama de jogar na retranca. Um jogo feio, amarrado. Mas que demonstrou sua eficiência e nos trouxe o tetracampeonato, com final disputada nos pênaltis e com muita emoção.

A copa de 98 deixou em mim a lembrança da final, quando jogamos contra a França e com aquele mistério sobre a escalação do "Ronaldo Fenômeno". Não vai jogar, vai jogar, não vai jogar, não saiu na escalação oficial, o que aconteceu? Acabou jogando, mas não se deu bem, a mesma coisa com nossa seleção, que amargou uma derrota por três a zero. Depois este mistério foi esclarecido: Ronaldo havia tido uma crise convulsiva no mesmo dia da final.

Se esta copa nos deixou estas lembranças desagradáveis, quatro anos depois, na de 2002, sediada no Japão e na Coreia do Sul, não só a seleção deu a volta por cima, conquistando o pentacampeonato, como também o Ronaldo fez jus ao "sobrenome-apelido" que carrega. Realmente um fenômeno!

E, depois de 2002, veio a "grande seca", que chega até hoje. Toda uma geração não viu o Brasil campeão. Os meus filhos viram, mas eram pequenos. Minha filha, com sete anos, deve guardar alguma lembrança, mas meu filho, com apenas dois, creio que não se lembra de nada... De qualquer modo, bem que eles merecem ver agora, jovens que são, ela com trinta e um e ele com vinte e seis, merecem sim ver a nossa seleção brilhar novamente, trazendo o tão sonhado, e esperado, hexacampeonato.

Bem no meio deste longo período sem títulos mundiais, em 2014, sofremos a pior e mais humilhante derrota em uma copa do mundo: o sete a um, na semifinal contra a Alemanha. Sobre este jogo, melhor nada comentar. Acho que todo brasileiro, infelizmente, se lembra muito bem da tragédia que foi... Somente queria deixar registrada aqui uma memória que trago, bem marcante, desta copa. Lembro-me de, minutos antes do jogo do Brasil, sair na rua em busca de uma bandeira nacional para dar ao meu filho, então com quatorze anos, que estava hospitalizado e com uma complicada fratura no fêmur. Nas ruas que cercavam o hospital, enquanto andava e procurava, recordo-me que estava bem emocionado pela situação e pelas dores que ele enfrentava... Bem que o clima daquela copa poderia ter sido bem melhor...

E agora estamos em 2026, no meio da copa! Depois de estrear com um empate contra o Marrocos, ontem o Brasil fez seu segundo jogo, ganhando de três a zero do Haiti. Logo após o jogo, ao ouvir um comentarista dizendo que o Brasil estava pronto para jogar com as melhores seleções, tecendo comentários elogiosos, comentei: “Peraí, peraí! Uma coisa é ganhar de três a zero do Haiti... Agora quero ver pegar os grandes times! Isso não é referência...”. Meu filho retrucou de imediato: “Nada a ver... Que é isso pai? Antipatriotismo!”.

Bom... E assim acabo de colocar minhas lembranças envolvendo todas as copas que vivi... E, para finalizar, só me resta dizer que, mais uma vez, torcerei pela seleção brasileira: “Vai pra frente Brasil! Bora conquistar esse hexa!!!”.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

MAMÃO, VOCÊ ME TORTURA, MAS QUERO LHE TER EM MEU QUINTAL!

Definitivamente plantar mamão é algo desafiador para mim. Bom, plantar a semente é tarefa fácil, mas fazê-la germinar é que são elas... Foram várias, muitas tentativas... Até que eu desisti de usar sementes vindas das frutas consumidas. Mas achar sementes para comprar não foi tão fácil. Em uma das vezes em que estava procurando, ao perguntar para um atendente da loja, uma senhora que estava ao meu lado, passando seus produtos no caixa, foi logo dizendo para mim a respeito das “qualidades agronômicas”, vamos dizer assim, da sua neta: “... ela pegou as sementes de um mamão e plantou em um vaso mesmo... deu uma muda desse tamanho...”. E mostrou com as mãos a envergadura do prodígio da menina. Eu elogiei: “Ela tem mão boa pra plantar... uma boa energia”. Foi algo assim que eu disse. Depois completei, queixando-me que eu vivo tentando fazer brotar um pezinho de mamão, mas nunca consigo. Então a senhora completou o seu relato, dizendo que falou para a neta levar o vaso na escola, pois lá vai ter uma feira ou exposição, algo assim, não me lembro bem... O que me lembro mesmo é do contraste, do frustrante contraste, a menininha plantando as sementes retiradas de um mamão, como eu já cansara de fazer, e vendo brotar uma linda e vigorosa muda, enquanto eu só plantava esperanças, que secavam sem germinar, em infinitas tentativas...

Mas nem todas as tentativas foram frustradas. Antes desta fase, na qual não consigo fazer germinar uma semente sequer, tive alguns poucos sucessos. Na verdade, o termo “sucesso” não cabe bem, pois o que ocorreu tão somente foi a germinação de algumas sementes que, em absoluto, não resultaram em plantas saudáveis, ficando muito longe daquele tão almejado pé de mamão bonito, viçoso, produzindo frutos... Naquela época, fiquei muito contente ao ver que alguns brotinhos surgiram nos copinhos plásticos que usei como vasos. Escolhi o melhor deles para uma longa viagem... Eram os anos em que meu filho cursava a universidade em Pato Branco, no Paraná. Então, em uma das vezes em que lá fui, na aventura de percorrer centenas e centenas de quilômetros, tendo como copilota minha ilustríssima esposa, lá estava, junto conosco, o brotinho viajante. Lá chegando, tratei de plantá-lo no quintal da casa onde meu filho morava. Eita terra dura danada! Avermelhada, resistia ao meu trabalho, que tentava afofar o que parecia ser “inafofável”... Enfim consegui plantar, e recomendei ao meu filho que o regasse. Acho que ele falou, de cara, que não iria regar... Era o esperado... Contava então com as chuvas, esperando que tivessem alguma regularidade que garantissem o desenvolvimento da planta. Afinal, não existem pés de mamão que surgem nos barrancos, nas terras abandonadas, onde ninguém rega? E dão mamões que são uma beleza! Pois era isto que eu esperava! “Toma lá, Dona Natureza! Eis aqui um brotinho de mamão para que você cuide bem dele! Quando o meu filho se formar na universidade, quero ver este pé carregado de frutos!”. Esta foi a conversa que tive com este ente divino. Mas parece que não fui ouvido. Ao voltar para casa, não tive mais notícias do brotinho. Da próxima vez em que lá fui, nada vi. Acho que ele não passou de um mero brotinho e, de algum modo, pereceu...

O caso mais vitorioso de todas as minhas infinitas tentativas, foi ver um dos brotinhos virar uma planta... Bom, nem sei dizer se chegou a ser uma planta normal... Estava no quintal do fundo de minha casa, entre um pé de atemoia e outro de abacate. Talvez seja por isso, em sua busca de encontrar sol e mais luminosidade, na injusta competição entre ela e dois grandes pés já formados, que o seu caule não parou de crescer. Não desenvolvia para os lados, só para cima! As poucas folhas eram miúdas, e logo secavam. E assim foi prosseguindo, como uma vareta que vai se alongando... Até que o extenso caule teve, na sua base, o seu fim. Junto à terra, estava apodrecendo...

Voltando a contar sobre esta minha fase atual, na qual nenhuma semente de mamão germina, houve um acontecimento que merece aqui ser relatado. Desta vez as sementes haviam sido semeadas outra vez nos tais copinhos plásticos. E como já fazia certo tempo que nada despontava daquela terra que os enchia, resolvi plantar outras sementes. Mas eis que, quando estava abrindo espaço na terra, revolvendo um pouco com a ajuda de um palito de fósforo, a fim de preparar o pequeno buraco que abrigaria novas sementes, eis que encontro o princípio de um broto! Mas que tragédia! Aquele ínfimo vegetal, um fiapinho de raiz saído da semente ressecada, semente esta que abrigava minúsculas folhas que tentavam dela sair, este começo de vida foi violentamente arrancado de sua confortável posição no meio da terra... Era tão sensível que qualquer interferência seria drástica. Deveria lá ficar, aconchegado pela Mãe-Natureza, ganhando forças para despontar para fora da terra. E lá fui eu mexer e estragar tudo! De nada adiantou tentar deixar o quase-broto no que julgava ser a melhor posição, ajeitando a terra ao seu redor, nem as regas dos dias posteriores, nem nada. Secou. Poxa, era só ter esperado mais um tempo! Mas lá fui eu, com a minha precipitação...

Mas agora eu plantei sementes compradas! Vamos ver se estas germinam... Plantei diretamente na terra, aqui no quintal do fundo, depois de estudar muito o melhor local, onde haveria mais luz solar e menos sombra das outras plantas. Nos últimos dias andou chovendo, chuva fina, chuvisco. Mais frio, o inverno se aproxima. Mês de maio. Na embalagem da semente há um mapa do Brasil e, junto dele, um quadro com os doze meses do ano, onde é indicada, por círculos coloridos que se relacionam com as regiões do mapa, qual é a melhor época de plantio. Na região em que estou (São Paulo e sul de Minas), não é indicado o plantio nos meses de junho e julho. Mais um pouco, segundo as instruções da embalagem, e entraria nestes meses proibidos. E, por falar em embalagem, tenho que contar aqui a grande viagem ela fez para chegar em casa, pois comprei-a pela internet. Saiu de Ourinhos, passou por Bauru, para depois vir para a minha cidade, São Caetano do Sul. Uns quatrocentos e setenta quilômetros, no total, mais ou menos.

Depois de tanto andar, espero que as sementes não tenham se cansado, e que nelas sobre alguma força que as faça germinar!

terça-feira, 21 de abril de 2026

PROPOSTA INDECENTE

Estava sem nenhuma ideia para escrever o texto do mês aqui no blog... Na verdade ainda é o texto do mês passado! Puxa, o tempo passa! Mas então, se não fosse a aventura que vivi no domingo último, ainda estaria sem assunto. Mas a vida é assim, de vez em quando nos dá alguma coisa para contar...

Tudo começou quando fomos dar ouvido para a mulherzinha do Google Maps. É como chamamos a voz deste aplicativo que orienta o caminho. Cabe aqui mencionar que nesta denominação não há nenhum aspecto de misoginia de nossa parte. Sendo sincero, talvez o diminutivo e a entonação com que falamos "mulherzinha" tenham a ver com uma certa irritação, pois achamos que ela fala demais...

Estávamos no carro eu, ao volante, minha esposa, ao meu lado, e minha sogra, no banco de trás. A viagem tinha como destino o Hotel Fazenda Vale da Mantiqueira, na cidade de Virgínia, em Minas Gerais. Havíamos partido de Santo André, em São Paulo, onde mora minha sogra. Como já disse, caímos na besteira de darmos ouvido para a sugestão de um caminho alternativo que a tal mulherzinha nos propôs, que, segundo ela, traria economia de 3 minutos, alguma coisa pouca assim... Tentados pelo ganho de tempo (ínfimo, que besteira!), aceitamos a proposta.

Em um primeiro momento, logo depois que saímos da estrada asfaltada e entramos em um pequeno vilarejo, tudo era perfeitamente aceitável. Afinal, que mal há em desbravarmos um pouco do interior? Lembro que vimos um homem com um chapelão de vaqueiro, que me fez comentar algo a respeito, tipo assim: "Olha o cara com um chapelão aí! Pra dizer que é interior mesmo!".

Mas eis que, sem demora, o chão de terra logo surge sob as rodas do carro. Mais adiante, várias vacas ao lado da estradinha atestam que estamos em uma zona rural. Chego até a parar o carro para tirar foto de uma que está bem perto. E não é que ela saiu bem? Vaca fotogênica. Então minha mulher lembra que, pouco tempo antes, sua mãe havia reclamado que não havia vacas na paisagem. Seu desejo foi atendido! Assim sendo, brincamos que agora ela deveria falar que quer ver asfalto, para que o mesmo surgisse diante de nós. Nem me lembro se disse isso mesmo, só sei que o tal asfalto demorou muito, mas muito mesmo para chegar...

Mesmo assim, com toda esta dificuldade do caminho, estávamos de bom humor, pelo menos nesta parte inicial da aventura. Eu fazia comentários sobre a paisagem, que era realmente exuberante. O terreno montanhoso de Minas Gerais é muito bonito mesmo. As várias tonalidades de verde se mesclam em um visual estupendo. O dia bonito e ensolarado deixava o cenário perfeito... O cheiro da natureza... Até as borboletas que cruzávamos pelo caminho ganhavam meus elogios.

Porém, aos poucos, a estreita estradinha ficava cada vez pior. Estávamos nos embrenhando pela serra, com muitas curvas. Pedras, muitas pedras, buracos, muitos buracos... E foi neste verdadeiro rali que ouvimos as fortes pancadas que o assoalho do carro dava no solo. Mesmo indo bem devagar, como o terreno era incrivelmente acidentado, era praticamente impossível escapar destas batidas. A cada uma delas, vinha mais preocupação de que o carro não resistiria. Afinal, um Toyota Etios Sedã não é um carro preparado para este tipo de desafio. Em alguns trechos surgiam valas, com certeza formadas durante as chuvas, mas que agora mais pareciam bocas enormes e arregaladas, prontas para engolir as rodas do carro. As pedras pontiagudas também me atormentavam e, a cada segundo, tentava encontrar uma maneira de escapar destes obstáculos e seguir em frente... Até quando o carro resistirá?

Era tanto solavanco que a minha sogra sustentou o joelho sobre uma manta dobrada algumas vezes para amortecer os impactos. Ainda mais agora, que ela está de “joelho novo”, nem pensar em estragar o belo trabalho que o doutor fez, com a infiltração de plasma sanguíneo e células tronco, procedimento milagroso que lhe livrou das dores. Na minha cabeça, era real a possibilidade de o carro ficar no meio do caminho, com algo quebrado ou vazando por baixo devido às pancadas e raspadas no chassi, ou atolado em alguma das infinitas armadilhas que surgiam naquilo que, com certeza, nunca poderia ser chamada de estrada. Aliás, como o Google Maps descobre estas coisas que mais parecem picadas abertas na mata? E como tem a coragem de considerar isso como estrada e botar os carros para se ferrarem nela! Até galho seco atravessado pelo caminho tinha. Sorte que era bem fino e, assim sendo, acreditei que a pintura do meu pobre Etios seria preservada.

Minha mulher fala para eu ir mais devagar. Mas nem vejo como ir mais lentamente. Olho para o traçado da estrada no mapa do aplicativo do celular. Um caminho tortuoso que não acaba nunca! Cada vez mais entrando sei lá onde, com a estrada piorando a cada minuto. Aquele espírito esportivo do começo, aventureiro, admirando a natureza, praticamente acabou. O que veio em seu lugar foi uma vontade de logo sair desta enrascada... A cada obstáculo transposto, com batida no assoalho do carro que faz vibrar os pés, o pensamento: “Será que desta vez quebrou mesmo algo embaixo do carro?”, ou: “Caramba! Maior prejuízo consertar os estragos no carro!”.

De repente surge um veio d’água cruzando transversalmente a estradinha. Então as rodas patinam e, neste instante, sinto aquele frio cortante atravessar meu peito e, na mente, a sentença: “Vou atolar!”. Não foi desta vez...

O pior era que estávamos em uma região quase que totalmente desabitada. Raras casas apareciam, muito de vez em quando, no fundo dos vales, e minha esposa comentou: “Como será que eles fazem para chegar lá embaixo?”. Esta era uma questão totalmente pertinente, visto que não encontrávamos nenhuma outra estradinha que saísse da nossa e descesse o morro. Sinal de celular? Esquece! Se acontecesse algo que impedisse que continuássemos, sei lá como faríamos para obter ajuda...

Foi então que apareceu, no sentido contrário, uma moto. Ah, não estamos sozinhos neste fim de mundo! O motorista parou ao meu lado e trocamos algumas palavras. “Vocês vão para o hotel?”, acho que foi o garupa que nos fez esta pergunta. Respondemos que sim e aí completei: “O aplicativo mandou vir por esse caminho para economizar tempo, achando que nesta estrada dá pra andar a sessenta quilômetros por hora, mas não dá pra andar nem a seis!”. Então ele tornou dizendo que, daqui para frente, o caminho melhoraria. Glória Deus! Santas palavras!

Realmente, daí para frente foi melhorando... Aqueles poucos minutos que ganharíamos com este “atalho”, acabou ficando, creio eu, em mais ou menos uma hora de atraso com relação ao tempo inicial previsto.

Mas tudo bem! Estávamos todos na civilização novamente. Ninguém ficou com o carro atolado ou quebrado no meio do nada.

Na recepção do hotel, fui ao banheiro. E foi aí que, lembro-me bem, surgiu-me a ideia de converter esta experiência em mais um texto. Afinal, esta aventura tinha que ficar registrada!

Ah, é bom aqui dar um aviso de utilidade pública. Caso você um dia vá para este mesmo hotel, vindo de São Paulo, jamais coloque direto o endereço do hotel. Primeiro coloque para ir para a cidade de Cruzeiro, SP. A partir daí, coloque para chegar em Pouso Alto, MG. E só a partir deste último destino, coloque o endereço do hotel. Se não fizer assim, o Google Maps lhe fará a proposta indecente de economizar alguns minutos e, se você ceder... Bom, agora você já sabe o que pode acontecer!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

PERFECCIONISMO

Não sei porque ainda insisto no perfeccionismo. Acho que esta atitude é contrária à ordem natural das coisas. Penso que a teoria da evolução de Darwin tem como princípio o erro da Natureza. Explico: aquele ser que nasce diferente dos demais pode ser considerado um erro. Porém esta diferença, quando for favorável à sobrevivência da espécie, seguirá avante no processo evolutivo. Se não for favorável, será uma mudança descartada. Se não houvesse o erro de nascer um ser diferente, não teria evolução. Ou, pensando de outra maneira, a Natureza vai errando e acertando na geração dos seres. Os acertos são as mudanças que os ajudam a viver mais e melhor. Os erros vão no sentido contrário. No entanto, o erro é a base. Base inteira se considerarmos erro todo ser que nascer diferente. Metade da base se considerarmos erro somente aqueles seres cujas diferenças não são favoráveis à evolução da espécie. Por um raciocínio ou por outro, há o erro como princípio básico. E fatalmente temos que admitir que a Natureza se permite errar para evoluir.

Então eu, um ser natural, como posso querer nunca errar? Fazer tudo certo, sempre? Não estaria assim, sendo contrário à evolução que faz parte da Natureza?

E aqui surge o paradoxo: buscar o perfeccionismo, sem admitir erros, acaba sendo o maior dos erros, pois estaremos nos distanciando da perfeição da Natureza, que admite os erros para evoluir.

Quando comecei a escrever este texto, tinha em mente relatar duas situações marcantes em minha vida, nas quais o perfeccionismo exacerbado comprovou ser o caminho mais rápido para o fracasso total. Não sei de vale a pena colocá-las aqui... Mas só para não deixar você no vazio de não contar estes fatos, vamos a eles, rapidamente.

O primeiro deles foi quando, ainda criança, estava fazendo uma pipa tipo raia. Lembro-me do extremo detalhismo ao cortar a folha de seda... Tudo milimetricamente elaborado... Para no fim culminar, no primeiro puxão da linha ao empiná-la, em uma vareta quebrada! Tanto esmero na confecção da pipa e a vareta estava “bichada”!

A segunda situação ocorreu nos meus tempos de jovem, quando tinha o hobby de montar circuitos eletrônicos. Decidi montar aquele rádio de quatro transístores em uma placa de circuito impresso, feita com todo o cuidado, na qual soldei todos os componentes buscando o máximo de perfeição. Finalizada a montagem, ao ligar o aparelho, funcionou por apenas alguns segundos, porque, logo em seguida, o som da estação foi substituído por um apito irritante, causado por algum componente que, aqui também “bichado”, provocou este triste resultado. Mais infeliz eu fiquei quando fui ver um amigo que também havia montado este mesmo circuito. Porém ele optou por, ao invés usar uma placa de circuito impresso, soldar os componentes usando uma ponte de terminais, com fios passando pra lá e pra cá, com os terminais dos componentes dobrados e tortos, passando uns sobre os outros, aquele emaranhado que mais parecia uma teia de aranha tridimensional... Esteticamente deplorável. Mas funcionava perfeitamente bem!

Acho que estes dois incidentes falam por si a respeito dos efeitos colaterais do perfeccionismo... E a Natureza nos fala como devemos agir: admitindo os erros para evoluir!

sábado, 7 de fevereiro de 2026

MEU NOME É PRECIPITAÇÃO

Sou a mãe do arrependimento.

Apresso tudo, como se diz, coloco a carroça na frente dos bois.

Provoco reações afobadas, descontroladas, impulsivas...

Nunca estou situada no tempo presente. Coloco-me sempre alguns segundos à frente.

Não sei esperar. Empurro as pessoas para agirem de qualquer maneira, impensadamente.

Quero muito acertar, mas quase sempre erro.

Sou a grande vilã dos atletas, dos esportistas de todos os esportes.

No tênis de mesa, onde décimos de segundo são importantes, não espero o instante perfeito, gerador do golpe perfeito... Movimento músculos antes da hora, venho antes do pensamento, e a coisa não acaba boa.

Atuo em todos os campos da vida. Prejudico relacionamentos. Machuco as pessoas. Posso até matar!

Aqueles que me ouvem estão sujeitos a grandes erros. Portanto, a melhor maneira de lidar comigo, é me ignorar!

É estranho, não é? Alguém dizendo que é para ser ignorado... Não se trata de baixa autoestima, é somente uma questão de encarar a realidade dos fatos. Pois eu lhe digo que, as pessoas realmente sábias, estas sim aprenderam a me ignorar. Quando eu, afobada, fico assoprando em seus ouvidos para que façam alguma coisa rapidamente, estes raros sábios não se deixam levar pelo meu estado de ânimo sempre desesperado. Afastam-me e... pensam, para depois agirem.

Este escritor, que digita estas palavras que você, leitor, está lendo agora, pois bem, digo que este escritor me ouve bastante, e, depois, se arrepende muito! E por estar me ouvindo neste momento, ele vai acabar este texto de uma hora para outra, impensadamente, só para terminar logo, sem se preocupar em fazer um fecho final. Sim, exatamente isto, ele vai ouvir os meus apressados apelos e somente vai encerrar com apenas uma frase, que, por sinal, é o título desta crônica...

Meu nome é precipitação.