Desde 22/10/2011.
178 postagens, em média uma por mês.
Textos quase sempre pequenos, em doses pequenas, gota a gota.
____________________________________________________Ademir Moreno Aguilar
______________________de 1987 até agora => 39 premiações em concursos literários
sábado, 25 de janeiro de 2020
FAN, A ELEFANTA DESENCANADA
Ilustração: Monise (minha filha) - @monisesmoreno
Meu nome é Fan e já vou dizendo que pra mim não tem tempo feio. Eu já chego chegando e vou logo ocupando todo o espaço a que tenho direito (e olha que não é pouco!).
Sabe, nunca tive muita paciência, mas de uns tempos para cá, depois que entrei na menopausa, a coisa piorou. Dá aquele calorão danado, parece que a gente vai derreter... Pois é, acho que eu não posso falar “a gente”, mas tudo bem! Então, continuando... Aí eu não quero nem saber, meto a tromba n’água, sugo tudo que posso, e depois esguicho por todo o meu corpo! Ah, que delícia!
Não importa onde eu esteja, não ligo, os incomodados que se mudem! Ou você acha que eu deveria pegar fogo? Que nada! Se espirrar água nos outros eu não estou nem aí!
Sou desavergonhada mesmo. Uso biquini com a maior naturalidade, em qualquer lugar! Afinal, o forno ambulante que levo comigo, dentro de mim, não tem local nem hora para acender!
Assim sou eu! Podem falar o que quiser! E olha que o pessoal fala mesmo. Mas o que eles estão pensando? Não é só quem tem as medidas certas, com tudo em cima, barriga negativa e coisa e tal, não é só essa turma que pode usar pouca roupa e dizer que tem corpo de praia. Ora bolas! Eu tenho um corpo em forma de bola e faço a praia onde estiver! E tenho dito! Assim está bom pra você?
sábado, 21 de dezembro de 2019
2019, ANO INSANO
Nem sei por onde começar. O arsenal de
insanidades neste primeiro ano de governo do meu violentado Brasil é enorme.
Então o desafio é ainda maior, pois pretendo condensar tudo em no máximo 250
palavras, tamanho usualmente empregado para os microcontos. Mas não vai dar, eu
sei. Então peço ao leitor que não me critique se este microtexto não comportar
todas as asneiras governamentais. A culpa não é minha...
Não repare também na cronologia, pois lançarei
aqui as atrocidades sem preocupação com a ordem temporal.
Aqui vai, abre aspas geral:
A Amazônia não está pegando fogo, até porque a
floresta é úmida, não tem como pegar fogo.
Tem muito formado aqui em cima dessa filosofia
aí do Paulo Freire da vida aí, esse energúmeno aí, líder da esquerda.
Quando se fala, por exemplo, de poluição
ambiental, é só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa
vida também, tá certo?
Você concorda com o seu chanceler, de que o nazismo
foi um movimento de esquerda? Resposta: “Não há dúvida, né? Partido Socialista...
Como é que é? Partido Nacional Socialista da Alemanha”.
Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a ANCINE.
Questão ambiental só importa aos veganos que
comem só vegetais.
Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher,
fique à vontade.
Para o presidente Trump: “I love you”.
Enquanto eu for presidente, não tem demarcação
de terra indígena.
Não nasci para ser presidente, nasci para ser
militar...
Chega! Fecha aspas geral!
Vou poupá-los!
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
CAMARADA VENTO
Era uma vez um tornado que, na sua passagem,
destruiu todas as humildes casas e casebres de um pobre vilarejo. Também
destruiu um magnífico palácio daquelas redondezas. Esqueceram de avisar o vento
que ali vivia o rico e poderoso rei, que sobre tudo e todos governava. Porém,
de nada adiantaria avisá-lo, pois, pelo que sei, o camarada vento trata todos
igualmente...
sábado, 26 de outubro de 2019
BARCO + MAVERICK = AQUARICK
Abro o portão. Entro. Caminho pelo quintal
lateral. Do meu lado esquerdo, o canteiro gramado. Folhagens e folhas, todas
bem cuidadas. À frente vejo-os sentados, na lavanderia, tomando o sol da manhã.
Papai, com 95. Mamãe, 92. Uma parte da Dona
Rosália já está no “outro lado”. É assim mesmo. O Alzheimer vai levando aos
poucos. Já com seu Francisco, sua mente está bem mais preservada que a da
esposa, se bem que ele já esqueceu uma porção de coisas...
Resolvo testar:
– Pai, o senhor lembra do Aquarick?
Depois de repetir várias vezes a pergunta, para
driblar a surdez trazida pela idade, acabo constatando que esta é mais uma
lembrança perdida... E olha que procuro outras referências:
– Aquele barco que o senhor inventou? Que foi
feito sobre o chassi de um Maverick, com tambores para flutuação? Um anfíbio,
que andava na água e na terra, para resgatar as vítimas da enchente? Lembra que
o senhor fez um teste na represa?
Nada.
É um tanto frustrante... Ele, que inventou
tantas coisas na vida, de vez em quando se perde na própria casa, não encontra
o banheiro, o quarto...
Baixo os olhos. Ao levantá-los, miro o rosto de
minha mãe. Está tranquila. Sorrio para ela. E ela me retribui com um lindo
sorriso, que faz tudo ter sentido. Mesmo que ela não se lembre mais de mim.
Mesmo que o meu pai não se lembre mais do Aquarick e nem de todas as suas
outras maravilhosas invenções...
sábado, 12 de outubro de 2019
MEU MAIOR DESEJO
Ansiedade. Não vejo a hora de saber o tema do
novo desafio de microcontos. Chego no serviço e, no computador, já abro uma aba
na página do SWEEK. Nada. Deixo a aba aberta e, de vez em quando, vou lá e dou
uma atualizada. O nada continua. E o trabalho se arrasta, mergulhado na
expectativa.
Até que uma atualizada revela o novo post. “7
minutos”, é o tempo da publicação. “Saiu agora pouco!”, exclamo em pensamento.
Pronto, já tenho o tema!
Desejo.
Volto ao serviço, mas não por muito tempo, pois
tenho que interromper novamente. Número 2. Desculpe-me, leitor, por entrar em
assuntos de excreção. Mas, pensando bem, não há mal nenhum nisto. Afinal,
pertence à nossa natureza.
Sentado no trono.
“Desejo... Que história posso escrever com este
tema?”.
Alguns segundos se passam. Força abdominal.
“Um sujeito que pode realizar todos os seus
desejos, magicamente...”.
Dou aquela olhada básica: a obra está feita,
boiando.
“Nada disso! Plágio daquele filme... O Todo
Poderoso.”.
Descarga. Aproveito o momento para buscar alguma
inspiração.
“Lâmpada mágica. Três desejos... Último desejo:
quero ter infinitos desejos atendidos... O cara derruba o limite do gênio...”.
Papel higiênico, corto, dobro, começo a limpar.
“Não, desejos sem fim é muito... Nem sei como
acabar essa coisa...”.
Uma ideia, desisto da ideia, uma limpada naquele
lugar, e assim por diante...
Até que o papel acaba. Mas ainda falta limpar
bastante! E agora?
De repente, todas as ideias e desejos ficam
pequenos diante do meu maior desejo neste momento: papel higiênico!
terça-feira, 27 de agosto de 2019
SER BOM, INFELIZMENTE, ESTÁ FICANDO MAIS FÁCIL
Ser bom, infelizmente, está ficando mais fácil.
Em um mundo cheio de preconceito, no qual gays e
lésbicas são cruelmente assassinados, quem simplesmente não apoia esta
atrocidade, pode ser chamado de bom.
Em um mundo repleto de discriminação, no qual
negros, índios e outros indivíduos são eliminados, tão somente porque pertencem
a determinadas etnias, quem não concorda com este extermínio pode ser chamado
de bom.
Em um mundo em que as pessoas ignoram ou temem
os indigentes e pedintes, quem apenas consegue olhar para eles, este pode ser
chamado de bom.
Em um país no qual a regra de conduta é levar
vantagem em tudo, explorando os outros indiscriminadamente, aquele que não
segue este preceito, pode ser chamado de bom.
Em um mundo no qual avançam governos
totalitários, que adotam políticas que agravam enormemente a concentração de
renda, e que combatem com as mais variadas forças e meios tudo que estiver no
seu caminho, quem ousar pensar em democracia e menos desigualdades, este pode
ser chamado de bom.
A gente está se acostumando... Se acostumando a
ver um presidente que prende mães e filhos imigrantes, cruelmente separando-os
por até milhares de quilômetros. Se acostumando a ver outro presidente que,
durante a campanha eleitoral, ostentava uma arma imaginária nas mãos. Se
acostumando a ver constantes violações de direitos humanos, principalmente dos
menos favorecidos...
Não me tornei melhor. Ainda carrego meus
defeitos, bagagem de um ser que ainda tem muito a evoluir. Mas, do jeito que o
mundo está se tornando, até parece que eu sou bom.
Ser bom, infelizmente, está ficando mais fácil.
Só espero que o mundo não piore tanto a ponto de
eu virar santo.
domingo, 4 de agosto de 2019
ONDE ESTÃO AS CHAVES DO PALÁCIO?
O ilustre escritor é convidado a subir ao palco
e a tomar o seu devido lugar para proferir o esperado discurso:
– Minhas palavras serão breves e sem
formalidades – emociona-se, olha para baixo. Falarei sobre minha bisavó, fonte
inspiradora deste meu último trabalho. Batalhadora, migrante da região nordeste
do país, sem estudo mas com muita sabedoria, impregnou sua personalidade na
história da família.
– Meu avô, o mais velho dos seus cinco filhos, sempre
nos falava do jeito alegre e brincalhão que ela tinha. Dizia que todas as vezes
que chegavam em casa, ela olhava para os lados e perguntava: “Onde estão as
chaves do palácio?”. Era uma moradia simples, conquistada graças ao programa de
habitação popular. Também foi devido à iniciativa do governo, em um dos
projetos da época que facilitava o acesso ao ensino superior, que ele formou-se
em sociologia.
– Este meu novo livro percorre a trajetória de
nossa família. Desde este longínquo tempo no qual tudo parecia estar
melhorando, até os dias atuais. Passando por todas as turbulências e
dificuldades, a história do país se mistura com a dos meus parentes...
– A ascensão do governo de ultradireita, com
todos os seus retrocessos. A morte de minha bisavó, esquecida no corredor de um
hospital público. O assassinato de seu filho mais novo, por ser preto e pobre –
a voz fica embargada pela emoção. E assim por diante...
– Mas hoje, finalmente, a história de minha
família pode ser contada. E a do nosso país também...
quinta-feira, 20 de junho de 2019
VELOCIDADE DA LUZ
O trem suburbano para na estação Tamanduateí. As
portas se abrem. Pessoas saem da composição e outras entram. Fecham-se as
portas. Na plataforma, alguns lamentam. Poucos segundos de atraso são a causa
de eles estarem, agora, lá fora. Mas eu digo que não devem se lamentar, muito
pelo contrário...
Boas vindas só são transmitidas no começo da
linha, o que não é o caso. Sendo assim, surge, inesperadamente e com conteúdo
muito estranho, a seguinte mensagem pelos alto-falantes dos vagões:
“Senhores passageiros, este trem tem como
destino outra dimensão, não obedecendo parada intermediária em nenhuma estação.
A CPTM deseja a todos uma boa viagem!”.
A grande maioria dos passageiros não percebe o
quão bizarra é a informação, pois estão mergulhados em seus mundos virtuais, com
os olhos pregados no celular.
A composição vence a inércia com o tranco
normal. Continua a acelerar também de maneira usual. Até aqui, fora a doida
mensagem da dimensão, tudo normal. Mas a aceleração continua...
Passam sobre o rio Tamanduateí, divisa entre São
Paulo e São Caetano do Sul, em alta velocidade. “Agora tem que começar a
frear”, é o que pensam os passageiros, que começam a despregar os olhos do
celular. Só que o trem não freia. Acelera mais. Espantados, veem a plataforma
da estação de São Caetano passar diante de seus olhos arregalados em poucos
segundos.
Quando chegam em Mauá, já não conseguem
distinguir as paisagens que, de tão rápido que passam pelas janelas, parecem um
mesmo borrão. Desesperam-se e já imaginam o trem descarrilando ou
espatifando-se em algum fim de linha qualquer.
E a aceleração continua aumentando absurdamente.
Perto de Paranapiacaba, os incrédulos viajantes notam que o chão começa a se
afastar. A composição está flutuando! No interior dos vagões, desorientação e
comoção. Do lado de fora, na região muito pouco habitada, é provável que
ninguém esteja vendo um trem voando e ganhando cada vez mais velocidade e
altitude, deixando para trás e para baixo a serra do mar...
E a alucinante aventura dos passageiros continua,
agora dando a volta em torno da Terra. Uma volta, duas, e assim por diante...
Rumo à velocidade da luz!
(...)
Após esta impossível jornada, a composição
desacelera, perde altitude, pousa suavemente no mesmo trilho e chega
normalmente na estação Tamanduateí, que não é a mesma... Muito mais moderna...
Antes de abrir as portas, uma nova mensagem nos
alto-falantes dos vagões:
“Senhores passageiros, agradecemos a
participação em nosso pioneiro e audacioso projeto intitulado ‘Velocidade da
Luz', cujo objetivo é desbravar novas fronteiras do conhecimento, alçando o
nosso país ao mais elevado patamar científico do planeta. Sintam-se honrados
por terem contribuído, mesmo que involuntariamente, para a realização desta
gloriosa empreitada. Mesmo assim, não podemos deixar de pedir desculpas pela
ligeira distorção do tempo, causada pela altíssima velocidade, próxima à da
luz...”.
E, no exato instante em que as portas do trem se
abrem, ouve-se:
“Sejam bem-vindos ao ano de 2136!”.
Enquanto poucos minutos se passaram para eles,
aprisionados em um fantástico trem, na Terra passaram-se muitas décadas. Todos
os seus entes queridos estão mortos.
Atordoados, os passageiros cambaleiam para fora
do trem. Nem sequer percebem o arremate final da mensagem governamental:
“Tudo pelo bem da pátria!”.
segunda-feira, 27 de maio de 2019
O PALÁCIO DA MEMÓRIA
Rimeda esquece muito as coisas. A esposa cobra,
fica brava. Ele se incomoda com o problema.
Fica sabendo da técnica “Palácio da Memória”.
Aprofunda-se no estudo da mesma e resolve aplicá-la.
Para cada coisa que deseja memorizar, imagina
seu Palácio Mental, e nele guarda o que não quer esquecer.
Conquista uma memória primorosa. Resolve
aproveitar melhor a incrível capacidade, que aumenta a cada dia. Estuda, presta
concurso público, passa, salário de marajá, padrão de vida invejável.
O tempo passa e Rimeda percebe os primeiros
sinais de descontrole. Sua mente não para de armazenar. Acordado ou dormindo, o
palácio acumula informações. Demais, desnecessárias... Tudo é guardado,
automaticamente. Não consegue parar.
A situação fica insuportável, psicológica e
emocionalmente...
Até que tem uma ideia e nela deposita todas as
esperanças. Tarde de sábado, sozinho em casa, larga-se na cama, entra no
palácio mental, reserva um novo quarto, para guardar somente as coisas mais
importantes... E coloca fogo em todo o resto! O processo dura horas, consome
muita energia, pois ele desgasta-se muito tentando proteger o único quarto que
não pode queimar. Em transe, perde a noção do tempo. Depois cai em sono
profundo e segue dormindo até o dia seguinte.
Logo pela manhã, a esposa pergunta:
– Sabe que dia é hoje? – Questiona por força do
hábito, pois, com certeza, ele sabe, agora não esquece mais nada. Ainda mais se
tratando do aniversário de casamento...
Rimeda ficou muito contente e aliviado ao
constatar que não se lembrou da importante data.
sexta-feira, 3 de maio de 2019
DONA TERRA
Estava cansado. Gasto de tanta notícia ruim.
Rompimento de barragem, Brumadinho, Mariana, pacote do veneno, agrotóxicos,
aquecimento global, golpe, ditadura, militares, exploração desenfreada...
Desconectei-me de todas as mídias possíveis e
fui ao encontro do meu filho de cinco anos, que havia acabado de deitar e que
já reclamava, querendo uma estória para dormir.
Respirei fundo e comecei:
– Era uma vez um menino que cresceu tanto, mas
tanto mesmo, que ficou do tamanho do planeta Terra...
Olhei para o seu rostinho e, onde esperava
encontrar uma interrogação, notei sua curiosidade e expectativa. Os desenhos
animados já o haviam preparado para entender este começo de história um tanto
fora dos padrões. Assim sendo pude continuar:
– Então ele olhou para a Terra e perguntou: “Por
que você está tão triste?”. Ela, com sua enorme cara redonda, respondeu:
“Porque o homem está destruindo meus rios e oceanos, envenenando as plantas,
acabando com os animais...”.
Silêncio. Não sabia mais como prosseguir.
Meu pequenino percebeu o impasse e atravessou:
“Posso continuar, papai?”. Prontamente aceitei, contente. E sua doce vozinha me
socorreu:
– Aí a Dona Terra falou assim: “Quer saber de
uma coisa? Vou viajar pelo Espaço, até chegar bem perto de um planeta com
bastante vulcão e dinossauro... Aí então toda gente ruim vai ter que nascer
nesse outro planeta. Só vou deixar nascer gente boa em mim!”.
Seu sorriso infantil coroou este desfecho.
Fiquei perplexo, a pensar: “Seria bom que tudo
fosse tão simples assim! E talvez até seja...”.
sexta-feira, 22 de março de 2019
HUMANIDADE DOENTE
Tive um
sonho.
Sonhei que
estava flutuando no espaço.
Via o nosso
planeta Terra inteiro, todo de uma vez, uma bola que também flutuava no meio do
nada.
Sobre aquela
esfera, onde o azul e suas tonalidades deveriam abrigar a paz e o amor entre
todos os seres que a habitam, acontecia justamente o contrário.
Então comecei
a chorar...
Chorava pela
humanidade doente. Sentia o agravamento da chaga do preconceito, da
intolerância. Via atiradores exterminando os inimigos, os seus semelhantes.
Filmando a ação e transmitindo ao vivo, pela internet. Matança de videogame na
vida real.
Chorava pela
juventude doente. Sentia o avanço da febre da loucura. Via jovens matando
outros jovens e crianças, nas escolas, santuários do saber transformados em
palcos do terror.
Tudo isto por
baixo daquela capa de tonalidades azuis... Havia muito pelo que chorar ainda...
Governos
autoritários, eleitos pelo povo mas contra o povo. Cercados por muros e
distribuindo ódios. Alimentando a doença da humanidade.
A Terra
esgotada, gasta de tanta exploração. Tudo pelo lucro, pelo dinheiro, pelo
poder. Insanidade. Tudo isto tornará a Terra inabitável. E então do que
adiantará o lucro, o dinheiro e o poder?
Chorava...
Pelas
injustiças, pelas inversões de valores, pelo poder nas mãos dos maus.
Pelo meu
planeta, pelo nosso planeta. Nossa morada, viajando pelo infinito. Carregando o
fardo de abrigar uma espécie que não sabe viver em paz...
Foi quando,
logo antes de acordar, ainda flutuando no espaço, olhei para a Terra e vi que
ela também chorava.
domingo, 24 de fevereiro de 2019
SR. IGNORED
Sr. Ignored não estava tendo um bom dia. Coisa
normal. O que não foi normal, naquela segunda-feira logo cedo, a poucos passos
da entrada do prédio onde ele trabalhava, foi encontrar, largada na sarjeta,
uma lâmpada mágica. Para falar a verdade, isso não é normal para nenhum dia ou
horário da semana.
Abaixou-se e recolheu o inusitado e inesperado
objeto. Olhou para os lados, para ver se alguém estava lhe observando. Mas logo
depois reconheceu a inutilidade do gesto, pois nunca ninguém lhe notava ou dava
atenção. Já começava até a ter problemas com detectores de presença.
Manuseando a lâmpada, constatou que a mesma
tinha, nela incorporada, algumas modernidades. Girou-a nas mãos e, antes de
encontrar o “Made in China” que procurava, verificou que, na parte de baixo,
havia algumas instruções. “Poxa, não podia ser como antigamente, mais fácil, só
esfregar?”, foi o que falou para si mesmo, mas acabou seguindo as orientações.
Baixou e instalou o “Genius da Lâmpida” no celular. Rodou o aplicativo, fez o
cadastramento obrigatório e apontou a câmera para o QR Code da lâmpada... Tão
logo o reconhecimento foi feito, uma fumacinha cinza começou a escapar da
geringonça “tecnomágica”, o gênio apareceu, atento ao próprio smartphone que
carregava na mão, e o Sr. Ignored adiantou-se:
– Seu Gênio, eu desejo não ser mais ignorado.
Ninguém liga pra mim, parece que não existo! – e foi desfilando as suas
queixas...
Depois do desejo exposto, a divindade, sempre
concentrada em seu celular, disse:
– Repita, porque não ouvi nada.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
DESEJOS MORTOS
O pior desejo é o desejo morto. Quem tem desejo
morto é Zé. Simplesmente Zé.
Houve tempo em que Zé desejava. Desejava tanto
que se poderia até dizer que Zé “deZéjava”. Ficou engraçado. Mas esta é uma
narrativa triste. Se coloco esta pitada meio cômica, é para amenizar o fardo de
Zé.
Mas, como dizia, houve tempo em que Zé desejava,
e muito. Porém cansou de desejar.
Desejava um bom emprego. No entanto, ao perder o
que tinha, passou a desejar somente ter emprego. Contudo, como não encontrava,
deixou corroer este desejo e lançou-se na luta pela sobrevivência,
contentando-se com bicos esporádicos.
Desejava ter uma boa casa. Mas, quando não mais
conseguiu pagar as prestações, trocou este desejo pelo aluguel, desejando poder
honrar seus compromissos com o locador. Todavia, tal honraria não se fez
possível. E então foi parar debaixo da ponte.
Desejava proporcionar conforto para sua família.
Porém a família desintegrou-se, tão ou mais rapidamente que sua vida... Ficou
só. Este desejo ficou sem endereço, não havia mais família.
Desejos ficaram para trás, cedendo lugar para as
necessidades básicas. Sim, porque necessidades básicas são bem diferentes dos
desejos.
Zé tornou-se algo. Ao revirar o lixo, as pessoas
não distinguiam entre um e outro. Coisificou-se, totalmente ignorado, como algo
que saiu fora da engrenagem econômica, como muitos outros Zés e não Zés...
Dentro de Zé havia muitos desejos. Agora não há
mais nada. Nem identidade, nem sanidade, nem Zé. Somente desejos mortos.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
PARALISANDO O TEMPO
Vou lhe contar a minha história. Não espero que
acredite, mas posso lhe garantir que é a mais pura verdade.
Quando completei 54 anos, minha cunhada me
presenteou com um relógio de pulso. Aparentava ser normal, porém estranhei, na
parte de trás, o minúsculo orifício. Não podia ser reset, visto que era
analógico, de ponteiros. Fui em busca do pequeno manual-folheto que veio na
caixa. “Acione para paralisar o tempo”, é o que estava escrito. Como sou muito
curioso, no meio da festa mesmo, fui pegar um palito de dente e acionei o dito
cujo.
Imediatamente tudo paralisou. Todo mundo feito
estátua. A bexiga que meu neto jogava ficou estacionada no ar. Caminhei entre
as pessoas, estarrecido.
Cutuquei outra vez o botão. No mesmo instante
apareci no exato lugar onde estava e tudo voltou ao normal.
Naquela tarde repeti várias vezes a paralisação.
Ninguém percebeu nada. Não adiantava mudar as coisas de lugar. Quando apertava
novamente, tudo voltava como estava antes, inclusive eu.
Como não adiantava tentar contar ou explicar
esta loucura para qualquer pessoa, resolvi então aproveitar a situação.
Paralisava o tempo e... lia livros. Era a única
coisa que podia fazer que não era perdida. Ao voltar, o resto, tudo era
restaurado como estava no exato instante da paralisação, menos minha memória.
Aumentei muito o meu conhecimento e cultura.
Diverti-me muito também...
Até que o relógio foi roubado.
Agora fico pensando que o safado do ladrão anda
paralisando o tempo e ninguém percebe!
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
CAPITÃO AZUL
Andrade, cinquenta e quatro anos,
recém-aposentado como capitão da PM, deseja encontrar uma nova atividade, algo
que preencha o tempo, aproveite seu espírito agitado e, principalmente, que lhe
traga um novo significado para a vida.
Lembra-se de uma ex-colega de serviço que
participa de trabalho voluntário, visitando crianças hospitalizadas, geralmente
com câncer...
Embarca nessa, de cabeça. É um grupo bastante
animado. Cada qual se fantasia de um herói específico. Mas Andrade demora para
encontrar o seu herói. Enquanto isso, vai “à paisana”.
E assim ele passa o tempo, cada vez mais ligado
com cada criança...
Até que o quadro de saúde de uma delas se agrava
bastante...
Não sabe o que fazer. Reza para não acontecer o
momento derradeiro em uma de suas visitas.
Mas acontece.
Após reiterados pedidos dos médicos e da equipe
de enfermagem, a mãe interrompe a sua vigília ao lado do filho e vai à
lanchonete do hospital para comer algo.
Uma força estranha faz Andrade se aproximar.
– Estou vendo um túnel azul... – diz-lhe o
menino.
– É bonito? – pergunta Andrade, fazendo força
para controlar a voz e as emoções.
– Sim, é muito bonito! – exclama o garoto, que
esboça um pequeno sorriso no rosto debilitado.
– Então entre nele, meu amiguinho! – fala, sem
saber como ainda consegue pronunciar as palavras sem desabar...
A partir deste dia, nas visitas aos hospitais,
passa a usar uma capa da cor do céu nas costas. E, no meio do peito, escrito:
Capitão Azul.
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
SEU EUSTÁQUIO
Seu Eustáquio é cheio de manias. Também é muito
reservado e sisudo. A família bem o conhece, e compreende.
Não costuma participar das festinhas e reuniões
em casa de parentes. Por mais que insistem, recusa-se a sair. Nestas ocasiões,
os familiares percebem que ele parece ansioso, como que querendo mesmo ficar
sem ninguém por perto o quanto antes. “Temos que instalar umas câmeras, pra ver
o que o velho faz quando a gente deixa ele sozinho em casa”, é o comentário
recorrente do genro barbudo.
Mais uma vez os familiares o deixam só. Ele fica
olhando do portão. Tão logo os carros dobram a esquina, Seu Eustáquio entra,
apressado. Tem medo de alguém o estar observando. Fica desviando a vista para
os lados, desconfiado.
Vai até o quintal nos fundos da residência. Pega
a enxada. Atrás da casa do cachorro, entre o muro e o pé de romã, olha para o
chão, buscando localizar o ponto certo. O Bob se aproxima, abanando o rabo,
curioso como sempre. “Ainda bem que você não consegue contar nada pra ninguém”,
fala o velho enquanto tira a terra que cobre o alçapão camuflado. Pensa que
tudo está saindo conforme planejado...
Mas a vida costuma acabar com alguns planos...
Na noite seguinte, Seu Eustáquio morre.
Duas semanas depois, a família fica sabendo do
seu segredo: muitas, muitas notas de dinheiro antigo. Outra mania sua: não
confiar nos bancos.
O seu tesouro já não vale mais nada, há muito
tempo...
sábado, 22 de setembro de 2018
ANSIEDADE
É
coisa que fica girando, acelerada, dentro da gente. Invisível, mas nem por isto
menos presente. Muito pelo contrário, sua presença é constante.
Não
admite pausas ou interrupções. Tudo tem que ser agora. Atropela, precipita,
rolo compressor. Geralmente vive em uma relação conflituosa e meio conturbada
com o tempo.
Quer
chegar rápido, mas não sabe onde. É fome, de algo indefinido, que nunca sacia.
Subtexto permanente da vida, que faz com que tudo pareça suspenso, e não
resolvido.
Procura
alívio tentando eliminar toda a lista de pendências da vida. Mas a lista não
acaba nunca. Quanto mais tenta, mais a lista aumenta.
Quando
estamos sob sua influência, vivemos deslocados no tempo, sempre um passo à
frente, nunca no presente. Assim a vida parece que fica desencaixada.
Quando
associada ao medo, pode produzir consequências devastadoras. Multiplica o medo,
tira os pés do chão, descontrola.
É
sentimento que contamina, contagia, passa de indivíduo para indivíduo.
Espalha-se principalmente pelas grandes cidades e aglomerações de pessoas. Por
outro lado, muitos costumam combatê-la em zonas rurais, onde predomina a
Natureza.
É
força que impulsiona ou paralisa, dependendo da sua dosagem e direcionamento.
Traz
consigo expectativas boas ou ruins. Antecipa o futuro. É força bipolar, a
espera que os sábios a dominem.
Não
se pode viver sem ela. Se a temos pouco, ficamos frouxos. Se a temos em
demasia, é curto-circuito.
Quero
aprender a dominá-la, quero entrar em suas entranhas, usar a sua força a meu
favor.
Quero
não deixar que ela me paralise. Que eu consiga dar o contragolpe no momento
preciso, revertendo a sua força paralisante em força atuante e realizadora. Que
a adrenalina que ela descarrega em meu sangue seja para movimentar minhas
forças a fim de superar os momentos mais difíceis.
Quando
ela vier transbordando pelas pessoas que de mim se aproximarem, quero saber
como me proteger de suas influências negativas.
Que
eu possa olhar para ela e sorrir. E dizer simplesmente: “Espere. Espere um
pouco”.
Que
eu desfrute mais o presente, mais encaixado no momento, no aqui e no agora, sem
querer viver aquilo que ainda não aconteceu, e que pode nem acontecer...
Afinal, o presente é um grande presente!
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
TEMPO
O
tempo não existe. É apenas uma ilusão necessária para a nossa evolução. É o que
eu digo.
A
ciência já comprovou que o tempo não é constante. Pode esticar ou encolher. É
maleável. É relativo.
A
gente corre atrás do tempo. Quer fazer mais coisas em menos tempo. Mas por que
não procurar mais tempo no meio das coisas? Por que não tentar encontrar
instantes valiosos que passam despercebidos em meio à nossa correria e
ansiedade?
Diz-se
que tempo é dinheiro. Na verdade o tempo é usado para ganhar dinheiro. Porém
pode ser empregado para qualquer coisa. Ou nenhuma.
O
tempo corrói o nosso corpo. Envelhece. Lutamos contra o tempo. Não aceitamos a
sua ação. Não nos conformamos com a sua corrosão.
O
tempo que passou. O tempo que nos resta. Ganhar tempo. Perder tempo. Corrida
contra o tempo. Escravo do tempo.
No
entanto é só acelerarmos até velocidades próximas à da luz. Aí o tempo passa
mais devagar. Envelhecemos menos. O relógio anda mais lentamente. É a pura
verdade. A ciência comprova. Ninguém ainda conseguiu viajar nem perto da
velocidade da luz. Estamos muito longe disso. Mas foi detectado um pequenino
atraso em relógios de alta precisão viajando em aviões comerciais. A experiência
de Hafele e Keating constatou um atraso da ordem de aproximadamente 270 nanossegundos.
O ano era 1971. Duzentos e setenta bilionésimos de segundo. É muito pouco.
Contudo isto já comprova a maleabilidade do tempo...
Imagine
viajar até a galáxia de Andrômeda e voltar. Ela está a cerca de 2,5 milhões de
anos-luz. Porém você está a bordo de uma nave espacial ultra-avançada.
Considere que sua velocidade seja de 99,99% da velocidade da luz. Eu lhe afirmo
que vai demorar por volta de 60 anos. Este é o tempo que passará para você. No
entanto o tempo aqui na Terra terá avançado muito mais. Haverá passado
aproximadamente 5 milhões de anos! Isto tudo pode ser calculado. É matemática.
É ciência.
Estas
coisas me fazem pensar que o tempo é uma prisão. Dela nos afastamos quando
aceleramos e nos aproximamos da velocidade da luz. Correr lado a lado com a
luz. Apostar corrida com os fótons. Rumo à luz para escapar do tempo. Fugir da
corrosão do tempo. Chega a ser poético. Mas acima de tudo é científico.
Sei
que tudo isto é bastante complexo e confunde nossas cabeças. Está muito
distante da realidade que efetivamente vivemos. Porém a intenção foi somente
cutucar e fazer pensar... Enquanto o tempo continua a passar...
sábado, 28 de julho de 2018
MEDO
É
difícil falar sobre o medo. Tem que ter muita coragem para falar sobre o medo.
Tem que ser tudo de uma vez. Escrever de “uma sentada só”, sem levantar da cadeira,
sem interrupções. Lá vamos nós!
Todos
nós temos os nossos medos, uns mais, outros menos... Há medo de vários tipos. Os
intensos e profundos, que nos tragam para uma região desconhecida e que nos
jogam no vazio. Já tive um deste tipo. Era criança ainda, uns 9 anos eu acho.
Estava na casa de praia, no longo quintal da frente, no escuro da noite, perto
do muro que fazia divisa com o vizinho. De repente surgiram questionamentos
existenciais, do tipo, quem eu sou, de onde eu vim, para onde eu vou, o que eu
estou fazendo aqui... Deixei-me levar por eles... E o medo tomou conta... Para
sair deste estado, fui falando para mim mesmo, “Calma, está tudo bem, eu tenho
pai, eu tenho mãe...”. A referência e segurança da família arrancou-me daqueles
visgos tenebrosos. Era muito novo para mergulhar em questões tão sérias. Acho que
não há idade que nos dê o preparo para um mergulho deste tipo. Tanto é que,
depois deste incidente, evitei direcionar o pensamento para esta zona perigosa.
Hoje, com o arcabouço de ideias, conhecimentos, fé, certezas, crenças, que a
gente vai construindo e acumulando, acho que hoje estou um pouco mais protegido
deste medo existencial. Mas não me arrisco a novamente mergulhar nas suas
entranhas não... Há mergulhos muito mais interessantes para dar!
Há
aquele medo que a gente leva a tiracolo, para onde quer que sigamos. Tenho um
deste tipo também. É misturado com um monte de outras coisas, mas, nesta sopa
de sentimentos, o medo, de vez em quando, se sobressai. Medo de gaguejar.
Principalmente em situações envolvendo fila, tempo, telefone... O coração bate
mais forte, a insegurança... Como eu disse, é uma porção de coisas, pois a
gagueira é um bicho muito complexo, é uma disfunção neurológica mas também tem
muitos sentimentos envolvidos, e o medo, no meu caso, está presente no meio
disto tudo... Mas esta não é uma crônica de um gago discorrendo sobre sua
gagueira. Isto talvez fique para outro texto, outra ocasião. Por hora, fica
aqui apenas o registro de mais um medo meu.
Enquanto
o escritor aqui vai se abrindo, falando dos seus medos, você, meu caro leitor,
do seu lado, deve estar pensando nos seus medos. Ou talvez nem pensando neles,
pois são tão medonhos que nem é bom pensar, não é mesmo?
Medo
é algo muito particular. Os que coloquei aqui, tenho certeza que para a grande
maioria das pessoas não representa absolutamente nada. Não compreendem e nem
veem nenhum sentido nestes meus medos. Mas, com certeza, há muito sentido e
muito medo dos medos que eles têm, porque realmente acho que ninguém está
imune.
É
isso aí! Cada macaco no seu galho e cada um com seus medos! E lá vou eu com os
meus!
quarta-feira, 4 de julho de 2018
SENTIMENTO
Não
dá para definir. Pode se apresentar de infinitas maneiras. Como um camaleão que
muda de cor. Mas ele pode mudar muito mais que seu colorido. Altera sua
intensidade, seu calor, e até sua direção, pois nos impulsiona para cima ou nos
puxa para baixo.
Chega
de mansinho ou de repente, como uma explosão. Às vezes fica mais tempo do que
desejaríamos. Ou escapa rapidinho antes que percebamos. Voluntarioso.
Pode
vir de dentro de nós mesmos, ou vir de fora. É possível transmiti-lo ou recebê-lo.
Muitas vezes até contagia.
Envolve
as palavras que dizemos, os gestos que fazemos.
Alguns
conseguem escondê-lo, mas há outros que, pelo contrário, por mais que tentem,
não conseguem ocultá-lo.
Tem
hora que ele fica alfinetando dentro da gente. Como uma pedra no sapato, pode
parecer pouca coisa, mas atrapalha bastante.
Há
momentos em que ele nos massacra, como um rolo compressor ou uma serra
elétrica. Dizem que não há muito o que fazer nestas ocasiões, apenas resistir e
esperar que ele passe, como algo inevitável, que tem que acontecer, esvaziar,
como um furacão que devasta e depois perde a força. Por outro lado, existem
pessoas que possuem alguma habilidade especial para combater as suas ações
negativas. São capazes de gerar, dentro de si, forças contrárias, positivas,
que, de certa forma, anulam as negativas.
Ele
é tão variável, tão multifacetado...
Pode
surgir sutilmente, quando olhamos a lua gigante, amarelada, erguendo-se no
começo da noite. Ou quando o suave calor do sol, ao entardecer, aquece nossa
pele. Se recordamos alguém querido, ele aparece. Aparece também com a lembrança
de pessoa odiada.
Há
quem diga que a fonte, que a origem de todos eles é única, como se eles fossem
feitos de uma mesma energia, que se manifesta de múltiplas formas.
Não
se consegue viver sem ele. Até mesmo quem o tem em níveis muito baixos, acaba
tendo uma vida que não é vida. Mesmo quando nos faz sofrer, é melhor tê-los
assim do que não tê-los, pois dizem que ele sempre nos ensina alguma coisa.
Pode
ser incompreendido, não aceito, discriminado. Nestes casos machuca ainda mais.
Quando
não correspondido, corrói por dentro.
É
força viva, que conecta as pessoas. É capaz de unir, de mobilizar multidões.
Assim
ele é... Poderia falar sobre ele indefinidamente, pois é imensa a sua riqueza e
variedade.
Mas
vou ficando por aqui. Sem dizer o seu nome. Porque ele é tão grande que não
caberá em nenhum nome.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
AÇÃO
Enquanto
não se fizer nada, nada será feito. É justamente com estas frases óbvias, que
concluem coisas tão evidentes, que conseguimos pensar um pouco mais. Pois, se
por um lado parece tão incontestável que nada será feito enquanto não se fizer
nada, por outro lado parece que há pessoas que acreditam no contrário. Faltam-lhes
as ações. Esperam que as coisas aconteçam e que tudo fique pronto e terminado
sem tomar ação alguma. Mas, acredite, enquanto não se fizer nada, nada será
feito. Este é o primeiro princípio da ação, criado por mim, neste exato
momento. Taí, gostei desse negócio de princípio. Acho que é coisa de
matemático. Princípios, teoremas, classificações e outras ferramentas teóricas.
Então vou continuar nesse esquema.
As
ações classificam-se em dois grandes grupos: ações conscientes e ações
inconscientes ou automáticas. As primeiras, as conscientes, por sua vez,
subdividem-se em dois conjuntos: as ações que queremos fazer e aquelas que não
queremos. Quanto às inconscientes, a gente nem sabe se quer fazê-las ou não.
Simplesmente fazemos, automaticamente. Se tem alguém que afirma que todas as
ações que realiza são conscientes e voluntárias, esse alguém está enganado.
Talvez ele não consiga perceber que boa parte daquilo que faz durante o dia é
delegar para o piloto automático. E boa parte daquilo que não delega, faz sem
querer fazer. Aqui estão incluídas aquelas coisas que ele pensa que quer fazer,
mas que, no fundo, se pensar bem, vai ver que não quer. Não vou me aprofundar
nestas classificações, tampouco esmiuçá-las ou justificá-las com argumentos
teóricos e filosóficos. Minha função é só cutucar você, leitor. Daí pra frente
é contigo. E assim vou partindo para um teorema.
Teorema
da ausência de ação: “A ausência total de ação é igual a zero”. Agora é
necessário um mínimo de explicação, senão você vai achar que eu estou louco.
Então vamos lá. Primeiramente, para sustentar este meu teorema, eu digo que, no
Universo, tudo é movimento. Até aquilo que está parado encontra-se em
movimento: basta olhar para os seus átomos e verificar o grande e interminável
movimento que aí ocorre. A ação é uma constante dentro do mundo atômico. E
também conosco, mesmo quando não estamos fazendo nada, no interior de nosso
corpo ocorrem ações, independentes de nossa vontade. O nosso pensamento também
é formado por ações. Sinapses e impulsos elétricos que não cessam, enquanto
houver vida. E mesmo depois do corpo morto o movimento não cessa. Agora é a vez
do movimento da decomposição, com sua química, contando com o apoio solidário
dos vermes, que se satisfazem ao comer nossas entranhas. O movimento não para,
nunca. A ação não cessa, jamais! Tudo se transforma, nada acaba ou desaparece
de vez. Como já dizia Lavoisier.
Assim
já está bom. Um princípio, algumas classificações, um teorema e uma ou mais
cutucadas. Não vou lhe incomodar mais, caro leitor. Vou parando por aqui. Mas
agora você já sabe que é impossível parar. A ação nunca acaba...
segunda-feira, 30 de abril de 2018
PENSAMENTO
Ultimamente
ando pensando sobre o pensamento. Talvez seja um desafio entender e explicar o
pensamento utilizando recursos do próprio pensamento. Mas vamos lá!
Pensamento
é tudo. Parece ser tudo. Como disse o filósofo e matemático René Descartes,
“Penso, logo existo”. Na verdade, o pensamento não proporciona a existência,
mas traz a consciência de que existimos. Afinal, uma cadeira existe, mas não
pensa. Elas não têm consciência de que existem. Nós temos. Ou deveríamos ter.
Dentro
desta linha de pensamento, podemos nos perguntar quanto de vida estamos tendo
sem termos consciência de que vivemos. Qual a parcela de nossas vidas que
delegamos para o piloto automático? Quando estamos sob o comando deste
programa, seguimos entorpecidos. É como existir sem ter consciência de que
existe.
Mas
a proposta de vida que quero adotar contrapõem-se totalmente a este
automatismo. Quero me ligar no presente, no instante, sempre. Perceber tudo que
acontece ao meu redor, usando os cinco sentidos ou quaisquer outros mais que
houver. Pensamento no presente. Sentimento no presente. Aliás, quem consegue
determinar onde acaba o pensamento e começa o sentimento? Ou vice-versa? Faz
sentido dizer que existe um “pensamento sentido”? Ou um “sentimento pensado”?
Tenho
uma teoria. Não é nada formal, não foi comprovada, tampouco conta com base
estatística. É simplesmente uma suspeita. Eu acho que a percepção do tempo tem
a ver com o modo como pensamos. Até aqui não há nada de extraordinário, é o que
você, leitor, deve estar julgando. Mas avanço um pouco mais. Acredito que o
próprio tempo dilata ou encolhe, de acordo com o nosso pensamento. Pensamento
focado, tranquilo e equilibrado nos conduz para o tempo dilatado, mais lento,
mais e melhor vivido, no qual conseguimos realizar muito mais coisas.
Pensamento desfocado e agitado nos leva para o tempo encolhido, acelerado, não
percebido, no qual seguimos automaticamente, ao sabor de infinitos estímulos,
correndo atrás das coisas, que não conseguimos realizar. Assim sendo, duas
pessoas, uma ao lado da outra, em iguais circunstâncias e sujeitas ao mesmo
tempo, creio que elas podem viver tempos completamente distintos, de acordo com
seus mundos mentais.
Depois
de dizer que o pensamento influencia no tempo ao nosso redor, darei agora mais
um passo em minha análise metafísica. Acredito também que o pensamento muda a
realidade que nos cerca. A física quântica não só explica esta “mágica” como
também comprova que não se trata de fantasia de uma mente mística. É pura
realidade. Imagine então o que faremos com o nosso pensamento quando passarmos
a usar os 90% do nosso cérebro que permanecem adormecidos? Somos possuidores de
um equipamento mental com uma capacidade ociosa incrível! É como se tivéssemos
ganhado uma máquina muito avançada, que ainda não sabemos operar. Mas não foi à
toa. Um dia usaremos todas as nossas potencialidades. Nosso futuro é glorioso!
Finalmente,
só posso dizer que quanto mais penso sobre o pensamento, mais acredito naquela
sublime afirmação que há muito tempo foi dita e que consta nas escrituras:
“Vós
sois deuses”.
sexta-feira, 30 de março de 2018
PALAVRA
Palavra.
Falada. Escrita. Pensada. Verdadeira ou vazia. Comprometida ou inconsequente.
Dizemos: “São só palavras”. Mas palavras são tudo.
Com
a palavra se decreta voz de prisão. Cerceia a liberdade. Mas também liberta, na
voz de um juiz. É faca de dois gumes. Pode dar conselhos positivos ou provocar
intriga. É faca de múltiplos gumes. Pode ser interpretada de muitas maneiras,
gerando consequências que vão do céu ao inferno. A lei está cheia de palavras.
Com elas os advogados dos poderosos encontram caminhos para defender os
interesses de seus clientes. Porém, para quem não tem condições, a palavra só
tem a oferecer a sua mais fria interpretação.
Palavras
que travam, que não saem. Mas nem por isto menos palavras. Valem pelo que
deveriam dizer. Porque muitas vezes a palavra pensada tem mais força que a
palavra falada.
Palavras
precipitadas, a causa de muitos males.
Palavras
esquecidas, que fogem da mente. Deixam-nos no vazio. Sentimento e raciocínio
sem expressão.
Palavras
que mentem, manipulam, distorcem a realidade. Habilmente veiculadas por quem
quer dominar. Os seus alvos são pessoas simples, que se deixam enganar.
Palavras
que rimam. Dizem que na prosa elas não podem rimar. Então já não sei como este
texto classificar.
Para
tudo há palavra. Nossa mente racional não admite que nada exista sem nome,
rótulo ou explicação. E, para explicar, amontoa palavras. Como se não bastasse
as que já existem, de vez em quando surge alguma nova. É a gíria inventando
novas palavras.
Elas
não acabam. Mesmo em silêncio elas são pronunciadas em nossa mente. O nosso
próprio pensamento, parece que ele não vive sem elas. Mas será que Helen
Keller, enquanto estava mergulhada em seu isolamento, sem nada ouvir ou ver,
criança ainda, será que ela não pensava por não conhecer palavra alguma? E
depois, quando Anne Sullivan conseguiu fazê-la entender o que é palavra e para
que serve, após dominar maestralmente uma infinidade de palavras, conseguindo
entendê-las e expressá-las em maravilhosos discursos, será que só aí ela passou
a pensar? As palavras são o pensamento ou elas atrapalham o pensamento? Você já
pensou sem palavras? Ou isto não seria pensamento, mas sim sentimento? São só
perguntas. Mas perguntas também são feitas com palavras.
Não
dá para escapar delas. Cercam e inundam o nosso ser. Mas, mesmo assim, muitas
vezes parecem insuficientes, quando nenhuma delas diz o que queremos dizer. Por
outro lado, há momentos em que encontramos a palavra exata, quando elas fluem
de uma maneira impressionante, encaixando-se perfeitamente umas às outras. É
quando elas contornam perfeitamente o pensamento, como uma fina máscara que
cobre um ser etéreo. É quando as palavras não atrapalham.
Enfim,
o que posso dizer com certeza é que lidar com as palavras é uma arte... Na qual
me sinto um eterno aprendiz!
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